Departamentos

3 Capítulo 3


Passamos pelo corredor minúsculo que me deixava sem ar e eu não me atreveria a respirar aquele que estava no local, então preferi prender a respiração o máximo de tempo que eu conseguisse.

Chegamos em uma porta enferrujada de alumínio com uma grande tranca com cadeado e correntes pesadas.

-Saiam da frente! Tenho que passar! – ouvi a voz petulante de uma mulher que com certeza usava saltos, pois fazia um barulho que ecoava pelo corredor.

Os outros deram espaço, até que chegou a minha vez que me espremer contra aquela parede mofada.

Ela estava usando uma saia de um tecido firme que ia até seus joelhos, impedindo-a de andar com liberdade, cabelos presos em um coque muito bem feito, maquiagem exagerada e olhos de um azul celeste. Ela segurou o enorme cadeado nas mãos e puxou uma grande chave enferrujada de seu pescoço, onde estava preso em uma corda e abriu a porta.

-Entrem. – avisou para mim e para o resto dos entregadores e adolescentes.

Adentramos a uma sala com vários beliches que em uma tela de led acima delas havia os nossos nomes.

-Acomodem-se. – disse a mulher.

Os entregadores nos deixaram na sala escura com apenas algumas janelas e saíram com a mulher, mas antes de sair, ela se virou para dar um último lembrete.

-Os horários estão naquela parede... – apontou ela e todos seguiram seu dedo que apontava para uma tela com os horários matinais. – E suas roupas estão naqueles baús. – apontou ela novamente com o indicador para baús na frente das camas. – Até amanhã. – ela deu um sorriso patético e fechou a porta.

Todos ficaram examinando o local em silêncio.

Fui até a cama que estava o meu nome, eu estava com a parte de baixo e Alicia com a de cima. Fiquei feliz em saber que Alicia estaria a cima de mim e não outra pessoa desconhecida.

Sentei em minha cama e Alicia veio logo ao meu lado.

-Eu quero morrer Mena... – falou ela encostando a sua cabeça em meu ombro e eu a entendia perfeitamente.

Aquele lugar era terrivelmente horrível.

Eu podia ouvir os choros das crianças e os soluços de todos.

Respirei fundo e me levantei, deixando a cabeça de Alicia cair na cama.

-Obrigada hein! – falou ela, mal-humorada, se deitando na cama que agora era minha e remoendo o passado, contando de sua mãe e seu pai e que tinha um namorado chamado Tery e que o amava muito, mas nunca mais o viu e tinha medo que ele estivesse morto.

-Alicia... Venha aqui. – disse a ela, abrindo o nosso baú e vendo algumas blusas brancas de mangas cumpridas baby Luc e calças folgadas também em um tom claro, com tênis pretos.

Ela veio até mim e pegou uma muda de roupa e se sentou na cama. Pude ver uma lágrima descer de seu rosto gracioso e sério.

-Alicia, não adianta chorar... Eles não voltarão. Nada voltará a ser como antes. – falei como se eu não me importasse, mas eu estava segurando o choro durante muito tempo. Eu deixaria para desabar de noite, quando todos estivessem dormindo e eu pudesse ficar sozinha com a minha dor e mágoa.

-Eu sei... – fungou ela. – É só que... Eu sinto falta, sabe? – disse ela, puxando um fiapinho solto da blusa. Eu podia ver a tristeza estampada em seu rosto, mas fui incapaz de ir abraçá-la.

Depois do Fim Do Mundo eu comecei a ser individualista e sem sentimentos, durante o dia, claro! Porque de noite, eu conseguia ser... Eu. A menina fraca e com os sentimentos a flor da pele.

-Sei bem... – sussurrei no intuito que ela não me escutasse.

-Gente! – ouvi a voz de uma garota um pouco mais corpulenta que eu, morena, de cabelos enrolados preso em um rabo de cavalo e com as vestes de sobreviventes, sujas e rasgadas. – Já viram os horários?! – disse ela apontando para a tela com uma cara de quem não gostou nada, nada de ler o que estava escrito ali.

Eu e Alicia nos levantamos e fomos até a tela, juntamente com boa parte dos sobreviventes.

-Isso é ridículo! – gritou um menino do meu lado com cabelos caramelo e olhos azuis.

Olhei para a tela e meu queixo caiu quando li as coisas mais ridículas que puseram para fazermos, trabalharíamos como empregados e escravos naquele local, até que alguém nos adotasse. Eram tarefas como polir o lustre central, limpar o tapete persa do departamento de adoção infantil e coisas bizarras com limpar a privada do senhor Bartolomeu. Dormiríamos somente cinco horas por dia e tínhamos duas refeições por dia. Era terrível! O que me fez chorar. Pela primeira vez, não contive a lágrima que escorreu de meus olhos, que eu logo a limpei.

-Me recuso a fazer isso! – disse uma menina de transinhas nos cabelos alourado e olhos acinzentados, baixinha e com sardas nas bochechas.

-Não dá... – disse uma menininha que deveria ter nove anos que estava ao lado de Alicia. – Leia isto. – apontou ela para as letrinhas que estavam em baixo.

“Quem não se submeter a essas tarefas será expulso de nossos aposentos e terá de viver pela própria sorte.”

Eu não me arriscaria viver pela própria sorte, não se sabe quem se encontra fora daquele departamento.