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6 Capítulo 6
-Bem que eu poderia matar Briana sem o menor esforço! – falou Tifany, com raiva. – Com menos esforço do que fazer isso aqui. – apontou ela com a cabeça para o vaso sanitário sujo, onde ela estava desentupindo. Com luvas e uma máscara, é claro!
O cheiro daquele banheiro coletivo era terrível e se tirássemos as mascaras, com certeza morreríamos com o fedor.
O banheiro mais sujo que conheci foi o de um bar de estrada, quando estava viajando de carro pelas cidades ao redor da minha, com minha família. Eu estava apertada para ir ao banheiro e aquele bar era o único que havia, a não ser outro, mas ficava há cinco quilômetros dali. Eu não agüentaria esperar.
Coloquei os pés dentro do banheiro, acompanhada de minha mãe, mas nem chegamos a entrar. O cheiro de cerveja e vômito era tão forte que eu quase vomitei também, então preferi me arriscar a segurar a bexiga até o próximo estabelecimento que por sorte era um motel, bem mais arrumado e limpo.
Retomei o olhar para o espelho sujo e continuei a limpá-lo, esfregando bastante para sair as impurezas que estavam grudadas ali.
-O que houve entre você e Briana? – perguntou Joe, ajudando Carly a trocar os papéis higiênicos e depois esfregando o chão.
-Ela era a minha inimiga na escola. Eu sempre a odiei e saber que ela está aqui... – ela não terminou a frase, mas ficou subentendida. – Arf! – soltou ela, balançando a cabeça em um sinal de calafrio.
-Sabe... Eu acho que estou começando a odiá-la. – falou Carly com uma careta e coçando o nariz vermelho com o antebraço.
-Eu também. – falei junto com Joe.
-Por causa dela, não vamos parar às 15h e sim às 22h! – falou Kevin entrando no banheiro, fazendo uma careta e tampando o nariz com as mãos.
-Eu não acredito nisso! – falou Tifany, jogando o desentupidor dentro do vaso e se sentando no chão, fula.
-Aquela vaca leiteira que fica de quatro! – falou Carly.
Todos nos entreolhamos e caímos na gargalhada.
-Onde aprendeu esse vocabulário chulo e deselegante, Carly? – perguntou Tifany aos soluços, tentando parar de rir. Dava para ver que Tifany era a garota mais inteligente de sua turma. Era muito culta.
-Sou no interior. – disse ela com um sotaque tradicional.
Sorrimos para ela e continuamos nossos respectivos trabalhos como se nada tivesse acontecido.
Eu senti uma enorme vontade de chorar.
Estava sentindo muita saudade de meus pais e meu irmão. Eu estava sozinha no mundo, solitária, vagando com minhas próprias pernas, encarando as conseqüências de meus atos sozinha, levando socos, tapas e chutes de uma vida miserável que estava lá para me testar e ver o quanto eu poderia suportar. Estar sozinho cansa, estar sozinho é triste, estar sozinho e apenas solidão, estar sozinho é mergulhar no poço mais profundo de seu coração e não sair de lá, jamais.
Respirei fundo e controlei as batidas lentas e pesadas de meu coração. Conseguia senti-lo pulsar em meus ouvidos de tão alto que o som estava.
Todos pareciam tristes e pensativos. Talvez estivessem pensando em seus familiares perdidos ou mortos, em como suas vidas eram boas e como eles desperdiçaram tudo aquilo, em como era bom chegar em casa depois da escola e comer uma comida caseira, dormir de noite e ser beijado pela mãe e pai e ser amado. Bem... Eu estava pensando naquilo.
-Gente... – escutei a voz infantil de Carly soar triste e chorosa até meus ouvidos. – Vamos sair daqui não é? – perguntou ela.
Olhei para seu rostinho angelical que estava encostado em uma das paredes que ela havia limpado, com os olhos cheios de lágrimas.
-É claro que vamos Carly! – riu Joe a abraçando, Tifany foi para perto dela e a abraçou, eu e Kevin fizemos o mesmo.
Ficamos alguns momentos nos abraçando e entreolhando. Cada um com seu pensamento deprimente dos dois anos que tínhamos que esperar para sair, mas Carly era nova e teria de esperar por muito mais tempo, a não ser que alguém a adotasse antes. Eu tinha aquela esperança.
Desvencilhamos-nos e cada um voltou para seu devido trabalho.
-Vivos? – ouvi a vozinha de Carly baixíssima, quase como um sussurro.
Olhamos-nos e eu engoli em seco, ficamos todos em silêncio. A resposta era óbvia. Talvez sim, talvez não. Era tudo questão de sobrevivência.
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