Depois da Guerra.
18 Se não existisse amor em meu coração...
Notas iniciais
KARINA
Logo depois que Pedro saiu à campainha do meu apartamento tocou. Antes de eu abrir a porta meu coração disparou contra meu peito, Pedro poderia ter desistido de ir, e voltado para casa, resolvido ficar comigo, Sophi e sua família. Mas, quando eu arrastei a porta, quem estava do outro lado era Bianca, meu pai devia ter trazido ela, e eu tenho certeza que ele virá depois de deixar Pedro no aeroporto.
Bianca segurava duas sacolas plásticas, com certeza ela ia cozinhar e mimar a mim e Sophi. Não falaria nada, apenas concordaria, porém, não tinha forças nem para erguer um garfo até minha boca, na verdade eu estava me sentindo esgotada, as forças do meu corpo haviam se esvaído.
Bianca tinha um mínimo sorriso nos lábios, ela sabia pelo que eu estava passando, já me viu passar pela mesma coisa, então apenas me abraçou o mais forte que conseguiu e deixou que eu derramasse todas minhas lagrimas em seu vestido azul preferido.
Ficamos um longo tempo engatadas uma na outra, Sophi quando viu a cena correu até nos e abraçou nossas pernas, enfiando a cabeça entre nós e olhando para cima. Não queria de nenhuma forma que minha filha me vesse sofrendo, mas eu sou de carne e osso, meu coração tem sentimentos e no momento eles estavam me destruindo. Talvez se não existisse amor em meu coração, eu não estivesse sofrendo tanto.
Afastei um pouco de Bianca e limpei as lagrimas que cobriam minha bochecha com a manga do cardigã que eu estava usando. Respirei fundo e aceitei o abraço de Sophi, ele era reconfortante e passava tanta paz para mim que não me importei em ficar presa a ela por um longo tempo. E senti que outra vez Sophi estava me salvando.
– Vou cozinhar. – comentou Bianca, pegando as sacolas novamente e seguindo para a cozinha.
– Posso ajudá a tia Bianca? – sussurrou Sophi em meu ouvido.
– Sim. Mamãe vai tomar um banho. – respondi, ela armou um sorriso encantador nos lábios, segurou meu rosto e pressionou os lábios contra minha testa.
– Vou faze uma comida bem gostosa, pa você. – eu ri, mas acho que meu sorriso não chegou nem na metade das minhas bochechas. Não consegui retribuir o sorriso que minha filha tinha eu seus lábios, apenas assenti e ela saiu um pouco empolgada rumo à cozinha.
Escutei Bianca e Sophi conversando na cozinha e movimentando as panelas, fiquei grata por minha irmã estar em minha casa, eu precisava mesmo da sua ajuda, ao menos por essa noite. Levantei do sofá e me arrastei até o meu quarto. Abri meu armário e logo senti o perfume de Pedro invadir meu espaço pessoa. Segurei minha vontade de chorar e engoli com dificuldade o nó que se formou em minha garganta.
Peguei uma calça de moletom cor-de-ameixa, que eu uso para dormir às vezes, e procurei por uma camisa, estava mexendo no meio das minhas roupas quando uma camisa cinza, velha, surrada e desbotada de Pedro caiu nos meus pés. Peguei-a do chão e estiquei na frente do meu rosto, eu já havia a usado várias vezes depois de a gente fazer amor, achava-a confortável. Amassei-a e a encostei em meu nariz, o cheiro do meu perfume misturava-se com o cheiro do perfume dele, era delicioso. Embolei junto com a minha calça e joguei sobre a minha cama. Peguei um conjunto de lingerie e segui para o banheiro.
Livrei-me das minhas roupas, e me enfiei em baixo do jato de agua fervendo, logo minha pele começou a ficar vermelha, mas não me importei, eu estava perdida em meus pensamentos, em minhas lembranças, em tudo que me ligava a Pedro. Nem notei as lagrimas brotando dos meus olhos, apenas quando meu corpo cedeu e eu caí, sentindo o piso gelado sob mim. Dobrei meus joelhos e coloquei meus braços em torno deles, abaixei minha cabeça e deixei que a agua levasse junto minhas lagrimas e o meu cansaço.
