Completamente sem jeito, Mariane não sabia com agir naquela situação inusitada, não estava acostumada a se sentir tão vulnerável e desprotegida, sempre foi cuidada e mimada, jamais passou por privações, porém Joana percebeu seu constrangimento e mostrou-se uma boa anfitriã.

— Quer tomar um banho? – Perguntou, com um sorriso simpático.

Mariane apenas sacudiu a cabeça afirmativamente, se sentia cansada e grudenta de suor pelo calor e ansiedade. Então, Joana a levou para os fundos da casa, em um pequeno recinto de paredes desbotadas e descascadas e o piso de cimento áspero, pegou o grande balde que estava no chão, foi para o quintal escuro, depois ouviu-se o barulho de algo batendo na água e em seguida sendo puxando. Logo ela retornou, andando com dificuldade devido o peso do recipiente cheio de uma água não muito límpida, colocou o novamente no chão, onde estava antes, pegou uma caneca de alumínio meio amassada, que ficava pendurada em um prego na parede e jogou dentro dele, indicando qual seria a forma do banho

— Tem sabonete ali — Apontou para uma saboneteira na borda da janelinha do banheiro e, depois, para o vaso sanitário com assento cor de rosa. – Se quiser usar guarde um pouco de água para jogar nele depois. Vou trazer toalha limpa e ver se tenho alguma coisa para você vestir, saiu deixando Mariane sozinha, que começou a se despir, dobrando a sua roupa com cuidado, procurando um lugar para colocá-las e não ficarem molhadas, o único local era a janelinha e ela colocou as ali, com muito cuidado, usou o vaso, pegou a canequinha, mergulhou na água do balde, que tinha um cheiro um pouco estranho e estava fria, mesmo assim foi bom jogá-la no corpo, depois pegou o sabonete já usado, também jogou água nele, na tentativa de limpá-lo, e passou no corpo, finalmente, se enxaguou, tomando cuidado de deixar a água para usar no vaso sanitário.

— Tome a toalha e uma roupa limpa! — Joana gritou do lado de fora do banheiro.

Mariane esticou o braço para fora da porta e pegou-as e já pronta, saiu do banheiro com um vestido muito curto e largo para ela.

— Obrigada – Mariane agradeceu, com sinceridade, sabendo que Joana não precisava fazer nada daquilo por ela.

— Não ficou tão ruim – Joana comentou, inspecionando-a com atenção. – Agora, eu vou tomar banho, depois eu faço alguma coisa para a gente comer, porque daqui a pouco a luz acaba, sempre assim quando tem tempestade – ela comunicou, conformada, e saiu para pegar água no poço do quintal para o seu banho.

Mariane sentou se no sofá, sentindo-se muito cansada, encostou a cabeça no encosto e estava quase cochilando, pensando quando tempo levariam para sentirem sua falta e fosse procurá-la.

O vento estava mais intenso, fazendo tremer e ranger as janelas e porta, que pareciam que iriam se desmontar a qualquer momento. De repente, trovejou forte e a porta escancarou, abruptamente, assustada, Mariane deu um pequeno grito, e achou que tinha sido por causa do vento, até ver parado na soleira, um menino magrinho e mirrado de cerca de dez anos, de cabelos encaracolados, precisando de um bom corte e a pele morena muito queimada de sol, com um olhar feroz de um tigre pronto para o ataque, ela se assustou.

— Então, a vadia da minha irmã voltou e trouxe outra vadia com ela! – O menino falou alto, acintoso.

— O quê? — Mariane gritou, assustada, não sabendo que estava ocorrendo ali.

— É isso mesmo! – O menino falou em tom de desafio.

— Você não me conhece com ousa me chamar disso! – Mariane rebateu, indignada. – E quem é você?

— Meu nome é José, sou irmão da Joana. E você quem é? – Apesar de ser bem menor do que ela, garoto a enfrentou erguendo o queixo de modo petulante, dando um passo para dentro da casa.

— Meu nome é Mariane, e estou hospedada aqui, porque estou com problemas, e sua irmã fez a gentileza de me ajudar – respondeu Mariane, resoluta, encarando o garoto.

Joana apareceu correndo, envolta em uma toalha com ar assustado.

— Que confusão é essa? José, você não vê que esta assustando a moça? Peça desculpa! – Ela ralhou com o garoto.

— Desculpa, moça – José mudou de tom, imediatamente, parecendo arrependido.

— O que você está fazendo aqui, José? Não vê que vai chove daqui a pouco! – Joana perguntou, aflita.

