Só quando o Miguel parou de tocar o violão é que me dei conta do quanto estava escuro tudo a nossa volta. As árvores não tinham mais a aparência alegre que eu havia notado mais cedo, agora elas pareciam assustadoras e sombrias. Para manter-me tranquila, me concentrei em observar apenas a fogueira quentinha e o rosto do meu namorado, que mesmo no escuro, era encantador e me passava segurança.

O grupo foi se dividindo aos poucos e cada panelinha ficou num canto conversando. Graças a Deus, desde a saída no colégio até chegar aqui a Marina não veio nos perturbar e pra completar a minha alegria, o idiota do Pablo adoeceu, não podendo assim vir conosco. A minha ‘tropa’ continuou em volta da fogueira conversando com a professora Maísa, que se juntou a nós.

Maísa: E então alunos, o que estão achando desse primeiro dia de acampamento? – ela era uma mulher muito bonita e simpática.

Helena: Até que tá sendo legal... – falei sem fazer muito caso.

Miguel: Hum... Que bom então; mocinha. Quero ainda poder, aqui, superar suas expectativas. – me beijou no rosto e eu sorri pra ele.

Maísa: Pois é, meninos. – sorriu – Eu também espero me divertir bastante aqui com vocês; até porque, eu devia estar dando uma aula nesse momento.

Gabi: Ué, mas aula? – ela estava tão quietinha antes, mas enfim manifestou-se.

Maísa: Sim senhorita – ela parecia entusiasmada – é que caso vocês não saibam, eu tenho uma escolinha de dança. Eu a abri recentemente, mas já tem ocupado boa parte do meu tempo... – pelo visto ela adora tagarelar, porque desse momento em diante não parou mais de falar sobre sua vida pessoal. Um tédio.

***

Gabi narrando.

Nossa, será que a professora de dança não vai mais parar de falar? Que saco! Resolvi pedir o celular do Caio pra escutar umas músicas, mas ele tinha saído e eu nem percebi. Levantei e fui procurá-lo. Ele estava a umas três barracas após a minha conversando com os seus amigos do MMA.

Gabi: Caio, tá fazendo o que ai? – olhei pra ele com uma carinha de solidão.

Caio: Nada não amor, já tô indo. – ele falou sorrindo, como quem tinha acabado de escutar uma piada engraçada.

Gabi: Ok. – foi só o que respondi. Voltei pra perto da fogueira, porque nessa floresta fazia muito frio e eu precisava me manter aquecida. Sentei do lado da Lena. Poucos minutos depois o Caio chegou com o mesmo grupo que ele estava conversando antes e se sentou perto de nós.

– E ai galerinha; querem escutar uma história de terror? – disse um dos garotos que havia chegado.

Helena: Fala sério. Quero não... – Levantou-se e antes que saísse o Miguel a segurou pelo braço.

Miguel: Vai onde, amor?

Helena: Tô um pouco exausta meu bem, vou só descansar um pouquinho na cabana, tá?

Miguel: Tá, tudo bem. Daqui a pouco eu vou lá te fazer um carinho. – piscou pra ela. Acho esse casal tão fofo... Quem dera o Caio fosse romântico e atencioso comigo assim também.

A Marina foi se aproximando do grupo e sentou perto de nós. Tirou um espelho da bolsa juntamente com um gloss labial e começou a passá-lo na boca, pra ver se conserta aquela cara feia dela, kk. Mas a sua intenção na verdade era chamar a atenção dos meninos... Perda de tempo, todos já sabem que ela é uma bitch mesmo...

Helena: Cuidado ai viu? – apontando disfarçadamente para a Marina.

Miguel: Pode deixar. – piscou para a Lena, entendendo o que ela queria dizer. Assim que a Leninha saiu, o garoto começou a contar a história...

***

Helena narrando.

Eu estava realmente muito cansada, e um pouco assustada também, por estar em um lugar como aquele. Eu nunca havia feito uma viagem dessas antes, então não queria escutar qualquer que fosse a história que aqueles meninos tinham pra contar...

