Notas iniciais
Esse é só o primeiro, vai ficar mais legal depois. Espero que gostem amores

Acordei antes mesmo de o sol nascer, quando se passa longos oito anos tendo sempre essa mesma rotina de acordar no meio da madrugada e sair para caçar todos os míseros dias desde que seu irmão mais novo nasceu você se acostuma e passa a não ser tão ruim, não que seja bom, mas é menos ruim. Todos os dias que somando dão 4380 não há uma exceção que eu não acorde pensando comigo mesma “Não seria meu pai quem deveria fazer isso?”, ele foi comigo nos primeiros dias de vida do meu irmão, mas apenas para me ensinar, ou seja, em mais ou menos cinco dias eu ia sozinha para a floresta caçar pássaros para o almoço e me esforço ao máximo porque sei o que acontece se eu chegar em casa de mãos vazias...

Os tempos mudaram bastante desde que aconteceu o apocalipse, nas historias que minha mãe nos conta ela sempre diz que as pessoas nunca previram que algo assim algum dia fosse acontecer também diz que as pessoas eram felizes antes disso, tinham liberdade e não precisavam ficar assim escondidas como nós ficamos, mas claro é o único jeito de sobreviver depois que as portas do submundo foram abertas e os demônios dominaram o mundo, a raça humana ficou extinta em menos de um ano com certeza porque os demônios se reproduzem muito rápido basta uma mordida, um pouco de veneno em seu sangue e acabou, por isso nesse mesmo tempo praticamente metade da população estava morta e a outra metade haviam se tornado demônios como eles. Como em tudo tem que haver um equilíbrio os anjos foram enviados à Terra para tentar salvar um pouco dos humanos, mas isso não aconteceu os anjos sabiam que seria impossível salvar os humanos mesmo que quisessem por fim desistiram e foi aí que a guerra começou, não sei ao certo se dura até hoje ou se já acabou, nós os humanos que restam precisamos ficar escondidos para não sermos pegos, não vivemos apenas sobrevivemos sem muito sentido para continuarmos aqui.

Minha família criou seu meio de sobrevivência desde o começo do apocalipse meu pai se orgulha de sobreviver por tanto tempo mesmo eu não concordando com esse seu orgulho, não entendo o que há de digno em se esconder, talvez pudéssemos nos orgulhar se nossos ancestrais tivessem acabado com os demônios ou recuperado nosso lar, mas não, são apenas uma geração de fracos com medo até de sair de casa para caçar não imagino o que aconteceria sem mim aqui.

Peguei minhas lanças em um dos poucos cômodos de nossa casa subterrânea que apesar de pequena estava ali há anos, desde o começo do apocalipse minha família vive ali é onde criam seus filhos em sua própria paz interior fingindo que não existem milhões de demônios e anjos espalhados pelo mundo. Havia as afinado na noite passada depois do jantar como sempre faço quando estou sem sono e fico me revirando na manta estendida no chão em que durmo, meu irmão Paul é o único que tem uma cama por causa de sua deficiência, ele não anda desde que nasceu, mamãe fala que de acordo com o que a vovó contou para ela essa deficiência era comum antes do apocalipse eles até haviam descoberto um jeito para fazê-los andar sentados, não entendi bem isso, mas ela disse que não sabe como explicar pois nunca havia visto também. Paul tem oito anos, quando ele nasceu eu tinha apenas dez anos e foi aí que minha vida mudou completamente tive que começar a fazer tudo em casa pois meu pai dizia (e ainda diz) que está muito velho e cansado para tudo mesmo tendo apenas 40 anos, as pessoas não duram muito nos dias de hoje, vovó morreu aos 60 e vovô aos 51, meus pais nunca me contaram o motivo de sua morte, a única coisa que sei é que a toda a família da mamãe morreu quando foram invadidos por um demônio, minha mãe conseguiu fugir até nossa casa e foi aí que conheceu papai e nós nascemos. Ela costuma contar historias sobre o que aconteceu naquela noite, sempre tenta parecer forte como em todas as outras situações por que passa, seus olhos acinzentados estão sempre fixos em algum lugar e uma expressão fechada não sai de seu rosto magro, a última vez que a vi sorrir foi quando Paul nasceu seguido claro por noites e noites de choro quando soube que ele nunca seria um garoto normal, ela nunca poderia leva-lo para passear no lago como fazia comigo e papai nunca poderia ensiná-lo como caçar ou como usar suas lanças, eles nunca mais foram os mesmos depois disso.

