Depois do Clichê
4 Capítulo 4 – Clichê: Uma Outra Visão, Capuleto.
Notas iniciais
Rachel
Parei em frente ao meu closet, selecionando as peças de roupa com o olhar. Estávamos no final do verão, mas isso não impedia que noite estivesse surpreendentemente quente. “Aquecimento global?”, debati comigo mesma mentalmente, sem chegar a nenhuma resposta. Era um assunto complexo demais para se refletir com exatos trinta minutos para se aprontar. Prática como sempre, apanhei um shorts branco, prendendo um cinto preto na cintura, e vesti uma camisa preta social, completando o look com um blazer amarelo. Coloquei um conjunto de pulseiras no braço direito, mantendo apenas um largo bracelete dourado no pulso esquerdo. Olhei o pescoço nu sentindo-me desconfortável e prendi nele um colar longo. Encarei-me no espelho, satisfeita com o resultado e vesti a rasteirinha dourada, eu definitivamente sabia como me vestir. Arrumei os cachos, mesmo sabendo que eles possuíam vida própria, delineei os olhos e completei com um rímel, um pouco de blush e um batom cor-de-boca. Apanhei a bolsa de mão colocando o celular, a carteira e as chaves de casa dentro e, em seguida, voltei a me encarar no espelho.
Eu estava bonita, sabia que estava. As roupas me caiam bem e eu poderia dizer o mesmo da maquiagem, mesmo assim, torci um cacho no indicador, insegura. O motivo? Uma velha esperança boba, algo que eu pensara estar no passado, mas que ressurgira desde Minerva conseguiu o seu clichê. Porque no fundo eu só odiava clichês por achá-los surreais, impossíveis, ilusões que enfiavam em nossas mentes para terem o prazer de assistir ao mundo nos decepcionar. Balancei a cabeça, não havia sentido em continuar pensando essas bobagens, eu não iria encontrar o amor da minha vida naquela lanchonete e mesmo que encontrasse, de que adiantaria? Só poderia namorar alguém que meu pai aprovasse e em sua lista de pretendentes não havia ninguém que frequentasse o Barbados. Desci as escadas sentando-me no caro sofá vintage que estava na sala. Era um absurdo pensar que eu jamais tivera beijado na vida, mas eu sabia que havia “n” explicações para isso.
A primeira era, sem sombras de dúvidas, o pensamento sexista que permeia nossa sociedade. Homens são levados a crer que devem ser superiores em sua relação e mulheres são ensinadas a acreditar que só estariam seguras se amparadas por braços fortes e másculos. E é por isso que garotos se assustam com mulheres confiantes, que não creem dependerem deles e que são tão ou até mais fortes e inteligentes do que eles. No fundo, todos sabem que um relacionamento saudável não se baseia em dependência, mas mesmo assim é difícil para um cara da minha idade aceitar que eu não preciso dele para viver. Sou prática, racional e confiante na maior parte do tempo, o tipo de garota que, definitivamente, não fica acordada esperando uma sms até às duas da manhã.
A segunda questão fundamental era o racismo. Não falo nem do racismo escancarado, de pessoas que não sentam na mesma mesa que eu por conta de minha pele, mas daquele velado, sussurrado. Não se espera que negros sejam mais bonitos que brancos e, no entanto, eu já fizera duas campanhas de moda por ter sido escolhida no lugar de loiras magérrimas. Não se espera que negros sejam inteligentes, mas eu sempre estava no pódio das Olimpíadas de Matemática, Física, Química e Astrofísica. Não se espera que negros tenham dinheiro, mas, bem, meu pai e, por consequência, minha família tem bastante. Então, acabei me tornando um pontinho fora da curva do gráfico, além das expectativas, fora de seu “devido” lugar. Mais uma vez, supostamente boa de mais. Às vezes eu queria que as pessoas pudessem enxergar melhor meu defeitos, mas a culpa sempre foi minha: por medo de mostrá-los, me cobri de uma falsa perfeição, tornando-me, para quem vê de longe, inalcançável ou desumana.
O terceiro fator – e o mais importante – era o meu pai. Quando eu não assustava os garotos por conta de minha personalidade traiçoeira, ele o fazia. Biomédico, pesquisador e sócio de uma das maiores indústrias farmacêuticas do país, Levy Landers era influente, austero e de paciência duvidosa. Se ele gostar de você, agradeça aos céus, se não, saia de seu caminho o mais rápido possível.
