Depois da tempestade
15 De volta
Algumas semanas depois, bateram na porta de Joana, que estava sentada à mesa, tomando café com José, em silêncio.
— Pode entrar! – Joana gritou, sem cerimônia.
— Com licença! – Mariane colocou a cabeça pela fresta da porta, que acabou de abrir.
— Mariane! — Joana falou, espantada.
— Mariane! – José gritou, animado.
Aquela Mariane que entrou pela porta, era uma mulher elegante, vestida com um belo conjunto de calça e blazer brancos e echarpe de seda no pescoço, cabelos bem tratados e enorme óculos escuros e, atrás dela entrou um homem grande e forte, que aparecia um segurança, o mesmo que a resgatara de helicóptero.
— Que bom que encontrei os dois juntos, assim eu posso falar tudo de uma vez! — Mariane disse, satisfeita, depois retribuiu o grande abraço que José lhe deu.
— Desculpe-me! – Mariane voltou-se para o homem ao seu lado, que assistia tudo calado. – Este é André, foi ele que me achou aqui.
— Falar o que? – Perguntou Joana, desconfiada, depois que trocaram rápidos cumprimentos.
— Eu quero oferecer um emprego para você, Joana – Mariane foi direta.
— Um emprego? – Joana ficou surpresa.
— Sim, porque comprei um terreno aqui e vou construir uma casa, nada muito grande ou luxuoso, só um lugar para eu ficar em paz, por isso preciso de uma caseira, que cuide da casa, e eu queria contratá-la. Você morará lá com seus pais e terá um bom salário com todos os direitos e começará a receber agora durante todo o tempo da construção. Você aceita? – Mariane apresentou sua proposta de maneira calma e decidida.
— Poder mudar de vida e dar uma vida melhor para os meus pais. Sim, aceito – respondeu Joana, sem titubear.
— O outro assunto é mais delicado — Mariane começou, Joana a interrogou com o olhar. – É sobre José – Mariane revelou, Joana segurou a respiração e a encarou atenta.
— Delicado como? – Joana perguntou, assustada.
— Eu gostaria de cuidar de José, levá-lo para minha casa, para ele estudar. Aqui não tem colégios bons, será melhor do que ele ir para capital, sozinho – Mariana expôs seu plano.
—Você quer tirar José da gente? — Joana questionou, cheia de medo.
— Nunca! Será só por um tempo, se ele não gostar poderá voltar quando quiser. Mas, comigo ele terá mais atenção e eu cuidarei bem dele, contratarei professores particulares para ajudá-lo acompanhar a escola e prometo que trarei de volta todo o verão, para visitar vocês. Acha que seus pais aceitarão e você? – Mariane estava em insegura e ansiosa, pois queria muito fazer isso.
Joana pensou bem, ficar longe de José seria um preço alto, mas era a oportunidade para ele mudar de vida.
— Eu acho que será melhor para ele. – Joana confirmou, resignada, olhando com tristeza para José. – Podemos falar com meus pais.
Mariane olhou para José que assistia todo o diálogo, sem falar nada.
— E você, José? Quer ir morar comigo e estudar? – Mariane perguntou a ele, cheia de expectativa.
— Isso vai mudar a minha vida? – José perguntou, desconfiado.
— Vai e para melhor – Joana respondeu, com certeza.
— Então, eu quero – o garoto respondeu, com segurança, pois era o que queria para a sua vida.
— André é advogado e tratará da parte legal – Mariane informou. — Podemos ir falar com seus pais agora, para resolvermos tudo isso, afinal.
— Não sei se meu pai vai querer falar comigo – Joana relembrou, com tristeza.
— Ele vai, Joana, tenho certeza. Vamos – Mariane a incentivou, e eles saíram andando pela rua de terra batida, em direção a casa dos pais de Joana e José, que iam na frente, abraçados, já prevendo a saudades do futuro e Mariane e André iam logo atrás.
— Mariane, por que você está fazendo isso? – André quis saber, falando em voz baixa para não ser escutado pelos outros.
— Porque Joana me ajudou quando estava sozinha, sem dinheiro ou documentos, ela me acolheu na sua casa, sem pedir nada em troca. Além disso, eu quero fazer algo pelo José para que tenha um futuro melhor, me afeiçoei a ele e eu nunca fiz nada por ninguém – ela confessou.
Mariane esperava a liberação da sala de exibição do filme, que iria assistir, no saguão do cinema, enquanto um grupo de espectadores de outro filme saiam no final da sua sessão, ela só notou Marcelo, quando estavam frente a frente, quase se esbarraram. No primeiro instante, houve uma certa estranheza, quebrada por Mariane.
— Como vai, Marcelo? – Mariane perguntou de um modo educado.
— Bem. E você, Mariane?
— Eu estou muito bem! – Ela disse com um sorriso real.
Marcelo pode perceber que era verdade, vendo Mariane de cabelos mais longos, com um belo bronzeado e olhos brilhantes.
— Quero lhe apresentar minha noiva Ana — Marcelo disse um pouco sem graça.
— Muito prazer, Ana – Mariane tinha certeza que já a viu antes.
Ana apenas sorriu, mas neste momento, de um lado Mariane se posicionou um homem muito grande, que parecia um lutador, que colocou a mão protetora nas costas dela, e do outro um garotinho, carregando um enorme balde de pipoca.
— Vocês demoraram! – Mariane declarou, sorrindo para eles.
— A fila da pipoca estava grande — O homem respondeu, desculpando-se.
— Marcelo e Ana, esse é André. – Mariane disse, sem dar muita explicação pois não era preciso, pois André, nos últimos tempos, foi seu salvador, cúmplice, amigo e, agora, o seu amante e companheiro, e continuou: – E esse é José – apresentou o menino, lhe afagando os seus cachos rebeldes.
— Eu moro com ela! – José se explicou, em seguida, enfiou um monte de pipoca na boca.
— Eu estou com a guarda temporária de José — Mariane respondeu o olhar interrogativo de Marcelo.
— Vamos, Mariane! Senão a gente perde o começo do filme — José pediu, impaciente.
— Já vamos! Eles adoram filme de ação. Adeus, Marcelo, Ana – ela revelou, se despedindo.
Enquanto, o pequeno grupo se afastava, Marcelo e Ana ainda ouviram Mariane falar com José.
— Você não acha que é muita pipoca? Você não vai ter fome na hora do jantar.
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