Derrepentemente
4 Capítulo 3 - Ao Longo Do Caminho
Notas iniciais
Saímos de casa. A adrenalina corre em nosso sangue como o guepardo corre em busca de sua presa. Estamos apreensivos, não sabemos o que vai acontecer, se iremos sair vivos dessa aventura. É incerto mas algo me diz que tudo dará certo.
Minha casa é perto de uma das avenidas da cidade, a mais ou menos dois quarteirões. Ao chegar à avenida, vemos do outro lado da pista um grande congestionamento. Somente vimos carros, não vimos se quer uma pessoa nesses decorridos metros.
A casa da Nanda fica perto da praia, isso faz com que as avenidas para casa dela estejam descongestionadas, com pouquíssimos carros a vista nesse lado da avenida. Isto porque as pessoas começaram a se deslocar ao sentido do interior, pois se acredita que seria mais seguro para a população, por isso o governo anunciou as pessoas essa retirada.
Logo depois de nos resolvermos aqui na cidade, acredito que também iremos rumo ao interior, mas vai depender muito da nossa futura situação, pois não sabemos ao menos se ainda estaremos vivos.
O caminho estava tranquilo. Estávamos começando a nos acalmar. Em quanto andávamos e prosseguimos o caminho, observávamos como estava a cidade. Era incrível como conseguimos perceber um aspecto de dor e desespero ao redor dos carros abandonados, as ruas vazias, o comércio fechado, algumas lojas aparentemente arrombadas e saqueadas.
Foi anunciado na mídia, antes que a televisão tivesse perdido a sua transmissão, que algumas lojas estavam sem funcionamento, devido ao fato de muitos funcionários estarem faltando devido a tal situação, e porque algumas pessoas estavam se juntando para saquear algumas lojas. Por isso muitas delas estavam trancadas aos cadeados. Nesse tempo, não somos mais donos de nada, nem de nossas vidas.
Então seguíamos em frente e não estávamos mais assustados, estava tudo tranquilo e nem sinal de mortos vivos, até que no meio do caminho nos aproximamos do maior shopping da cidade. Começamos a escutar barulhos de tiros e ficamos assustados, porém continuamos seguindo em frente, pois não existia outro caminho.
Chegamos perto do shopping e começamos a ver uma infestação. Estamos mesmo em um apocalipse, são muitos mortos-vivos, não dá para contar quantos são. O exercito está em confronto direto com os zumbis, e estão em uma grande desvantagem. Dava para ver os militares sendo devastados, sendo devorados, sendo transformados e sendo acabados aos poucos.
É algo horrível, uma imagem que eu nunca irei tirar de minha cabeça, aquele estacionamento cheio de policiais e militares mortos, e zumbis devorando-os, porém devemos ser fortes, pois isso é o começo de muitas coisas que ainda iremos ver. Então endureço meu coração e tento não ligar para o que está acontecendo.
Um soldado militar nos viu e ao perceber em que situação estava se afastou daquela multidão de zumbis que se aproximavam e começou a correr em nossa direção, parou um pouco afastado dos zumbis e acenou para nos como se fosse a ultima coisa que ele iria fazer em sua vida.
Imediatamente nos entreolhamos, Danilo e eu descemos rapidamente do carro e olhamos para aquele policial. Era jovem, em torno de 25 anos, mulato, de estatura mediana. Ao nos ver, sorriu e deu um passo para frente, e derrepentemente um zumbi apareceu por trás dele e o mordeu em seu trapézio direito. Ele rapidamente tenta se soltar daquele zumbi e consegue derruba-lo, ele então retira uma faca da calça e atinge diretamente na cabeça do zumbi que acabou de mordê-lo. Estava retirando a faca quando outro zumbi o ataca. Desta vez na altura de sua panturrilha esquerda, então ele se livra do zumbi o atingindo com a mesma faca.
Eu e Danilo corremos em direção ao soldado, ainda existe um sentimento e emoção humana dentro de nós. Queremos salvar aquele rapaz de qualquer jeito, mesmo não o conhecendo. Então corremos com todas as nossas forças para salvá-lo. Acreditávamos que ele ainda poderia ser salvo.