Resolvi ouvir músicas no meu celular. Coloquei “You and Me – SOJA”; adoro essa música... Ela me traz tantas lembranças. Comecei a lembrar do dia em que cheguei ao Rio; eu não fazia nem idéia de que ia gostar de alguém pra valer, pela primeira vez na vida, como gostei do Miguel... Lembrei do meu primeiro momento com a Gabi, do fofo do João Pedro com os Doritos, os desabafos e as palhaçadas da Lorena... Ah, a Lorena... Não consigo esquecê-la. Onde será que ela está agora, Deus? Será que ela realmente está morta? Eu não acredito nisso, não consigo... Mas é melhor eu pensar em outra coisa, não quero me apavorar, não aqui, não agora. Tirei a música e fechei os olhos pra tentar dormir um pouco.

***

Eu já estava sonolenta quando escutei gritos escandalosos e tomei um grande susto. Levantei-me apressadamente e olhei para fora da cabana. Quem gritou foi a Gabi e a professora Maísa, o resto do pessoal apenas ria da cara delas.

Helena: O que tá acontecendo aqui? – falei ainda assustada.

Miguel: Nada não, meu bem. – disse rindo – Só estamos nos divertindo com as lendas criativas do Roger... – Roger? Ah, deve ser o “contador de histórias”, ninguém merece. Voltei pra dentro da cabana e me deitei de novo. Agora ficou difícil pra eu pegar no sono...

Minutos depois escuto outro grito. Dessa vez foi só um; bem mais alto e arrepiante, mas como os meninos estavam assustando as meninas, nem dei importância. Repentinamente o Miguel entra na cabana ofegante.

Miguel: Amor, não saia daqui. – ele tentou esconder, mas percebi que estava com medo.

Helena: Miguel, o que tá acontecendo? – comecei a ficar preocupada.

Miguel: Uma aluna sumiu. – quando ouvi isso o meu coração começou a acelerar.

Helena: Ai meu Deus! – me arrepiei.

Miguel: Não sai daqui, tá bom amor? – tocou no meu cabelo. Senti que ele estava me escondendo alguma coisa.

Helena: Eu não vou ficar aqui sozinha, não mesmo. – comecei a suar frio – Vou com você.

Assim que saímos, a Gabi veio ao meu encontro chorando e abraçou-me.

Gabi: Oh, Helena! – me apertou forte.

Helena: Calma amiga, o que é que tá acontecendo? – perguntei olhando nos olhos dela pra passar um pouco de conforto, mas na verdade o meu coração tava quase que saindo pela boca.

Gabi: Uma guria, aquela mais nova, Joana eu acho; ela sumiu! – ela estava apavorada.

Helena: Mas como assim sumiu? – olhei pra o Miguel, tentando manter a calma e esperando que essa pergunta fosse respondida por ele.

Miguel: Ainda não sabemos, mas parece que tem lobos aqui pelas redondezas. Acontece que a tal Joana fuma maconha, pelo menos foi o que eu soube pelas amigas dela. E então ela se afastou da gente pra acender um back... – o interrompi antes que terminasse de falar.

Helena: E virou presa de um lobo? Ai meu Deus, não! – abracei ainda mais forte a Gabi e choramos juntas, desesperadas.

Wudson: Fiquem todos calmos, nós vamos achar a Joana. – dizia ele tentando nos confortar – Por enquanto, eu peço que fiquem todos juntos aqui, em volta da fogueira.

Maísa: Venham meninas, juntem-se a mim. – dando as mãos a nós – Vamos fazer uma corrente de oração para que todos fiquem bem.

Os meninos, que também não sabiam o que fazer, juntaram-se a professora, assim como o professor Hélio e o professor Wudson. A professora Maísa era evangélica e então começou a fazer uma oração, bastante arrebatadora, do jeito falante dela, sabe? E acabou nos ajudando a acalmar os nervos. Mas esse momento pacífico não durou muito. Antes que pudéssemos terminar a reza ouvimos claramente o som de um lobo feroz que se escondia na densa mata.

Olhamos para todos os lados possíveis tentando enxergar alguma coisa, mas só o que vimos foi a Joana surgindo do meio das árvores, mancando de uma perna, com o braço sangrando e os olhos extremamente vermelhos. Isso me lembrou até a Lore, no dia em que ela sumiu...

