Depois da Madrugada
3 Pitchu's Bar
Notas iniciais
O bar ficava no porão de uma padaria no alto da Avenida Paulista. Um portão verde musgo indicava a sua entrada, além da placa em cima deste. Nela estava escrito Pitchu's Bar. O bar só era aberto às sete horas, meia hora depois que a padaria era fechada. Uma garota de cabelos-cor-de-rosa com seus poucos vinte anos passava metade da noite anotando os nomes de quem passava pelo portão, controlando a entrada e saída de pessoas ao lado de um rapaz de vinte e cinco anos alto e forte e assustador.
— Hey, Vic! — Pedro cumprimentou a menina com um beijo no rosto. Ele frenquentava o lugar quase todos os fins de semana. Ela sorriu tímida para o rapaz. Ele era mais novo que ela. Desafiando todos os padrões de relacionamento do século vinte e um, ela gostava dele. — Iago. — o homem de pé ao lado de Victória assentiu, cumprimentando-o.
— Pedro! — Victoria chamou e ele a encarou. — Eles estão com você? — perguntou referindo-se ao grupo que vinha atrás dele. O loiro assentiu. — Preciso do nome de todos. — assim, todos disseram os seus nomes e a garota anotou-os na lista.
O portão os levava à um corredor estreito. O corredor os levava à uma escada. Os sete desceram os degraus com cuidado e chegaram ao salão do Pitchu's. Ao contrário do que imaginaram, o lugar não era tão pequeno e parecia grande demais para um simples porão. Ao fim da escada haviam alguns ganchos onde Manuela pendurou o sobretudo. O espaço tinha um formato quadricular. As paredes eram roxas e a iluminação mais clara estava voltada em regiões fixas. Ao fundo, havia uma espécie de palco improvisado, porém bem feito. Do outro lado, um balcão no formato de um semicírculo de bebidas com alguns bancos altos de metal em volta do móvel. Havia um homem trabalhando lá, agitando e misturando as bebidas. No centro do salão, o chão era coberto por azuelejos pretos e brancos posicionados como um tabuleiro de xadrez. Era a pista de dança. Além disso, algumas mesas, cadeiras e puffies foram espalhados pelo ambiente.
— Divirtam-se. — disse Pedro para eles. Deixou-os lá e foi até um grupo de garotas sentadas perto do balcão de bebidas. Cindy deu ombros para a atitude do irmão e guiou os amigos até um das mesas. Eles ainda não haviam notado, mas uma música agitada era reproduzida ali. Titanium.
Manuela mordeu o lábio inferior por dentro da boca. Observou o lugar e as pessoas ali. Provavelmente elas seriam as únicas garotas de quinze anos. A maioria, ela arriscaria dizer, era representada por jovens entre dezoito e vinte anos. Ela gostava das músicas do David Guetta. Gostava das batidas e da forma como elas faziam você ter vontade de pular até o fim de sua vida. Mas não era o seu tipo favorito de música.
Olhou para os amigos. Penelope e Vinicius pareciam habituados a baladas e festas que duravam até o nascer do sol do dia seguinte. Cindy balançava a cabeça de um lado para o outro e cantarolava a letra num sussurro. Julieta marcava o tempo das batidas enquanto batia levemente o polegar na mesa. Clara apenas esperava que alguém fosse para a pista de dança para que ela pudesse ir junto. E Olivia, bem, Olivia parecia a mesma preocupada e exagerada Olivia de sempre.
— Vamos dançar? — Penelope sugeriu a todos, mas encarando fixamente Vinicius. O moreno assentiu e ela o puxou pela mão até a pista de dança. Clara os seguiu, mesmo sabendo que Penelope não gostava muito de sua companhia. Julieta e Cindy foram até o balcão pegar alguns refrigerantes e retornaram em menos de cinco minutos. Não demorou muito para que elas se juntassem aos amigos na pista de dança. E eles pularam e gritaram e cantaram.
***
Já eram dez horas.
