Depois da tempestade

13 Um dia de sol, mar e surpresas


Naquela manhã, o sol estava forte e fazia muito calor, principalmente naquele quarto fechado, Mariane acordou suada e não conseguiu dormir mais, levantou, arrumou a cama e foi para a cozinha, onde Joana já coava café.

— Bom dia! – Mariane disse, enquanto amarrando a camiseta na cintura, para ela ficar mais curta.

— Bom dia! — Disse Joana, animada — Você sabe que hoje faz uma semana que você chegou aqui?

— Não tinha percebido isso! — Mariane perdera a noção do tempo, nunca viveu uma semana tão intensa.

— E você nos ajudou tanto com aquele dinheiro! – Joana falou grata.

— Foi você quem me ajudou, Joana! Eu nem sei o que seria de mim, se não fosse por você.

— Sabe o que a gente pode fazer hoje para comemorar? Um piquenique na praia. Estou precisando de descanso e, por sua causa, eu vou poder ter um pouco de paz – Joana parecia mais leve.

— Um piquenique! Acho uma boa ideia! A gente pode pegar o José ir até a praia, aproveitar o dia de sol – Mariane já estava acostumada com a presença dele, sentia a sua falta, quando não estava por perto.

— Vamos passar na Judite e comprar a comida e bebida – Joana deu a ideia.

As duas saíram em direção à praia, passaram no pequeno boteco de dona Judite e encomendaram alguns pasteis e alguns refrigerantes, em seguida, foram buscar José na casa dos pais de Joana.

— É melhor você ir sozinha — disse Joana, com prudência, não queria encontrar com o pai, quando pararam na frente da casa dele, Mariane concordou com a cabeça.

A casa onde a família morava era menor do que a de Joana, de um branco amarelado, com porta e janelas de madeira crua e telhado em péssimo estado, algumas galinhas ciscavam soltas no quintal em volta dela, que tinha o cheiro desagradável de lodo, Mariane se aproximou devagar, e chamou por José, um cachorro magro e amarelo surgiu latindo, assustando a moça. Ele abriu a porta, deixando ver o chão de terra batida, os poucos velhos móveis, sentiu o cheiro de fumo, feijão e fumaça, o pai deles estava sentando, sonolento, em uma cadeira de balanço que rangia dolorosamente aos movimentos, fumando e a mãe, de pé, cozinhando em um fogão a lenha.

— Quieto, Duque! — Ordenou ao cachorro, que parou de latir e voltou por onde veio, com o rabo entre as pernas. — Mariane! O que faz aqui? – José perguntou, baixinho, espantado, encostando a porta atrás dele.

— Viemos convidar você. Eu e Joana iremos fazer um piquenique na praia — Mariane disse, animada

— Quem é, José? – Eles ouviram o pai perguntar, lá de dentro.

— Vou sair! – Foi a resposta do garoto.

— Tome cuidado, menino! – A mãe recomendou, em voz alta.

O céu estava muito azul, sem nuvens, o mar estava calmo e claro e as areias bem mais limpas e claras, uma suave brisa soprava e eles andaram um pouco pela orla até chegar em um recanto mais descampando, as mulheres sentaram se debaixo de uma grande árvore sobre as mantas que tinham levado e ficaram observando José, que brincava na areia.

— Esse é meu recanto predileto! Eu, meus irmãos e Ernesto vínhamos aqui brincar quando tínhamos mais ou menos a idade de José. – Lembrou Joana – Era um tempo bom!

— Ernesto, o delegado? – Mariane perguntou, surpresa.

— Sim, ele era amigo do meu irmão mais velho, Jeremias – Joana confirmou.

— Eu acho que ele tem uma quedinha por você, Joana! – Mariane revelou suas suspeitas, com um sorriso malicioso.

— Ernesto? Só foi um namorico de adolescentes, sem maldade. Depois ele foi estudar na capital e voltou delegado e eu sou o que sou – Joana contou, sem falsas esperanças.

— Mas, ainda acho que ele gosta de você. Ele não é casado, é?

— Não. Mas, Mariane não tem homem nessa cidade que vai querer compromisso com alguém como eu! Uma puta que se deitou com todo mundo – Joana falou, com amargura.

— É uma injustiça! Você é uma das melhores pessoas que eu conheci na minha vida. Você cuida dos seus pais, de José e até de mim, sem pedir nada em troca.

