Depois da Tempestade
17 Capítulo XVII
Notas iniciais
May parabenizou Jemma pelo seu desempenho após duas semanas de treino.
— Não vou dizer que estou surpresa, agente Simmons. Conheço você. Sei que costuma se dedicar de corpo e alma a tudo aquilo que se propõe a aprender.
— Bem... Preciso dizer que eu, sim, estou surpresa com seus elogios... Achava que ainda não os merecia.
May deu um meio sorriso divertido, mantendo-se em uma postura rígida, os braços cruzados, enquanto observava Jemma por um breve instante. A bioquímica apresentava hematomas em seus braços e massageava a região logo abaixo da costela direita com uma careta de dor.
— Terá de se acostumar com cicatrizes de combate, Jemma. Logo, elas serão apenas visíveis, não mais dolorosas. E, de qualquer modo, se saiu muito bem até agora. Você aprende rápido. Aprendeu mais rápido do que Daisy, é verdade – May desviou o olhar, suspirando longamente, como se estivesse rememorando seu treinamento com a inumana – mas isso também se deve ao fato de que Daisy demorou a parar de encarar seu treinamento como uma brincadeira. Sempre que encerrávamos, ela cantava o tema de Karate Kid.
Jemma não conseguiu conter o riso.
— Nossas seções agora serão mais esporádicas – afirmou May, dando meia volta e apanhando sua jaqueta de cima de uma cadeira – aproveite seu tempo livre para curtir seu namorado.
O coração de Jemma acelerou. Aquele permanecia um assunto mal resolvido entre ela e Fitz. Okay, eles já haviam dito que se amavam, depois de relutarem em verbalizar aquele sentimento por anos... Então, por que problematizar? Por que não assumir de vez o que eles eram?
Seu suspiro de contrariedade não passou despercebido por May que se virou repentinamente.
— O que foi esse suspiro?
Simmons levantou o olhar, admirada.
— Sua audição é incrível.
— É necessária – ela se pôs a caminhar na direção de Jemma – algo errado? Entre você e Fitz?
Seus lábios se retorceram antes de ela responder.
— Pensei que minha vida íntima não lhe interessasse – o tom de provocação em sua voz e a expressão de desafio em seu rosto se faziam notar a quilômetros de distância.
May lançou-lhe um olhar arguto e sorriu com certo cinismo.
— Depois de passarem séculos dançando um em torno do outro, é inevitável jogar as mãos para o céu e gritar aleluia ao ver que estão finalmente juntos... Mas não deixei de notar que algo não parece estar dando certo nessa relação.
O semblante de Jemma mudou bruscamente. A insolência deu lugar à ansiedade e apreensão.
— Não é que não esteja dando certo... É só que eu sinto que estamos caminhando a passos largos em determinados aspectos do nosso relacionamento e a passos vagarosos em outros. Às vezes me sinto insegura, com medo de que isso não dure... Que sejamos separados de novo. E... Bem – ela encolheu os ombros – creio que não há nada de mal em querer que sejamos apenas um casal normal, que faz coisas normais. Nem sequer decidimos se é isso mesmo o que somos... Se estamos mesmo namorando.
— Jemma – May se aproximou mais dela, tocando seu ombro, em um gesto inesperado – se alguém sabe o que é perder quem se ama, esse alguém sou eu. Você está aprendendo a se defender, concentrando-se em seus movimentos enquanto treinamos, sem deixar seus sentimentos interferirem, e isso é ótimo. Mas não deixe que seu lado racional ou seus traumas acabem por soterrar o que sente de mais genuíno. Não deixe que o medo de se envolver ou de... – ela fez uma ligeira pausa, selecionando as palavras – Perder o que tem agora, te tornem fria e distante. Sua doçura e gentileza sempre foram os traços que melhor definiram você. Continue assim. Dê a si mesma um verniz austero, mas não perca sua essência. Não seja dura demais consigo ou com o que sente. E como eu disse, aproveite esse tempo para curtir seu relacionamento. É o que de mais valioso tem nesse momento.
May deu um sorriso contido, mas extremamente sincero. Talvez fosse o máximo de empatia que a especialista deixasse transparecer, mas o suficiente para fazer com que Jemma ficasse sem palavras. De forma que ela ouviu, mergulhada no mais absoluto silêncio, tudo o que May disse.
