Departamentos
4 Capítulo 4
Não demorou muito para as luzes se apagarem onde chamávamos de “O ninho do passarinho”, já que estávamos presos ali e até conseguirmos um pai ou mãe, não sairíamos tão cedo.
Coloquei minha cabeça no travesseiro e por mais que eu estivesse morrendo de sono, não conseguia dormir. Minha cabeça viajava esperançosamente para fora daquele lugar terrível, onde se sentia cheiro de mofo até durante o banho e o cabelo demorava a secar, por causa da umidade existente no ninho.
Pensei em meus pais e meu irmão e que se eles estivessem vivos, poderíamos estar em uma casa, enquanto mamãe e papai procuravam empregos fixos e eu e meu irmão entregando jornais ou até mesmo fazendo trabalhos braçais, o importante era estarmos juntos, mas não. Não estávamos juntos.
Sentia-me culpada de ter prosseguido sem eles, mas mamãe sempre me ensinou a ser muito forte e nunca, jamais demonstrar fragilidade na frente dos outros, somente sozinha e entre quatro paredes.
Por mais que a vida fosse injusta e aquilo fosse uma barbaridade contra os sobreviventes mais novos, não podíamos fazer muita coisa, a não ser obedecer àquelas ordens estúpidas e esperar pessoas que queriam nos adotar. Nada mais. Infelizmente.
Durante o tempo que as luzes estiveram acesas, eu conversei com mais algumas pessoas de que nunca conheci na vida, tirando Alicia.
Miley era uma menina de cabelos ondulados, até a cintura em um tom bonito e sujo de mel, olhos castanhos claros e pele branca com algumas espinhas nas bochechas, ela conseguia ser completamente equilibrada e realista e ao mesmo tempo temperamental e relaxada.
Rodney era forte, alto e moreno, o tipo perfeito para qualquer menina interessada em um modelo. Antes do Fim Do Mundo ele trabalhou em várias revistas de moda masculina e tinha apenas dezesseis anos. Ombros largos, peitoral definido, que dava para ver com o tecido fino de sua blusa branca, olhos escuros e cabelos lisos e castanhos. Até que ele era simpático, porque geralmente, quem é bonito demais é um pouco esnobe e isso é um fato.
Alicia ficou extremamente interessada em Rodney e eu tive de ouvir os dois flertando. Sorte que Miley e eu somos bastante parecidas em alguns aspectos, então conversamos a maior parte do tempo, enquanto eu ouvia os risinhos histéricos de Alicia.
Miley me contou que adorava artes cênicas e estava estudando para mais tarde ser uma atriz famosa, mas seus planos foram drasticamente cortados pelo acontecimento deprimente e acabou perdendo sua mãe e seu avô em uma das enchentes e só conseguiu sobreviver porque seu vizinho deu a vida por ela. Ela me disse que ele tinha mais ou menos uns oitenta anos e disse a ela que ele não tinha mais nada para aproveitar na vida e ela era jovem e tinha uma vida inteira para viver, então a colocou na nave, onde só cabiam vinte e ela seria a última, e se jogou no mar que estava logo abaixo, cobrindo tudo e levando a todos.
Mais tarde um pouco soou um sino alto e agudo que avisava que faltavam minutos para o apagar das luzes e como estava escrito na tela: Quem não estiver na cama após o devido horário, irá ser castigado.
Ninguém queria correr o risco.
-Acorde! – ouvi a voz de Alicia em meu ouvido.
Olhei para ela e vi que o brilho do luar ainda batia contra nossas camas.
Percebi que muitos de nós já estávamos de pé, tomados banho e arrumando suas respectivas camas, enquanto outros ainda dormiam. Eram cerca de vinte pré-adolescentes e adolescentes apertados em um cubículo e dividindo apenas um banheiro unisex.
-O que foi? – falei sonolenta, olhando para Alicia, que estava sentada em minha cama.
-Hora de acordar. – ela parecia elétrica, mas estava com muita olheira.
