Depois da Tempestade
18 Capítulo XVIII
Notas iniciais
Fitz não estava seguro de que fora uma boa ideia Jemma procurar Daisy para esquematizar um encontro. Ele mesmo se considerava muito bom em planejar jantares e, de fato, agora não havia receio nenhum em convidá-la para sair, afinal, eles eram definitivamente um casal. Fitz demorou a compreender o motivo até que a ladainha incessante de Daisy fez com que um lampejo de compreensão se acendesse em sua cabeça: Jemma queria lhe dar uma prova de amor. Aquele encontro seria a demonstração decisiva de seu afeto.
Mas como a bioquímica não era exatamente um prodígio em gestos românticos, decidiu procurar a ajuda das amigas.
Ele deu um sorriso enviesado, o olhar voltado para um canto qualquer do quarto, sem que estivesse realmente focando algo em especial. Apenas estava pensando no quão maravilhosa ela era por tentar fazer algo magnífico para os dois. E como se tratava de Jemma Simmons, ela não aceitava que as coisas fossem menos que perfeitas, portanto, recorreu ao auxílio de Daisy e Bobby que tinham mais experiência no campo de encontros do que ela.
— Hey! – Daisy sacudiu a mão em frente ao rosto do engenheiro, a fim de capturar sua atenção – está me ouvindo, Fitz? Eu preciso de ideias. Jemma vai sair para jantar com você.
— Sim, eu ouvi.
— Então quer fazer o favor de prestar atenção? Ela vai me fazer ler um livro inteiro de física quântica se isso não sair como o esperado.
— Eu já entendi... É só que...
Daisy arqueou as sobrancelhas, esperando que ele completasse a sentença.
— Só que eu me sinto desconfortável com você se metendo nisso.
Ela entreabriu a boca, deixando seu queixo cair levemente. Fitz não tardou a perceber que Daisy se sentira ultrajada.
— Não me leve a mal – ele tentou explicar, suspendendo as mãos com as palmas voltadas na direção dela, como se estivesse antevendo um ataque e quisesse se proteger.
— Ora, essa! Foi a própria Jemma quem me procurou. Essa é a razão para eu estar metida nisso – ela cruzou os braços, ainda levemente incomodada pelas palavras do amigo – como é? Já decidiu?
— Decidiu o quê?
Daisy jogou as mãos para o alto, suspirando impaciente.
— Você realmente não estava me ouvindo.
Fitz concluiu que, provavelmente, ela se referia ao momento em que falava sem parar, enquanto ele se distraiu, absorto em pensamentos por um minuto, pensando nos motivos de Jemma incumbir Daisy de planejar seu encontro.
— Eu perguntei o que você pretende fazer depois? Vocês vão jantar e... – ela gesticulou freneticamente, seu tom de voz e expressão denunciando certo ar de malícia – só não me venha com aquela história de banhos de espuma e despejar pétalas de rosa na cama antes de vocês fazerem amor porque isso é extremamente brega.
Fitz experimentou uma pontada incômoda no peito. Agora era ele quem estava se sentindo ultrajado.
— Jemma te contou... – perguntou, soando profundamente aborrecido, o que passou despercebido por Daisy, portanto a resposta da inumana foi casual.
— Sim, contou.
Dando-se conta tardiamente da súbita aura de descontentamento que envolvera seu amigo, ela apressou-se em explicar.
— Oh, não! Não se preocupe. Jemma achou extremamente romântico. Quem achou completamente brega, fui eu.
Um sorriso tímido se formou nos lábios do engenheiro.
— Então, se ela gostou...
— NÃO! Não faça isso! – O grito dela sobressaltou Fitz, que deu um passo desajeitado para trás.
— É a Jemma quem tem que aprovar meus gestos e não você.
— Sim, eu sei, mas isso é muito cafona, Fitz. Por favor! Onde você leu que isso é a última moda em gestos românticos? Em algum romance de banca do quilate de Julia e Bianca?
O engenheiro suspirou contrariado, achando que Daisy já estava passando dos limites. Simmons a havia chamado para ajudá-los com um encontro, não para que desse palpites em sua vida íntima.
— O que você sugere que eu faça? – Fitz perguntou, já perdendo a paciência.
