Os três dias que precederam a viagem passaram arrastados, cheios de expectativa e segredos, que só amenizaram um pouco quando o voo aterrissou no pequeno e agitado aeroporto do seu destino, na hora esperada, onde um homem trajando terno e gravata escuros, não combinando com o lugar, segurava um cartaz com nome de Mariane, e ela se apresentou.

— Senhorita, sou o motorista que a levará até o porto, onde pegará o barco, que a levará para o seu hotel. Por favor, Siga-me!

Ele assumiu o controle do carrinho de bagagem e a levou até uma limusine branca, abriu a porta de trás para ela entrar no interior do carro, que estava confortavelmente fresco, ao contrário da temperatura lá fora, que era quente e úmida, esperando ele guardar a sua bagagem no porta-malas, seguiram pelas ruas pobres e movimentadas da cidade, cheias de comércio popular e ambulantes em busca de ganhar alguns trocados dos turistas, mas Mariane não prestou muita atenção no que passava pela sua janela, preferindo folhear uma revista de modo, enquanto tomava água mineral gelada..

No porto, o motorista estacionou e retirou as malas, andou na frente abrindo passagem pela multidão frenética que se espalhava pelo lugar, e ela o seguiu, tentando não o perder de vista, naquele momento, ventava muito forte, desarrumando seus cabelos, dificultando sua visão.

— Vai chegar um furacão no outro lado da ilha. Todo mundo está correndo pois essas podem ser as últimas viagens de barco, por muito tempo – O motorista explicou, de modo casual, a razão de toda aquela multidão correndo apressada.

— Um furacão? É perigoso? – Mariane ficou assustada pela aquela notícia inesperada.

— Não se preocupe, senhorita. Aqui o furacão chegará só como uma tempestade tropical, bem forte. O hotel onde estará é bem seguro, ele uma infraestrutura muito boa. Fique aqui, por favor, enquanto eu procuro o pessoal do hotel e embarco suas malas — E apontou um banco, em que estava escrito o nome do hotel onde ela se hospedaria.

Ela se sentou, obediente, tonta com toda aquela gente andando impaciente ao seu redor, carregando caixas, malas e bolsas imensas, vendedores que a todo momento lhe ofereciam bugigangas, o vento a incomodava bastante, despenteando o seu cabelo jogando–os contra o seu rosto, por isso colocou a bolsa do seu lado, pegou um lenço de dentro dela e começou a tentar prendê-los. Era uma luta inglória, pois o lenço e os cabelos voavam, sem controle. Depois de um certo tempo conseguiu algum resultado, então, virou-se para pegar um espelho para ver sua aparência, mas a sua bolsa sumiu, ficou confusa, procurou em baixo do banco, para ver se havia caído, não a achou. Desesperada e aturdida, sem saber o que fazer, pois estava tudo lá, dinheiro, passaporte, documentos, cartões de crédito, telefones, toda sua vida. Então, olhou em volta, a procura de alguma pista, quando viu uma mulher correndo com algo que parecia ser sua bolsa nas mãos, em um impulso, levantou-se e saiu correndo atrás dela, gritando, mas ela não lhe deu ouvidos, aliás, ninguém prestou atenção nela, mais preocupados em chegarem aos seus destinos a salvos. Assim, ela correu e correu até perder a mulher de vista, parou olhando ao redor, tentando encontrá-la, novamente. Neste momento, ouviu um apito e o chão tremeu sob seus pés, foi então que percebeu que acabou entrando em uma barca, que se movia lentamente mar a dentro, com um leve balanço. Mariane não podia acreditar naquela situação, o que faria agora? Seria melhor procurar alguém da tripulação para explicar o engano, talvez eles voltassem, andou pelo convés, mas não achou ninguém por lá, imaginando que quando chegasse ao destino final da barca, seja qual fosse, poderia falar com um policial ou uma autoridade, explicar sua história, eles a ajudariam, com certeza.

A barca era pequena e velha, movia-se lentamente e balançava muito com o mar agitado e turvo, sob as nuvens pesados cor de chumbo e o vento forte. Um tanto amedrontada, ela olhou em volta como se procurasse uma solução, por fim, derrotada, sentou-se em um dos antigos bancos de madeira vazios, junto a uma mulher, com mais ou menos sua idade, morena com longos cabelos cacheados, usando um vestido curto e florido, decotado e muito justo no corpo, sandálias baixas e envolta em uma grade xale de tricô colorido.

— Não fique com medo! Ela é velha, mas é segura, não afunda – A mulher tranquilizou Mariane, notando seu semblante assustado.

— Para onde este barco vai? – Mariane indagou.

— San Marino. Você pega uma barca e não sabe para onde ela vai? – A mulher respondeu, com ar de zombaria.

— Não, eu não sei. É muito longe de onde estávamos?

— O bastante. Mas, você não sabe mesmo para onde está indo? – A mulher a encarou, franzindo a testa, ainda sem acreditar.

— Na verdade, não. Fui roubada e entrei nesse barco sem querer e preciso voltar para San Jose.

A mulher deu um longo assobio para demonstrar o seu espanto.

— Senhorita, isso é bem longe daqui! É do outro lado da ilha – ela informou, com seriedade.

— Não tem um consulado do meu país lá, nesse lugar para onde vamos, tem? — Mariane ficou angustiada, sem saber o que fazer.

— Lá não tem nada, senhorita! É o fim do mundo. Só tem uma delegacia antiga e acabada – A mulher respondeu, dando de ombros.

— E se eu falasse com o pessoal da tripulação?

— Você não tem passagem, nem documento, vai ser difícil eles acreditarem na sua história – A mulher ponderou – Sempre tem muita gente que inventa história para não pagar a passagem. Pelo menos, você tem o endereço ou o telefone do lugar onde iria ficar?

— Não, eu não tenho. O que eu faço então? – Mariane se sentia perdida, nunca se preocupou com esses detalhes antes na sua vida, pois sempre havia alguém que cuidava de tudo para ela.

— Senhorita, eu posso ajudar você. Meu nome é Joana— a mulher se apresentou, estendendo a mão para um cumprimento

— O meu é Mariane— ela aceitou o cumprimento, então, apertaram as mãos.

Durante a viagem Joana a informou aonde ela estava e para onde iam e sobre o furacão, que chegaria como uma tempestade tropical muito forte no lugar e que isso sempre acontecia, naquela época do ano. Depois, de um longo tempo, sacudindo no mar, a barca atracou em um pequeno porto, na verdade, era só um cais de madeira gasta e concreto carcomido, onde as pessoas desembarcaram e tomaram seus caminhos.