Depois que fui embora
4 Capítulo 4
Eu mexia descontroladamente no celular, lia todas as vinte mil mensagens de várias pessoas me dando parabéns pela minha exposição e algumas outras vindas dos meus pais com pedidos de desculpas por não terem conseguido chegar à tempo, mais algumas dos mesmos perguntando onde eu estava, avisando que tinham chegado e que agora estavam hospedados em um hotel. Naquele momento havia desligado-me da Terra e havia esquecido de Afonso do meu lado naquele silêncio, dirigindo o carro. Ele então limpou a garganta. Levantei o olhar o encarando enquanto ainda segurava o celular entre as duas mãos como quem se prevenisse de perdê-lo novamente.
— Que foi?
Perguntei tentando entender a situação. Afonso desviava o olhar da rua para mim.
— Você está nesse celular faz uma meia hora, se eu quisesse te sequestrar, daria tempo de te levar pro México e você nem perceberia.
Arregalei os olhos e olhei pela janela, afinal, Afonso ainda era um desconhecido para mim e sua frase ligada à palavra "sequestro" havia me assustado. Ele percebeu e gargalhou.
— Não estou te sequestrando.
O encarei de novo enquanto ele ria e eu tive que acompanhá-lo já que a situação pedia por isso. Mesmo sendo um desconhecido, eu me sentia sinceramente bem ao lado dele.
— Mas pra onde estamos indo, já não deveríamos ter chegado no museu?
Perguntei observando o lugar que não conhecia.
— Vou te levar pra jantar.
Franzi as sobrancelhas enquanto ele não me olhava.
— Mas já é meia noite.
Afonso encolheu os ombros.
— Então vamos ao cinema.
Ele respondeu calmamente.
— Não, espera aí – Ajeitei-me no banco. — Eu não... não quero ir ao cinema.
Falei por fim tentando entender esse seu joguinho.
— Então quer ir onde?
Ele ainda não me olhava.
— Que? — Eu gargalhei. — Espera, não...eu não quero ir pra lugar nenhum. Quero ir pra minha casa.
Ele levantou uma sobrancelha.
— Uau, eu iria ir com calma, mas já que você quer ir direto à essa parte...
Ele sorria de lado.
— Que? Você ta doido. Eu não quis dizer isso...ai meu Deus. Você...você...
Eu comecei a gaguejar e ele começou a rir descaradamente. Ele debochava de mim.
— Me fala seu endereço então, porque é meio difícil chegar lá sem isso, sabia?
Agora ele me olhava ainda segurando o riso.
— Ta! — Respondi com bico. — É duas ruas atrás do museu, número 23.
Ficamos em silêncio por algum tempo enquanto eu o percebia ainda rindo às vezes.
— Você bebeu,não foi?
Perguntei de supetão. Afonso me olhou e franziu as sobrancelhas. Deu de ombros como se aquilo não importasse.
— Você está dirigindo bêbado?
Perguntei assustada. Afonso revirou os olhos.
— Meu Deus.
Ele resmungou.
— Meu Deus digo eu! Se você bater esse carro, eu morro. Não quero morrer. Ta entendendo a situação? Pra quê você acha que existe a lei de não beber e dirigir? Para não causar acidentes.
Falei gesticulando com seriedade. Afonso me observava, mas quando terminei, ele riu mais.
— Dá pra parar de rir pelo menos uma vez? Estou falando sério!
Bati o pé.
— Clarinha, eu estou bem. Não bebi o bastante nem para me deixar alto.
Dei de ombros com raiva e voltei a apoiar meu rosto em minha mão para encarar a janela. Depois de alguns segundos quieta, voltei a falar sem olhá-lo.
— Não lhe dei o direito de me chamar de Clarinha.
Afonso riu pelo nariz e se calou também. Pouco tempo depois, ele estacionou o carro em frente a meu prédio que ainda tinha a portaria iluminada.
— É aqui. Muito obrigada.
Sorri pouco o olhando enquanto ele continuava sério me encarando.
— Qual o problema?
Perguntei um tanto surpresa com sua expressão. E então ele sorriu de lado, sem mostrar os dentes e negou.
— Nada.
Mordi o lábio inferior e desviei o olhar por um segundo.
— Okay então. Obrigada de novo.
Eu falava sentindo um tanto agitada. Não conseguia manter meu olhar sobre o dele. Segurei a maçaneta da porta e a abri, quando senti uma mão abraçar meu pulso. Voltei-me para ele. Seus olhos azuis eram fixos sobre mim.
— O que foi?
Minha voz saiu como um sussurro, mais fraca do que eu gostaria. Afonso passou a língua sobre os lábios.
— Podemos sair algum dia?
Ele finalmente perguntou, depois de longos segundos de eternidade em silêncio. Aquela pergunta fez meu coração dar um pulo. Estranho. Tente parecer indiferente, Clara. Mostre indiferença. E foi o que fiz. Encolhi os ombros desviando o olhar.
— Por que não?!
Forcei um sorrisinho mostrando minhas covinhas que às vezes irritavam-me por serem a causa (além de minha altura) de todos acharem que sou mais nova do que realmente sou.
— Boa noite. Obrigada de novo.
Novamente minha voz falhava. Droga! Saí do carro e acenei já na entrada do prédio antes de virar as costas e não olhar mais para trás.
— Boa noite Tom!
Chamei o porteiro que se divertia com um jogo no celular.