— Mariane, cuidar de meus pais e de José é minha obrigação — Joana olhou para José com ternura e prosseguiu: – Quando José nasceu, eu já era adolescente, minha mãe deve um parto difícil, em casa, quase morreu, e ele nasceu mirradinho, o pobrezinho, ninguém acreditava que ele ia vingar, mas eu cuidei dele o tempo todo. Agora, olha ele aí! O mais esperto de todos nós! E você, já que não tem mais casamento, o que vai fazer quando voltar para casa?

— Andei pensando em muitas coisas, enquanto estive por aqui. Fiz alguns planos e que quero pôr em prática assim que voltar para casa — ela revelou, sem dar detalhes.

— Espero, sinceramente, que tudo dê certo para você, Mariane.

— Eu também espero! Esse mar está tão bonito, que dá até vontade de entrar – Mariane disse depois de algum tempo.

— Então, vamos lá! – Joana levantou em um pulo, Mariane a acompanhou e as duas correram juntas, em direção a água, sentindo a areia fina e morna sob seus pés, a água refrescante nos seus corpos, brincando como duas crianças.

Depois, voltaram para a areia e deitaram-se aproveitando o sol tépido daquela tarde, olhando para o céu claro.

Já quase no fim da tarde, relaxados pelo dia de preguiça, Mariane, Joana e José andavam lentamente de volta para casa, porém, a distância, avistaram um carro parado em frente dela.

— O carro da polícia. Espero que não seja nem problema – Joana considerou de um jeito aborrecido.

Apressaram-se para saber o que estava acontecendo, ao mesmo tempo, que o delegado, também, os avistou e foi ao seu encontro.

— Mariane, por onde andou? Procuramos a senhorita por todos os lugares. – O delegado perguntou, em tom preocupado.

— Eu estou encrencada? – Mariane indagou, pensou logo em algo errado que poderia ter se metido.

— Não, senhorita. Seu pai mandou alguém buscá-la de helicóptero, ele está parado lá no campo de futebol perto da praça – o delegado respondeu.

— Meu pai? Ele me encontrou? — Mariane não podia mais conter sua felicidade.

— Sim, eu vou levá-la até lá – O delegado afirmou, indicando o carro.

Eles correram até o carro da polícia e, mais uma vez, Mariane entrou dentro dele, mas agora no banco da frente, antes de entrar, virou-se para Joana e José que ficaram parados no meio da rua.

— Vocês não vêm?

Eles correram e, também, entraram no carro. Ernesto dirigia o mais rápido que o trajeto e o carro permitiam, passaram por toda rua principal e no final dela, havia um praça e do lado um campo de futebol de terra batida, que estava cercado por quase toda população da cidade, que veio ver a novidade, porque meio dele havia um helicóptero preto com listras vermelha e laranja e dois homens parados próximos a ele, um dava para ver que era o piloto, e o outro, um homem bem grande, rosto com traços fortes, de cabelos cortados muito curto e com óculos tipo aviador, parecia mais um lutador. Foi ele que correu até Mariane, assim que saiu do carro.

— Senhorita Mariane, como vai? Meu nome é André e trabalho para o seu pai, ele pediu para eu vir buscá-la, mas temos que ir agora, pois já está anoitecendo, e a viagem para San José é longa e seus pais estão esperando por notícias suas.

Ela sabia quem era ele, o homem de confiança de seu pai.

— Meus pais estão aqui? – Mariane estava emocionada,

— Infelizmente, não, senhorita. Mas, iremos para o hotel, para resolvermos os problemas com seus documentos – André explicou, com segurança.

— Mas eu não posso viajar assim — Ela estava de short e camiseta e com sandálias emprestadas, cheia de areia e sal, então André tirou seu blazer de linho claro e a ajudou a vesti-lo, e ele ficou enorme nela.

— Obrigada. Posso pelo menos me despedir? – Ela pediu a ele.

Ele sacudiu a cabeça afirmativamente e rodou um dos dedos no ar, indicando para o piloto ligar o motor. Um barulho ensurdecedor e uma ventania tomou o lugar, Mariane aproximou-se de Joana e lhe deu um abraço forte e um beijo no rosto.

— Espere que você ainda vai ouvir falar de mim – falou, entre risos e lágrimas. — Eu voltarei! — Depois abaixou-se, abraço e beijou o rosto de José, acariciou os cabelos dele.

E por último apertou a mão do delegado.

— Obrigada pela ajuda.

— Vamos, senhorita! — André gritou de longe.

E ela correu para o helicóptero, que levantou voou, enquanto Mariane acenava.

— Dessa aí a gente nunca mais vai se ouvir falar — Alguém do lado de Joana comentou.