Departamentos
5 Capítulo 5
Comemos rapidamente, pois Dra Mc’curt havia dito que tínhamos que começar nossas atividades no salão luxuoso do prédio antes que os adotadores – como ela chamava os pais que iam lá para adotar alguma criança ou adolescente – chegassem.
Havia um boato no refeitório de que somente crianças eram adotadas e os adolescentes ficavam presos ali até completarem a maior idade, quando poderiam sair, procurar um emprego e tudo mais... Falavam que o presidente do Departamento 3, Senhor Peter Maler dava casas para nós quando completássemos a maior idade. Eu esperava que os dois anos passassem como flechas atiradas nas olimpíadas, cortando o vento.
-Mena! – gritou Joe, me fazendo perder minha linha de raciocínio enquanto eu estava agachada no salão luxuoso, esfregando o chão, onde dali há duas ou três horas fosse começar a ser habitado por seus funcionários.
Olhei para o rosto de Joe, que estava no alto de uma escada de no mínino dois metros, limpando o lustre de cristal que estava aceso.
O sol estava começando a aparecer e o lustre foi desligado rapidamente. Aquelas pessoas não gostavam mesmo de gastar dinheiro... Nem com a luz. – pensei, dando um leve sorriso.
-O que faremos depois daqui? – gritou ele do alto para que eu o ouvisse.
Olhei-o pensativa. A lista de tarefas estava com Kevin e ele estava do outro lado, ajudando Tifany e Carly a arrumarem os papéis em ordem, pois naquela noite havia ventado e algum imbecil havia deixado a janela aberta.
Movi minha cabeça na direção de Kevin e ele me olhava. Ele havia escutado a pergunta de Joe, mas seu silêncio significava que queria que eu lhe perguntasse.
-O que faremos depois daqui? – repeti as mesmas palavras de Joe, em um tom alto, mas não cheguei a gritar.
Kevin ficou um segundo em silêncio, olhando para algo em mim. Meus cabelos estavam na frente de meu rosto, como o de habitual e eu estava suja, como sempre também, então o que poderia fazê-lo concentrar seus olhos em mim daquela forma, se estava tudo nos conformes? Como sempre eu ficava suja e despenteada.
Ele olhou para os lados e depois tateou os bolsos, puxando uma lista que era bastante extensa.
-Próxima tarefa. – anunciou ele, e todos nós paramos o que fazíamos para encará-lo. – Limpar os banheiros. – falou ele com uma careta e todos fizeram o mesmo, inclusive eu.
Banheiros... – a palavra bailou na minha cabeça, esbarrando em vários pontos incômodos.
Era no banheiro que a nossa intimidade era exposta e lá que os piores cheiros da casa poderiam ficar. Lá que choramos quando queremos esconder as lágrimas. Lá que temos medo de ir quando está de noite, sozinho e chovendo. Lá que as piores coisas podem acontecer, como assassinatos, histórias de terror e até mesmo acidentes domésticos. Definitivamente era um lugar péssimo para se trabalhar.
Ficamos mais alguns intantes naquele salão, até que Dra. Mc’curt se aproximou. Não foi preciso ver seu rosto ou sua sombra. O estalar de seus sapatos no chão já fazia com que sua presença fosse notada, ainda mais, por que eram cinco e quarenta da manhã, de acordo com o relógio do salão.
-Hm... – o som que ela emitiu vinha de sua garganta e parecia satisfeita. Olhei para sua face engraçada e pintada. – Aqui está um brinco! – ela esboçou um sorriso. – Nunca vi um grupo desempenhar tão bem a sua tarefa. – riu ela, como se estivesse um plano para por em prática. Ela não iria até lá se não tivesse de fazer algo e esse algo foi ver como nosso trabalho estava se encaminhando. – Já que estão indo tão bem...
Nós nos entreolhamos. Olhei para Joe, Kevin, Tifany e Carly, nesta ordem e todos aparentavam ter certa esperança no olhar.
-Podem fazer as atividades até as 15h e depois podem descansar. – sorriu ela e nós sorrimos uns para os outros, não querendo demonstrar felicidade total. – Mas.... – disse ela levantando um dos dedos. – Somente e somente se fizerem todo o resto impecavelmente. Eu estarei avaliando-os.
