Departamentos
7 Capítulo 7
Cada hora que passava, parecia uma eternidade. Parecia que nunca íamos acabar aquelas tarefas horríveis e nojentas, sem falar que eram ridículas.
Lavamos as roupas de todos os sobreviventes, limpamos os banheiros, cuidamos do relógio central que era enorme! E tínhamos que limpar cada número, que tinha o dobro de nosso tamanho, limpamos todos os lustres e lâmpadas, sem falar dos tapetes que pareciam não serem lavados e aspirados há séculos, o que fez Carly ter uma crise de sinusite.
–Temos que levá-la até a sala de Dra. Mc’curt! – falou Tifany ajudando Carly que tampava o nariz com a manga de sua blusa branca que agora estava de um tom escarlate entristecedor.
–Não! Levem-na até a enfermaria. Eu vou falar com a minha mãe. – disse Kevin saindo da lavanderia e correndo em direção ao escritório de sua mãe, que eu não fazia idéia de onde ficava.
–Vamos! – disse Joe, ajudando Carly pelo lado esquerdo e Tifany pelo direito.
Corremos pelos corredores mofados e sujos como se estivéssemos correndo de uma bala perdida, no meio do tiroteio.
Chegamos na enfermaria e abrimos a porta abruptamente. Um homem com barbas brancas, óculos redondos e seu corpo era corpulento se levantou de sua mesa, balançando papéis e seu notebook.
Até que direcionou seus olhos caídos para Carly, que estava encolhida, ainda segurando a manga da blusa em seu nariz.
–Meu Deus! Venha cá menina. – disse ele à ela.
Nós acompanhamos Carly até a maca e a ajudamos a subir.
–Podem ir. Eu assumo por aqui. – disse ele, olhando para o nariz dela, que estava sangrando muito e completamente machucado, de tanto ela coçar e arranhar.
–Ficaremos. – falei ao cruzar os braços sobre o peito.
Olhei para Joe e Tifany e eles estavam na mesma posição que eu.
–Não podem... – ele foi interrompido pela voz de Dra. Mc’curt.
–Podem. São amigos dela. – falou ela, adentrando a sala com Kevin, que parou do meu lado e abriu um sorriso iluminado, como se sua mãe fosse a arma que precisávamos.
O médico que estava usando um roupão de pano braço, olhou para ela com certa raiva, mas assentiu a sua ordem.
Ele olhou para Carly sem nenhuma preocupação, examinou-a e deu alguns remédios para que ela os tomasse regularmente e a proibiu de ficar em qualquer lugar que tivesse mofo, o que foi ridículo! Afinal, todo o local era coberto por fungos.
–Ela não poderá fazer nenhuma atividade que envolva poeira ou fungos. – disse ele, sorrindo para ela.
O sangramento já havia passado, mas Carly parecia muito cansada.
–Tomarei cuidado com isso. – falou Dra. Mc’curt, passando a mão na cabeça de Carly com um sorriso agradável.
Saímos da enfermaria e fomos comer alguma coisa. Não havíamos almoçado, pois era muito trabalho e não iríamos dar conta se fôssemos parar para comer.
Eu me sentia fraca e com a visão turva, mas ainda conseguia comer algo, tomar um banho e despencar na cama e foi exatamente o que eu fiz.
Os dias passavam se arrastando, quase paravam. Recebemos a notícia de que os adotadores iriam visitar o Departamento no Sábado de manhã, o que fez todos vibrarem, felizes. Claro! Iludidos! Se não fosse criança era melhor nem cultivar muita esperança, afinal, criança é muito mais agradável de criar.
Na sexta de noite eu estava deitada em minha cama, cutucando meus dedos e limpando a sujeira que havia debaixo de minhas unhas. Nós não tínhamos o luxo de tomar banho todos os dias, lavar os cabelos com xampu e condicionador, um sabonete cheiroso e roupas confortáveis.
–Quero muito ser adotada... – falou Carly.
Nós fizemos uma mudança no ninho.
Todos os grupos ficavam juntos. Eu e Carly em um beliche e Tifany e Joe no beliche ao lado. Alicia e Iara no beliche na frente do meu e Peter e Jess no na frente de Tifany e Joe.
Nós havíamos virado amigos e conversávamos quase todas as noites, cochichando, é claro!
–Também quero que seja. – falei, com um sorriso no rosto, me aconchegando na cama dura.
–Não quer ser adotada?! – a cabeça de Carly apareceu e eu a olhei carinhosamente.
–Não é questão disso... – falei, tentando explicar.
–Não seremos adotados. Ponto. – falou Alicia, secamente.
–Por que não?
–Porque somos mais velhos. Ninguém quer adolescente que já tiveram uma vida toda e não somos mais inocentes Carly, não acreditamos em tudo. – falou Joe, com os olhos fechados.
–Eu também não, ok? – disse ela, voltando para sua cama.
–Ok. – falamos todos em coro.
Carly era muito inocente. Eu tinha medo por ela.
Acordamos todos mais cedo que o habitual para tomarmos banho e nos arrumarmos para a apresentação, até que Dra. Mc’curt entrou no ninho.
–Prestem atenção! – falou ela, batendo na porta de alumínio.
Olhamos para ela.
–Obrigada. – disse. – Bem... Eu e meu filho, Kevin, iremos ficar um tempo fora, então o Sr. Nyer irá ficar no meu lugar como coordenador e o Sr. Parker assumirá no lugar de Kevin.
Demos de ombros. Não importava quem estaria no comando, sempre íamos nos dar mal, de qualquer forma, até ela os apresentar.
–Este é Sr. Nyer. – disse ela apontando para um homem. Deveria ter seus quarenta anos. Cabelos negros, olhos pequenos e negros, sobrancelhas grossas, expressões fortes, corpo atlético e usava um terno preto. Ele parecia adorar aquela cor. – E este é o Sr. Parker. – ele saiu de trás de Sr. Nyer.
Eu congelei, abrindo um sorriso enorme.
Meu coração parou, congelou e instantaneamente começou a bombear o sangue rapidamente, me fazendo ficar até um pouco tonta, minhas mão suaram e eu suei frio, não sabia exatamente o que fazer. Ele costumava ser bem mais infantil, mas agora havia traços de homem em seu rosto moreno, cabelos negros e desgrenhados, alto para os seus dezenove anos, ombros largos e os olhos mais encantadores e másculos que eu já vira, de um preto profundo e frio, o que me encantava. Estava usando o típico trague que Kevin começou a usar depois do segundo dia, sendo nosso monitor. Um sobretudo preto, calças sociais pretas, tênis e uma blusa preta, que destacava muito bem os músculos de Yago.
Ele pareceu sorrir quando me viu, mas permaneceu sério.
Fale com o autor