Depois do Clichê
5 Capítulo 5 – Clichê: Jogos Perigosos
Notas iniciais
Lá estava eu, jogando pedrinhas na janela de minha melhor amiga. Ela estava mal, eu sabia. Rachel era capaz de esconder tudo de quase todo mundo. Eu era uma das poucas exceções. E, graças a minha ótima capacidade de investigação, não demorei muito para descobrir a causa de seu mal-estar e bolar um plano. Depois de muita insistência, conseguira convencer Fred a me levar até a casa de Rachel novamente e me deixar ali. Eu havia trocado o vestido vermelho por uma confortável e puída calça jeans escura e um suéter de lã branco: o tempo estava virando. Joguei outra pedrinha e, exatamente nesse instante, Ray abriu a janela, o projétil atingindo-a na testa. Ouvi-a resmungar e sussurrei.
– Head shot! – ri e liguei em seu celular, não podíamos gritar ali se não quiséssemos acordar os “dragões”, apelidos que demos para os pais dela há muito tempo atrás. Ela atendeu.
– O que está fazendo aí, Minerva? – perguntou ela com um sussurro irritado.
– Vem comigo, preciso te mostrar uma coisa! – disse apenas.
– Mas…
– VEM-CO-MI-GO! – repeti de forma pausada. Ela suspirou.
– Tenho tempo de por uma calça jeans? – Comemorei por dentro – Esquece, desço em cinco minutos.
Ela fechou as cortinas e eu saí de seu jardim, aguardando-a de frente para o portão. Aquela chave escondida dentro de um espaço oco em uma das palmeiras que decoravam a entrada era um de nossos melhores segredos. Alguns minutos depois ela desceu, fechando a porta com cuidado. Usava uma calça jeans simples, um moletom com Einstein estampado na frente e um all-star.
– O que queria me mostrar? – perguntou.
– Não está aqui, tem que vir comigo a um lugar. – comentei animada, segurei sua mão e saí arrastando-a até a estação de metrô que ficava a algumas quadras dali. Esse era um ponto mais do que positivo da casa de Rachel: ficava perto de quase tudo!
– Minerva, para onde estamos indo?! – Ela estava irritada, sabia que odiava não entender o que acontecia ao seu arredor. Encarei-a.
– Relaxe e confie em mim. Precisamos conversar, Srta. Landers. – disse séria, ela engoliu em seco. Sabia que eu era uma das poucas pessoas para quem não conseguiria mentir, nos conhecíamos há muito tempo.
Chegando à estação, paguei nossas passagens e conduzi-a até uma das linhas. Encarei o visor que indicava o horário do próximo trem. E soube que não precisaríamos esperar mais do que um minuto.
– Sabe, Ray, você deveria saber que não consegue esconder as coisas de mim. – Suspirei, pensando em como seria mais fácil se ela tivesse dito de cara que estava a fim de Noah – É muito mais fácil de resolvermos tudo quando você simplesmente abre o jogo.
Ela abaixou a cabeça, segurando algumas lágrimas, eu sabia. Baguncei seus cachos e, quando ela encheu os pulmões para me responder, o metrô parou em nossa plataforma. Empurrei-a para dentro do trem antes que ele ficasse super-lotado – já que, por algum motivo, os metrôs estão sempre lotados – e nos esprememos em um canto. A enorme quantidade de pessoas deixava o ambiente abafado, de modo que seguimos em silêncio até a próxima estação.
Depois de cerca de meia hora, descemos na plataforma correta e caminhamos mais duas quadras em silêncio, a essa altura, Rachel sabia que não adiantaria me perguntar nada. Paramos em frente a um parque de diversões brilhante e eu entreguei dois tickets ao sonolento moço da bilheteria, que liberou as catracas.
– Okay, Minerva, já chega. Aonde está me levando? – ela perguntou irritada e um pouco assustada também. Sabia que aquilo não era de meu feitio. Apenas prossegui em silêncio e entrei com ela no Labirinto do Minotauro, um pequeno labirinto montado com cercas vivas. Andamos juntas por algum tempo até chegarmos a entrada que dava para o centro. Apontei para lá com o dedo.
– Você tem que entrar ali sozinha. – comentei solenemente.
– O quê?! Por quê?! – Ela arregalou os olhos – Minerva, você está estranha. Estou com medo!
Revirei os olhos.
– Acha mesmo que eu ia colocar você numa fria? – Ergui a sobrancelha – Entra ali logo, que enrolação!
Rachel engoliu em seco e entrou. Segundos depois ouvi um ofego e uma exclamação alta, feita com a voz embargada.
– Noah! – Sorri, sabendo que nosso plano havia dado certo. Ouvi-a se jogar nos braços dele e alguns sons de beijos invadiram o espaço. Soube que era hora de voltar para não invadir sua privacidade.
