Depois da tempestade

11 Aqui, precisa-se crescer rápido


Desanimada, Mariane saiu da delegacia, sentou-se no mesmo banco em frente ao mar do dia anterior, e ficou olhando as ondas baterem com força nas pedras, pensando na sua situação, sem dinheiro, sem casa e sem roupas, sem que ninguém soubesse onde ela estava, só podia esperar, levantou-se e foi andando para a casa de Joana. De longe, avistou na frente da casa, um homem velho de cabelos grisalhos e pele castigada pelo sol, visivelmente bêbado, que gritava para a porta fechada, enquanto José e a mãe de Joana tentava arrastá-lo dali.

— Sua vadia! Vagabunda! Puta! Você voltou só para me envergonhar! Venha cá que eu te mostro! Vou arrancar seu couro! – E puxou o cinto da calça, perdendo o equilíbrio, quase caindo, ficou-o balançando no ar, como se quisesse atingir em alguém invisível.

— Vamos embora, Clementino! Deixa a menina em paz! – A mãe de Joana suplicava, puxando o marido pelo braço.

— A culpa é sua! Você criou esta vagabunda! Ela devia estar morta como os irmãos, em vez de me matar de vergonha! – Gritava o pai para a mãe, irado.

— Vamos, pai! — José pedia, quase chorando, segurando o outro braço.

— Vagabunda! Puta! Safada! – O velho continuava a gritar, ao mesmo tempo, que com muito custo, conseguiram arrastá-lo dali.

Mariane ficou a distância assistindo a cena, não querendo se intromete, e quando eles estavam longe, entrou na casa e encontrou Joana sentada no sofá, fumando, com a expressão perdida.

— Você voltou? – Joana perguntou, sem emoção na voz, assim que ela entrou.

— O delegado me soltou. Ele fez o homem retirar a queixa contra mim – Mariane explicou, sentando-se ao lado dela.

— Ernesto é um bom amigo. – Depois Joana perguntou — Você viu?

— Sim. Lamento muito – Mariane falou, com sinceridade.

— Não se lamente! Toda vez é isso, o pai bebe e vem gritar na minha porta, dizendo que eu devia ter morrido como meus irmãos.

— Como seus irmãos morreram? – Mariane se sentiu desconsertada com aquela revelação.

— No mar, dois deles. Um mais velho e outro mais novo do que eu. E agora ele só tem José, para ajudá-lo, mas o que eu queria mesmo que ele pudesse estudar, ter uma boa profissão, mudar de vida. José teve que parar de estudar para trabalhar com o pai. Foi uma pena, porque ele é muito inteligente.

— Mas, ele é só uma criança para ter tanta responsabilidade.

— Aqui, precisa-se crescer rápido! O pai está velho, não pode mais com o barco sozinho – Joana mudou de assunto. — Espero que esta gritaria do pai não tenha espantado nenhum cliente. Eu preciso do dinheiro.

— Você tem uma clientela e tanto! Deve ser muito boa no que faz? –u Mariane pergunto, curiosa e em tom de brincadeira, querendo amenizar o clima.

— Quase todo homem desse lugar já passou pela minha cama e por entre as minhas pernas – disse Joana sorrindo, com uma pontinha de orgulho. – Os jovens são cheios de vitalidade, rápidos e fogosos e o mais velho... nem imagina o que eu tenho que fazer para deixá-los animados. Mas, estou ficando velha, não sei o que será do meu futuro – concluiu, entristecida.

— Nunca houve problemas com você aqui na cidade, Joana?

— Não, eu sou uma espécie de utilidade pública do lugar, nem as mulheres implicam comigo, pois quando os maridos vêm aqui as deixam em paz. Sou, simplesmente, ignorada – Joana falou, com amargura.

Ficaram caladas, uma do lado da outra, perdidas nos seus pensamentos. Alguém bateu na porta, e Joana foi atender outro cliente.

Já havia se passado alguns dias, em mais uma nova manhã, que Mariane voltava deprimida da delegacia, a barca não chegou, nem os telefones funcionavam.

— Pode ser que a barca tenha ficado avariada com a tempestade, ela é muito velha, nunca faz a travessia se tiver algum problema, porque pode ficar à deriva – o delegado explicou para Mariane, o que não adiantou muito para melhorar o seu humor.

Mariane regressava para casa de Joana, se arrastando pela rua, encontrou José sentado na frente dela, sentou-se ao lado dele:

— Ela está com cliente lá dentro? É por isso que você está aqui fora? – Perguntou Mariane.

— Está! E sabe do pior? Do jeito que está o mar, acho que este vai ser o único modo de ter dinheiro para comprar os remédios da mãe – José continuou, aborrecido.

— Sinto muito. Eu gostaria de poder ajudar, mas por enquanto não posso – Mariane parou e pensou um pouco, continuou animada – Espera aí! Mas, eu posso!