Uma vez, Delma me disse que o melhor remédio era chorar, que ele ajudava a nos livrar da dor que sentimos em nosso peito, na verdade ameniza um pouco, porque a dor nunca passa, e eu experimentei isso por cinco anos. Enquanto tomei banho perguntei a mim mesma o porquê de ter escolhido um herói para me apaixonar, mas, simplesmente não escolhemos a quem amar, e eu sei que o que mais me chamou a atenção em Pedro foi isso, seu estilo heroico.
Quando sai do meu quarto, já vestida com as peças de roupas que ia usar para dormir, senti o aroma vindo da cozinha. O cheiro da comida estava delicioso, mas eu não tinha apetite algum. Cruzei meus braços e encostei-me ao batente da porta, fiquei observando as duas. Sophi estava colocando pratos e talheres na mesa.
Escutei novamente o barulho da campainha. As duas olharam para mim e eu ergui a mão, avisando que eu abriria. Tinha certeza que era o mestre Gael, pronto para envolver sua filha em seus braços e deixar que ela molhasse toda sua camisa com seu sofrimento. Ele estava pronto para a toda a minha angustia. Respirei fundo e andei até a porta. Quando abri ele estava parado, com a postura ereta, pronto para me abraçar.
– Oi... Pai. – falei pronta para responder a sua pergunta “Você está bem?”, na verdade mentir para ele. – Entra. – abri passagem para ele que entrou rapidamente e ficou parado no meio da sala. Olhei para ele que analisou todo meu rosto, sei que meus olhos estavam vermelhos e ele ia notar que eu estava chorando. Cruzei meus braços, tentando me manter forte, e desviei meus olhos dos dele. Porém, tudo que precisava era do abraço do meu pai.
Ao contraio do que eu pensei... Meu pai não disse nada, ficou parado esperando uma reação minha, que não demorou muito para surgir.
Uma lágrima teimosa caiu dos meus olhos e escorreu pela minha bochecha, eu deixei que as outras caíssem naturalmente e, então, meu pai andou até mim e jogou seus braços em torno do meu corpo, me abraçando forte contra si, me protegendo como só ele sabe fazer. Afundei meu rosto em seu peito e agarrei o tecido da sua camisa que logo ficou encharcada com minhas lágrimas.
– Sinto muito medo pai. – resmunguei. – De o Pedro morrer e dessa vez de verdade, a missão é suicida, delicada, mais perigosa que no Afeganistão. – solucei como uma criança.
– Aquele capiroto... – fazia anos que meu pai não chamava Pedro assim. A lembrança da primeira vez que meu pai viu Pedro invadiu minha cabeça e me fez sorrir. – Tenho que admitir que aquele moleque é corajoso. – murmurou meu pai. – E tenho certeza que ele vai voltar inteiro para vocês, Pedro não quer perde-las de forma alguma. Se ele disse que vai voltar eu acredito. – ficamos um tempão em silencio, meu pai afagava minhas costas e tinha os lábios pressionados no topo da minha cabeça. Deixei que seu abraço me reconfortasse.
– Acho que Sophi precisa de você também. – sibilei quando a vi nos observando parada na porta da cozinha, seus olhos estavam murchos e pela primeira vez eu a vi ceder, mas por fora, ela ainda se mantinha forte. Meu pai se agachou e abriu os braços, ela sorriu e correu até ele, jogando-se em seus braços, meu pai parecia uma gigante perto dela.
Ele a envolveu em seus braços, cobrindo cada parte do pequeno e sensível corpo de Sophi. Tenho certeza que ela sente-se abraçada por um urso, porque é assim que me sinto quando abraço meu pai. Ele beija a bochecha dela que solta um sorriso, acho que a barba espetou seu rosto.
– Você vai janta com a gente, vô? – indagou Sophi, enquanto meu pai alisava uma mecha do seu cabelo, e colocava para trás da orelha.
– Mas é claro. – respondeu. – E o que tem para o jantar?
– Macaão. – Sophi inclinou o rosto. – Acho que tia Bianca só sabe fazer macaão. – acrescentou bem baixinho, para que Bianca não escutasse. – Não conta pa ela tá vô. – meu pai deu uma piscadela e sorriu, assentindo.
