Departamentos

2 Capítulo 2


Acabei adormecendo no ombro de Alicia e ela adormecendo com a cabeça em cima da minha até o Departamento 3.

A viajem foi extremamente cansativa de onde a nave nos deixava e o caminho a percorrer até chegarmos à Cede... Vivos.

Muitos passaram fome, sede e nem ao menos dormiram com medo de serem mortos por outros sobreviventes, o que foi o meu caso.

O sono bateu em mim com tanta força que quanto mais eu tentava ficar de olhos abertos e lutar contra o sono que me bombardeava violentamente, mais meus olhos pesavam como chumbos dentro de uma sacola no fundo do mar, arrastando-o para baixo.

Tive um pesadelo terrível!

Eu estava sentada em uma estação de trem de minha cidade, esperando para ir pegar meu irmão na escola, quando Yago se sentou ao meu lado, mas não parecia me reconhecer, então eu apenas estranhei e tentei chamar atenção para mim, espirrando, tossindo, coçando o nariz, mexendo no cabelo, mas nada... Ele nem ao menos me olhava, até que o chamei e ele olhou para mim, movendo a cabeça feito um robô e me olhando nos olhos, sem sentimentos.

-Yago? – falei, percebendo o vazio em seus olhos.

Ele deu um sorriso ensaiado e voltou os olhos para o trilho vazio da estação.

-Esse é o meu nome. Muito prazer. – falou ele esticando a mão, sem me olhar.

-Por que está me tratando assim? Por que está assim? – falei, estreitando as sobrancelhas, me levantando e me agachando na frente dele, com a esperança que aquela fosse uma brincadeira boba.

-Não devo fornecer informações do governo. – falou ele e olhou para mim.

-Como...? – perguntei confusa.

-Intrusa! – gritou ele se levantando e correndo para os trilhos da estação, se jogando na frente de uma locomotiva velha que vinha em alta velocidade.

-Não! – gritei, vendo seus pedaços rolando em baixo do trem.

Olhei para trás e vi vários homens de ternos azuis escuro virem em minha direção.

Lembro-me de ter ficado desesperada e corrido para frente e outra locomotiva me pegou e eu acordei.

Estava suada que nem uma porca, e Alicia olhava para mim com muita preocupação.

-O que houve com você? – perguntou ela aflita e colocando as mãos sujas em minha testa. – Não está com febre. Ainda bem... – disse ela.

Respirei fundo e respondi, ainda um pouco ofegante.

-Pesadelos... – disse.

Ela sabia que era constante termos pesadelos, afinal... Vivíamos em um.

-Chegamos! – avisou o entregador de Alicia, se levantando e pegando no braço dela com força.

-Cuidado! Em baixo dessa pele, têm ossos frágeis! – disse ela o acompanhando em ordem para fora do trem moderno e eu fui logo atrás, com o meu entregador.

-Cale a boca garota! – disse o seu entregador, já farto de sua arrogância, que eu, particularmente, admirava. Eu nunca conseguiria ser rude daquela forma com uma pessoa que poderia tirar a minha vida com apenas um movimento do braço.

Alicia bufou e saímos do trem, junto com vários outros adolescentes e crianças que choravam, soluçavam e fungavam em certo silêncio.

-Para onde vamos? – perguntou Alicia para o seu entregador, que já revirava os olhos de irritação.

-Para a adoção. – disse ele friamente e chateado, agarrando Alicia com mais e mais força.

-Adoção? – sussurrei sozinha.

Eu iria ser adotada?! Por quem?! Para onde iriam me levar?! Será que a família seria boa comigo?! Eu ficaria muito tempo na espera da adoção?! – perguntas que rondavam a minha cabeça.

Ao sairmos do trem, uma luz muito forte cegou a quase todos nós por uns segundos e após conseguirmos enxergar, vi uma grande torre com um enorme relógio, em cima, com ruas, lojas de roupas, crianças correndo pelas ruas, felizes e tudo que se pode esperar de uma cidade comum, com hospitais, escolas, faculdades e tudo que se precisa para viver em uma sociedade que era quase utópica.

