Depois da tempestade

8 Algumas pessoas vivem em uma eterna tempestade


As duas mulheres entraram na casa e Joana se sentou no sofá, com os ombros caídos e a expressão abatida. Mariane se sentou ao lado dela.

— Sua mãe está doente? – A pergunta era retórica, pois já imaginava a resposta.

— Está. Ela tem pressão alta e diabete, isso afetou os rins, ela usa remédios caros e está cada vez mais difícil para o pai conseguir comprar. O pai não quer que eu ajude, não quer o meu dinheiro – Joana explicou, cabisbaixa.

— Você e seu pai estão brigados? — Mariane estava sendo mais indiscreta, invadindo a intimidade da vida alheia.

— Estamos – Joana encerrou o assunto, sem dar mais explicações.

José voltou logo depois, novamente.

— Você não devia ter trazido a mãe aqui, José! Sabe como o pai fica! — Joana chamou sua atenção.

— Eu sei, mas ela disse que viria sozinha – o garoto se desculpou, mais uma vez, e Joana mudou de assunto, subitamente.- Tudo bem. José, por que você não leva Mariane para passear? Conhecer a praia?

— Não tem nada para ver lá! Deve estar tudo sujo lá agora — José retrucou sem disfarçar sua irritação.

— Mas, é bonito assim mesmo. Vão, saiam um pouco, vão dar um passeio! Leva ela para comer na dona Judite, eu pago depois – Joana ordenou de modo firme.

— Não deve estar aberto, depois da chuva – José revirou os olhos e a contradisse de novo.

— Bate na porta, que ela abre. Vão, agora! – Joana não deu chance de recusa.

— Está bem. Vamos, Mariane! — José deu de ombros, já que viu no rosto de Joana, que não adiantava mais argumentar simplesmente obedeceu.

Mariane não se atreveu falar nada ou dar nenhum palpite sobre o desacordo entre os irmãos, sem entender a urgência de Joana em tirá-los de casa assim tão de repente, mas não estava em condições de se contrapor, só sai com José, andando pela rua no sentido ao contrário do que sempre iam. José, cabisbaixo, chutava os pequenos objetos, que encontrava pelo chão na sua frente, como para aliviar sua frustração.

— Eu sei bem porque ela quer que a gente saia – ele resmungou, baixinho, como se Mariane não estivesse ao seu lado.

— Ela deve ter suas razões, que precisamos respeitar, José.

— A praia é ali – José apontou para frente – Deve estar muito suja, com aquela tempestade toda de ontem. Está com fome?

— Um pouco – Mariane admitiu.

— Vamos na dona Judite. Ela tem um bar e faz alguma coisa para a gente – Jose esclareceu, entrando por uma pequena trilha, que os levou até uma casa perto da praia, com uma grande janela na frente que deveria servir de balcão de bar, contudo como ele previu estava fechada, então bateu na porta ao lado e uma senhora gorda e baixinha com um lenço na cabeça e um sorriso, que faltavam alguns dentes veio atender.

— Dona Judite, tem alguma coisa para gente aí? – José perguntou, assim que ela abriu a porta.

— E vocês têm dinheiro? — a mulher indagou um tanto desconfiada, encarando Mariane.

— Joana paga depois – o garoto respondeu.

— Ah! Joana voltou?

— Sim, ela voltou.

— Oh, José! Sempre tem alguma coisa para você! Entrem! E você? Eu não te conheço – ela estava curiosa.

— Mariane, muito prazer! Sou amiga da Joana.

— Você trabalha como ela? – Judite perguntou, não esperou a resposta e continuou — Entre e sente-se! Tive que tirar as mesas lá de fora por causa da chuva.

— Não, ela não trabalha como Joana — José respondeu à pergunta, enquanto sentavam-se nas cadeiras em volta de uma mesa coberta com uma toalha plástica florida.

Judite falava sem parar, fritando os peixes, fatiava tomates e cebolas, mexia as panelas, depois colocou a comida pronta nos pratos e os pratos na frente deles.

— Querem beber alguma coisa? – perguntou.

— Cerveja! – José, que já atacava seu prato, respondeu.

— O que? Cerveja? Nada disso! Você é uma criança! – Mariane protestou

— Não sou criança coisa nenhuma! Já vou para o mar com meu pai! Cerveja! – José retrucou, batendo na mesa.

— Aqui todo mundo começa cedo tanto no trabalho quanto na bebida, ajuda a passar o tempo e amenizar o farto – Judite completo.

— Não, só água, por favor, dona Judite. – Mariane falou em voz baixa e firme, que a dona do bar não se atreveu a desobedecer, deu de ombros e serviu água para os dois, apesar da cara aborrecida de José.

— E sua mãe, José? — Judite mudou de assunto.

— Melhor – José sempre era econômico nesse assunto.

— E você o que está fazendo por aqui, moça? – Agora, sua curiosidade voltou para Mariane.

— Eu me perdi e vim parar aqui, não tenho como voltar.

— Como alguém pode ser tão boba de se perder e vim parar nesse fim de mundo? — Judite começou a riu, segurando a barriga.

— Qual é a graça? – Mariane se sentiu ofendida.

— Se perder que foi engraçado! — A mulher riu mais alto.

Mariane não falou mais nada, não queria discutir expondo a sua vida àquela mulher ignorante, por isso, acabaram de comer, em silêncio, mas antes de irem embora, José reiterou a Judite, que Joana passaria para pagar depois, o que parecia um hábito comum entre eles. Andaram até a praia, cuja areia estava realmente muito suja, recoberta com os restos e entulhos de todos os tipos que a tempestade depositou nelas. As ondas, que batiam fortes na areia, eram escuras, mas no horizonte o mar era de azul incrível e se confundia com o céu e, apesar de alguns poucos coqueiros estarem caídos, a maioria que continuava de pé, faziam um belo conjunto com a vegetação que havia mais adiante, sentaram- se em um dos troncos, admirando o mar.

— Está muito suja! Sempre fica assim depois de uma tempestade — José explicou, sem esconder que se sentia aborrecido por estar ali com ela.

— Às vezes, a vida da gente fica assim também, bem feia e turva depois de uma tempestade – Mariane pensou na própria vida.

— É, mas algumas pessoas vivem em uma eterna tempestade, nunca veem a luz do sol – José falou com tristeza. Mariane se admirou por ouvir algo assim de uma criança.

— O sol sempre nasce em algum momento. – Ela tentou animá-lo.

— Para a gente que vive aqui é sempre uma tempestade. Eu queria sair daqui, estudar, mudar de vida, mas não posso, não tem como. Meu pai já está velho e minha mãe doente, tenho que ficar com eles, ajudar em casa, nem tem dinheiro para me mandar estudar. Meu pai não consegue trabalhar tanto para comprar os remédios para mãe e sustentar a casa. Joana quer ajudar, mas ele não aceita o dinheiro dela. E o tempo assim, não deixa a gente ir para o mar, porque é perigoso, e não tem peixe, não podemos trabalhar e ganhar dinheiro – Jose revelou, abatido, com os ombros caídos e cabeça baixa.

Mariane ficou em silêncio, achando seus problemas insignificantes diante da vida deles, desejou consolar o garoto, passar a mão sobre sua cabeça, mas não teve coragem.

— Vamos voltar! – José decidiu, abruptamente, dando um pulo e ficando de pé, tomando o caminho de volta, ela o seguiu.