Depois da Madrugada
2 Capítulo 2 - Albuquerque
Notas iniciais
Ele era alto. Tinha o cabelo ruivo claro, castanho claro, loiro. Era difícil de se dizer. Estava cumprido e bagunçado Os olhos eram azuis claros e ele tinha um piercing no cepto. Era tatuado em diversas regiões do corpo, mas o desenho mais curioso era aquele em sua mão direito. Era um símbolo confuso que apenas ele conhecia o significado.
Estava deitado em sua cama abraçado à sua garota quando o despertador em seu celular tocou. Eram sete e meia da noite e ele precisava levantar se quisesse chegar a tempo no Pitchu's. Tirou o braço, com cuidado, de baixo da cabeça da ruiva deitada ao seu lado. Ela estava apoiada no ombro do rapaz e o abraçava pelo tronco. Foi afastando-se para o lado na intenção de não acordá-la. Quando finalmente se levantou, ouviu um grunido vindo da cama. Ele olhou sobre o ombro. Ela havia acordado.
Não se falaram. Ele apenas pegou uma calça jeans escura no closet em butido ao seu quarto e vestiu. Sentou-se à beirada da cama para calçar os coturnos e a menina veio em sua direção. Beijou-lhe na nuca e deslizou os dedos finos pelas costas dele, arranhando-o com as unhas longas e azuis. A pele de Miguel já estava vermelha e um pouco machucada, coisa que ela mesma havia feito. Ela o abraçou, roçando os seios nús nele e pousando o rosto ao lado do dele. Depositou um beijo leve em sua bochecha e brincou com os cachos dele.
Miguel suspirou pesadamente. Largou o coturno e virou-se, agarrando aquela menina de uma só vez. Sua mão tatuada correu pela cintura fina da modelo e beijou os lábios macios ao mesmo tempo. Ele era rápido e feroz. Devorava-a como um leão. Ele a soltou e ela caiu no colchão, sobre a coberta azul marinho.
Ele voltou à calçar a bota e se levantou. Samanta, a ruiva deitada em sua cama, mordeu os lábios o observando. Ele era musculosamene definido. Uma bela escultura de Michelangelo. O gatoto voltou ao closet e pegou uma camiseta de uma de suas bandas de rock preferidas e um gorro preto. Colocou os anéis de coco e a pulseira hippie. Estava pronto.
Encarou Samantha. Ela estava vestida apenas com a cueca feminina lilás. Seus cabelos eram longos e ruivos. Ela era magra e possuía pernas finíssimas, mas quadris volumosos que apenas Miguel conhecia. Desviou o olhar e saiu do quarto.
Morava num apartamento sozinho na maior parte do tempo. Nas últimas semanas, Samantha havia sido sua visita por mais de vinte e quatro horas. Haviam um quarto e uma suíte no pequeno corredor que ligava aqueles cômodos à sala. Apesar de seus pais serem médicos renomados no país, ele não esbanjava a riqueza dos Albuquerque porque não gostava de ser um Albuquerque. Por isso, comprara um apartamento comum num bairro próximo à Avenida Paulista.
Pegou o iPhone preto na mesa de centro da sala e verificou as mensagens. Ele recebia comentários de todos os tipos em todas as suas fotos do Instagram e em todos os seus tuítes. Riu enquanto lia alguns deles. O interfone tocou.
— The Dark! — alguém disse e sua voz pareceu robotizada pelo aparelho.
— Podem subir! — Miguel respondeu, apertando o botão da caixa prateada que ficava perto da porta de entrada do apartamento.
— Os meninos já estão aí? — Samantha perguntou sentando-se no sofá cinza claro da sala. Pegou um pedaço da pizza que haviam pedido mais cedo e deixado sobre a meaa de centro da sala. Ele a respondeu assentindo. Guardou o celular no bolso e encarou a menina ruiva sentada. Ela colocara meia calça xadrez, um chort jeans, uma regata quase branca e um colete preto deito a partir de algum tecido leve.