— Essa resposta tem que partir de você. Vamos lá, pense com calma e cuidado. Vocês vão jantar. Depois... – disse, girando o dedo indicador, como se sinalizasse para que ele prosseguisse.
Ele ponderou por um instante e então disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça e pareceu perfeito.
— Cinema.
— Não, cinema não! – Daisy falou em um tom de censura.
— Jemma adora cinema.
— Por isso mesmo. Ao invés de prestar atenção em você, ela irá prestar atenção no filme. E mesmo que você escolha um filme que não a agrade, apenas como desculpa para vocês darem uns amassos, ainda assim... É um lugar muito público. Não é o ideal.
— Mas, então...?
— Tem que ser um lugar em que vocês dois acabem a noite na cama – ela deu demasiada ênfase às últimas palavras.
Agora, Fitz não conseguiu evitar que o rubor lhe cobrisse as faces.
— Bem... Sendo assim, meu quarto é o lugar ideal...
— Ugh, Fitz!
— Não me venha com Ugh, Fitz porque isso é exclusividade da Simmons! – ele replicou com uma voz enérgica.
— Oras, não faça tempestade em copo d’água, afinal... Há muitas outras coisas em você que agora são exclusividade da Simmons – completou, dando um soco de leve no ombro de Fitz e uma piscadela, com uma expressão maliciosa no rosto.
Ele voltou a enrubescer.
— Tá, vai me dizer por que o meu quarto é uma péssima ideia para terminarmos a noite?
— É muito casual e comum demais. Quer dizer, a Jemma já dorme todas as noites na sua cama pelo que fiquei sabendo. Tem que ser algo especial...
Fitz levantou os ombros, indicando que não tinha ideia do que fazer depois do jantar. Afinal, essa sempre fora a sua ideia de um encontro romântico: um jantar. Ele jamais pensara no que fazer após com Jemma, uma vez que seu primeiro encontro não teve exatamente o final que ele esperava...
Daisy balançou a cabeça, desapontada.
— Bem, teremos que deixar essa com Bobbi e Jemma. Para que elas resolvam... Eu tenho uma missão para ir com Lincoln, Joey e Yo-Yo, portanto – ela disse ao mesmo passo em que digitava rapidamente uma mensagem de texto em seu celular – enquanto procuramos construir um mundo melhor para os futuros bebês FitzSimmons, divirtam-se no encontro de vocês.
Ela tocou o braço de Fitz, em sinal de apoio. Ele ficou um tanto desorientado ante a menção de seus futuros filhos.
— Obrigado... Eu acho.
— Ah, sim. Mack vai passar aqui mais tarde para lhe entregar o terno que você deve vestir. Hunter e eu escolhemos. Dá para acreditar que Hunter tem bom gosto quando se trata de ternos? – ela observou, com uma risada – agora, preciso ir. Boa sorte!
— Espere aí! Como Mack e Hunter souberam...?
Ela cerrou a porta atrás de si com um estrondo, interrompendo a indagação de Fitz.
— Ok. Mack vai me entregar o terno que Hunter escolheu... – Ele disse para si mesmo, tentando processar a informação – Será que todo mundo nesse lugar já está sabendo?
Perguntou a si mesmo enquanto andava vagarosamente pelo quarto, esperando por Mack e sentindo algo se agitar em seu estômago. Fitz estava ansioso.
*
Jantar e depois... ;)
Seja ousada ao pensar em algo. As sugestões do Fitz foram péssimas.
Fui salvar o mundo, beijos!
— Ela leva mesmo a sério esse negócio de ser super-heroína – Jemma disse enquanto lia a mensagem de Daisy, com Bobbi espiando por cima de seu ombro.
— Pobre Fitz... Espero que ela não o tenha azucrinado muito.
— Espero que ela não tenha dito a ele que achava brega jogar pétalas de rosa na cama... Fitz ficaria chateado.
— Bem, Jemma – Bobbi falou em um tom de voz cheio de segundas intenções – creio que não terá problema em ser ousada, certo?
— Eu não faço ideia de para onde irmos depois do jantar, então acho que teremos problemas, sim.