Ao chegar ao encontro dele, parecia que estava em seus últimos segundos de vida. Devido ao seu cansaço físico e aos ataques que ele sofreu, debilitava-o a andar. Então o levantei e o apoiei em mim, e disse:
- A gente vai te ajudar, aguenta firme! Vai dar certo, se esforça para chegar pelo menos lá no carro.
Então ele olhou para mim e não conseguiu falar nada. Via uma gratidão em seus olhos e um ar de “não tem jeito cara, vou morrer”. Danilo pegou a sua arma que estava pendurada em seu ombro esquerdo, uma AK-47 preta, e começou a nos dar cobertura.
Enquanto eu andava em direção ao carro, com aquele jovem rapaz se apoiando em mim, Danilo atirava nos zumbis mais próximos. O militar falou baixinho no meu ouvido algumas instruções com uma voz fatigada e acabada, onde se percebia a energia que se utilizava ao falar:
-Atirem na cabeça, somente assim os zumbis morrem, e fala para o seu amigo que ele deve priorizar armas brancas, pois fazem menos barulho e chama menos atenção dos zumbis.
Repeti tudo ao Danilo em voz alta. Chegamos ao carro. Então eu e ele ajudamos o rapaz a entrar no banco de trás. Nós entramos em seguida, eu no banco da frente e Danilo atrás. Paulo acelera o carro rapidamente e saímos em instantes daquele local.
Estávamos assustados e não estamos acreditando no que acabamos de fazer, a adrenalina está até agora correndo em nossas veias. Salvamos um soldado de sua morte certa. Viro-me em direção ao rapaz, Danilo esta tentando pressionar suas feridas, porém nenhuns de nós têm noções básicas medicas, olho para o policial e ele começa a falar, ainda com a voz flácida:
-Muito obrigado... Nesse tempo de caos, ninguém fez isso por mim, nem mesmo antes de tudo isso, nem mesmo meus companheiros. A humanidade precisa de pessoas assim como vocês, pelo menos precisava.
Ele dá uma pausa, respira, faz expressões de dores, então Danilo fala que ele esta com febre, e ele responde:
-Vocês precisam saber que eu não tenho mais jeito de sobreviver, não tenho mais chances.
Eu o interrompo e falo:
-Não fala assim! Vai ficar tudo bem com você, aguenta firme!
E ele me responde de uma forma tristonha, sem esperanças, desiludido, dava para sentir suas emoções:
-Você não ta entendendo, não existe cura para este vírus, eu vou piorar e piorar, até me transformar em uma daquelas coisas... O melhor que vocês devem fazer é me deixar aqui, aqui mesmo.
Então ele dá uma pausa e não ousamos falar mais nada, e ele continua:
-Parem o carro, por favor... Chegou minha hora.
Então paramos o carro, ele tirou sua munição, o seu colete, a sua faca e ficou somente com sua pistola na mão. Ele desceu do carro juntamente comigo. Virei para ele e falei pausadamente:
-Você... não precisa fazer isso.
Ele me olha e me responde com um leve sorriso no rosto:
-Chegou minha hora. Não quero me transformar naqueles monstros que mataram minha família e meus amigos.
Então ele vai para calçada, me entrega a sua pistola e diz:
-Faça as honras cara. Fique com minha pistola para se proteger desses monstros. Acredite, ainda existe alguma felicidade nisso tudo, procure e você vai encontrar, pois hoje eu encontrei a minha. Boa sorte!
Então ele olhou nos meus olhos, se ajoelhou e deu sinal para atirar. Atirei. Mesmo me sentindo mal com isso, mas eu acredito que a essa hora aquele jovem soldado está em uma bem melhor.
Viro-me. Entro no carro. Todos nós estamos angustiados. Olhamos e sentimos a dor da morte daquele soldado. Pensamos juntos e lamentamos. Aquele rapaz poderia ser algum de nós. Devemos agir mais rápido agora, nesse mundo selvagem, para que nós possamos sobreviver.
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