Depois que fui embora
3 Capítulo 3
Caminhei em direção ao bar e olhei por cima do balcão, em baixo dos bancos, e nada de meu celular estar lá.
— Dentro do táxi.
Resmunguei comigo mesma. Passei a mão na testa pensando o que eu faria agora para encontrar aquele mesmo táxi.
— Está tudo bem?
Uma voz aveludada surgiu atrás de mim, fazendo com que eu me arrepiasse imediatamente.
— Oi...ah...é, está.
Respondi gaguejando ao encarar quem havia me perguntado. Ele sorriu. Afonso continuava olhando-me quando senti minhas bochechas corarem levemente. Abaixei a cabeça olhando para outro lado enquanto ele continuava parado em minha frente. Aquilo me irritou.
Percebi alguém mexer no bar e virei-me rapidamente para ver o garçom que havia me atendido.
— Moço. — Ele me percebeu abanando a mão e voltou para atender-me. — Você viu algum celular branco aqui no balcão?
O rapaz franziu o queixo e negou.
— Ah, obrigada.
Respondi desapontada recebendo um sorriso de volta. O rapaz se distanciou e sentei-me no banco apoiando meu cotovelo no balcão e passando a mão na testa enquanto desanimava-me cada vez mais. Você não tem dinheiro pra ficar perdendo essas coisas, Clara! Fechei os olhos por um instante, esquecendo-me completamente que Afonso continuava ali, até ele puxar o balcão ao meu lado e levantar a mão para o barman que voltou para atendê-lo.
— Um uísque por favor.
Pediu ele. Revirei os olhos e continuei pensando o que poderia fazer para encontrar o taxista. Mas ele me distraía de alguma forma por apenas estar ali.
— Talvez uma bebida possa ajudar.
Ele resmungou ao meu lado bebericando aquele líquido.
— Não bebo. — Falei ainda olhando para o balcão, sem encará-lo. — Por que ainda está aqui?
Perguntei já irritada com seu silêncio ao meu lado.
— Bom, — ele abaixou o copo e segurou entre as duas mãos — meu avô ainda está conversando com senhor D'Agosto e senhor Heid, e eu vim acompanhando ele, então preciso esperá-lo...
— Não. — Interrompi — Eu digo aqui, aqui do meu lado.
Repreendi-me ao mesmo tempo que falei. O vi levantar uma sobrancelha enquanto me encarava. Eu mantive meu olhar fixo ao dele, mas não posso dizer que engoli em seco com um certo medo de sua reação, afinal, eu não o conheço.
— Uau.
Foi sua única expressão. Pisquei algumas vezes assim como minha boca abriu e fechou algumas vezes sem respostas.
— Desculpa, não quis ser...
Parei por um instante.
— Grossa?
Ele completou. Mordi meu lábio inferior e concordei.
— Isso.
Olhei para frente desviando de seu olhar rapidamente, ainda sentindo um misto de irritação e vergonha. O ouvi rindo pelo nariz enquanto voltava a entornar seu copo. Olhei por um momento ao lado oposto de onde ele estava, e Franco brilhou aos meus olhos como se estivesse pintado de ouro. Dei um pulo do balcão e caminhei a passos apressados até ele. Franco percebeu minha aproximação de longe e sorriu esperando.
— Franco.
Chamei e ele esperou que eu continuasse.
— Sim?
— Quando você foi pagar o taxista, você viu a placa do carro, o número, alguma coisa?
Franco franziu as sobrancelhas e logo depois riu.
— Não, por que veria?
Perguntou ele debochado. Bufei e olhei para outra direção. Nunca mais verei meu celular.
— Mas ele me deu o cartão dele.
A frase surpreendente de Franco chamou minha atenção. Arregalei os olhos e deparei-me com sua mão estendida segurando o cartão. Um sorriso surgiu no meu rosto como se eu fosse uma criança atrás de um chocolate. Peguei rapidamente o cartão de sua mão enquanto Franco observava cada reação estranha minha. Pulei em seu pescoço o puxando para baixo enquanto eu ficava na ponta dos pés para abraçá-lo em agradecimento. Na realidade nem me importei com minha reação. Ouvi Franco rir em meu pescoço. O soltei rapidamente.
