Depois da tempestade

9 Estamos presos a isso tudo


Quando avistaram a casa de Joana, Mariane teve a impressão de ter visto um homem, saindo pela porta da frente e andar em sentido ao contrário deles, com passos apressados e cabeça baixa, ia fazer um comentário com José, quando viu o seu olhar de tristeza, e não falou nada.

Os dois entraram pela porta semiaberta, e encontraram Joana vestindo um robe curto de seda azul estampado com flores coloridas, fumando e com um copo na mão, em cima da mesa na frente dela, havia uma garrafa meio vazia, com um líquido transparente, que Mariane tinha certeza não ser água.

— Não sabia que você tinha voltado a fumar! – José falou para ela, com tom de censura.

— Só fumo de vez em quando – replicou Joana, reenchendo o seu copo.

Então, alguém bateu na porta.

— Joana, posso entrar? – Uma voz de homem veio de fora.

— Entre, Alceu! – Joana respondeu, alto para ser ouvida.

Mariane reconheceu o mesmo homem que falou com Joana, naquela manhã, na rua principal.

— Boa noite! Joana, você falou que eu podia vir – o homem disse, sem graça, parando na porta, quando percebeu as outras pessoas na casa.

— Claro, Alceu. Vem! – Joana levantou e se dirigiu até o homem, segurou sua mão e o levou até o seu quarto.

Mariane tinha certeza agora, do que já desconfiava, entendeu o porquê da briga de Joana com o pai e o incômodo do irmão. Mas, também, sabia que pelo tempo que ela vivesse naquela casa, dependeria daquele trabalho que Joana fazia. Ela se virou para José, sem saber o que falar, viu que os olhos dele estavam cheios de ódio e tristeza, ficou com medo que ele fizesse alguma besteira.

— Vamos! Vamos sair daqui! – Mariane puxou José pela mão para fora da casa.

— Eu odeio isso! Eu odeio o que ela faz! – José falava alto e pisava forte, andando rápido. – Ela diz que não sabe fazer mais nada e se parar vai morrer de fome! Que não tem saída! É isso ela é uma prostituta! Uma puta! Uma vadia! – José cuspia toda a sua revolta pela escolha da sua irmã.

— Calma, José! — Mariane andava rápido ao lado dele. – Você não pode fazer nada! É a vida dela! – Queria acalmá-lo, mas não sabia o que falar para o garoto.

— É isso que dói! Eu não posso fazer nada para melhorar a vida dela, do meu pai, da minha mãe nem a minha. Estamos presos a isso tudo, como você nesse lugar, sem saída! – ele disse, com os olhos cheios d’água, naquele instante, Mariane teve consciência de como ele era apenas uma criança, mas cheia de amargura, sem fé no futuro.

No final do caminho, eles chegaram a rua principal e sentaram-se em um dos bancos de frente para o mar, que batia forte contra o paredão de pedra, José com os ombros caídos e a cabeça baixa, Mariane o envolveu em um abraço, para confortá-lo, ficaram ali por muito tempo.

— A raiva já passou? – ela perguntou, gentilmente.

— Estou melhor agora. Eu estava com muita raiva, mas já passou – ele respondeu com a voz baixa. – Obrigado.

— Por que?

— Por ficar comigo. –José deu um sorriso triste, que não chegou aos seus olhos.

— Sabe, eu nunca ajudei ninguém. Nunca ouvi ou consolei nenhuma pessoa antes. Vim para aqui me achando a pessoa mais infeliz do mundo – Mariane confessou, um tanto envergonhada.

— E o que aconteceu de tão ruim? – José ficou curioso.

— Meu noivo terminou comigo, antes do casamento, se apaixonou por outra – Sua história parecia tola, em comparação a dele.

— Cafajeste! – o menino exclamou, com raiva.

— Não sei agora! Ele falou que não seria justo casar comigo, pensando em outra. Isso me arrasou, mas depois de algum tempo, acho que ele estava certo, e eu, também, não o amava tanto assim — Mariane refletiu, porém percebeu que José parecia não entender aquela conversa, então, passou a mão sobre os cabelos dele. — Você ainda é muito novo para saber dessas coisas, José. Vamos voltar, o homem já deve ter ido embora.

Voltaram para a casa de Joana, a passos lentos, no entanto, José não quis entrar e foi embora, Mariane ficou observando ele se afastar, pensando na carga que aquela criança levava nos ombros.

Ao entrar na casa, o homem já tinha indo embora, Mariane encontrou Joana sentada em um banco da cozinha e, na mesa em frente dela, estavam a mesma garrafa e o copo.

— Ele já se foi – confirmou Joana, enchendo novamente o copo e tomando um gole – Quer um pouco?

Mariane pegou um copo no escorredor da pia e sentou-se ao lado de Joana, que lhe serviu uma dose, e ela tomou um gole, que desceu queimando pela sua garganta.

— Você nunca pergunta nada – observou Joana, apática.

— Não estou acostumada a perguntar o que não é da minha conta

— Você é legal! Não julga ou, pelo menos, finge que não – ela declarou, com um sorriso triste. Mariane sorriu e bebeu mais um gole e Joana continuou a confessar, encarando o copo. — Sabe, eu não tive muita opção na minha vida. A minha primeira vez que dei foi por amor, eu era bem novinha e estava apaixonada, mas ele me trocou por outra, igual ao seu noivo, sofri muito por causa disso. O segundo foi por vingança, eu estava com raiva e queria esquecer o tal primeiro cara, mas não adiantou. Depois vieram outros, até que um deles me ofereceu dinheiro, e aí eu pensei, por que não? – Ela deu de ombros. – Naquela época, a vida estava muito difícil, a pesca ruim, quase passávamos fome. E então, eu continuei, vinham me procurar e me pagavam e eu abria as pernas, fiquei conhecida no lugar, era limpinha. Foi assim que meu pai descobriu, algum bêbado deu com a língua nos dentes, sabia que seria só questão de tempo para alguém contar. Aí ele me deu uma surra de cinto, me deixou toda marcada e me botou para fora de casa, e vim morar aqui com uma mulher que fazia a mesma coisa.

— A que foi presa? – Mariane quis saber.

— É, a que foi presa e eu fiquei com a casa dela, ninguém veio reclamar. Mas aqui, nesse lugar, tem pouco dinheiro, é por isso que na alta temporada, vou para capital, onde estão os turistas e o dinheiro. Quando o movimento diminui, volto para aqui. Tenho uma clientela fiel, principalmente, depois da tempestade, quando não se tem muita coisa para fazer – Joana finalizou, tomando um outro gole e acendendo mais um cigarro.

Ainda sentadas na cozinha, já na penumbra da noite, foram surpreendidas com as lâmpadas acendendo, a energia elétrica retornou, era um bom sinal que as coisas estavam começando a voltar ao normal. Isso encheu Mariane de esperança.