Depois De Tanto Tempo
14 Capítulo 14
Notas iniciais
“Então, o que você acha?” Eu perguntei a Sebastian, que estava contentemente mexendo no meu cabelo.
Após eu chegar da aula de hoje — segunda -, contei a ele sobre o que o Alois me contou sobre seu encontro. O que não foi muito mais do que onde ele e Claude foram e como o Claude é maravilhoso. Tive que me segurar para não vomitar.
E também Alois havia me chamado para ir ao cinema com ele e o Claude, e deixou explicito que eu deveria levar Sebastian comigo. Ele falou alguma coisa sobre encontro duplo, mas eu não prestei atenção no momento.
“Acredito que devemos ir. Afinal de contas, é falta de educação recusar um convite.” Sebastian disse, rindo baixo.
Eu me virei em seu colo, encarando-o. Era a mesma coisa que ele dizia quando eu era humano e não queria ir naqueles bailes irritantes.
A única diferença é que agora, ao em vez de ‘eu’ ir, ‘nós’ vamos. Pode parecer uma diferença pequena, mas eu fico grato que ela existe.
Eu suspirei e assenti, passando minha mão pelo rosto e tirando minha franja de meu olho.
“Nós vamos, mas não vou assistir nenhum daqueles filmes românticos.”
“E que tipo de filme você vai querer ver, Jovem Mestre?”
“Eu não sei... Um de ação, talvez. Ou suspense.”
Sebastian assentiu, olhando para mim com uma expressão pensativa.
“Lembro-me de ter olhado no jornal os filmes que estão em cartaz e tem um que eu gostaria de assistir.”
Ele e seus filmes... Uma vez, ele chegou em casa com dez filmes da locadora. Sendo que teria que devolver em dois dias.
“Qual?” Perguntei meio desinteressado, para dizer a verdade. Ele pode gostar de filmes, mas eu acho que é um pouco de perda de tempo.
“Não me recordo o nome, mas sei que eu gostaria de assistir com você, Jovem Mestre.”
Ele me puxou para mais perto, com um brilho de divertimento nos olhos.
“Devo perguntar por quê?”
“É um filme para maiores de 18.”
Senti o sangue se acumular no meu rosto quando ele acabou de falar. Eu tentei me levantar, mas ele simplesmente me segurou.
“Seu pervertido! Eu não acredito que você realmente pensou que eu concordaria com isso! Eu não acredito que você pensou nisso!”
Sebastian deixou um riso abafado escapar por causa da minha reação, levando sua mão esquerda a minha bochecha.
“Acalme-se, Jovem Mestre. Estava apenas me divertindo.”
Eu lhe encarei, mostrando o quanto eu tinha ‘adorado’ que ele havia se divertido.
“E desde quando você pode ficar se divertindo à custa de seu mestre?”
“Desde que ele passou a ser mais do que meu mestre.”
...
Idiota.
“Pare de dizer bobagens.” Eu o abracei, colocando meu rosto na curva de seu pescoço para que ele não vesse o quanto eu havia ficado vermelho com suas palavras.
Sebastian assentiu e eu pude praticamente ouvir seu sorriso. Esconder meu rosto nunca adianta, ele sempre sabe que eu fico envergonhado.
“Vamos, Jovem Mestre. Temos que nos vestir para que possamos ir.” Ele se levantou, me levando junto em seus braços, me fazendo arfar em surpresa.
“Ei! Seu imbecil! Eu não sou inválido, me ponho no chão!”
E ele me ignorou completamente.
-
Eu e Sebastian chegamos ao cinema no horário marcado, e eu estava olhando os pôsteres do que estava em cartaz. Tentando me distrair da raiva que eu estava sentindo dessas malditas mulheres encarando Sebastian.
“Prostitutas...” Eu murmurei para mim mesmo, tentando achar um filme que me agradasse.
Eu podia detestar o fato delas estarem olhando, mas não podia culpa-las. Ele estava com uma camisa de mangas longas e um pequeno — no entanto largo — decote V, num tom de vermelho escuro que realçava seus olhos e um paletó de blazer marrom claro, quase bege. Uma calça jeans preta... Como é que chamam? Ah, skinny. Elas alongavam suas pernas, deixando obvio como elas são fortes. E é claro, seu par de sapatos sociais favorito juntamente com um cinto de couro preto.