Saindo do labirinto, senti meu braço esquerdo ser puxado. Como que por impulso, lembrei-me de algumas técnicas que Fred havia me ensinado e, com o punho esquerdo fechado, acertei onde havia calculado ser o nariz do agressor.
– Ai! – exclamou o loiro enquanto me soltava – Pra que toda essa violência, amor? – perguntou Frederick, segurando o nariz com as duas mãos. Senti meu rosto ficar vermelho e os olhos se encherem de lágrimas enquanto meu nariz inchava. Ele estava sangrando.
– A-a culpa é sua! – comentei irritada, fungando – Fica me agarrando, e-eu não sabia quem era – Funguei de novo e ele me encarou preocupado. Ao olhar dentro de seus olhos castanhos desmoronei. – Me de-esculpe, eu nã-ão queria...
Antes que pudesse falar mais alguma coisa, ele soltou uma estrondosa gargalhada, bagunçando meus cabelos em seguida.
– Tudo bem, Mi, pelo menos você aprendeu algo que te ensinei! – Ele ria como uma criança, enquanto beijava meu rosto que estava espremido entre suas mãos. Tentei me afastar, mas em segundos ria com ele. – Pronto, agora que passou o drama, dá pra me emprestar aquela sua bolsinha de remédios?
– Deixa que eu faço isso – pedi com um suspiro.
Peguei meu pequeno kit de primeiros socorros da bolsa, item essencial para a sobrevivência de uma garota hipocondríaca como eu. O nariz já havia parado de sangrar, então limpei a sujeira com um algodão umedecido em um antisséptico, em seguida, apliquei um pouco de pomada Gelol na parte externa de seu nariz e, após limpar as mãos, dei a ele um paracetamol, cedendo minha garrafinha para que engolisse o comprimido.
– Exagerada – Fred revirou os olhos e eu ri, enquanto guardava as coisas em minha mochila.
Demos as mãos e caminhamos para fora do parque, sem notar que estávamos sendo observados. O loiro me deixou em casa, pois a noite havia sido longa, e deu-me um selinho.
– Te vejo amanhã na aula de física? – indagou. Sorri e disse com os lábios colados aos dele.
– Como de costume... – Nos beijamos mais intensamente e então desci de seu carro e abri o portão de casa e o tranquei, rumando para a porta enquanto ouvia seu carro se afastar.
Entrei em casa e, assim que fechei a porta, notei um grosso envelope pardo na mesa de centro. Estranho, os correios passavam nas terças e quintas, ainda era segunda. Apanhei o envelope que estava endereçado a mim e o examinei, não havia remetente, sinal de que havia sido entregue pessoalmente. Abri-o ansiosa. Frederick e eu estávamos tão bem que eu era capaz de apostar que aquilo deveria ser uma surpresa dele para mim. Ainda bem que não apostei, teria errado feio. Apanhei o elegante papel carta e comecei a ler.
“Boa noite, senhorita Petterson. Como está?
Imagino que muito satisfeita e realizada, visto que acaba de auxiliar sua preciosa amiga, Rachel Landers, em uma empreitada perigosa. Perigosa não só porque seu estimado casal é tão improvável e proibido quanto Romeu e Julieta, mas também pelo motivo de que a Senhorita Landers já possui um compromisso marcado com a minha pessoa e, talvez seja interessante lhes informar, de que além de não gostar de quando tentam me passar para trás, tenho o péssimo hábito de não apreciar ter de levar desaforos para casa. Combine essa duas características ao meu caráter levemente sádico e terá uma combinação interessante.
No entanto, sou acima de tudo um diplomata. Jamais imporia algo sem antes buscar um acordo que fosse benéfico às duas partes envolvidas e é por isso que quero lhe convidar para um café. Meus seguranças e motorista lhe buscarão na entrada principal da Western High School ao final de sua aula para que possamos chegar a um acordo, mas não se preocupe, será com certeza algo breve e agradável. Por favor, não comente com nossa doce Rachel, saberei se o fizer e me irritaria muito se você dissesse a ela qualquer coisa que diminuísse a empatia que possui por mim. E você não quer me ver irritado, Minerva Petterson.
Por fim, porque não antecipar a pauta de nosso agradável café? É algo bem simples na realidade. Nós dois desejamos a felicidade de Rachel, o melhor para ela. Em breve você perceberá que este melhor se encontra bem distante da família Slengh. Preciso de você para garantir a felicidade de quem amo, não é uma causa justa?
Ansiosamente, E.O.”