— Obrigada! Obrigada. Juro que vou te pagar ok?
Franco ainda gargalhava enquanto eu me afastava com pressa em direção à porta. Abri a porta de vidro olhando o endereço e tinha uma ideia de onde esse lugar ficava, sabia que ônibus poderia pegar para ir até lá. Ótimo! Senti então meu pé não tocar o chão, conforme eu não olhava por onde andava. Mas antes que caísse, uma mão agarrou meu braço e o cartão caiu no chão.
— Opa.
Foi a única coisa que ele disse. Seus olhos azuis me encaravam. Ele tinha me puxado contra seu corpo impedindo que eu caísse da escada de saída do museu. Afonso Fontes estava tão perto que conseguia sentir seu hálito de álcool acariciar meu rosto. Passei a língua sobre meu lábio rapidamente para umedecê-lo, já que havia ficado boquiaberta e sem reação novamente em sua frente.
— Obrigada.
Forcei um sorriso pequeno e ele lentamente soltou meu braço. Afonso sorriu de lado.
— Sem problemas.
Afonso abaixou-se antes de mim e pegou o cartão do táxi. Ele leu e logo depois me estendeu.
— Posso te levar em casa, aí não precisará pedir o táxi.
Ele falou gentilmente.
— Não...na verdade não vou para casa, eu tenho que encontrar esse ponto de táxi que é onde esse carro fica e eu — Comecei a enrolar minhas respostas e quando percebi que estendia demais a explicação, resolvi acabar com isso. — ...eu tenho que ir.
Despedi-me rapidamente e voltei a descer as escadas.
— Ei, espera. — Afonso me seguia. — Eu posso te levar.
— Não precisa mesmo. Eu sei chegar lá.
Respondi apressada observando meus pés para que não tropeçasse novamente em nenhum degrau.
Afonso passou à minha frente impedindo que eu descesse o último degrau da escada enquanto parava em minha frente
— Sabia que Nova York de noite é bem perigoso? — Ele perguntou enquanto eu franzia as sobrancelhas um tanto ofegante por aquela decida de vinte degraus. — Não vou deixar uma garotinha que nem você andando por aí...
— Garotinha?
Perguntei indignada enquanto ele continuava sem preocupar-se com minha pergunta.
— ...E se seu namorado não será gentil o bastante para levá-la, eu posso ser e...
— Namorado?
Ele me ignorou mais uma vez, apenas continuando.
— ... Meu avô parece que vai demorar, então posso ir e voltar para o Texas até que ele resolva ir para casa.
Finalmente ele terminou e me encarou com aqueles olhos azuis reluzentes.
— Primeiro... — Eu levantei um dedo em sua direção. — não sou uma garotinha, já sou maior de idade faz algum tempo e sei muito bem andar por aí sozinha.
— Mas tem tamanho de uma...
Ele me interrompeu e eu levantei o dedo em frente ao seu rosto novamente o impedindo de falar mais.
— Segundo: Meu namorado, não foi gentil para me levar, porque ele não é meu namorado, portanto não tem a obrigação de levar-me para lugar nenhum.
Respondi supondo que ele havia achado que Franco fosse meu namorado. Quem dera.
— E terceiro: Você está me atrapalhando, com licença?
Perguntei impaciente tentando passar por ele que deu um passo ao lado impedindo-me de fazer meu caminho. Joguei o pescoço para trás.
— Oh meu Deus, o que é agora?
Ele riu com minha expressão.
— Aceita minha carona? — Não respondi. — Por favor?
Ele apertou os olhos fazendo cara de vítima. Revirei os olhos, afinal, uma carona seria uma mão na roda.
— Que seja.