— Oi garota.
Ele levantou uma mão em cumprimento, sem tirar os olhos do celular. Subi as escadas correndo até o terceiro andar, eu tenho sério problemas com elevadores, e o do meu prédio não era muito novo e balançava. Entrei em casa sentindo o cheiro que eu tanto gostava, um perfume que já tinha quando aluguei esse apartamento, possivelmente do morador antigo, posso dizer que esse perfume foi uma das coisas que me fizeram ficar aqui. Corri até a janela enquanto tirava os saltos e puxava o zíper do meu vestido nas costas. Segurei a cortina olhando pela fresta e naquele mesmo instante o carro preto de Afonso havia acelerado pela rua. Meu coração acelerava mais uma vez. Deveria ter falado pra ele que tenho namorado, usado o Franco como desculpa para mantê-lo longe. Por que não fiz isso? Eu sempre fiz isso. Desde sempre. E deveria continuar fazendo para sempre. Não posso me apaixonar. Não quero isso. E então lembrei-me, meu celular.
— Isso só pode ser carma.
Havia deixado sobre meu colo, deve ter caído na hora que me levantei do carro. Só espero que não tenha caído na rua, mas sim no carro. Agora como vou encontrá-lo? Afonso sabe onde moro, pode devolver meu celular. Ele deve fazer isso. Não acho que seja um ladrão, ele deve ser rico, neto de Sebastião Fontes, ele não precisa de um celular como o meu. Ele vai devolver. Só se acalma Clara, ele vai devolver.
Peguei o telefone de casa e disquei para o celular da minha mãe, teria que explicar tudo, ou pelo menos boa parte, da história para ela.
— Oi mãe.
— Filha, finalmente. Você viu nossas mensagens? Sinto muito não termos conseguido ir, querida. Sinto muito mesmo. Conseguimos chegar praticamente agora. Estamos em um hotel aqui do centro, não conseguimos falar com você e então preferimos vir para cá.
— Tudo bem mãe, aconteceram umas coisas e perdi o celular por enquanto.
— Aconteceu o que? Você foi assaltada?
Ela perguntou rapidamente sem me deixar fazer o ponto final da frase.
— Não mãe, eu esqueci dentro do táxi, vou ter que procurar agora o taxista pra ver se ele guardou. Mas dizem que tudo que você perde em um táxi em Nova York, nunca mais é visto.
"Você sabe que tudo que se deixa em um táxi de Nova York, nunca mais é visto né?!" a voz de Afonso ecoou na minha cabeça e eu suspirei.
— Clara? Ta tudo bem?
Minha mãe perguntou do outro lado da linha.
— Tudo sim, mãe. Só estou um pouco cansada.
— Tudo bem filha, vai dormir um pouco, amanhã nos vemos. Te amo.
— Também te amo, mãe. Manda um beijo pro pai.
Joguei o telefone sobre o sofá ainda com minhas cobertas. Fui até o banheiro e liguei o chuveiro no mais quente o possível, aquilo deveria tirar um pouco do meu cansaço. Enrolei-me em uma toalha tremendo de frio. Meu cabelo cacheado estava preso em um coque extremamente bagunçado, mas aquilo já não me importava. Minhas olheiras despontavam novamente, eu realmente estava cansada. Pensava na minha cama e em meu travesseiro. Me direcionava ao quarto quando a campainha tocou. Olhei em direção a porta fazendo um silêncio absoluto, deveria ser Tom. A campainha tocou novamente. Caminhei na ponta dos pés e grudei minha orelha na porta tentando ouvir o outro lado. A pessoa não fazia barulho nenhum. Ele ou ela, então bateu na porta e eu a abri de supetão, mostrando Afonso com seus olhos azuis me encarando. Bati a porta em sua cara tão rápido quanto a abri. Corri ao meu quarto e vesti a primeira roupa que encontrei, meu pijama. Ouvi a porta se abrir e quando voltei a sala ele já estava parado com um sorrisinho nos lábios.
— O que faz aqui?
Perguntei com os olhos arregalados e ofegante por minha corrida olímpica. Percebi que ele segurava o riso.
— Vim lhe entregar isso, que esqueceu de novo.
Ele estendeu o celular.
— Ah, obrigada. — Peguei o celular de sua mão ainda mantendo a distância. — Desculpe pela bagunça.
Falei olhando em volta. Ele riu.
— Mas é organizado. — Ele deu alguns passos para mais longe da porta, enquanto olhava em volta. — Aqui é bonito. Prédio antigo né?
— Sim.
Concordei sem dizer nenhuma palavra a mais. Ele olhava para o teto, a janela, o piso de madeira. Até que parou voltando-se a mim novamente.
— Desculpe por isso. É mania de arquiteto.
Ele sorriu.
— Você faz arquitetura?
Perguntei surpresa com a possibilidade dele não ser apenas um filhinho de papai e ter realmente estudado. Como neto de Sebastião Fontes, grande ativista, eu poderia esperar algo mais dele.
— Eu terminei já.
— Hum.
Resmunguei mordendo a boca sem saber mais como continuar a conversa.
— Posso sentar?
Ele perguntou, me encarando e apontando para o sofá.
— Aham. Claro, claro que pode. Desculpa.
Com certeza à essa altura do campeonato, Afonso já havia percebido que eu mordia minha boca, e como ele havia visto já antes, eu faço isso quando estou nervosa, e estou nervosa por conta dele no momento.
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