– Não mesmo. – levantou e pegou na mão de Sophi e os dois foram para á cozinha, e eu os segui. A mesa já estava arrumada, Bianca pegou a tigela com macarrão fumegante e colocou sobre um descanso de panela em cima da mesa. Os três se sentaram em volta da mesma, e eu também. Mesmo sem fome comi algumas colheradas de macarrão e tomei o suco de uva. Bianca sabia fazer apenas macarrão mesmo, mas eles eram deliciosos.
Depois do jantar eu ajudei Bianca a arrumar a cozinha, mesmo ela dizendo que não precisava, eu insisti. Preciso manter minha cabeça ocupada. E enquanto secava os pratos e os guardava, eu não consegui bloquear meus pensamentos, as noites que Pedro me ajudava arrumar a cozinha, enquanto Sophi assistia um desenho na televisão, isso está tão vivo em minha cabeça, que torna a dor ainda mais insuportável.
Os dois foram embora por volta da 00:00 noite, eu tive que repetir várias vezes que estava bem e que eles não precisavam ficar, então os dois deram-se por vencidos e partiram. Sophi acabou adormecendo no sofá, peguei-a em meu colo e a levei para minha cama, não ia conseguir dormir naquele quarto sozinha, quando cada canto tinha o cheiro de Pedro.
Deixei Sophi na cama e a cobri até as orelhas, ela dormia profundamente, sua respiração estava lenta e tranquila. Apaguei as luzes da cozinha e da sala e voltei para meu quarto. Deitei ao lado de Sophi e ela abraçou meu pescoço com força, pressionando a têmpora no meu peito. Demorei bastante para enfim cair em um sono profundo, minha cabeça dava voltas em tudo que havia acontecido durante o dia. Tudo estava tão bem e de repente o mundo inteiro sucumbiu.
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PEDRO
Depois que sai da minha casa, deixando Karina e Sophi, Gael estava me esperando do lado de fora do prédio. Ele apenas me cumprimentou com um aceno de cabeça e, embarcou no carro, eu fiz o mesmo. A viajem até o aeroporto foi silenciosa, e eu sabia que ele não estava nenhum pouco feliz por eu estar fazendo aquilo. Mas, agora a única coisa que me importava era concluir a missão e voltar para a minha casa. Para os braços da mulher que amo e para a minha filha.
Quando chegamos ao aeroporto foi a primeira vez que Gael esboçou alguma reação, os cantos dos seus lábios se curvaram em um pequeno sorriso e ele ofereceu a mão para mim, eu aceitei e selei nossas mãos em um aperto forte e carregado de compreensão da parte dele.
– Você deve voltar Capiroto. – ele voltou a me chama daquele apelido que me chamava logo quando me conheceu. – Cumpra o seu dever, e quando voltar, saiba que vai ter uma família lhe esperando e ansiando para lhe ver.
A imagem dos rostos das pessoas que amo passou pela minha cabeça, até focar em Karina e Sophi, as duas sorrindo e brincando comigo de uma brincadeira qualquer, a gente quase sempre brincava no meio da sala do nosso apartamento.
– Eu vou voltar. – Gael deu um passo na minha direção e me abraçou forte, dando alguns socos leves em minhas costas.
– Eu sei que vai. – murmurou. Nos afastamos, eu sorri e o cumprimentei batendo continência, ele acenou com a cabeça e eu parti, para um lugar onde eu sei que não vou ter por perto as pessoas que amo.
Um avião fretado pelo exercito estava saindo do aeroporto, levando alimentos, medicamentos, roupas, armamentos e reforços para os soldados que estavam em Israel. Quando cheguei na pista ele já estava pronto para decolar, cumprimentei nosso comandante e entrei no avião, me sentei em um assento livre. O avião alçou voo, pela janela eu vi minha cidade ficando para trás.
A viajem durou horas, eu consegui dormir um pouco, mas não foi nenhum pouco confortável, já tinha desacostumado da minha vida de soldado. Paramos em uma cidade de Israel que permitia pouso de aviões grandes, dali eu e uma tropa de 30 soldados seguimos de carro até o lugar onde André e Bruno, foram pegos.
Encontramos uma tropa de homens destruídos pelos rebeldes, alguns tinham pernas e braços amputados, alguns haviam sido atingidos por estilhaços de bomba, era um cenário horrível, ao qual eu já tinha me acostumado. Poucos homens estavam inteiros. Mas tinham que lidar com a dor de ver seus companheiros sendo levados lentamente para a morte.