Dei de ombros observando seu sorriso largo surgir. E que sorriso. Afonso deu espaço para que eu passasse enquanto ele me observava. Percebi que eu batia em seu ombro, com um salto ainda. Devia ser uns trinta centímetros mais alto que eu. Afonso acompanhou-me até o estacionamento ao lado do museu. Ele pegou as chaves no bolso do terno e acionou o alarme de um carro preto grande e imponente. Riquinho. Nos aproximamos do carro e me surpreendi quando ele abriu a porta antes que eu pudesse agarrar a maçaneta. O encarei séria e ele apenas sorriu de lado. Sentei-me no banco e esperei até ele dar a volta. Afonso girou a chave no carro e acelerou. Olhei pela janela mordendo a parte inferior da boca, eu estava nervosa e quando isso acontecia, eu mordia minha boca deixando alguns machucados de vez em quando.
— Então Clara... — Sua voz ecoou quebrando o silêncio do carro — posso saber o por que estou te levando a um ponto de táxi?
Sim, eu devia explicações a ele já que estava fazendo um favor e tanto.
— Pode. É que eu esqueci meu celular dentro deste táxi e preciso encontrá-lo.
Afonso gargalhou olhando para estrada ele ligava os faróis do carro.
— O que foi?
O encarei. Seu sorriso exposto em seu rosto. Seu cabelo castanho bagunçado jogado para trás já que ele havia passado a mão sobre ele.
— Você sabe que tudo que se deixa em um táxi de Nova York, nunca mais é visto né?!
Ele me encarou ainda com um sorriso nos lábios. Eu estava séria e ele percebeu deixando seu sorriso sumir aos poucos.
— Mas esse celular precisa ser visto! Não posso tê-lo perdido. Minha vida inteira está nele. Sem contar que meus pais devem... — Parei de falar por um instante confundindo meus pensamentos — ai Jesus, eles devem ter ligado trezentas vezes.
Passei a mão na testa olhando pela janela.
— Seus pais?
Ele perguntou me olhando como quem parecesse preocupado.
— É. Eles viriam hoje pra exposição. Só que eles acabaram ficando presos no aeroporto lá do Brasil e quando chegassem aqui, eles iriam me ligar. Mas eu esqueci o celular no carro e...nossa, que idiotice!
Bati a mão na testa.
— Fica calma, você vai encontrar logo logo o celular.
Afonso agora falava em um tom sério, no qual eu estranhava, mas mostrava uma certa preocupação sobre minha situação.
— Obrigada.
Sussurrei e ele me olhou dando um leve aceno de cabeça e um sorriso. Ficamos em silêncio mais uma vez.
— Vamos ficar em silêncio mesmo ou vamos conversar?
Afonso começou. Encolhi os ombros.
— Quanto tempo trabalha no MoMA?
Ele perguntou.
— Dois anos. Estou terminando meu ciclo de estágio lá, por isso a exposição.
— Eu vi suas fotos, são muito bonitas. Meu avô também gostou.
— Obrigada. — Respondi sem perceber o resto da frase. — Ei, espera, seu avô gostou?
Afonso riu enquanto eu o encarava atenta.
— Sim.
— E o que ele disse?
Afonso encolheu os ombros.
— Ele disse que gostou, ué.
— Só isso? Não falou mais nada? Não falou das cores, das luzes, sei lá...qualquer coisa?
Afonso me olhou com um sorriso nos lábios. Ele percebia minha agitação.
— Não sei.
— Huf.
Bufei voltando a olhar pela janela. Ele soltou uma gargalhada que me deu vontade de rir também, mas me contive.
— O que é que está rindo?
Afonso balançou a cabeça negando.
— Ele disse que você tem um olhar diferente dos outros.
Abri um sorriso gigante e Afonso percebeu começando a rir sem parar.
— Nossa, que honra.
Falei sem ter outras palavras. O carro parou.
— Chegamos.
Ele não respondeu minha pergunta inicial, pulei fora do carro e corri até o ponto onde haviam alguns taxistas.
— Olá, boa noite. — Os três homens que estavam lá me olharam parando o assunto que conversavam antes. — Algum de vocês conhecem o Andersen?