— Com vocês, The Dark! — um dos funcionários do Pitchu's anunciou ao microfone. A plateia aplaudiu os meninos assim que eles subiram no palco e se posicionaram em seus devidos lugares. Johnny se aproximou do microfone da frente e o regulou para que se sentisse confortável enquanto cantava. Em seguida, observou o público mais próximo do palco. Habiam algumas garotas ali. Ele sorriu e piscou. Elas suspiraram.
Manuela estava junto com aquelas garotas. Pedro avisara à eles que teria um show no bar às dez da noite e, claro, eles iriam assistir. Vinicius certificou-se de que estavam perto o suficiente do palco. Ele conversava com Manu e Cindy quando Johnny flertou com três de suas amigas de uma única vez. Penelope, Julieta e Clara suspiraram.
— Boa noite, pessoal! — Johnny cumprimentou alto por conta do microfone. Ele era uma pouco mais baixo que Miguel e tinha a pele morena. A barba por fazer realsava o cabelo raspado. Ele usava uma camiseta preta, deixando as tatuagens de ambos os braços à mostra. — Nós somos a banda The Dark e vamos tocar um pouco para vocês hoje! — a platéia aplaudiu, gritou e assobiou. — Meu nome é Johnny, vocalista. Aquele ser esquisito com o cabelo azul ali, é o Alf. — ele apontou para um menino à sua esquerda que acenou para o público. — Ele é o nosso baixista. Lucas, o baterista! — mais aplausos. — E aquele bonitão gótico ali é o Miguel. O nosso guitarrista. Ele não é bonitão, meninas? — Miguel acenou negativamente com a cabeça, rindo levemente sem encarar as pessoas à sua frente. "Sim!" a maioria gritou em coro.
1,2,3,4!
O show teve início com a canção Lost in a Desert, composição de Johnny. Ela contava a história de um garoto que se perdia no deserto ao tentar solucionar os problemas sociais do mundo. A letra era muito bonita quando traduzida.
Manuela desviou o olhar do vocalista para o guitarrista. Miguel, ela decorara seu nome com facilidade, parecia concentrado demais em suas notas para prestar atenção no público. A luz batia leve nele, fazendo com que o cabelo brilhasse num tom loiro. Os cachos caíam sobre o rosto — um gesto que as garotas de sua idade considerariam charmoso.
— Qual será o signo dele, leoa? — Vinicius perguntou, um pouco alto por conta do som. Manuela deu ombros em resposta ao amigo. — Espero que não seja Peixes. — desabafou. Manuela riu. O último crush de Vinicius era pisciano e não ele não conseguiu conquistá-lo. Desde então, o moreno pegara bronca com piscianos. — Não quero que nenhum peixinho dourado machuque o seu coração. — disse abraçando-a. Entre todas as amigas, Penelope e Manuela eram as que mais o deixavam preocupado.
— Não se preocupe, leão. Eu já sou bem crescida. — ela afirmou se desfazendo dos braços do garoto. Sorriu e virou-se para o palco novamente. — Acho que ele não é de Peixes. Arrisco Escorpião ou Sagitário. — palpitou observando Miguel. Algo a fez corar. Ele a olhou rapidamente.
***
Tocaram a última música, Demons, às onze e cinquenta da noite. O público os recebeu com seguidos aplausos e foi a primeira vez que Miguel se permitiu olhar para aquelas pessoas. Sorriu e abraçou os amigos. Fizeram uma reverência em seguida e retiraram-se dali.
Passaram pelo corredor estreito e chegaram ao camarim. O trabalho estava feito. O dono do lugar, Marcus Pitchu, entregou cinco notas de cem para cada membro da banda e deixou-os a sós sem muita cerimônia.
— Parabéns pessoal! Nós conseguimos! — Johnny parabenizou levantado os braços no ar. Haviam acabado por aqueka noite e agora poderiam curtir à vontade. O moreno provavelmente procuraria as meninas do início do show.