Consegui quase que abrir um sorriso vendo todos tão felizes no Departamento 3.

-Vamos! – gritou uma voz masculina, a nossa frente.

Fomos andando...

Atravessamos uma, duas, três, quatro, cinco ruas, até chegar ao prédio com uma construção de aparência velha e úmida, onde se lia em letras garrafais: Departamento de Adoção, 3”

Logo imaginei que o “3” seria pelo Departamento 3, onde estávamos.

Entramos no prédio, seguido de várias outras pessoas.

O lugar estava vazio, parecia aguardar nossa chegada.

-Otávio! – disse um homem de cartola preta na cabeça e com um longo bigode, enrolando-o nos dedos grossos e gordos, com vestes de gala e uns óculos na ponta de seu nariz batatudo.

-Bartolomeu! – disse o homem de cabelos grisalhos e vestes antigas. – Aqui estão os sobreviventes mais novos do nosso Departamento. – disse o homem sorrindo e nos apresentando ao homem, um por um e éramos muitos.

Ficamos em pé por longos minutos, enquanto ele falava com cada um de nós, até chegar a minha vez.

-Olá senhorita! – disse ele com um sorriso torto.

-Olá... – falei baixinho, olhando-o entre as mechas de meu cabelo que eu recusava tirá-las do rosto.

Parecia que eu me sentia mais segura, fazendo com que eles não vissem o meu rosto por completo.

-Qual seu nome? – ouvi a voz dele mudar de timbre, mas foi muito rápida essa mudança.

-Romena... Romena Hiss. – falei finalmente, ainda bem baixo.

Senti a mão de Bartolomeu encostar em meu queixo e o puxar para cima. Por mais que eu não quisesse e hesitasse por um segundo, senti um apertão no braço, vindo de meu entregador, que me fez olhá-lo.

-Deixe-me ver esse rosto... – falou Bartolomeu, colocando mechas de meu cabelo oleoso para trás de minha orelha.

Eu estava com nojo dele. O presidente tinha um olhar estranho nos olhos, não parecia querer o meu bem e sim outras coisas mais...

-Você é linda... – disse ele, encantado com a minha beleza fétida. Sacudi o rosto e fiz com que ele o soltasse. – Bem... Seja muito Bem-Vinda. – disse ele com um sorriso enorme nos lábios que me assustou muito.

Assim ele fez até o último adolescente ou criança.

-Bem! – disse ele, indo até o centro do salão, onde estavam várias moças muito bem arrumadas, com papéis que cintilavam sobre as suas respectivas mesas, aguardando cada um de nós. – Agora... Podem ir! – falou ele, olhando diretamente para mim.

Eu e meu entregador fomos até a segunda bancada e Alicia para a primeira, comecei a ouvir os murmúrios dos adolescentes e das moças.

-Então... Dê-me o seu crachá. – disse ela com a mão esticada.

Tirei-o do bolso da calça e entreguei-o para ela, que rapidamente colocou em algum tipo de máquina registradora de imagens. Muito moderna.

-Pode ir... Entraremos em contato. – falou ela. – Próximo!

Como assim?! Era somente aquilo?! E para onde eu iria agora?! Ficaria sozinha novamente?! – perguntei novamente para mim mesma, ao andar com o entregador até os fundos do Departamento de Adoção.

Havia uma porta dourada, que ele rapidamente a abriu e todo o luxo que havia no Departamento de Adoção se foi, deixando apenas paredes mofadas, com corredores sujos e com um cheiro terrível.

-Vamos! – disse o homem, colocando um lenço de seda em seu nariz, enquanto eu tampava-o com minha manga suja.

Hesitei segui-lo, mas logo atrás veio Alicia, o que me tranqüilizou.

-Que lugar é esse?! – ouvi a voz de Alicia atrás de mim, perguntando ao seu entregador.

-O lugar onde ficará até alguém adotá-la. – disse ele friamente.

-Prefiro morrer... – sussurrou ela, mas felizmente ninguém concedeu seu “pedido”.