E lá estava eu, refletindo sobre os motivos de nunca ter beijado na vida, quando minha mãe sentou ao meu lado.
– Já vai, querida? – disse ela com sua voz macia. Elisa Landers era o completo oposto de seu marido, calma como uma brisa fresca. Porém, aqueles que a conheciam sabiam que ela era capaz de se transformar em tempestade quando quisesse.
– O Fred vai passar aqui me buscar e depois vamos pegar a Minerva. Volto antes das dez. – prometi, imaginando que era sobre isso que minha mãe gostaria de falar. Embora ela passasse a maior parte de seu tempo em casa, nunca fomos muito próximas, sempre tive medo de dizer algo “errado” e de ela acabar contando para o meu pai.
– Certo…– Houve uma breve pausa depois da afirmação. – Filha, temos algo a te pedir. – Ergui a sobrancelha, receosa. Sabia que teria que fazer o que quer que fosse de qualquer jeito, mas se eles estavam usando o termo “pedir” não devia ser coisa boa.
– E o que é, mãe?
– Gostaríamos que fosse a uma entrevista de casal, com o filho de um de nossos clientes. – Ao ver o espanto em meus olhos, ela sorriu constrangida pelo que deveria ser a primeira vez na vida. – Vai dar tudo certo, não é como s…
– Eu não vou. – interrompi-a de supetão, já havia aturado coisas de mais – Não há lógica nenhuma nisso. Se querem conquistar o apreço de um cliente o façam de outra forma, não sou obrigada a sair com um desconhecido e fingir simpatia para beneficiar vocês.
A proposta havia mesmo me irritado, sabia que começariam a pedir aquilo para mim algum dia, mas não achava que fosse já, entrevistas de casais eram um pesadelo. Basicamente, você ia a um encontro com alguém desconhecido para descobrir se tinham afinidade o suficiente para namorar, noivar e casar. O problema é que, quando a pessoa do outro lado mantém uma relação de negócios com a sua família, você meio que perde o seu direito a escolha: se ele gostar de você, novos encontros acontecerão, independente de sua vontade. E não havia nada no mundo que eu odiava mais do que ser privada de minha vontade.
– Por favor, Rachel, sem drama. – ela bufou, levantando-se – Não vai ser tão ruim assim. Você apenas precisa ser agradável por algumas horas e, depois disso, se não quiser vê-lo novamente, não precisa! – comentou irritada, eu teria concordado naquele instante se não soubesse da verdade.
– Isso é mentira e você sabe disso – sibilei, os dentes trincados – Se ele quiser sair comigo de novo e for bom para os negócios, vocês vão me obrigar a sair de novo. E mesmo que ele não queira, outras entrevistas de casal irão surgir. Eu não quero isso para mim. Não quero ter que sair com um estranho, não quero me meter nos jogos comerciais e políticos de vocês dois, eu não tenho nada a ver com isso!
– Você tem tudo a ver com isso! – exclamou Elisa e só então me dei conta de que estávamos em pé, uma de frente para outra, os narizes quase se tocando de tanta fúria. Me afastei alguns passos – Você precisa desses “jogos” para sobreviver tanto quanto nós. São esses jogos que te alimentam, compram suas roupas caras e pagam sua escola, então pare de bancar a rebelde sem causa! Você vai!
– Não vou! Você não pode me obr… — fui interrompida pela buzina do carro de Fred, apanhei a bolsa do sofá e rumei para a saída, sem dizer mais nada.
– Isso não acabou, Rachel! Eu sou sua mãe, você não pode me tratar dessa forma! – Bati a porta de casa, socando as chaves na bolsa. Atravessei o portão de ferro e sentei-me na parte de trás do carro de Fred, espremendo Nicole contra Douggie.
– E aí, Rachel? Sabe se a Mi tá pronta? – perguntou Fred, com sua insensibilidade usual. Espremi o mau-humor em uma parte bem esquecida de minha mente, queria aproveitar aquela noite ao máximo antes de me deparar novamente com o dragão.
– Não falei com ela ainda, mas conhecendo a Mi, deve estar.
