Depois da tempestade
10 Talvez, amanhã
O dia havia sido agitado, por isso, Joana fez um jantar bem simples para elas, sardinha em lata e arroz, comeram, quase em silêncio, depois, sentaram-se no sofá, para assistir uma novela, cheias de dramas de família e amores proibidos, na velha televisão, mas alguém bateu na porta, elas se entreolharam.
— Deve ser um dos seus clientes, vou me deitar — Mariane falou, levantou-se e já indo para o quarto.
— Já está tarde, mas imagino quem deve ser. Obrigada, Mariane – Joana deu um sorriso triste de agradecimento para ela.
Mariane se deitou e tentou dormir, e como sempre pensou na sua vida pregressa e como conseguiria sair dali O sono não chegava, estava muito quente e abafado, não queria prestar atenção no barulho do quarto ao lado, já quase adormecendo, quando ouviu um barulho forte e seco e um gemido baixo, que a fez desperta por completo, achou que era um sonho. No entanto, estava bem acordada, no momento que ouviu, novamente, o mesmo barulho, era um tapa, logo depois um barulho alto de algo batendo na madeira, e outro gemido mais forte, que ela reconheceu a voz de Joana. Ela imaginou que o tal cliente estava batendo nela, assim levantou-se rápido, saiu do quarto, procurou algo que poderia servir como uma arma, encontrou a frigideira, em cima da pia da cozinha, e entrou no quarto, onde um homem mais velho e pequeno, só de cueca, encurralava Joana em um canto, que estava completamente nua, o homem a segurava pelo braço, se preparando para dar outro tapa no rosto dela. Mariane não teve dúvida, bateu com força, na cabeça careca do homem com a frigideira, ele ficou meio-tonto, mas não caiu, largou Joana e se virou para olhá-la, atordoado, que na defensiva, parecia que estava empunhando uma arma.
— Largue ela, pegue suas roupas e vá embora! Vamos! – Mariane gritou, brandindo a frigideira a sua frente.
— Você vai me pagar por isso, vadia! — O homem pequeno e careca a ameaçou Mariane, enquanto juntava suas roupas, resmungando.
— Não, você é que vai pagar! Agora, dê o dinheiro da moça e vai embora! – Mariane exigiu, gritando. Ele colocou a calça, pegou umas notas na carteira e jogou em cima de Joana e saiu, batendo a porta, com o resto das roupas na mão.
— Você não devia ter feito isso! – Joana falou, em voz baixa, enquanto Mariane a ajudava a levantar-se do chão – Ele pode causar problemas para você.
— Mas, ele estava batendo em você! Eu não podia deixar ele fazer isso! – Mariane não poderia admitir essa violência, principalmente, com uma pessoa como Joana.
— Obrigada! Mas, eu já estou acostumada – Joana falava, limpando o sangue do canto da boca – Sempre, que ele vem aqui é a mesma coisa, ele tenta, não consegue nada, brocha, então me bate, diz que a culpa é minha, fica feliz e vai embora, mas paga muito bem.
— Desculpe, eu não sabia! — Mariane falou arrependida.
— Como você poderia saber? Essas coisas não existem no seu mundo, pelo menos, não que você sabia. Mas, você se preocupou comigo, nunca ninguém fez algo parecido por mim, obrigada! – Joana declarou, emocionada — Agora, vamos nos deitar e esperar – sentenciou.
Não esperaram muito, no meio da noite, acordaram com fortes batidas na porta, levantaram-se assustada e Joana foi atender, Mariane ficou parada logo atrás dela, lá fora estava o delegado Ernesto, com seu corpanzil enchendo o batente.
—Tivemos uma queixa de agressão, vim prender a senhorita Mariane – Ernesto disse, com voz autoritária.
— O que? Me prender? Eu só defendi Joana! Olhe, delegado, o que ele fez nela! — E Mariane mostrou o rosto de Joana inchado e a boca cortada pelos bofetões.
— Mas, infelizmente, ele deu queixa contra a senhorita. Vai ter que vir comigo para a delegacia! Vamos! – Ele decretou, segurando Mariane pelo braço e começou a puxá-la.
— Espere, Ernesto! A culpa foi minha, eu que bati nele! – Joana tentou defender Mariane, se interpondo entre ela e Ernesto.
— Não, a vítima foi bem clara e apontou Mariane – Ernesto disse em voz alta e clara, para ser ouvido pelo policial atrás dele, depois virou-se para Joana e falou baixinho, piscando um dos olhos – Deixe comigo!
Mariane foi conduzida para a viatura da polícia, um carro antigo e grande, que cheira cigarro e suor, o delegado e o policial na frente e Mariane atrás.
— Senhorita Mariane, que encrenca que você se meteu! — Falou o delegado com sarcasmo.
— E eu vou ficar quando tempo presa? – Quis saber, preocupada, pois não tinha documentos ou dinheiro, nem o telefone do seu advogado.
— Só esta noite. Amanhã, eu falo com seu acusador, ele não vai querer que a mulher dele sabia que foi agredido na casa de uma prostituta, e nem que a cidade toda saiba do probleminha dele. Ele vai retirar as acusações – O delegado falou com certeza, estava acostumado com essas ocorrências na sua cidade.
— Obrigado, delegado. – Mariane foi sinceridade.
— Não estou fazendo isso por você. Estou fazendo por Joana – ele retrucou, sério.
Ficaram em silêncio até a delegacia, e ele a conduziu a uma das celas, que estava vazia, colocou-a lá dentro e trancou a porta. Mariane olhou o colchão no chão e lembrou-se do bêbado do primeiro dia, preferiu sentar-se no chão, ainda bem que tinha vestido uma bermuda e uma camiseta, assim podia ficar mais à vontade.
O delegado foi embora, mas antes parou na frente da cela dela.
— O policial Jeremias vai ficar aqui com você. Vê se não o perturba, porque ele já está aborrecido, por não poder dormir em casa, essa noite. Boa noite, senhorita – comunicou.
O chão duro e frio começou a incomodá-la, arrastou se e sentou, com cuidado sobre o colchão sujo, a delegacia escura e silenciosa a deixou com muito sono, Jeremias roncava, jogado na cadeira do delegado, com os pés sobre a mesa. Na manhã seguinte, quando acordou ela estava deitada e enroscada no mesmo velho colchão, que lhe causara repulsa no primeiro momento, a porta da cela se abriu.
— Pode ir embora, Mariane! As queixas foram retiradas! — O delegado anunciou, de um jeito formal.
— Obrigada, delegado, Bom dia! Mais uma coisa, o telefone já está funcionando? – Ela quis saber, cheia de esperança.
— Não, senhorita. Nada ainda, talvez amanhã – Ele respondeu, a desiludindo, mais uma vez.
— E a barca? – Ela tentou, de novo.
— Também, não chegou. Talvez, amanhã – A resposta se repetiu.
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