— Oh, não! Não se preocupe. Eu imaginei que Daisy iria rejeitar todas as sugestões de Fitz, não importando quais fossem. Então pensei em algo...
Á medida que Bobbi ia lhe revelando o plano, a boca de Jemma se entreabria.
— Bobbi... Desculpe a pergunta, mas... Como conseguiu reservas em lugares tão dispendiosos?
Ela deu um sorriso ardiloso.
— Jamais subestime o talento de uma espiã e sua a capacidade de fazer contatos, Simmons!
Jemma balançou a cabeça, rindo. É claro que ela não havia conseguido por métodos lícitos. Mas a regrada bioquímica poderia relevar isso em prol de uma noite especial ao lado do namorado.
Aquela palavra ainda fazia com que borboletas se agitassem em seu ventre.
— Ok, agora é hora de você se arrumar, certo? Não tem um encontro para ir? – Bobbi gracejou antes de caminhar em direção ao guarda-roupa.
Jemma encontrava-se sentada em uma cadeira no quarto de Bobbi, ainda trajando um roupão. Mas, ao menos, já estava maquiada.
— A-há! Azul. Para combinar com os olhos dele.
No momento em que Bobbi levantou o cabide com um vestido azul em renda bordada, Simmons refletiu se aquilo não era um pouco demais.
— O que foi? – a outra indagou – não gostou?
— É lindo, mas... – de fato, era belíssimo e denunciava o bom gosto de quem o escolheu. De comprimento midi, mangas ¾ e decote em V – Eu não sei se combina comigo...
— Se você não usar, a pessoa responsável pelo presente ficará chateada.
Jemma franziu o cenho, confusa.
— May comprou esse vestido para você. Especialmente para essa ocasião.
— Oh! – Jemma deixou escapar uma interjeição de espanto – eu não sei o que me deixa mais atônita. Se a May ter me presenteado com um vestido ou o fato de ela saber que tenho um encontro com Fitz... – a compreensão lhe atingiu feito uma flecha, enfim se dando conta da situação que se desenrolava ao redor de si, e para a qual estava totalmente alheia até então: todos estavam envolvidos nisso – Bobbi, tem alguém nessa base que não saiba desse encontro? – ela perguntou em um tom inquisitivo.
— Tem, sim! Coulson.
Simmons a encarou, atordoada.
— Isso quer dizer que...
— Me desculpe... Eu tentei evitar. Mas Daisy saiu espalhando para todo mundo. Se isso serve de consolo, Mack e Hunter desejaram que o jantar fosse um sucesso. E foram eles que me ajudaram com a segunda parte do encontro... O lugar em que vocês vão depois...
— O mundo sendo ameaçado pelo Hive e vocês empenhados em uma missão de planejar um encontro romântico – ela pareceu recriminar aquela atitude pelo tom que empregara.
— Hey, não seja ingrata. Foi um gesto de carinho e amizade por vocês – Bobbi inspirou profundamente antes de prosseguir – nós todos notamos o quanto vocês dois estão trabalhando arduamente na missão de encontrar algo que possa deter o Hive. Estão começando seu relacionamento agora, mas sendo extremamente profissionais no laboratório como sempre... Preocupados com o restante do mundo, quando qualquer outro casal, em seu lugar, estaria agindo de forma egoísta, centrando-se apenas em si mesmo, querendo curtir o início de namoro... Isso é admirável. O altruísmo de vocês é algo que serve de exemplo a todos nós. Vocês merecem uma pausa para descanso e um tempo para desfrutarem seu relacionamento.
Simmons suspirou com um ligeiro e afável sorriso curvando seus lábios, tocada pelas palavras da amiga. Ela se levantou e caminhou na direção de Bobbi.
— Me desculpe se soei ingrata. Não foi intencional – falou com suavidade – Obrigada, Bobbi. Por tudo.
Bobbi retribuiu seu sorriso enquanto Jemma se aproximava para abraçá-la.
— Tá, agora chega de me enrolar e vista isso! – Bobbi disse, autoritária, após se afastar. Jemma debochou de seu tom, batendo continência, antes de se virar a fim de colocar o vestido com que – inesperadamente e contra todas as expectativas – May havia lhe presenteado.
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