Miguel se jogou no sofá que havia ali e pegou uma garrafa de cerveja. Não beberia tanto naquela noite porque queria voltar para casa dirigindo. Ele não queria ser pego enquando dirigia bêbado outra vez.
— Vocês foram fantásticos! — Anna exclamou, entrando na sala. Ela abraçou cada um dos garotos da banda e, quando chegou a vez de Miguel, ela o puxou pela mão para que ficasse de pé. Ela o apertou pelo pescoço enquanto ele levava as mãos até a cintura da loira. — Você foi incrível! — elogiou. Ele sorriu e acenou negativamente com a cabeça. Se separaram e Miguel aproveitou para dar uma boa olhada na melhor amiga. Não percebera antes, mas a voz dela tinha um pouco do sotaque francês.
Alguém pigarreou atrás deles. Miguel levantou o olhar e a ruiva sorriu. Anna sequer precisou virar-se. Apenas deu espaço para Samantha. Ela abraçou o menino e lhe deu um beijo rápido nos lábios.
— Parabéns! — ela sussurrou. Ele não conseguia retribuir o gesto. Algo nele dizia que ele não deveria. Ele precisava dizer à Samantha que não poderiam continuar sendo o que eles eram. Fosse o que fosse.
— Vocês não vêem? — Alf perguntou enquanto saía do camarim ao lado dos outros amigos. Miguel assentiu, livrando-se dos braços finos da ruiva e seguindo até a porta.
A noite é jovem,
Devemos comemorar!
Eu, você e nossa bocas
Juntas sob a luz do luar.
Uma canção sobre uma paixão era o nome da música que Miguel havia composto alguns meses atrás. Não havia escrito sobre um alguém específico ao contrário do que os amigos pensavam.
Ele atravessou o corredor que espremia o seu corpo e chegou, finalmente, ao salão do Pitchu's. A adrelina correu por seu corpo levemente. Sentiu a mão de alguém o empurrando para a pista de dança. Mas ele não era muito fã de dança. Virou-se para trás e viu uma menina muito mais baixa que ele com cabelos pretos longos escondidos à baixo da touco. Ela logo se misturou aos demais que dançavam.
Miguel se afastou daquele grupo que pulava sem parar num círculo. Tocava Hey Mama e todos pareciam conhecer a letra completa e cantavam com Nicki Minaj.
Caminhou até o puff preto com almofadas brancas. Surpreendeu-se ao perceber que havia somente uma pessoa ali. Geralmente, era o lugar onde os casais se pegavam. Às vezes, acontecia algo mais intenso que beijos mas não havia certa frequência naquele tipo de acontecimento. O puff ficava num ponto estrategicamente escondido — ao lado do balcão de bebidas e perto do corredor estreito que levava aos camarins.
Miguel se aproximou. Aquela garota não iria se importar com ele lá. Pelo menos ele achava que não. Ela mexia no telefone, digitando coisas sem parar. Então, ele se sentou ao lado dela afundando na almofada gigante e escura.
Ela tombou para o lado, apoiando a mão — sem querer — na perna do garoto para não cair em cima dele. Eles trocaram olhares. Ela tinha olhos azuis e ele, verdes. Miguel segurou a mão dela, ajundando-a a se equilibrar novamente.
— Desculpe! — ele disse.
— Sem problemas! — ela respondeu desviando o olhar e voltando a posição inicial. Ele percebeu que ela se afastou um pouco,a apesar do puff não ser tão grande. Na verdade, ele tinha espaço para duas ou três pessoas. Ele engoliu seco. Observou o tom ruivo do cabelo da menina e na renda preta que cobria os ombros. Ela usava um vestido preto. Ele gostava da cor preta. Pigarreou chamando a atenção dela. Por algum motivo estranho, queria conversar com ela.
Ignorou a sensação e alcançou um copo de cerveja no balcão. E toda aquela história de não dirigir bêbado? Bem, ele teria que mandar que rebocassem o seu carro no dia seguinte. Deu um gole na bebida. Então percebeu que a garota ao seu lado o encarava. Confusa.
— Quer um pouco?
Fale com o autor