Na minha tropa de trinta soldados, dois eram médicos que foram enviados para cuidar dos feridos, eles logo começaram o trabalho, o avião ia transportar o restante dos feridos e nosso comandante ia liderar os soldados que estavam em boas condições. Ao todo, éramos 58 homens, um numero que pode ser considerado pequeno. A missão foi classificada com altamente perigosa, mas era necessário concluir a operação e recuperar nossos dois soldados.
Ajudei o comandante a traçar uma linha de ataque. Aos arredores de onde estávamos, haviam cidades destruídas, cemitérios e florestas onde os rebeldes podiam estar se escondendo. Traçamos uma rota e íamos começar no dia seguinte invadindo uma cidade que foi levada a baixo, existiam casas inteiras que podiam sim estar sendo usadas pelos rebeldes.
Mas, não tínhamos nenhuma certeza que eles poderiam mesmo estar escondidos nessa cidade, íamos trabalhar duro até atingir o local certo e encontrar André e Bruno.
Durante a noite dormi em uma tenda, que tinha um projeto de cama no canto, a noite não foi nenhum pouco confortável e choveu muito, e eu sabia que aquilo dificultaria muito nosso trabalho. Todos acordaram logo cedo, tomamos café e demos uma ultima olhada no plano e como ele ia ser desenrolado e tudo mais.
Estávamos escondidos em uma aldeia pequena ao sul de Israel, o que facilitou nossa ida até a cidade vizinha, já que podíamos usar carros. Quando chegamos à cidade fantasma, nos dividimos em cinco grupos e dividimos a cidade em cinco áreas, tínhamos comunicadores ligados as nossas orelhas, e poderíamos nos comunicar com os outros grupos. Liderei meu grupo em meio a pedaços de concreto espalhados pelas estradas. Era uma cidade totalmente vazia, morta, escura, mais parecia um deserto de concreto.
Tinha uma casa enorme ainda em pé logo a nossa direita. Peguei meu fuzil e engatilhei, deixando pronto para qualquer contratempo. Entramos na casa e checamos cada canto do primeiro andar, depois subi para o segundo andar, estava completamente vazia, nenhuma mosca nos brindava com o ar da sua graça.
Entramos em uma segunda casa e fizemos o mesmo procedimento, ela também estava completamente vazia. E assim foi. Até invadirmos a ultima casa que estava dentro da nossa área. Era uma enorme mansão, de dois andares também, ainda tinha moveis dentro dela, retratos nas paredes. Subi para o segundo andar com dois soldados cobrindo minha retaguarda, logo no topo da escada a direita dela tinha um extenso corredor, com duas portas de cada lado.
Abri a primeira porta, era um quarto pequeno, todo rosa, ele estava inteiro, brinquedos estavam espalhados pelo chão. E retratos de uma garotinha com a mesma idade de Sophi cobriam um mural azul de estrelas. Uma foto destacou-se em meio às outras, era a garotinha, ela tinha um braço engatado em uma mulher e o outro em um homem, os três estavam sorrindo. Lágrimas começaram a brotar dos meus olhos ao lembrar-se da minha família, Sophi e Karina sorrindo e abraçadas a mim.
Levei a mão no bolso da calça camuflada que usava e tirei uma pequena foto de dentro dela, era uma imagem delas duas. Karina sorria enquanto Sophi fungava em seu pescoço, fui eu quem tirei a foto, estávamos no parque, tínhamos acabado de fazer um piquenique. Deslizei meu dedo pela superfície plana, contornando a linhas dos rostos das duas.
– Eu amo vocês. – murmurei. Era isso que eu dizia a elas todas as manhãs.
‘Sargento?’ – escutei a voz do meu comandante pelo comunicador.
– Estou aqui. – disse.
‘Todas as áreas foram revistadas, já finalizou a sua?’
– Sim, está vazia. Nenhum sinal de vida. – respondi.
‘Vamos seguir para o próximo local. ’
– Entendido....
Verificamos várias cidades e seus arredores onde os rebeldes poderiam estar, mas no final do dia não tínhamos encontrado nada. Nenhum sinal de vida. Erguemos acampamentos em uma cidade pequena, tínhamos mais um longo dia pela frente, e todos seriam assim, até nós encontrar o grupo terrorista e os dois soldados.
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