Depois da tempestade
12 O negócio
Mariane se levantou correndo, abriu, com muito cuidado, a porta da casa, e caminhou pé ante pé e foi até o quarto onde dormia, ignorando os barulhos de ranger da cama e os gemidos do quarto ao lado, abriu a porta do armário e pegou suas roupas, que deixara lá desde o primeiro dia, pensando em usá-las na volta, embrulhados nelas, estavam seu relógio de uma marca bem cara, brincos e cordão de ouro branco enfeitado com alguns pequenos brilhantes e o seu anel de noivado de brilhantes, pegou os e saiu, com a mesma cautela. Sentou-se, novamente, ao lado de José.
— Olhe! São minhas joias, valem alguma coisa. Peguem, são suas! – disse, satisfeita, estendendo a mão com as joias para ele.
— Não posso aceitar isso! Valem muito! – José disse, arregalando os olhos, mas negando se apegar as joias.
— Por favor, aceite! Sua irmã me ajudou em troca de nada e eu quero ajudar mãe de vocês. Venda isso e compre os remédios dela, devem dar até as coisas melhorarem – Mariane insistia, estendendo a mão com as joias para ele.
— Mariane, olha para mim! Se eu chegar em qualquer lugar com isso aí, vão achar que eu roubei! Posso até acabar preso! – Jose ponderou, com uma sabedoria inacreditável para uma criança.
— Eu não tinha pensando nisso, mas eu posso – argumentou — Tem alguém aqui que compra joias?
— Tem um homem, um tal de seu Rodolfo, na rua principal, ele compra joias e outras coisas de valor e, também, empresta dinheiro a juros muito alto. Dizem que ficou rico assim, aproveitando do sofrimento dos outros. Se quiser a gente pode ir até lá.
— Então, vamos! – Mariane ficou animada.
Outra vez, Mariane estava na rua principal, chegaram na frente de uma das maiores casas de lá, pintada de verde escuro, com grandes janelas e portas brancas e um pequeno muro baixo com grades e portão altos de ferro e um pequeno jardim com algumas flores vermelhas. José bateu palmas para chamar atenção das pessoas lá de dentro, Mariane o acompanhou, logo em seguida veio atender uma empregada, vestindo um uniforme de estilo antigo e um pouco pequeno para ela.
— Queremos falar com seu Rodolfo — José pediu, sem se intimidar.
— O que desejam? – A mulher os encarou, arrogante, acostumada com esse tipo de gente, que sempre vinham incomodar o seu patrão em busca de dinheiro.
— Negócios – Mariane foi firme.
— Um momentinho! — A empregada falou e voltou para dentro da casa, eles ficaram esperando um bom tempo na frente do portão fechado. Finalmente, ela reapareceu e abriu o portão.
— Podem entrar! Venham! – Ela os guiou para dentro, entraram em uma sala com a decoração de gosto duvidoso, meio cafona e muito enfeitada, pararam diante de uma porta, que ela abriu e fez um gesto indicando para Mariane e José entrarem.
Atrás de uma grande mesa, um homem baixinho e careca estava escrevendo, de cabeça baixa, onde se via um galo arroxeado. No mesmo instante, Mariane o reconheceu e ao seu galo, que ela fizera com a frigideira na casa de Joana, e devido a isso tinha sido presa. A sua primeira ideia era fugir dali depressa, levando José, contudo não teve tempo, porque atrás dela, a empregada fechou a porta e com o barulho, o homem ergueu a cabeça e olhou para ela, seu rosto se transformou e ficou vermelho de raiva.
— Você! O que está fazendo na minha casa! – disse, com a ira contida na voz baixa, com certeza que não queria que os outros moradores da casa e, principalmente, a sua esposa soubessem de onde conhecia aquela mulher.
Mariane engoliu seco, respirou fundo e empertigou-se, era a hora de negociar, não podia deixar-se intimidar.
— Nós viemos vender isso? – Ela falou com a voz firme, dando um passo à frente, colocando as joias sobre a mesa na frente dele.