— Não vai ficar com frio? — ele perguntou referindo-se a roupa que ela usava. Ele não se importava tanto com ela. Entretanto, ela achava que sim.
— Não. — a ruiva respondeu dando ombros.
— Tanto faz, então. — murmurou Miguel sentando-se ao lado dela e pegando um pedaço da pizza também. Ela apoiou a cabeça em seu ombro e ele não ligou. Samantha esperava que ele fizesse alguma coisa. Algum gesto romântico, mas sem resultado. A porta de entrada se abriu e o garoto saltou do sofá.
— Hey, hey, hey! — cantarolou Anna correndo entre os móveis para abraçar Miguel. Assim fez. Samantha revirou os olhos observando a cena. Miguel emvolvia Anna com cuidado e proteção. Ele gostava de Anna, se conheciam desde pequenos, tratavam-se como irmãos. Ainda assim, Samantha sentia ciúme de Anna e de todas as amigas de Miguel.
— Anna! Que saudades! — ele exclamou. A menina tinha o cabelo descolorido num tom loiro claro e estava quase do tamanho dele com o salto que usava. Ela estava estudando na Inglaterra e eles se viam pouco agora.
— Eu sei, Elso. Eu sei. — brincou fazendo referência a animação da Disney. Os dois riram e se afastaram. — Samantha. — cumprimentou.
— Anna.
***
Miguel deslizou os dedos pelas cordas do violão. Uma melodia surgiu quando ele pressionou os dedos nas casas certas. Ele era compositor e escritor. Aquele era mais uma de suas músicas. Come here right now/ Love is the light e we're young/ Come here right now.
Escreveu a letra no caderninho preto com folhas sem pauta que ele carregava para todos os lugares. Tinha ele como uma garota de treze anos tinha um diário. Sua letra não era um garrancho, mas não era perfeita. A caligrafia era inclinada, como no itálico. Algumas letras ficavam separadas das outras, ainda que pertecessem a mesma palavra.
— Ei, cara! Está pronto? Precisamos subir! — disse um de seus amigos entrando no camarim. Miguel fazia parte de uma banda de rock de garagem que fazia alguns shows em bares de vez em quando. Eram quatro integrantes no total. Johnny era o vocalista, Alf era baixista, Miguel era guitarrista e Lucas cuidava da bateria na maior parte do tempo.
Naquela noite, eles tocariam no Pitchu's.
— Estou. — respondeu apenas. O garoto alto e moreno encostado no batente da porta era Johnny. Ele sorriu, mostrando as suas covinhas nas duas bochechas. Assentiu e saiu.
— Acho que você deveria ser o vocalista, não o Johnny. — Samantha opinou se aproximando dele. — Nada contra ele, claro, mas as suas músicas são bem melhores que as dele!
— Já conversamos sobre isso. — ele respondeu sem encará-la. Sim, eles já haviam conversado sobre aquilo diversas vezes. Ela encolheu os ombros e caminhou para fora do camarim. Às vezes — na maioria das vezez— ele não entendia Samantha. Havia deixado claro para ela que não queria se envolver num relacionamento sério e nem nutrir algum sentimento por ela e a menina disse o mesmo. De fato, ele ficava com ela mais que com as outras garitas, mas isso não significava que ele gostava dela. Aquilo não significava nada. Ela não era a única garota que já havia passado mais de uma noite em sua casa. Ele fazia aquilo com suas amigas também. Porém, Samantha não era sua amiga. Nem sua namorada. Ela não era muita coisa para ele e esperava que ele fosse o mesmo para ela.
Afastou o pensamento e se concentrou na sua próxima apresentação. Saiu do camarim e seguiu por um corredor estreito que o levava para o palco. Sentiu a adrenalina percorrer o seu corpo. Encontrou os outros integrantes da banda e fizeram o cumprimento do grupo. Agora era a hora.
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