Minhas mãos tremiam. Desabei no sofá assim que terminei de ler, o envelope caiu de minhas mãos e o resto do conteúdo se espalhou pela sala. Diversas fotos minhas e de Rachel jaziam sobre a tapeçaria indiana. Fotos de nós juntas ou separadas, em nossa escola, nossos clubes, nossa casa... Segurei a respiração para não chorar de medo, eu estava apavorada. Aquela carta havia sido depositada ali poucos minutos antes de eu chegar e ninguém a havia recebido, pois Anne saía às 19h. Alguém havia extraviado o alarme, arrombado minha porta ou janela, colocado o envelope ali e saído calmamente, consertando tudo depois. Nunca me sentira tão vulnerável em toda minha vida. Seja lá quem aquele E.O. fosse, Rachel estava encrencada. E eu também, ao que parecia. Respirei fundo, buscando me acalmar. Soletrei a palavra “inconstitucionalissimamente” sete vezes, até que criei coragem para guardar as fotos e a carta novamente no envelope. Considerei ligar para a polícia, mas, considerando as circunstâncias, optei por não fazer isso. Eu tinha a impressão de que este tal de E.O. não precisava se preocupar muito com coisas desse tipo.
Caramba, no que Ray havia se metido? Será que foi por isso que ela recusou Noah no restaurante, por estar sendo ameaçada? Tremi. Apanhei o celular e liguei para ela que atendeu na quinta chamada.
– Mi? – Soltei a respiração, aliviada.
– Oi, Ray, você está bem? Só liguei para saber se gostou da surpresa! – Minha voz devia estar me traindo. Eu sempre fora uma péssima mentirosa.
– Ah... Estou sim, ainda estou com o Noah. – Pausa. – Tudo bem com você?
– Tudo ótimo! Nos falamos amanhã! – desliguei. Incapaz de prosseguir mentindo. Pelo menos ela estava bem. Meu celular vibrou.
“Boa garota, não diga nada desnecessário, em?! – E.O.”
Tremi.
“Pode deixar.”
Respondi, colocando o aparelho no modo avião em seguida. Fui para o banho, mas a água quente não era capaz de aliviar a tensão de meus ombros. Desliguei o chuveiro, vesti o pijama, escovei os dentes e deitei. Depois de algumas horas me revirando sem ser capaz de dormir, finalmente peguei no sono.
Acordei ao som do despertador estridente tocando em meu ouvido, com a horrorosa impressão de que não havia dormido nada. O grosso envelope em minha escrivaninha me fez lembrar do tenebroso dia que teria pela frente. Suspirei. Vesti uma calça jeans e um moletom branco, simples. Escovei o cabelo e os dentes e desci as escadas, pegando uma maçã, para o caso de sentir fome no caminho, embora soubesse que isto não aconteceria. Fui andando, pois estava bem adiantada e não pretendia deixar minha bicicleta na escola quando tivesse de me encontrar com E.O.. O som de minhas passadas ecoava em minha mente enquanto tentava me decidir sobre contar ou não a alguém. Mas era inútil, sabia que não podia fazer aquilo. Ele parecia prever meus movimentos, a prova disso eram as mensagens que chegavam a cada meia hora, servindo como lembretes ou orientações.
Hoje eu não possuía nenhuma aula com Rachel e apenas a primeira era com Fred – que se atrasou e acabou tendo de sentar longe –, de resto, havia apenas amigos não tão próximos em aulas conjuntas e as conversas despreocupadas com Molly, Rick, Julia e Gastan ocuparam minha mente o suficiente para que eu não tivesse um infarto. Quando o sinal do intervalo tocou, não desci até o refeitório, rumando direto para a sala de inglês, onde teria as duas últimas aulas do dia e devorando minha maça lá mesmo, quebrando pela primeira vez a regra que nos proibia de comer em sala. Recebi uma sms de Rachel perguntando onde eu estava, a qual não respondi, e uma do misterioso e assustador stalker, solicitando que eu permanecesse onde estava.
As horas se arrastaram, mas finalmente o sinal tocou. Soquei o material na mochila e desci as escadas correndo. Enquanto lia a mensagem que havia chegado há segundos atrás.
“Apresse-se. Estamos te esperando. – E.O.”
A confusão de adolescentes me ajudou a esconder-me de Rachel e Frederick, que deveriam estar preocupados com meu sumiço no intervalo. De longe avistei um Rolls Royce preto estacionado bem em frente ao colégio, com um segurança bem vestido aguardando do lado de fora. Apertei o passo e cheguei até ele.
– Minerva Petterson. – apresentei-me estendendo a mão direita. Ele simplesmente abriu a porta de trás do carro para que eu entrasse. Antes que a porta se fechasse, tive a impressão de ter ouvido alguém chamar meu nome, mas logo em seguida os motores aceleraram e partimos, rumo a uma conversa que não parecia ser nada agradável. 
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