— Eu trouxe alguns peixes para você. – José respondeu, calmamente, erguendo para mostrar dois peixes bem fresco pendurados por um fio – E vim ajudar você a prender as janelas. Eu ouvi que você tinha voltado.

— Prender as janelas? – Mariane quis saber, sem entender.

— Porque quando o vento vem forte, escancara tudo, entra água – José explicou, como se fosse óbvio.

— Deixe os peixes em cima da pia. Vou botar uma roupa e te ajudo – Joana ordenou.

— Não precisa, eu faço sozinho. Vai fazer a comida! – José rebateu, pois já se sentiu forte o suficiente para tal responsabilidade.

— Eu ajudo – Mariane se ofereceu, sentindo-se na obrigação de fazer algo por Joana, em agradecimento a sua hospitalidade, porém, simplesmente, não sabia como, em outra circunstância compraria um presente bem caro para ela, mas, nesse momento, não tinha um centavo.

— Você? – José questionou, olhando para Mariane, um sorrisinho debochado. – Com esses braços fininhos não aguenta o martelo!

— Para de implicar com a moça, José! Quer saber? Vocês é que se entendam! – Joana disse, dando de ombros, para finalizar o impasse. — Vou fazer o jantar! – Pegou os peixes da mão do garoto e saiu da sala, deixando os dois frente a frente, se encarando.

José foi o primeiro a se mexer, indo até a estante, abriu a gaveta mais baixa, tirou um martelo, pregos e pequenos pedaços de madeiras, depois andou até janela da frente, pegou a madeira e colocou entre as duas partes da janela.

— Segure aqui! — Ele mandou para Mariane.

— Aqui onde? – Mariane perguntou, insegura.

— Aqui! –José disse, com impaciência, apontando, para o meio da madeira.

Mariane segurou a madeira, com medo de levar uma martelada nos dedos, percebeu que já havia vários buracos antigos de pregos, em outros lugares da janela, demonstrando que aquele tipo de operação já tinha sido feito antes, várias vezes. Apesar de pequeno, José tinha muita habilidade e bastante força no manejo do martelo, acabaram rapidamente, ela o seguiu para os quartos que de tão pequenos praticamente só cabiam as camas de casal, onde subiram para repetir a operação, podiam ouvir o vento cada vez mais forte lá fora e a chuva começando a cair.

— A comida está pronta! – Joana anunciou, assim que terminaram.

O ar estava impregnado do cheiro de peixe frito.

Eles sentaram-se nos banquinhos em volta da mesa, um cada prato havia um pedaço de peixe frito, arroz e algum tipo de batata, que Mariane não reconheceu e, no instante que começaram a comer, acabou a luz. Sem dizer nada, Joana se levantou pegou uma vela e uma caixa de fósforo, em cima da geladeira, e acendeu e a colocou no centro da mesa em pratinho.

— É sempre assim quando chove – Joana revelou, resignada.

Depois de um tempo, comeram em silêncio. José e Joana observaram, curiosos, Mariane usando garfo e faca, tirando as espinhas do seu peixe com todo cuidado, depois, entreolharam-se e deram de ombros.

— E o pai e a mãe? — Joana perguntou para José, depois de um certo tempo.

— Bem – José foi econômico com as palavras.

— Trouxe dinheiro para os remédios da mãe – Joana comunicou, sem emoção na voz.

— Joana, você sabe que o pai não quer o seu dinheiro! – José retrucou, com certa mágoa.

— Mas, a mãe não pode morrer por causa disso! – Joana rebateu, preocupada.

— A gente dá um jeito – O garoto deu de ombros

Mariane ouvia tudo, sem compreender aquela história, percebeu que havia uma briga de família ali, mas não achava educado perguntar sobre isso. Lá fora o vento aumentou ainda mais, uivando com uma fúria selvagem e a chuva piorou, podia se ouvir o seu som golpeando com força o telhado.

— Vou para casa! – José anunciou, levantando-se.

— Por que não dorme aqui? Já está chovendo e é perigoso – Joana argumentou, sem disfarçar o seu receio.

— Que nada! Eu chego rápido! É perto e a mãe já deve estar preocupada porque não apareci – ele deu um sorriso travesso.

— Ela não sabe que eu voltei? – Joana perguntou, ansiosa, a José.

— Não! Até. – E foi para a porta, Joana o seguiu e ficou o observando correr na chuva, com olhar tenso até ele sumir na escuridão.

— Meus pais moram perto. Não vai ter perigo. – Joana falou para Mariane, contudo queria convencer a si mesma e continuou fechando a porta e colocando uma madeira atravessada atrás dela. – Você deve estar cansada? Precisa dormir um pouco. Vem!