Rezei internamente para que minha melhor amiga não tivesse feito nenhuma besteira em seu visual, como vestir uma blusa roxa com uma calça amarela e sapatos rosa-choque. Nicole percebeu o que eu estava pensando e riu.
– Não acho que Minerva se arrume tão mal assim sozinha, Ray. – ele comentou rindo.
– Não mais, porque quando nos conhecemos… – algumas risadas ecoaram pelo quarto, Frederick provavelmente não se lembrava da Minerva daquela época, que usava um moletom verde-bandeira do Green Peace, calças largas de moletom e all-star.
Parece estranho pensando agora, mas o motivo que me fez puxar assunto pela primeira vez com a Minerva foi eu ter achado que ela era muito bonita para se vestir tão mal. Agora, talvez, seu senso de moda houvesse melhorado um pouco. O loiro buzinou em frente à casa de Mi e ela saiu apressada, ofeguei de orgulho quando a vi. Ela trajava um vestido vermelho de alcinhas, com a saia rodada, um sapatinho creme bem vintage, um relógio e uma bolsinha transversal. Faltava apenas um colar discreto e brincos delicados para que estivesse perfeito. Resmunguei mentalmente: ela havia posto saltos mesmo com o tornozelo enfaixado, mesmo que eles fossem pequenos, aquilo era surreal. Minerva devia ser masoquista.
Ela abriu a porta do carro com um sorriso.
– Oi, gente! – Nossos olhares se encontraram e, ao ver que eu aprovara seu visual, seu sorriso se alargou. Fred a agarrou num beijo melado antes que ela pudesse dizer outra coisa e eu e Nicole nos encaramos constrangidas. Douggie os olhava de uma fixação nojenta e, estragando o clima de “fizemos as pazes” dos pombinhos, pigarreei.
– Podemos ir? – indaguei, sem os olhar diretamente no rosto. Esse negócio de ficar se agarrando em público era realmente problemático para quem assiste.
Minerva pôs o cinto, limpando o gloss que havia se espalhado por seu rosto ainda meio sem graça, Fred pisou no acelerador e, após alguns minutos, chegamos ao Barbados. Eram exatamente seis horas da tarde. Fred e Minerva adentraram o local de mãos dadas e a morena sardentinha acenou para uma mesa lotada. Uma gordinha com longos cabelos loiros e cacheados e gigantescos olhos verdes abriu um sorriso, cutucando um garoto de cabelos escuros que estava ao seu lado. Ela levantou da mesa e veio voando em nossa direção, espremendo Minerva em um abraço.
– Que bom que você veio! – disse ela, aparentando estar sinceramente empolgada. Em seguida soltou Mi e olhou para nós – Que todos vocês vieram! Quanto mais gente, mais divertido!
Confesso que nunca fui muito adepta desse tipo de filosofia, mas a menina – que pelo o que eu me lembrava se chamava Dorothy – era tão espontânea e otimista que todos nós acabamos sendo contagiados por seu humor. Agora eu entendia o porquê de Minerva ter trocado contatos com ela.
– Ainda faltam dois amigos nossos… – comentou Mi.
– Não tem problema, vamos pedir para o garçom juntar mais uma mesa de seis lugares e se precisar, fazemos o mesmo depois – a loira respondeu alegre – Vamos para a mesa, fazemos as apresentações lá.
Um garçom juntou outra mesa parra nós e acabamos nos organizando de um jeito estranho. Na primeira mesa estavam Dorothy, seu namorado Roger, seu amigo Kevin com Douggie – que já o conhecia – ao seu lado e Suzan, outra loira, porém mais tímida, ficara na ponta. Na outra mesa, Fred e Minerva sentavam ao lado de Dorothy, Nicole ao lado de Douggie e eu ao lado desta, deixando a outra extremidade da ponta livre. Segundo Dorothy, seu irmão ainda iria chegar e assim, contando com Hellen e Jason, faltariam lugares, mas depois nos ajeitaríamos.
