Depois da tempestade
7 A turista perdida
Ao amanhecer, a tempestade havia se acalmado, transformando-se em uma chuva forte, os ventos já estavam mais brandos, só então, elas conseguiram dormir um pouco.
Mariane acordou no meio da manhã, com a cama quase toda molhada pela insistente goteira, deixando-a escolhida, em um pequeno canto ainda seco. Pelas frestas da janela já podia ver a luz do dia, levantou-se sentindo o corpo pesado, pela noite mal dormida. Abriu as gavetas no armário, procurando o que vestir, um pouco melhor do que usava agora, achou um vestido de alças finas, que deveria ficar muito curto e apertado na sua dona, e o enrolou até a cintura, fazendo uma saia, pôs uma regata e, por fim, uma camisa masculina, amarrou das pontas e dobrou as mangas, o dono dela não devia ter sido muito grande, por isso não ficou muito larga, ainda, encontrou um par de sandálias rasteiras que lhe serviram, pois já estava cansada de andar de saltos altos naquelas ruas de pedras. Pronta, olhou-se no espelho, não estava tão mal assim, penteou os cabelos com a escova que encontrou sobre a penteadeira. Na cozinha, Joana preparava café em coador de pano, o seu cheiro enchia o ar. Sobre a mesa, havia bananas e batata-doce cozidas.
— Bom dia! Gostei da roupa! Ficou boa! – Joana a elogiou, servindo uma caneca de metal — Tome um café, coma alguma coisa.
Joana lhe entregou a caneca cheia de café.
— Bom dia e obrigada. Pensei que poderia ir até a delegacia e verificar se os telefones já estavam funcionando.
— Acho difícil já terem voltado a funcionar tão rápido, mas não custa nada tentar. Não temos nada para fazer mesmo.
— Podemos ir agora? — Mariane perguntou, ansiosa, depois que comeram.
— Claro! Vamos! – E Joana pegou seu xale, jogando sobre o sofá, e o colocou nos ombros.
Elas andaram com dificuldade pelas ruas enlameadas e cheias de entulhos, que vento trouxera, fugiam das poças de água barrenta, de algumas árvores caídas e galhos derrubados, um tímido sol tentava surgir por entre as nuvens. Fora das casas, algumas mulheres tentavam limpar a sujeira e os homens consertavam estragos feitos pelo temporal, mas, apesar de serem vizinhos, quase ninguém cumprimentou Joana, enquanto passavam, desviando o olhar, fingindo estar ocupados, enquanto ela fixava seus olhos no chão.
— Posso ir na sua casa hoje, Joana? – Ouviram um homem falar alto, já próximo à rua principal.
— Claro, Alceu! – Joana respondeu rápido e seguiu em frente, sem olhar para ele, Mariane não perguntou nada.
Quando chegaram à delegacia, encontraram sua frente completamente inundada.
— A água do mar deve ter chegado aqui ontem – Joana explicou, enquanto circundando a grande poça d’água para entrar lá.
— Delegado Ernesto, bom dia! Lembra-se de mim? – Mariane perguntou, como um certo tom de humildade, pois sabia que estava precisando dele e que sua situação era bem delicada.
— Claro! A turista perdida! – Ele disse, com ironia.
— Eu gostaria de saber se posso usar seu telefone? – Mariane quis saber, aflita.
— Ainda, não estão funcionando, deve demorar alguns dias para voltar ao normal – Ernesto anunciou, um tom casual, porque ficar isolado do mundo era muito comum por ali.
— Dias? Não! — Mariane exclamou, desesperada.
— É sempre assim – Respondeu o delegado, resignado.
— E a barca? – Mariane perguntou cheia de esperança.
— A barca não vem hoje. Talvez, amanhã. Quem sabe? Quando o mar se acalmar – Ele deu de ombros.
— Então, estamos isolados? – Mariane não podia acreditar na sua situação.
— Estamos. Toda vez que chove muito é sempre a mesma coisa. Ninguém vem e ninguém vai – o delegado revelou, sem emoção na voz.
— Meu Deus! O que eu vou fazer? – Mariane quase gritou, exasperada.
— Esperar, como todo mundo. – O delegado disse, calmamente.
Mariane por pouco não caiu de desânimo, Joana passou os braços em volta dela e a levou para fora da delegacia.
— Vem! Não adianta ficar desse jeito. Aqui é sempre assim — Joana tentou consolá-la, enquanto voltavam para a casa dela.
— Será que já perceberam a minha falta? Minha mãe vai ficar desesperada, quando descobrir que eu sumi. – Mariane confessou a Joana.
Na frente da casa de Joana, José as esperava, acompanhado de uma mulher mais velha, pequena e com o rosto muito sofrido, marcado por rugas profundas, o lenço na cabeça deixava os fios brancos do cabelo escaparem, suas roupas eram bem simples e bastante gastas, não dava para adivinhar sua verdadeira idade.
— Mãe, o que a senhora está fazendo aqui? – Joana perguntou a ela, com misto ternura e nervosismo.
— Vim te vê, minha filha! José disse que você voltou – A mulher declarou, com a voz serena e cansada, Joana a abraçou, emocionada.
— O pai sabe que a senhora veio? – Joana questionou, inquieta, pois sabia que seu pai proibiu sua mãe de encontrar-se com ela.
— Não — a mãe respondeu, sacudindo a cabeça – Mas, não me importo, estava com saudades de você, Joana.
— Ele vai brigar com você! José, por que você trouxe ela aqui? – Joana reclamou com o irmão.
— Ela queria te ver, disse que estava com saudades! – José explicou – Se não a trouxesse, ela viria sozinha.
Joana olhou para a sua mãe frágil e doente, castigada pela vida sofrida e a abraçou apertado.
— Mãe, a senhora não devia. Vá embora, antes que o pai saiba – Joana a aconselhou, pois conhecia bem o seu pai, um homem rude, cuja a vida difícil o tornou violento e de poucas palavras, lembrava-se bem das surras, que ela, sua mãe e irmãos levavam.
— Mas, eu só queria te ver, minha filha. Já estou indo embora – A mulher disse, com um ar triste.
— Espera um pouco, mãe! – Joana pediu e entrou em casa, voltando com um maço de dinheiro enrolado de notas de valores baixos e gastas, o colocando na mão da mãe. – Toma! São para os seus remédios.
— Não, minha filha! Seu pai não quer! –A mãe negou, mas estava inclinada em aceitar, mesmo contra as ordens do marido, pois precisa dos remédios para sobreviver.
— Ele não precisa saber. José, invente uma desculpa para o pai, você é esperto.
— Pode deixar, eu cuido disso. Vou levar ela para casa agora — José respondeu, prontamente, pegou na mão da sua mãe e saíram os dois andando pela rua de terra batida, devagarinho, acompanhando os passos dela.
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