Meu irmão diz que pareço minha mãe, não só por causa de nossos olhos exatamente iguais ou nossos cabelos de um tom sem nome um pouco castanho e um pouco ruivo, mas também pela expressão e ele tem razão não gosto muito de sorrir, mas sempre abro exceção quando estou com ele mesmo tento vários motivos para odiá-lo talvez por fazer com que meus pais se esquecessem de mim ou por me fazer ter que começar a trabalhar e não ser mais o bebezinho da mamãe, mas simplesmente não consigo Paul é o garoto mais doce que conheço (mesmo eu não conhecendo nenhum outro), está sempre sorrindo mesmo passando o dia todo deitado em sua cama dura ele acha motivos para ser feliz, me sinto ingrata ao vê-lo assim.

Peguei meu caminho na trilha até a floresta, o dia está muito frio fiquei feliz por ter pegado o cachecol e o suéter que minha mãe teceu para mim em meu aniversario mesmo não nos lembrando de datas comemorativas aqui ela sempre fazia questão de nos dar algo que teceu com o algodão que cultiva e papai faz lanças novas para mim. Fiquei na posição certa atrás do arbusto, joelhos dobrados e braços dobrados apertando com força a madeira, mas claro não muito ou a lança iria para muito longe, fixei meus olhos pela última vez no pássaro de um tamanho mediano que com certeza daria não só para o almoço, mas também para o jantar se conseguir acertá-lo já posso voltar para casa, peguei impulso e finalmente lancei e acertei, é raro não acertar minha experiência com eles é bem grande e sei exatamente o quanto vão mexer ao ouvir o barulho e por isso sempre jogo um pouco para a esquerda para não ter erro. O pássaro soltou seu último pio antes de cair de costas da grande árvore que estava bem perto de mim deu até para ouvir o barulho de ele caindo no chão coberto de folhas. Corri até lá e peguei-o.

- O que foi isso? – ouvi alguém dizer atrás de mim, meu coração disparou não há ninguém ali por perto além de nossa família.

Fui para atrás da árvore correndo, mas cuidadosamente para que ninguém me ouvisse, virei a cabeça e os vi eram dois provavelmente demônios os identifiquei com as historias de minha mãe onde ela dizia que são extremamente bonitos, parecidos com humanos, mas com traços mais perfeitos, cabelos mais bonitos e uma pele impecável. Respirava com dificuldade, minhas mãos tremiam, mas minha curiosidade era maior e voltei a olhar.

- Deve ter sido só mais um desses pássaros. – o homem loiro disse olhando para os lados.

“Eles vão me ver, eu preciso ir” isso passou por minha cabeça tantas vezes em menos de um minuto que é provavelmente impossível contar, me levantei ainda encostada no caule da árvore, essa é minha chance. Segurei forte na lança com o pássaro na ponta e corri o mais rápido que pude, sem querer olhar para trás e ver o que estava acontecendo, se eles haviam me visto ou não só queria ir para casa e tentar esquecer disso mesmo a aparência deles sendo algo que eu gostaria de lembrar. Tenho sorte de ser tão perto de casa, acelerei ainda mais quando vi a folhagem que fica por cima da tampa de nossa casa, minha respiração estava ofegante assim que puxei a tampa de madeira com força e bati logo em seguida, ignorei as escadas feitas com caixotes e pulei logo no chão.

- O que está acontecendo? – mamãe parecia preocupada.

- Eles... eles estão aqui. – ainda recuperava o fôlego com dificuldade, nossa casa é um pouco abafado mesmo com as varias entradas de ar feitas com buracos na terra.

- Quem está aqui? – Papai estava sujo, provavelmente cuidava da horta antes de eu chegar.

- Os demônios, eu os vi estão na floresta.

Os olhos de minha mãe se arregalaram e meu pai se sentou na cadeira que havia atrás dele.

- Katherine, eles te morderam? – papai tinha a mão na testa.

- Não, eu consegui fugir.

- Você jura? – ele se levantou e veio para meu lado.

- Eles não me pegaram. – me afastei até a parede que dava para o quarto.

- Mostrou nossa localização para eles? – sua voz estava aterrorizante.

- A-Acho que não me viram. – gaguejei.

- Acha? – papai levantou a mão pegou impulso e bateu na lateral de meu rosto foi como jogar fogo lá. – Não vamos morrer por sua causa!

Abaixei a cabeça até a altura de meus seios, mamãe observava tudo atentamente, sentia em seus olhos que queria fazer algo afinal ela já passou por isso, mas sei que tem medo dele sabe que pode ser ela no meu lugar se fizer algo errado para me defender.