Conversas animadas prosseguiram dando vida à mesa. Pedimos uma grande porção de esfihas de carne, queijo e frango, algumas coca-colas e kibes, conversando alegremente enquanto aguardávamos o pedido. O papo era leve e descontraído, aqueles amigos da Minerva realmente pareciam confiáveis e, além disso, eram boas companhias, especialistas em criarem risadas. Mesmo gostando da presença deles e de estar ali, minha mente estava distante, perdida enquanto imaginava o que iria dizer para os pais quando voltasse, como convencê-los a não me obrigarem a ir a tal entrevista. Minhas têmporas começaram a latejar levemente e soube que era hora de parar de me preocupar com isso, as coisas aconteceriam como deveriam acontecer, mas mesmo que eu repetisse essa frase para mim mesma a cada cinco segundos eu ainda estava aflita com tudo aquilo, meu estômago dava voltas e eu me sentia enjoada. Devo ter ficado com aquela expressão reflexiva somada ao “olhar-de-peixe-morto” de quem está completamente alheio do que o cerca, pois demorei para perceber que solicitavam minha atenção.
– Rachel Landers! — chamou Minerva, a voz levemente alterada pela preocupação. Encarei-a, assustada por ter sido brutalmente arrancada de meus devaneios.
– Você está bem? – perguntou Nicole, afinal aquele tipo de atitude não era do meu feitio. Corei, agradecendo o fato de ser negra: era quase impossível notar quando eu estava com vergonha.
– Eu… Ahn… Sim. Na verdade, só estava tentando lembrar quantas palavras o trabalho de geografia tem que ter. – desconversei, sorrindo sem graça. As outras pessoas que estavam na mesa riram comigo, aliviando o clima, exceto Minerva e Nicole. Seus olhares exibiam pontos de interrogação e eu sabia que seria questionada depois.
– Duzentas e cinquenta palavras. Nem mais, nem menos. – respondeu Douggie e nós o encaramos surpresos, ele sempre fora preguiçoso e, bem,… “Desprovido de grande capacidade de raciocínio lógico e interpretação”. O fato de ele lembrar de algo desse tipo era totalmente inédito. – O que foi? – continuou ele – Sabem em quantos sites eu tive que procurar pra achar um trabalho exatamente desse tamanho?
Mais risadas preencheram o ambiente, tornando o clima mais uma vez agradável, agradeci Douggie mentalmente por desviar as atenções de mim. Só então notei uma presença desconhecida ao meu lado, na ponta da mesa. Virei-me rapidamente e, então, eu o vi. O maxilar quadrado decorado com uma barba por fazer, a pele clara, o nariz reto, a fronte marcada, os cabelos escuros e curtos, os lábios cheios abertos em um sorriso e os olhos verdes cristalinos que me encaravam. Perdi o ar. Caramba, quem era esse homem? Parecia ser muito mais velho que todos nós ali e, no entanto, parecia tão jovem.
– Ah, desculpe-me Ray! – disse Dorothy, que já havia começado a chamar todos nós por apelidos e nos pedido que a tratássemos por Doty – Esse é meu irmão, Noah. Você estava viajando quando ele chegou, então não deve ter percebido…
– Prazer, Rachel – comentei com um sorriso aberto – Desculpe, não tive a intenção de te ignorar… – brinquei, um pouco sem jeito. Eu queria bater com a minha testa na mesa, Adônis encarnado estava ao meu lado e eu simplesmente não tinha notado. Ele riu, exibindo dentes brancos e perfeitamente retos.
– Sem problemas!
Nesse momento as esfihas chegaram, apanhei uma de queijo e espremi levemente o limão por cima dela, mastigando-a devagar enquanto raciocinava. Noah era um cara incrivelmente gato e simpático que estava sentado ao meu lado e, aparentemente, ele era o irmão mais velho da Dorothy, embora eles não se parecessem…
– Rachel, pode me passar um limão, por favor? – pediu o recém-chegado que mais se parecia com um modelo da Calvin Klein e eu lhe estendi o fruto com um sorriso que não mostrava os dentes, já que estava de boca cheia – Obrigado!
– Hey, Noah – chamou Fred – Quantos anos você tem, cara? – perguntou ele. Como sempre, Frederick não possuía muita noção do que era ou não indelicado para se perguntar. Um lado meu o recriminava, outro agradecia. Eu também queria saber.
Noah desabotoou o primeiro botão da camisa social azul clara que usava – sim, eu fiquei encarando na expectativa de que ele desabotoasse outro, você também ficaria – e engoliu o pedaço de esfiha de carne que mastigava.