Espreguicei-me e levantei aos cambaleios para ficar de pé.
Sorte que o banheiro estava vago, então tomei um banho rápido com a ducha de água fria que era controlada e pus as roupas que a mulher havia apontado no dia anterior.
Saí do banheiro penteando meus cabelos com os dedos. Agradeci silenciosamente a minha mãe por ter nascido com cabelos lisos e eu ter herdado dela, ao contrário de meu irmão que nasceu com os cabelos ondulados de papai.
-Arrume logo a sua cama! – disse Miley para mim, arrumando a sua as pressas e prendendo seu longo cabelo em um rabo de cavalo, ao mesmo tempo.
-Ok. – disse.
Não demorou muito e a mulher do dia anterior começou a remexer a tranca do lado de fora do ninho.
-Levantem-se! – gritou alguém no fundo do local, parecia não passar dos treze anos, pela voz fina.
Todos se levantaram, inclusive eu, e puseram as mãos nas costas, demonstrando respeito.
A mulher adentrou o ninho.
Estava com uns óculos na ponta de seu nariz, um vestido preto e formal com saltos altíssimos e brilhosos, com o cabelo preso em um coque alto e fabuloso, sem falar do batom preto, que estava na moda. Eu particularmente achei aquele visual ridículo e fúnebre.
-Hm... – falou ela com um sorriso nos lábios. – Que bom que não tive nem de dizer que têm que levantar quando qualquer um adentra este local. – disse ela em um tom formal e chique.
Percebi que logo atrás dela havia um homem que não passava dos vinte anos. Olhos azuis, cabelos loiros e arrepiados, um blaser preto com uma blusa branca por baixo, calça jeans e tênis. Quem seria esse rapaz? – perguntei-me.
-Este é Kevin. – apontou ela para o rapaz que sorriu, mostrando seu sorriso metálico. – Meu filho. – sorriu ela com orgulho da beleza dele.
-Olá. – falou ele, emitindo uma voz melódica e fria.
-Ele irá me ajudar a organizá-los em grupos para as tarefas diárias. – riu ela, entrando no ninho.
Ela parecia ter muito nojo, pois fazia uma careta, ao contrário do filho que entrava como se estivesse entrando no próprio quarto.
Percebi que ela estava com um crachá de um tom de dourado, onde se lia: Dra. Mc’curt.
Dra. Mc’curt olhou para mim, Alicia, Miley e Rodney e apontou o dedo indicador para cada um de nós.
-Percebi que são amigos, não é? – eu, Alicia e Miley, permanecemos sérias, mas Rodney tinha um sorriso esperançoso estampado no rosto.
-Sim, senhora. – disse ele, balançando a cabeça positivamente.
-Hm... – disse ela, com um sorriso ensaiado, para ele. – Então... – ela voltou o olhar para todos. – Vou distribuí-los em grupos de quatro para fazerem as tarefas. – disse ela, passando a língua sobre o batom preto cafona.
Ela apontou para mim, para uma menina baixinha, olhos grandes e cabelos cor de mel, para uma menina gordinha e morena e para um garoto alto e forte.
-Vocês serão o primeiro grupo. Podem ir com Kevin. – riu ela para Rodney, que a encarou com um bico de ódio. – Não quero que se conheçam muito... – olhou ela para mim. – Atrapalha na produtividade.
Eu queria dar um soco na cara dela, mas minha compostura e educação não deixaram, sem falar no medo.
Kevin fez um movimento com as mãos e nós o seguimos, saindo do ninho.
Olhei para trás e vi que nenhum de meus novos colegas estavam juntos, até que Dra. Mc’curt percebeu que eu olhava e fechou a porta.
Caminhamos pelo corredor fétido.
-Tenho pena de vocês. – escutei a voz de Kevin novamente. Nunca gostei que sentissem pena de mim, fazia parecer que eram mais fortes do que eu.
-Também tenho pena de mim. – falou a menininha baixa.
-Qual seus nomes? – perguntou ele e cada um respondeu o seu.
