Depois da tempestade
14 Tudo é possível
Na viagem de volta do helicóptero, sobrevoando o mar, com o céu já se tornando laranja, anunciando a chegada da noite, Mariane perguntou a André, em voz alta, devido ao barulho do motor:
— Como você me encontrou?
— Quando as suas malas chegaram ao hotel e a senhorita não, eles entraram em contato com sua agente de viagem, que se comunicou com o motorista da limusine, que pensou que você tivesse embarcado. Quando, ela viu a confusão e que você tinha desaparecido, entrou em contato com seu pai e contou toda a história. Seu pai me chamou e mandou: “André, vá até lá e ache a minha menina! ” – Ele falou imitando o pai de Mariane.
— Isso é bem o jeito de papai – Mariane disse, sorrindo.
— Mas, foi difícil encontrá-la, não tinha nenhuma pista e quando sua bolsa apareceu jogada perto do porto sem dinheiro, passaporte e cartões, pensamos no pior. E ainda tinha a tempestade que dificultou muito o nosso trabalho. Mas, contratei algumas pessoas, conseguimos rastrear quais eram os barcos que saíram naquele dia, perguntamos e investigamos muito, até chegar a San Marino. E, finalmente, encontrei a senhorita.
— Obrigada! Por favor, me chame somente de Mariane.
— Claro, senhorita – André repetiu, sem emoção na voz.
Mariane não podia acreditar quando desembarcou no hotel, era como se voltasse ao seu mundo real, depois de viver um pesadelo. O gerente atencioso e gentil veio recebê-los, prontamente.
— Senhorita Mariane, estávamos tão preocupados. Suas malas já estão no seu quarto – ele comunicou, fazendo uma leve reverência.
— Eu só quero falar com meus pais, agora, e tomar um bom banho quente e relaxar – Mariane quase suplicou.
— Claro, senhorita. Vou levá-la até o seu quarto – ele indicou o caminho e acompanhando-a pessoalmente, enquanto André se afastou, sutilmente.
O primeiro pensamento que veio na sua cabeça, assim que entrou no luxuoso quarto do hotel, foi que ele era maior do que a casa de Joana. Ficou, feliz ao encontrar toda a sua bagagem ali, poderia usar suas próprias roupas. Queria falar muito com seus pais, pedir desculpas por todo o transtorno que causou, mas seus telefones haviam sido roubados, pediu uma ligação para o hotel, ficou emocionada ao ouvir aquelas vozes familiares.
— Mãe! – exclamou, quase aos brandos.
— Mariane, o que aconteceu com você? – Sua mãe perguntou, aliviada, então ela fez uma breve narrativa de toda a sua história desde a ideia da viagem até aquele momento.
— Mas, o importante é que você está sã e salva – sua mãe concluiu no final.
— André providenciará um outro passaporte para você sair daí o mais rápido possível e voltar para casa – explicou-lhe seu pai.
— Estou louca para voltar para casa – Mariane confessou, exausta.
Após aquele telefonema e tranquilizar os pais, tomou um longo e relaxante de banheira, com água morna e espuma de banho, lavou os cabelos com os melhores xampus, vestiu suas roupas limpas e confortáveis, pediu que o jantar fosse servido no quarto, queria descansar um pouco, quando bateram na porta. Ela foi atender, encontrando André parado do lado de fora, ocupando todo o batente da porta, ele era impressionante grande, porém com movimentos elegantes.
— Senhorita, gostaria de saber se está bem instalada e se precisa de algo? – ele perguntou, formalmente.
— Não, André, estou bem, obrigada. Mas, por favor, me chame apenas de Mariane.
— Eu gostaria de informá-la, que estamos esperando o envio dos seus documentos para providenciarmos um novo passaporte – ele não mudou o seu tom impessoal.
— Certo – ela falou, resignada, nesse momento, chegou o jantar – Você jantaria comigo, André? – Mariane pediu.
— Não, acho que seria apropriado, senhorita – ele respondeu, sem dar motivo.
— Por que? – Ela o instigou.
— Porque a senhorita é a filha do meu patrão.
— Por favor, eu preciso de companhia, não gosto de jantar sozinha.
— Está certo – ele assentiu, sem muita vontade, assim sentaram-se à pequena mesa arrumada para o jantar.
— Hum! Acho que nunca comi algo tão bom! – Mariane gemeu de prazer – Você trabalha há muito tempo com o meu pai, André? – indagou, querendo estabelecer uma conversa educada.
— Há algum tempo, senhorita – Ele era econômico.
— Então, como eu nunca vi você? – Ela ficou intrigada, pois um homem daquele tamanho não passava despercebido.
— Não trabalho, diretamente, no escritório – Ele explicou – Mas, nós já nos conhecemos.
— Sério? Não me lembro – Mariane declarou, pensativa.
— Talvez, porque a senhorita estivesse outros focos em mente.
— Você não gosta muito de mim, não é, André? – ela perguntou, olhando diretamente nos olhos deles, algo que jamais faria há uma semana atrás.
— Minha opinião não importa – Ele continuou em um tom grave.
— Lamento, se eu fui grosseira com você alguma vez – Ela se desculpou, com sinceridade, apesar de não se lembrar o que houve.
— Já faz algum tempo – Ele disse, dando de ombros, pois aquela mulher ali na sua frente não lembrava em nada a garota petulante e mimada que conhecera, há tempos atrás, que nunca notara a sua presença, passava por ele como se não existisse, apesar de ser o braço direito e o homem de confiança do pai dela.
— O que você faz, exatamente, para o meu pai, André? — Mariane insistiu, já vislumbrando uma oportunidade.
— Resolvo problemas diversos – Ele continuou não dando detalhes.
— Quais tipos de problemas?
— Digamos, problemas difíceis.
— André, eu acho que você é a pessoa certa para me ajudar – Mariana deu um sorriso maroto.
— Como assim? – Ele ficou confuso.
— Vou lhe contar uma história e você vai me dizer como pode me ajudar – Ela começou a contar-lhe tudo o que aconteceu com ela, como se perdeu e entrou na barca por engano, o encontro com Joana, a vida dura dela e do irmão José, falou até da sua prisão, em seguida, explicou as suas ideias e planos, André ouviu tudo, atentamente – Então, o que você acha? – perguntou, finalmente, apreensiva.
— Sua história é mesmo inacreditável – André respondeu, surpreendido. – Também, acho que seus planos são ousados e podem ser bem complicados — André ponderou, com parcimônia.
— Mas, é possível? – Ela quis saber ansiosa.
— Tudo é possível, senhorita, se conhecemos os caminhos certos – ele afirmou, confiante, com um sorrisinho irônico
— Por favor, só Mariane – ela insistiu, sorrindo com cumplicidade.
— Está bem, Mariane – ele cedeu.
— Então, a nossa empreitada – Ela ergueu seu copo de suco em um brinde, ele a seguiu.
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