– Vinte e sete, quase vinte oito. Sou quase onze anos mais velho que vocês, acho – ele comentou, fazendo uma expressão engraçada, como se estivesse insatisfeito com a sua “velhice”. Como se previsse as outras perguntas que o loiro faria para ele, continuou. – Eu e Doty não somos irmãos biológicos, sua mãe me adotou quando eu tinha dez anos, pouco antes de engravidar dela. Foi praticamente um milagre, é difícil alguém ser adotado com mais de dois anos de idade. É ainda mais difícil os pais não devolverem a criança para o orfanato depois de terem um bebê.
– Noah! Mamãe nunca faria isso! – disse Dorothy, parecendo desconfortável com o assunto. Ele riu mais uma vez. Alguma coisa naquele riso me dava vontade de abraçá-lo até meus braços começarem a doer.
– Eu sei, Doty, só estou dizendo o que costuma acontecer! De qualquer forma, eu cresci cuidando dessa pimentinha, e conheço quase todos os amigos dela, fazemos quase tudo juntos até hoje! – ele sorriu mais uma vez, e a conversa mudou novamente.
Processei aquilo, a história me era familiar. Qual era o sobrenome deles mesmo? Slengh. Caramba, eles era os Slengh! A mãe deles era diretora de um colégio público e ativista em diversas causas, por isso os filhos foram estudaram em um colégio público também. Havia rumores de que ela pretendia adotar mais uma criança e ela vivia organizando festas beneficentes. O pai deles possuía uma das únicas empresas capazes de rivalizar com a de meu pai. Engoli a esfiha com força, rezando para que senhor Levy Landers jamais descobrisse que jantei com a família Slengh.
Me perdera em devaneios novamente, mas dessa vez acabei voltando sozinha, apenas para me deparar com uma mesa cheia de casais se beijando. Fred e Minerva se agarravam e eu podia ver que minha amiga estava vermelha, envergonhada com a situação. Roger e Doty se beijavam com tanta intensidade que pareciam estar prestes a se fundir. Kevin cantava Suzan e Douggie estava tentando – sem muito sucesso – conseguir algo com Nicole. Olhei para Noah, visivelmente constrangida.
– É algum tipo de competição para ver quem tem o beijo mais longo ou qual é o casal mais feliz da noite? – brinquei, tentando tirar aquela pressão do tipo “agora me agarre Noah” de minha cabeça. Ele riu mais uma vez.
– Não, mas acho que poderia ser. Quer me ajudar a contar quanto tempo aqueles dois ali levam para conquistá-las? – ele perguntou com uma piscadela, mexendo a cabeça na direção de Kevin e Douggie. Os dois nos encararam num misto de irritação e vergonha. Suzan riu baixinho e Nicole fez uma expressão de nojo. Ri com gosto, sendo acompanhada por Noah. Senti meu celular vibrar e peguei-o de dentro da bolsa. Um número desconhecido me ligava.
– Com licença – pedi, levantando-me da mesa e saindo do estabelecimento. Assim que pisei do lado de fora, me deparei com Jason e Hellen se engolindo encostados na moto do rapaz. Céus, o que estava acontecendo hoje? O universo parecia estar esfregando em minha cara que eu era B.V.! Virei-me de costas para o casal e atendi ao telefone.
– Alô, Rachel? – disse uma voz masculina do outro lado da linha.
– Quem fala? – perguntei impaciente.
– Aqui é o Oliver. Tentei falar com a Minerva, mas não consegui, então pedi seu número para um dos estudantes.
– O quê? Ahn? – Aquilo era muito estranho. O que o novato queria agora? – Do que você precisa? E quando foi que a Mi te deu o número dela?
– Não deu, eu pedi também – eu podia imaginar o ruivo corando – Foi mal, só conheço vocês duas. O problema é que eu não tenho a data de nenhum trabalho, aliás, nem sei se tenho que fazer algum trabalho. Me disseram que está no site, mas não consigo achar… – Ele parecia envergonhado. Segurei uma risada.
– Abra o portal do aluno e clique em área restrita. Então, digite o número de sua matrícula e a senha que cadastrou na biblioteca. Feito isso, vai ter um link do lado esquerdo da tela com o título de “Projetos Acadêmicos”. Clique nele e, em seguida, em pendentes. Você vai encontrar as especificações de todos os trabalhos ali.