- Não bate nela! – Paul gritou do quarto chorando.

Meu pai ignorou, suspirou e voltou para o que estava fazendo antes de eu chegar, com certeza ama mais aquelas suas plantas que qualquer um da família e pelo que sempre soube e hoje sabia com mais certeza ainda é que ele vai fazer de tudo para salvar sua pele, meu pai não vai morrer por nossa causa como eu faria pela mamãe ou por Paul ele não liga para nós apenas para ele. Havia lagrimas escorrendo em meu rosto e minha mão acariciava o lugar em que ele bateu em uma tentativa inútil de fazer a dor passar. Entrei em meu quarto que divido com meu irmão e bati a porta ainda chorando por raiva dele, de tudo o que aconteceu.

- Katy, o que foi? – Paul olhava para mim assustado, acho que não viu muito mais que o tapa de meu pai em meu rosto.

Ignorei-o, a última coisa que quero agora é conversar sobre tudo o que vi e o que posso ter causado a toda nossa história de sobreviventes do apocalipse. Deitei-me na manta no chão que apesar de ser bem dura é o bastante, puxei- a até o pescoço ainda olhando para Paul, ele estava sentado, era a única coisa que fazia sozinho usando a parte de baixo do corpo mesmo com muita dificuldade, suas pernas são bem finas assim como seu corpo mais magro que o comum ele não gosta muito de comer, mas às vezes sento ao seu lado e fico muito tempo o convencendo e depois coloco colher por colher em sua boca, ele me olhava com aquele rosto de fazer dó como seu tivesse o maltratado, seus olhos são grandes e azuis o que não o faz parecido com ninguém da família, especialmente único. Paul me convenceu, sai debaixo de meu cobertor ainda limpando minhas lagrimas que haviam escorrido e sentei ao seu lado na cama, sua cabeça deitou em meus seios e meus dedos acariciavam seu cabelo macio um pouco grandes, ele não gosta que minha mãe corte e tem razão seu cabelo é lindo assim, um castanho avermelhado como o meu, mas um pouco mais escuro.

- Não quero assustar você, vai ficar tudo bem isso é o que importa. – não acredito que vá ficar tudo bem, mas quero tranquilizá-lo.

Assim que terminei a última palavra ouvi um barulho, a tampa foi aberta e foi a combinação perfeita para fazer meu coração disparar como na floresta, Paul olhava para mim assustado, apertei-o em meus braços. Minha mãe gritou com uma voz fina e foi como se pudesse vê-la chorando como se tivesse visto um monstro e realmente acredito que viu. Paul abriu a boca, mas levei a mão e tampei, não podíamos ser descobertos.

- Fugiram por um bom tempo. Parabéns, mas agora é o fim. – um dos demônios falava calmamente enquanto meus pais gritavam e choravam alto.

Eu causei aquilo, talvez se tivesse morrido na floresta não teria os sacrificado. Um ruído bem alto como o de um cachorro latindo e acabaram todos os gritos, eu os matei, matei meus pais, mas não posso matar Paul que chorava em meus braços, soltei sua boca e coloquei o dedo em meus lábios ordenando que se calasse, peguei uma lança no canto do quarto e apertei-a com as mãos tremulas, me posicionei em frente a porta com os dentes firmes no lábio inferior ainda juntando coragem para isso, sei que não foram embora.

Algo chutou a porta e caí para trás ainda com a lança na mão era o homem de mais cedo, mas agora tinha uma boca enorme com presas tão afiadas quanto minha lança e baba escorrendo dos lados. Seus olhos foram diretamente para Paul assim que ele soltou um grito apavorado como nunca havia ouvido antes e caminhou para seu lado, meu medo é tão grande como minha vontade de estrangulá-lo. Assim que chegou mais perto de meu irmão tomei minha decisão, corri até ele e chutei cabeça, seu corpo musculoso bateu na parede e caiu, o demônio logo olhou para mim exibindo seus dentes ainda sujos de sangue, sangue dos meus pais, soltou um “Ah!” e cravou eles em minha perna. Soltei um grito mais alto que qualquer um do meu irmão ou de meus pais, não consigo descrever a dor que senti naquele momento, mas nunca havia sentido algo tão ruim assim foi como se ele tivesse colocado fogo dentro de mim. Minha raiva tomou conta de mim, dei um pulo mesmo não conseguindo me segurar direito em minha perna e rasguei sua garganta com a lança.

- Katy! – Paul tinha a mão nos olhos.

- Vamos, precisamos fugir daqui.