Maísa: Joana! Você está bem, querida? – aproximou-se da garota que não dizia uma palavra. Todos os outros permaneceram imóveis, como que em estado de choque. Assim que a professora tocou o braço da menina, ela repentinamente puxou-a com uma força incrivelmente brutal e a derrubou.

– Joana! – alguém gritou. Antes que os meninos fossem socorrer a professora, vi algo que quase não consegui acreditar: uma nova fileira de dentes apareceu na parte superior e inferior da boca da garota e ela abocanhou o pescoço da professora Maísa.

Gabi: Ela é uma vampira! – gritou e saiu correndo. Quando a Gabi ia entrar em sua cabana, eis que surge na sua frente um lobo de uns dois metros, lindo, porém assustador, e peludo. – Aaaaaaaaaaaah! – A Gabi desmaiou e o Caio foi socorrê-la. Enquanto isso o lobo rapidamente pulou para cima da Joana e a mordeu. Pularam de cima das árvores mais duas pessoas, com a mesma fileira de dentes que a Joana tinha; eles agarraram bruscamente dois alunos que estavam conosco, mordendo-os no pescoço. Desesperados, nós que sobramos nos juntamos num canto e ficamos parados, sem saber se assistíamos aquele pesadelo ou saiamos correndo. Mas correr pra onde?

***

O lobo finalmente imobilizou a Joana e sentou-se como quem esperava por alguém. E ele realmente esperava por alguém. Por dentre ás arvores surgiram dois homens, um de jaqueta de couro e outro de camisa xadrez, os dois segurando enormes facões nas mãos.

– Deixa comigo agora, Felipe. – disse o cara de jaqueta de couro ao lobo enquanto se aproximava dele. O lobo se afastou e o homem puxou o facão cortando o pescoço da Joana. O de camisa xadrez lutou com os outros dois que pegaram nossos colegas, e com a ajuda do lobo, que magicamente se transformou em um homem forte e musculoso, decapitou também aquelas assustadoras e animalescas pessoas. Todas as meninas gritaram horrorizadas, inclusive eu. Não dava pra ficar pior. – Estão todos bem?

Marina: Co-como assim estão todos bem? – ela tremia – vo-você acabou de matar uma garota.

– Sinto muito, senhorita – respondeu ele – mas essa coisa que eu matei não era mais uma garota.

Gabi: Era uma vampira! – gritou. Pensei que ela ainda estivesse desmaiada...

– Como sabe? – ele indagou; curioso.

Gabi: Ah, eu assisti a série... – ele ainda parecia não entender – Sobrenatural, a série. Fala sobre tudo isso...

Caio: Cala a boca, idiota. – disse rindo, mesmo tenso.

– Na verdade ela tá certa – respondeu o homem-lobo. – era mesmo uma vampira. Ela foi transmutada, assim como muito de vocês serão se não derem o fora daqui rápido.

Wudson: Mas... – desabou em lágrimas – Não é possível! – colocando as mãos na cabeça, desesperado.

Miguel: Existem mais vampiros por aqui? – perguntou calmamente.

– Não mais, pelo menos por algumas horas. – afirmou o homem-lobo, sério.

– Já matamos os outros pelo caminho... – contou o homem de camisa xadrez, falando pela primeira vez.

Gabi: Vocês são caçadores? Caçam coisas, criaturas? – ela parecia bastante interessada pelo assunto.

Caio: Cala a boca, Gabi. – já estava impaciente com a impertinência da namorada.

– Não, tudo bem. – ouvimos uma voz feminina que vinha por dentro das árvores.

Gabi: Quem disse isso? – assustou-se.

– Fui eu, amiga. – E então ela saltou de uma árvore. Eu não podia nem acreditar no que os meus olhos acabaram de ver, o espanto foi geral. A Lorena?

Gabi: Lore! – correu até ela e abraçou-a. – por onde você andou amiga? Você sumiu por tanto tempo... – todos nós ficamos ainda mais pasmos e sem reação alguma, olhando para a Lore como se ela fosse uma assombração.