– Ah, muito obrigado, Rachel! Até! – disse ele, desligando em seguida. Esse garoto era mesmo um caso curioso. Estava prestes a voltar para dentro quando recebi uma mensagem.
“Estou ansioso por nossa entrevista. Nos vemos sexta, às 20h. Te buscarei em casa. Esteja elegante. – E. O.”
Um arrepio percorreu minha espinha. Se esse cara já estava agindo assim antes de me ver, não podia ser um bom sinal. Fechei os olhos e segurei-me na mureta que cercava o jardim artístico do local, levemente tonta.
– Você está bem, Rachel? – perguntou uma voz grossa atrás de mim. Não a tinha ouvido muitas vezes, mas sabia quem era.
– Estou Noah, me desculpe por te deixar sozinho no meio daqueles pervertidos. – Sorri para ele, abrindo os olhos. As têmporas haviam voltado a latejar.
– Hmm, não acredito em você. – ele sorriu maroto, me surpreendendo. – Mas se não quer comentar, não vou pressioná-la. – Noah puxou minha mão e a apertou em um ponto entre o polegar e o indicador. Soltei um ganido de dor e puxei-a para mim, mas ele segurou meu pulso – Shiatsu. – explicou ele, me encarando – Dói um pouco agora, mas vai fazer sua dor de cabeça passar.
Olhei-o surpresa, como ele sabia? Noah soltou minhas mãos e eu perguntei.
– Está tão na cara assim? – Ele pareceu refletir.
– Não sei. Talvez eu só tenha me tornado sensível para isso, tenho sofrido com dores desse tipo há alguns anos. – Sorri, eu sabia o porquê.
– Realmente, não deve ser fácil controlar as finanças de uma empresa tão grande quando a Slengh. Ainda mais quando se está engajado nos projetos de pesquisa ao mesmo tempo. – Ele me encarou, levemente surpreso e foi a minha vez de piscar para ele. – É meio impossível não saber dessas coisas sendo uma Landers. – ele pareceu compreender, algum sentimento piscou em seu olhar, mas foi rápido demais para que eu pudesse compreendê-lo.
– Rachel, posso te chamar para sair qualquer dia desses? – ele indagou, me surpreendendo. Nós podíamos sair? Percebendo minha confusão, ele me encarou. – Não como Slengh e Landers, mas como Noah e Rachel.
Nos encaramos por um longo tempo, pesando as consequências. Eu sabia a diferença entre ser a Rachel e ser uma Landers, o Noah ou um Slengh. Ele também. E nós sabíamos que, talvez, essa diferença não fosse visível para ninguém além de nós dois. No mundo dos negócios, sua família e empresa falam muito mais alto do que você mesmo. Mas eu queria sair com Noah. Mesmo se ele fosse um Slengh. Mesmo que ele fosse quase onze anos mais velho. Mesmo que ele me deixasse nervosa com os menores atos. Senti meu coração se apertar e soube que precisava ser realista.
– Tenho certeza de que vamos nos ver mais vezes Noah, seremos ótimos amigos. – Sorri, escondendo minhas vontades pessoais em nome da sobrevivência. Em nome de algo que eu nunca pedi para ser. – Vamos entrar? – ele sorriu e concordou.
Senti meu peito se apertar mais uma vez enquanto caminhava para a mesa dizendo “Vocês perderam, beijo mais longo foi o de Hellen e Jason, que estão lá fora” e assistia os garotos pularem da mesa para atormentar o casal. Racionalizei tudo mais uma vez. Ele não era Romeu Montecchio e eu não era Julieta Capuleto. E mesmo que fôssemos simplesmente não ia acontecer. Eu sempre fora do time que achava Shakespeare uma grande bobagem.
O resto da noite passou como um borrão. E, quando me dei conta, estava no meu quarto, trocando as roupas frescas por um moletom qualquer. Aparentemente, minha mãe decidira deixar a conversa para amanhã. Tudo bem, ainda era segunda e eu tinha até as 19 horas de sexta para fazê-los mudar de ideia. Deitei-me na cama, enrolando-me no cobertor que cheirava a amaciante e tentei dormir. Mal havia fechado os olhos quando escutei pedrinhas batendo em minha janela. Quem poderia ser àquela hora?
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