Ela já estava prestes a abandonar o recinto quando ouviu Jemma gritar.
— Obrigada!
May virou-se novamente em sua direção.
— Pelo treinamento... E pela conversa.
A outra sorriu novamente – o que, de certa forma, ainda parecia estranho e incomum para Jemma – antes de sair definitivamente da sala.
Aquelas palavras haviam dado muito que pensar a Simmons. De modo que ela se viu maquinando o que fazer a seguir, partindo do conselho primordial de May. A base que sustentava toda a estrutura. Era hora de curtir seu relacionamento sem amarras.
*
— Eu não acredito que estão bravas comigo por causa de coisas tão bobas e pequenas – Simmons disse a Bobbi e Daisy em um tom de repreensão, quando as encontrou sentadas à mesa na cozinha da base um pouco mais tarde – sinceramente, vocês parecem duas crianças.
— Bravas, nós? Quem aqui falou em estar brava?
— Por que estaríamos? Você tem motivo para estar brava, Bobbi?
— Não, imagina. Só porque a Simmons escolheu Melinda May ao invés de Barbara Morse para treiná-la? Mesmo depois de ver do que eu sou capaz enquanto estivemos infiltradas na Hydra? Mesmo depois de até seu namorado ter treinado comigo enquanto ela estava em outro planeta? Bobagem...
— E eu que só fui descobrir de seu caso amoroso com Fitz porque, eventualmente, estava caminhando pelo corredor, parei perto do laboratório e os vi de mãos dadas e trocando um beijo... Mesmo eu sendo uma das melhores amigas — Daisy fez caras e bocas exageradamente dramáticas – só fui saber acidentalmente de tudo o que está rolando.
Simmons suspirou e revirou os olhos diante de todo o cinismo e sarcasmo contidos no tom de voz e palavras empregados pelas duas.
— Bobbi, houve inúmeros motivos para eu escolher a May ao invés de você para me treinar.
Cruzando os braços em frente ao corpo e arqueando as sobrancelhas, Bobbi esperou pelas justificativas de Jemma.
— Eu precisava de uma professora de quem eu pudesse separar o lado pessoal do profissional. Uma vez que May sempre foi mais distante de mim, seria mais fácil me concentrar no treinamento. Você também sabe que ela é uma guerreira letal e eu queria não apenas treinar, como libertar minha raiva e frustração. Portanto, ela era ideal... E, por último, mas não menos importante, eu não quero interferir na sua recuperação.
— Sabe que já estou praticamente recuperada, inclusive participando de missões suicidas da SHIELD...
— E você mesma me disse que, certas vezes, ainda se contém. Não se sentindo inteiramente preparada.
Bobbi suspirou, contrariada.
— Quanto a você, Daisy...
A inumana a encarava com um semblante impassível, o cotovelo apoiado sobre o joelho e a mão sustentando o queixo.
— Primeiramente, você estava ocupada e extremamente centrada em sua missão de reunir inumanos. Eu não queria atrapalhá-la despejando meus problemas pessoais em cima de você – sua voz mudou, ganhando uma súbita camada de fúria – Em segundo lugar, que modo mais banal de se referir ao que eu e Fitz estamos vivendo. Não estamos tendo um caso.
— Oh, não... Vocês estão namorando. Que bonitinhos – o tom de Daisy agora era adocicado, ao mesmo tempo em que ela sinalizava um coração com as mãos.
Simmons revirou os olhos novamente, bufando desta vez.
— Há um razão para eu ter procurado vocês, hoje. Preciso de ajuda.
— Olha só, se você está com problemas para golpear May e me procurou para ajudá-la com isso, perdeu seu tempo. Não vou lhe ensinar nenhum dos meus truques. E não, eu não sou rancorosa – disse Bobbi, encarando as próprias unhas tentando fingir indiferença.
— E esses hematomas no seu braço devem ser indicativos disso... Ou isso, ou Mr. Leopold Fitz só tem a carinha de anjo, mas curte um lance mais animalesco entre quatro paredes – Daisy provocou.
— E a Jemma aprova totalmente.