Nós sorrimos para ela e Dra. Mc’curt se retirou do salão, quando comemoramos.
-Então, quer dizer que não terminarão todas as tarefas? – ouvi a voz grave e rouca de uma garota que entrava o salão com um esfregão nas mãos.
A reconheci.
O nome era Briana, o presidente falara algo no ouvido dela quando chegamos no Departamento de Adoção. Estava sempre de cabelos presos e braços fortes e musculosos, olhos pequenos e castanhos e parecia estar sempre zangada e mal-humorada. Eu não a culpava, afinal... Era só olhar ao redor.
-Ouviu o que minha mãe disse? – falou Kevin, em tom de defesa, se aproximando dela e estufando o peito.
Ele nem precisava fazer aquilo, já que tinha quase um metro e noventa e Briana deveria ter um metro e sessenta.
-Sim. – falou ela, fitando-me.
Kevin se pos na minha frente e só consegui vê-la, por que estava agachada e as pernas de Kevin estavam meio abertas.
-Isso é deselegante. – falou Tifany, fitando-a com raiva. As duas mal se olhavam dentro do ninho. Parecia que elas já haviam se conhecido e se odiado profundamente.
-Cale a boca, rolha de poço! – gritou Briana, estreitando as sobrancelhas.
-Cale a boca você sua vadia! – gritou Tifany, impondo sua voz à dela.
-Não me provoque! – disse Briana.
-Vamos para com isso! – falei, me levantando e ficando entre Tifany e Briana.
Aquilo não tinha nada a ver comigo, mas eu não queria trabalhar até as 21h e se Briana arranjasse confusão, iríamos ficar até a hora estabelecida. Tifany não pareceu pensar nisso.
-Quem você pensa que é?! A Samara?! – disse ela para mim. Sorte que controlo bem meus nervos, ao contrário de Alicia que há essa hora já deveria estar em cima dela, batendo em sua fusa, por que aquela menina se parecia mais com um animal irracional do que um racional, sem falar do fusinho de porco que estava no lugar de seu nariz.
-A Samara consegue ser mais bonita que você. – falou Carly, dando um risinho e cobrindo a boca com as mãos. Todos riram.
-Vamos ver se Romena ficará bonita quando eu desfigurar a cara dela... – disse ela, estalando os dedos, pescoço e todas as partes que conseguia.
Ela vinha para cima de mim e Kevin tentava intervir, mas Briana a empurrou e ele caiu para o lado, se levantando rapidamente, mas não a tempo suficiente que ela atingisse o meu nariz. Sorte que mamãe pagara aulas de lutas para mim e meu irmão, então, eu sabia como me defender e lutar e particularmente, eu era muito boa.
Cambaleei para o lado, mas não foi tão forte para que eu caísse no chão. Ela olhou para mim, seu corpo parecia pesado, então se virou rapidamente e quando tentou atingi-me novamente, recuei com um movimento rápido e a acertei no queixo, perto da orelha, onde a fiz desmaiar.
-O que você fez?! – disse Joe, do alto da escada.
Eu não pensei, apenas agi. De forma errada e inconseqüente, claro.
Ela abriu os olhos, se levantou e empurrou a escada onde estava Joe com toda sua força e saiu correndo, cambaleando e com a mão no rosto, pressionando onde eu a atingira.
A escada onde estava Joe caiu em um grande estrondo e ele se segurou com toda força no candelabro para que não caísse de uma altura de dois metros, poderia machucá-lo se não caísse da forma certa e no chão certo.
-O que foi isso?! – gritou Dra. Mc’curt vindo em nossa direção. – Meu Deus! – gritou ela, pondo as mãos sobre a boca e parando subitamente.
Fomos todos até a escada que parecia pesar o dobro de nossos pesos juntos e a erguemos, fazendo com que ele descesse tranquilamente.
-O que houve aqui?! – gritou Dra. Mc’curt, olhando para seu filho, enquanto eu, Tifany e Carly ajudávamos Joe a descer.
Fale com o autor