Rodolfo podia estar com raiva, mas não era nada bobo, o espírito de comerciante bateu mais forte do que o homem humilhado, pois só com uma rápida olhada, avaliou o valor dos objetos diante dele e não podia deixar passar aquela oportunidade, então, ele respirou fundo, pegou o relógio e uma lupa e o analisou, depois o anel e as outras joias, percebeu, que eram bem valiosos. Mariane e José permaneciam de pé na frente da mesa, esperando a avaliação, sem falar nada.
— Você pegou isso de quem, menina? – perguntou em tom sarcástico.
— De ninguém! São meus! – Mariane respondeu, com a voz segura.
— Seus? – E pegou o relógio mostrando para ela. — Isso aqui é muito caro para serem seus! — Olhando para ela com desprezo, por causa das suas roupas simples, Mariane sentiu-se diminuída como nunca havia se sentido na vida, sendo julgada por sua aparência.
— Mas são! Quanto você me oferece por eles? – Mariane insistiu, não ia se deixar intimidar, erguendo o queixo, desafiadora.
— Sabe que eu posso mandar prender você por roubo? Você tirou isso de alguém — Ele a acusou e Mariane perdeu a paciência, foi até a mesa e começou a juntar os objetos, na clara intenção de ir embora.
— Se você não quer, vou achar alguém que queira! – ela disse, rispidamente.
Rodolfo segurou as mãos dela, para fazê-la parar, ele não queria perder a oportunidade de um negócio lucrativo.
— Olhe! Eu não sei a origem dessas coisas, estou me arriscando. Eu ofereço cem dólares – ele deu sua primeira cartada.
— O quê? Você deve estar brincando? Só este relógio vale umas 50 vezes isso.- disse Mariane, indignada com aquela oferta.
— Mas não sei a procedência. Posso estar entrando em uma encrenca por causa disso – Rodolfo repetiu a ladainha.
— Você acha que eu sou boba! Não vai ter encrenca nenhuma! Além disso, estou acostumada a negociar. Quero 10 mil, e estou saindo no prejuízo.
— Está louca! Que tal duzentos – ele tentou, mais uma vez.
— Olha! Por este valor, eu vou embora! – Mariane tentou pegar as joias da mão dele, de novo.
— Não espere! Deixe eu ver isso mais uma vez — Rodolfo disse com um tom mais brando.
Pegou a aliança de brilhantes de noivado de Mariane e a admirou por um longo tempo, ele sabia que ela teria custado uma pequena fortuna, muito mais do que Mariane estava pedindo.
— Dou cinco mil por tudo! É minha oferta final!
— Feito. Mas quero o pagamento em dinheiro e agora. – Determinou Mariane.
— Você é uma boa negociadora, menina – Rodolfo disse com um tom de desprezo, mas ela não se importou.
Rodolfo levantou-se da cadeira e dirigiu se até um armário em um canto da sala, abriu o e havia um pesado cofre de estilo antigo no seu interior que ele também abriu e de dentro tirou 5 maços de notas, e entregou a ela. Mariane contou o dinheiro, rapidamente, colocou em uma velha bolsa, que havia achado no armário que e trouxera.
— Está certo. Obrigada — Ela saiu com José, pisando firme e sem olhar para trás.
Enquanto, andavam na rua de volta para casa de Joana, José pulava ao lado dela, entusiasmado.
—Você conseguiu! Você conseguiu! Nunca vi tanto dinheiro! Estamos ricos! Posso ver! – Ela não parava de falar, chamando a atenção.
— Fique quieto, aqui na rua, não é seguro. Ninguém pode saber desse dinheiro todo. Vocês podem ser roubados – Ela ponderou, com sensatez.
— Este dinheiro vai ajudar a gente muito! Mas, você teve que vender suas joias. E o seu relógio, ele era tão bonito! – José disse com pena dela.
— Não faz mal – Mariane não quis contar para ele que tinha vários iguais em sua casa, além de que, até tinha gostado de se livrar daquela aliança, lembrança do seu fatídico noivado — Agora, vamos para casa, contar para Joana e esconder isso em lugar seguro.
Quando chegaram na casa de Joana, ela estava dormindo, Mariane escondeu o dinheiro dentro do armário do seu quarto em uma caixa e mostrou a José.
— Está vendo, José. O dinheiro está aqui, depois a gente conta tudo para Joana, agora vamos deixar ela descansar. Está com fome? Porque eu estou, vamos na casa da Judite.
Fale com o autor