Simmons as encarou irritada, com os braços cruzados em frente ao corpo, enquanto as duas riam e batiam as mãos em um high-five.
— Não é isso! Para o seu governo, eu já consegui golpear a May. E derrubá-la uma vez – afirmou, ligeiramente orgulhosa de seus pequenos feitos.
Daisy e Bobbi se entreolharam, simulando expressões de admiração.
— É sobre... – Jemma ponderou suas palavras – sobre Fitz e eu. Não sei se estamos, de fato, como vocês dizem... Namorando.
A expressão de Bobbi passou de cínica para curiosa e preocupada. Daisy apoiou os cotovelos sobre a mesa e inclinou-se para frente, sua linguagem corporal denunciando a expectativa para que Jemma esclarecesse a confusão que havia subitamente se formado em sua cabeça.
— Vocês estão com algum problema? – indagou Bobbi.
— Não... Tudo está indo bem, pelo menos entre... Bem, entre...
— Entre lençóis – Bobbi completou a sentença com uma voz maliciosa.
Daisy sequer fez questão de evitar uma risada atrevida ao passo em que Jemma sentiu seu rosto arder, suas faces colorindo-se de um matiz de vermelho intenso.
— É, o problema é que... Ainda não sinto que somos um casal— ela gesticulava nervosamente – eu queria que fôssemos mais abertos a respeito disso, do que sentimos... Que fôssemos um casal normal.
— Difícil ser um casal normal sendo rodeados de pessoas com poderes especiais, ameaças alienígenas e o tal Hive. É compreensível, Jemma.
Um arrepio inconveniente percorreu sua espinha. Ela detestava pensar que aquela criatura inumana que a assombrara em Maveth e fora denominada Hive poderia representar a destruição de tudo o que lhe era mais caro.
— Pois, então... Eu preciso da ajuda de vocês com isso. Eu quero que tenhamos um pouco de normalidade em nossas vidas. Especialmente em nosso relacionamento.
— E no que a gente pode ajudar? – Daisy perguntou, intrigada.
— Preciso que me ajudem a preparar um encontro – disse com determinação – o nosso primeiro encontro foi desastroso, portanto, eu quero algo que seja memorável.
— Você quer um novo primeiro encontro, é isso?
— Não exatamente. Não há razão de termos um novo primeiro encontro depois de tudo o que já vivemos... Quero apenas um encontro. Algo que possa representar um ponto de partida definitivo... Para que finalmente possamos ser considerados um casal...
— Dentro e fora do quarto de Fitz – Daisy a interrompeu, gracejando.
Jemma bufou.
— Será que vocês conseguem ficar um minuto sem fazer alusões à minha vida sexual? Eu não me lembro de ficar zombando da intimidade de vocês com Hunter e Lincoln.
As duas riram.
— Vão me ajudar ou não? – Ela perguntou, já meio arrependida de tê-las procurado para isso.
Daisy e Bobbi trocaram um olhar perspicaz. Qualquer um poderia dizer que elas estavam tramando algo telepaticamente.
— Okay, Jemma. Vamos ajudar, com certeza. Mas com uma condição.
— Oh, por que será que eu já esperava por isso? – ela jogou a cabeça para trás e as mãos para cima, como se pedisse ajuda aos céus – tenho medo de perguntar qual é essa condição.
— É muito simples, Jemma. Não vai doer nada. Eu só quero um relatório completo desse encontro depois.
A bioquímica a encarou, incrédula.
— Sério, Daisy? Você é inacreditável.
— Ou isso, ou nada feito – a inumana falou, categórica.
Jemma olhou para Bobbi, procurando por apoio.
— Não olhe pra mim. Está cansada de saber que quando Daisy coloca alguma coisa na cabeça, é impossível convencê-la do contrário.
Ela suspirou, sentindo-se derrotada, sabendo que não havia chance de dissuadir Daisy daquele plano.
— Tudo bem! Mas é bom que esse encontro supere as minhas expectativas.
Daisy e Bobbi bateram as mãos espalmadas no ar, em um novo high-five. Aquilo havia se tornado habitual entre as duas e estava irritando Simmons.
— Pode deixar, Jemma. Será inesquecível.
Simmons esperava que assim fosse. Isso tinha de valer a pena.
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