Depois da tempestade

6 No meio da tempestade


Joana pegou a vela em cima da mesa e protegendo a chama com a mão, levou Mariane para um dos quartos, onde ela já estivera antes, ajudando José com as janelas. Atravessaram a cortina colorida, que servia de porta, reparando nos detalhes do lugar. No quarto, que cheirava mofo e perfume adocicado, havia uma cama de casal antiga e castigada com a cabeceira de madeira escura e estava coberta com uma colcha de cetim cor-de-rosa com bordados em tom mais escuro, ao lado dela, uma penteadeira, repleta de maquiagem e vidro de perfumes baratos e um abajur rosa-choque, e do outro lado, um guarda-roupa com um espelho na porta, com as bordas descascadas. Todos os móveis seguiam o mesmo estilo antiquado e tudo estava muito apertado, dentro daquele espaço minúsculo.

— Aqui era o quarto de uma colega, Alzira. Mas, não se preocupe, porque ela não volta tão cedo, talvez, nunca mais, se meteu com o cara errado, um traficante, e agora está presa na capital – Joana explicou, resumidamente, a história da dona daquele quarto. Mariane ouvia tudo, um pouco receosa e abismada, mas Joana continuou.

— O que ela fez? – Mariane quis saber se encolhendo.

— Meteu a faca na barriga de um sujeito que atirou no homem dela.- Os olhos de Mariane se arregalaram. — Tem algumas roupas que ela deixou, pode usar se quiser. Ela era menor, mas você é muito magra, devem servir.

— Tem roupa de homem aqui, também! – ela disse, surpresa com o achado, ao abrir a porta do armário, que batia na cama.

— Eram do namorado dela, o tal traficante. Ele veio aqui algumas vezes, deixou algumas roupas para trás. Mas esse, com certeza, não volta mais! – Joana finalizou, em tom de brincadeira.

— Quer dizer que ele morreu? – Mariane perguntou admirada.

— Um concorrente acabou com ele, me disseram que foram mais de dez tiros! – Joana afirmou, achando graça naquele fato.

Que história! Que situação! Onde foi que eu me meti? Mariane pensava, desesperada pelas circunstâncias, sem ver uma saída, abraçando-se e esfregando os braços para aliviar sua angústia.

Joana usou a vela, que estava na sua mão, para acender outra, que estava em cima da penteadeira.

— Tem fósforo aqui do lado, caso essa vela apague. Mas, cuidado! Não durma com ela acesa, porque pode pôr fogo na casa. Boa noite! – Joana recomendou, e saiu do quarto.

— Boa noite e obrigada, Joana!

Sozinha no quarto, a luz da vela, Mariane sentou-se na cama e viu sua imagem, na bruxuleante luz da vela, irreconhecível no espelho da penteadeira, descabelada, sem maquiagem e com uma roupa emprestada, grande demais para ela, imaginou, outra vez, quanto tempo levariam para sentirem sua falta e começarem a procurá-la, lágrimas correram na sua face, que ela enxugou com as mãos, sentindo muita raiva de Marcelo, por tê-la abandonado a colocando em uma situação como aquela e, principalmente, dela mesma, por ser tão burra e não ter avisado a ninguém sobre o verdadeiro destino da sua viagem. Agora, estava nesse lugar horrível, dependendo de favores dessa gente estranha, sem dinheiro ou maneira de sair dali. Apagou a vela, puxou a colcha da cama e deitou-se embaixo dela, acomodando o travesseiro, demorou a dormir devido o barulho assustador da tempestade e do vento lá fora. Finalmente, exausta, caiu no sono. Acordou no meio da noite, com as janelas sendo sacudidas pelo vento forte, como se tentasse arrancá-las, depois passou a ouvir o barulho de pingos d’água ao seu lado, na escuridão, passou a mão da parte vazia da cama e a encontrou molhada, percebendo que era uma goteira. Levantou-se com medo da janela acabar caindo em cima dela, ouviu ruídos de tilintar de metal vindo da sala, tateando sobre a penteadeira, achou a caixa de fósforo e a vela, a acendeu e foi até lá. Na sala, Joana espalhava baldes e panelas, tentando conter a água que caiam das várias goteiras do telhado.

— É sempre assim quando chove – ela informou, com um suspiro resignado, no momento que viu Mariane em pé na porta.

— Quer ajuda?

— Não precisa, já acabei – Joana sacudiu a cabeça, arrumou o fino penhoar para esconder mais seu corpo, na camisola minúscula.

— Está chovendo muito! – Mariane estava assustada.

— É a época do ano, aqui chove muito, é pior quando tem furacão – Joana esclareceu, sem emoção na voz.

As duas se sentaram no sofá, a luz das velas, e ficaram observando as panelas encherem devagar pelas goteiras.

— E você, Mariane, o que faz por aqui sozinha?

— Eu estava fugindo – Mariane disse, calmamente, hipnotizada pelas gotas que caiam na panela em frente dela.

— Você fez alguma coisa errada? Cometeu algum crime?

— Não, na verdade, estou me escondendo das pessoas – Mariane prosseguiu, sem tirar os olhos da panela a sua frente.

— Se escondendo? – Joana ficou curiosa, a interrogou com o olhar.

— Eu estava noiva, com festa, cerimônia, vestido, tudo pronto. Faltava um pouco mais de um mês para o casamento, quando meu noivo me disse que não poderia mais casar comigo, porque estava apaixonado por outra mulher – Pela primeira vez, ela contou a sua história para alguém, com todos os detalhes e as lágrimas desceram pelo rosto de Mariane

— Que cachorro! Miserável! Largar você por uma qualquer! Foi por isso que você veio parar aqui? – Joana se solidarizou com ela, morrendo de pena daquela moça bonita e de fino trato, completamente perdida e abandonada, nunca duvidou da história que ela lhe contou, podia ver nas roupas que usavam, nos seus cabelos e pele bem cuidados que ela deveria ter tido dinheiro, imaginou, como havia chegado àquela situação, de repente, o canalha do seu noivo a largou na miséria, já viu isso acontecer antes com algumas das garotas do seu trabalho, ainda bem que não estava de barriga.

— Eu quis fugir, desaparecer, não suportava mais aquelas pessoas a minha volta cheias de curiosidade e falsidade, queria estar em um lugar, onde ninguém me conhecesse e vim parar aqui sozinha, deu no que deu. Eu perdi tudo e a mim mesma – Mariana deu de ombros.