Depois da tempestade
4 Como nunca antes na sua vida
— Olá, Joana, de volta?! E arrumou uma parceira! — Gritou um homem no cais, em tom de brincadeira, quando elas passaram, Joana o ignorou.
O céu estava bem carregado de nuvens escuras, o ar pesado pela umidade com cheiro de ozônio e sal, Joana carregando uma mala de tecido colorido e elas andavam tão rápido o quanto conseguiam, de cabeças baixas e corpos curvados pelas ruas de pedras ladeada por casas coloridas e pelo mar, lutando contra o vento forte, que as empurrava para trás.
— Vamos, Mariane! A delegacia é aqui perto, vai começar a chover daqui a pouco! – Joana a alertava, apertando o passo.
Por isso, com muita dificuldade, conseguiram chegar à delegacia, um prédio antigo de apenas um andar, pintado de verde claro, com grades nas janelas e com a pintura gasta e descascada pelo tempo. O seu interior cheirava a mofo e suor, entrando pelos corredores mal iluminados, encontraram atrás de uma mesa velha de madeira escura, um homem grande com uma enorme barriga, que estufava os botões da sua camisa, atrás dele havia duas celas com grades escuras e paredes sujas, uma vazia e com a porta aberta e outra só com um colchão encardido no chão, onde um homem de meia-idade, embriagado, sem camisa e descalço, dormia e roncava alto de boca aberta, exalando um terrível cheiro de bebida barata, vômito e urina, que fez Mariane sentir ânsia.
— Bem-vinda, Joana! Você fez falta aqui! – O homem gordo a cumprimentou, afável — Arranjou uma parceira? Um pouco magrinha demais para o meu gosto – disse ele, analisando Mariane de alto a baixo.
— Ernesto! Ernesto! Você não mudou nada mesmo! E olhe como fala! – Joana o censurou, sorridente, como se fossem velhos conhecidos. — A moça é uma turista que foi roubada na barca e está perdida, precisando de ajuda.
— Desculpe-me, Senhorita. Sou o delegado Ernesto a suas ordens – O homem mudou de tom, ficando mais formal— Em que eu posso ajudá-la?
— Preciso usar o telefone ou a internet para entrar em contato com a minha família – Mariane se sentia mais animada com a possibilidade de uma resolução.
— Senhorita, lamento, mas não posso ajudá-la nisso – Ele parecia sincero, falando sério.
— Por que? — Mariane quis saber, angustiada.
— A tempestade tropical, em que o furacão se transformou. Elas acontecem sempre nesta época do ano, então ficamos isolados – O delegado manteve o tom educado.
— E a barca? Por favor, Joana, me empreste o dinheiro para voltar, eu a pagarei com juros! – Mariane pediu agoniada, pois nunca na vida imaginou uma situação como essa, sem dinheiro e dependendo do favor de estranhos.
— Não tem mais barca, senhorita. Elas vão parar, porque não é seguro navegar, quando mar fica muito agitado e as ondas muito fortes. Aquela que vocês vieram foi a última, agora ela vai para o estaleiro, se conseguir chegar lá — O delegado prosseguiu suas explicações, deixando Mariane cada vez mais angustiada.
— Meu Deus! O que eu vou fazer? – Mariane disse agora desesperada, perdida sabe se lá aonde, sem que ninguém soubesse do seu paradeiro, sem dinheiro e sem poder sair dali.
Ernesto e Joana ficaram olhando, penalizados, para ela sem saber o que dizer
— Eu levo você para a minha casa. Você fica lá até conseguir voltar. Vamos antes que a tempestade comece! Até mais, Ernesto – Então, Joana falou, decidida, Mariane a seguiu, sem escolha, desnorteada.
Elas saíram da delegacia, caminharam pela rua principal, com dificuldade devido aos fortes ventos que vinham do mar, ouvindo as ondas rugirem contra as pedras. Seguiram por ruas transversais, depois, outras menores, até chegarem a ruelas de terra batida, todas quase vazias naquela hora, alguns cachorros magros latiam a sua passagem, agitados, pressentindo a tempestade vindoura.
— Está todo mundo em casa, esperando a tempestade! – Joana gritou contra o vento para Mariane, explicando o porquê das ruas desertas, já que os moradores estavam se preparando para as chuvas intensas que se anunciavam. Conforme, elas caminhavam mais e mais para a periferia da cidade, as casas iam ficando cada vez menores e pobres, até pararem em frente de um casebre branco, mas encardido, pelo barro vermelho do chão do lugar, com porta e janelas de tábuas pintadas de azul, Joana pegou a chave da bolsa e abriu a porta. Por dentro, a casa parecia menor, não tinha laje, por isso telhas eram aparentes, o chão era de cimento queimado de aparência gasta com rachaduras aqui e ali, a sala e a cozinha eram praticamente um cômodo só, com móveis velhos e acabados, um sofá com estofamento rasgado coberto por uma manta dominava o ambiente, mas o que chamava mais a atenção era a estante com vários porta-retratos e estatuetas baratas de santos, que também estavam nos quadros da parede. Antes de fechar a porta, Joana acendeu a lâmpada, que pendia de um longo fio do teto, pois o dia já era quase noite, devido ao céu carregado de nuvens escuras, depois Joana jogou o xale sobre o sofá e foi até a estante, acendeu uma vela diante uma das imagens e fez uma rápida oração.
— Santa Bárbara, nos proteja! Amém – terminou fazendo sinal da cruz.
Com o cômodo mais claro dava para ver outras duas portas, cuja a entrada era fechada apenas por cortinas de tecido estampados com grandes flores coloridas. Na cozinha, havia uma pequena pia, um velho fogão a gás, uma antiga geladeira enferrujada e barulhenta e uma mesa de madeira rústica com quatro banquinhos. Mariane nunca havia estado em lugar nenhum parecido com esse em toda a sua vida. Estava perdida e desamparada.
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