Perguntei assim que olhei pro cartão lendo seu nome. Os homens disseram que logo o homem deveria estar voltando ao ponto. Concordei dizendo que iria esperar. Voltei ao carro e bati na janela para que Afonso a abrisse. Expliquei que eu ficaria esperando o homem voltar, e que ele poderia ir embora, depois voltaria no táxi mesmo. Ele concordou e eu não esperava mais nada, afinal, queria, lá no fundo talvez, eu quisesse que ele ficasse. Mas eu sabia qu ele não iria, eu já havia me cansado de esperar que as coisas acontecessem, e no final, não aconteciam. Afonso avançou o carro e me deixou lá ao lado daqueles taxistas que já conversavam e riam novamente. Sentei-me no banco à uma bela distância deles e esperei, e como eu odeio esperar. Menos de cinco minutos depois, alguém de terno se aproximava. eu sabia quem era. Alto e com passos firmes. Afonso estava ali novamente. Dessa vez, o que eu esperei, realmente aconteceu me deixando surpresa. Ele cumprimentou os taxistas enquanto eu o olhava surpresa, ele sentou ao meu lado com o terno aberto e esticou as pernas.
— Você não foi embora?
Perguntei ainda sem acreditar que ele estava ali.
— Achou que eu ia te deixar aqui sozinha?
Ele tirou o celular do bolso de dentro do terno.
— Bom, eu achei que você ia ir embora quando saiu com o carro.
Ele riu ainda olhando pro celular.
— Eu fui estacionar.
Olhei para frente mordendo meu lábio inferior. Afonso estava encostando seu ombro no meu, seu perfume entrava no meu nariz e aquilo era ótimo de uma forma estranha.
— Deveria parar de fazer isso.
Rapidamente ele levou o dedo indicador ao meu nariz dando um leve toque nele. O olhei com a testa franzida. Ele sorriu com seus olhos azuis brilhando para mim.
— Fazer o que?
Perguntei desconfiada.
— De morder a boca, percebi que faz isso sempre, deve machucar.
Ele falava de maneira despreocupada, enquanto meu coração se acelerava por algum motivo ao conversar com ele tão perto e tão confortável ao meu lado.
— É mania.
Respondi voltando a olhar pra frente.
— É bonitinho.
Voltei a encará-lo sem entender.
— O que é bonitinho?
Ele riu tranquilamente.
— Essa sua mania.
— Hum.
Resmunguei tentando acabar com a conversa.
— Faz isso quando está nervosa?
Mas ele continuou.
— Aham.
Concordei.
— Isso quer dizer que te deixo nervosa?
Olhei-o de soslaio, sem mudar minha cabeça de direção. Eu pensava em uma resposta, o tempo passava, estávamos em silêncio apenas ouvindo as risadas dos taxistas. E então o procurado carro parou em nossa frente. Levantei-me do banco e corri até o táxi, deixando Afonso para trás. Expliquei para o homem de bigode o que havia acontecido e praticamente implorava por sua consideração. Ele riu.
— Sabia que a senhorita iria aparecer mais cedo ou mais tarde.
Ele abriu o porta-luvas do carro e puxou de lá meu celular. Sorri como uma criança abraçando o celular. Agradeci o homem mais do que tudo e voltei sorrindo para Afonso que já me esperava de pé com os braços cruzados sobre o peito.
— Achei!
Falei com um sorriso de orelha à orelha.
— Percebi. — Ele riu. — Não mereço um abraço de agradecimento? Igual você deu naquele carinha que não é seu namorado no museu?
Ele perguntou me desafiando de certa forma. Senti minhas bochechas corarem. Levantei um braço puxando seu ombro e ficando na ponta dos pés conforme passava o outro braço ao redor de seu pescoço. Afonso se abaixou para ficar até minha altura, puxando minha cintura e me dando um abraço confortável e calmante. Sentia sua respiração em meu pescoço. Seu perfume invadiu meu nariz e me fez marcar aquele rosto e aquele abraço para sempre.
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