Ele está muito bonito. Literalmente, de se parar o trânsito.
-
(Atenção! Agora é do ponto de vista do Sebastian!)
Ah, Jovem Mestre, por que será que insiste em sair tão bem vestido assim? Como se normalmente não chamasse atenção.
Ele usava uma camisa polo azul clara, com um colete cinza aberto por cima, detalhando sua cintura. Uma bermuda alfaiataria branca com um cinto listrado, que quase não era possível de ser visto graças à camisa que caia por cima de mais da metade dele. E em seus pés, um de seus pares favoritos de sapatênis, um branco com uma listra cinza e outra vermelha.
Alguns homens que passavam ficavam olhando – e eu sei onde exatamente eles estavam olhando – enquanto ele olhava os filmes em cartaz. E até algumas meninas. Humanos são tão desprezíveis.
Eu me aproximei dele e peguei uma de suas mãos, entrelaçando seus dedos com os meus. Pude ouvir alguns suspiros baixos de decepção ao redor do cinema.
O rosto do Jovem Mestre ganhou um pouco de coloração com o que eu fiz, mas um pequeno sorriso vitorioso estava estampado em seus lábios.
...
Alguns minutos se passaram, e Alois chegou ao cinema com... Ele.
Isso vai ser interessante. Vou tentar interagir, talvez eu consiga descobrir alguma coisa.
“Oi Ciel!” Alois abraçou meu Jovem Mestre, que quase perdeu o equilíbrio e eu abafei um riso.
“Oi Sebastian!” Ele me abraçou também, com menos força do que com o Jovem Mestre, mas ainda assim era bem apertado.
“Olá.” Claude se aproximou e sorriu, estendendo a mão para mim. E eu a peguei com tamanho desprazer.
Ele repetiu o processo com o Jovem Mestre, e eu tive que me segurar para não mata-lo. Quem ele pensa que é para toca-lo?
“Vocês já decidiram que filme vão querer ver?” Alois perguntou, olhando para os cartazes, com uma expressão pensativa.
“Eu pensei em ‘O Mestre’.” O Jovem Mestre respondeu, olhando para os pôsteres também. Por que eu não estou surpreso dele querer assistir a esse filme?
“É sobre o que?” Alois virou para encara-lo, sorrindo.
...
Será que o Jovem Mestre vai querer pipoca? Mas eu ouvi dizer que pipocas de cinema não são nada saudáveis.
“Não faço ideia. Só gostei do nome.” Ele me lançou um olhar discreto, e eu sorri diabolicamente.
Ele sempre vai ser assim.
“E que tal ‘Amor’? É um filme francês. Igual ao seu nome.” Alois perguntou, voltando o olhar para os cartazes.
“Eu acho que não vamos ter direito de opinar na escolha do filme.” Claude murmurou para mim, com um brilho divertido nos olhos enquanto encara Alois.
Ah, ótimo. Pensei que eu teria que começar a interação com ele.
“Eu nunca opino, já estou acostumado.”
Ele riu baixo e assentiu.
Era a verdade, afinal de contas eu sou um simples mordomo.
“Ciel, vai querer pipoca?” Eu perguntei antes dele e Alois começarem a discussão sobre qual filme ver.
“Lógico.” Eu sabia. Mesmo não tendo fome nem necessidade de comer, ele come sem parar sem se importar com nada. Não que eu lhe diria isso.
“E compre um chocolate também.” Eu também já deveria saber.
“Como quiser.” Eu retirei algumas mechas de cabelo de seu rosto.
Eu fui para a fila para comprar as guloseimas do Jovem Mestre e olhei atentamente para a pipoca.
Como humanos podem comer isso?
Eles nem sabe que tipo de pipoca é? E se for... Enlatada? Não confio em comida enlatada.
Pelo menos o Jovem Mestre não pode morrer de intoxicação alimentar.
Ele nunca poderá morrer. E isso me deixa com uma sensação estranha, como um repuxo no meu estômago.
Saber que eu vou passar a eternidade com esse pirralho mimado, irritante, teimoso e presunçoso me deixa estranhamente feliz.
E eu sei que ele sente o mesmo.
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