Carly era a baixinha, Tifany a gordinha e Joe o garoto, mas eu não respondi, estava ocupada demais pensando em Yago e como ele deveria estar agora, como era o seu Departamento, se estava seguro, bem, se alimentando... Vivo.
-Hey! – falou Joe, tocando meu braço. Olhei-o confusa. – Seu nome. – disse ele, me avisando.
-Romena. – falei sem hesitar.
-Romena... – disse Kevin, querendo que eu dissesse meu sobrenome.
-Hiss. Romena Hiss. – olhei para os ratos que passavam pelo corredor.
-Bonito nome. – riu ele, e olhou para frente novamente.
Ouvi o falatório dos outros sobreviventes vindo, mas logo nos distanciamos deles.
Havia uma porta no final do longo e terrível corredor que dava para o Departamento de Adoção, mas viramos em um corredor a esquerda que eu não tinha notado antes.
Andamos mais um pouco e chegamos a uma grande sala, igualmente nojenta, com tons de cinza e preto.
Havia várias mesas de piquenique de alumínio. Imaginei que seria o refeitório.
-Sentem-se ali. Vou avisar que chegaram para entregarem a comida logo. – falou ele. – Posso ver que estão com fome. – ele se distanciou e nos sentamos em uma das mesas.
-Ele parece ser legal. – disse Carly coçando o nariz avermelhado.
-Ninguém aqui é “legal” Carly. – disse Joe, autoritário. – Você é muito ingênua.
-Não sou não! – falou ela, de uma forma infantil. Deveria ter quinze ou quatorze anos.
Ficamos em silêncio. Percebi que ela não parava de coçar o nariz com fervor e fungava muito também.
-O que houve? – apontei para seu nariz extremamente vermelho.
-Sou alérgica a mofo. – falou ela, como se fosse uma criança assustada.
-Deve ter sido difícil dormir. – disse Tifany, com os olhos preocupados sobre a garota.
-Nem imagina... – concluiu ela, olhando para Kevin, que se sentou ao nosso lado.
-Estão vindo com a comida. – sorriu ele.
Kevin não parecia ter nojo de se sentar conosco e não parecia ser malvado como o resto das pessoas ali.
-Porque fazem isso conosco? – falou Carly, olhando-o com carinha de gato de botas.
Ele olhou para os lados e viu que estávamos sozinhos, por enquanto, naquele salão escuro, com quatro janelas enormes, mas só que com grades do lado de fora que parecia que estávamos presos. Mas, estávamos realmente.
-Porque essa gente daqui é muito pão dura e não quer gastar dinheiro com funcionários, então colocam vocês para as tarefas sujas. Eu acho um absurdo, mas tenho apenas dezenove anos, não posso mudar as regras. – sussurrou ele, depois voltou a sua postura inicial.
Aquela gente era a pior espécie de ser humano, não deveria ter se tornado homo sapiens sapiens, deveria ter parado no neandertal e ficado instinto como o resto deles.
Outros grupos adentraram o local e se sentaram em outras mesas, esperando, como nós a refeição.
Junto dos outros grupos havia mais seis homens coordenando os grupos de quatro e três pessoas.
Todos tomaram susto quando um sinal fino apitou novamente, avisando a refeição da manhã, ou da madrugada, melhor dizendo.
Três mulheres vieram com pratos de torradas e sucos de vários sabores, com panquecas e tudo mais. Nas refeições, não podíamos reclamar, a comida era ótima!
-Para que tanta comida? – falou Joe, desconfiado.
-Para deixá-los muito bem alimentados para os trabalhos. – falou ele com ar de pena.
-Esses trabalhos não devem ser fáceis. – falou Carly, provavelmente não leu o que estava escrito na tela.
-Aqueles grudados na parede são apenas para um dos grupos. – falou ele, pegando uma panqueca na mesa. – Todos os grupos têm trabalhos como ou piores que aqueles. – disse ele, olhando para Tifany. – E infelizmente, nosso grupo ficou os piores. – ele olhou fixamente em meus olhos.
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