Lore: É uma longa história, querida. – o jeito da Lore não era mais sereno e vivo como antes, ela parecia uma pessoa diferente, fria. E até então eu não havia me manifestado...

Helena: Lore... – ela olhou pra mim e eu fui até ela. Abraçamo-nos por longos minutos. – senti tanto a sua falta, minha amiga. Eu nunca desisti de você, eu sempre soube que te encontraria de novo.

Lore: Eu sei Helena. E sinto muito por tudo isso. – disse com um olhar lamentável, segurando o meu rosto. – acho que vocês merecem saber tudo o que aconteceu, não é mesmo?

Helena: Por favor... – supliquei calmamente. Mas antes que ela pudesse começar a falar, a professora Maísa, que até então estava desmaiada, agarrou na perna do professor Hélio, derrubou-o e sangrou em sua boca. Tudo isso numa fração de segundos. Saímos todos correndo para perto dos caçadores, enquanto um deles foi em direção a professora e atirou em sua cabeça.

Marina: Mas espera ai, o que é que tá acontecendo? – ela gritava e soluçava de tanto chorar. O Roger a abraçou e disse algo em seu ouvido que a fez acalmar um pouco. Enquanto isso, o caçador que havia atirado, rapidamente decepou cabeça da professora, antes que a mesma tentasse outro ataque.

Lore: Agora sim tudo faz sentido. – olhou para o chão, ignorando a pergunta da Marina – Não são apenas vampiros, são vampiros com o vírus Croatoan. – ela parecia desvendar um mistério.

– Isso seria possível? – disse o homem-lobo olhando para a Lore.

– E o que não seria? – respondeu o caçador de camisa xadrez enquanto arrastava para perto de si os dois alunos e o professor que foram mordidos e estavam desmaiados. O grupo que ainda restava permaneceu calado e atento, inclusive eu.

Lore: Mas é claro, jogada de gênio. – ela parecia estar concentrada em alguma teoria – um vampiro com o vírus croatoan é conseqüentemente uma criatura mais forte do que os dois genes. E não necessariamente louca como ficam as pessoas que se infectam apenas com o vírus, mas, com outra vantagem: o efeito aparece mais rápido que o normal. Levou cerca de 5 a 10 minutos para a professora surtar.

Gabi: Croatoan? E... Vampiros? – começou a ficar tonta – Não, eu tô sonhando! É só um sonho ruim e nada mais... – fechou os olhos com força e o Caio a segurou.

–... E com apenas uma mordida eles não só transmutam as pessoas, como também as infectam com o vírus. – ignorando também o que dizia a Gabi, o cara de jaqueta de couro completou o raciocínio da Lore – Só uma sangradinha e tá feio o trabalho. – sorriu friamente.

– Agora já sabem o que temos que fazer. – disse o de blusa xadrez olhando para a Lore e para o outro caçador.

Helena: Pera ai, vocês não vão matar essas pessoas inocentes não né? – falei apontando para os meninos desmaiados.

Miguel: Amor, fica calma. – me abraçou.

Lore: Sinto muito Lena, mas eles não são mais inocentes. Foram infectados com um vírus muito perigoso, e...

Helena: Tá, eu sei o que é Croatoan, pelo menos teoricamente. – (Pois é, sou fã do Sobrenatural assim como a Gabi, mas vocês já sabiam né?) – Só tô tendo dificuldade pra processar tudo isso... Será que não haveria outra solução?

– Nesse caso não, porque além do Croatoan, eles estão contaminados com sangue de vampiro. – disse o homem-lobo – Não saberíamos nem por onde começar se quiséssemos salvá-los. Sem falar que daqui a alguns minutos eles vão surtar e tentar nos matar, nós não podemos correr esse risco. – respirei profundamente.

Helena: Tudo bem então, vai em frente. – ao dizer isso, vi a Lorena puxar uma enorme faca da cintura e fechei os olhos. Tudo o que ouvi foi o barulho de três golpes e nada mais. Simplesmente desmaiei.

Notas finais
E então, essa história tem surpreendido você? Qual será o fim desses garotos? Não deixe de comentar!