Deorum

1 Prólogo - Quando Kali se ergue.


Notas iniciais
Primeiro capítulo do que pode vir a ser uma história. Deixem comentários ;)

Toda a história deste livro se iniciou numa noite obscura. Daquelas em que nuvens negras se aglomeram no céu, impedindo que a luz da lua ou das estrelas chegue ao mundo dos mortais, a Terra. E, além da escuridão total, trovoadas fortes soavam com intervalos espaçados, anunciando uma chuva que nunca se precipitava.

— O que é isso, afinal? — a menina perguntou à mãe segurando o presente com a mão direita.

— Isso é um tesouro de família — a mulher mais velha disse enquanto se servia de uma xícara de chá. — Sua avó a deu para mim e agora estou dando a você. — E depois de uma pequena pausa para dar um gole no chá, continuou: — Reza a lenda de que esse objeto pertenceu a uma antiga deusa de nosso panteão, a deusa e mãe Kali.

— Quem?

— Quem é Kali? — a mãe sorriu dando outro gole no chá de maneira soberba. Adorava contar a história de Kali. — Kali Ma, ou apenas Mãe Kali, é uma das deusas mais poderosas do panteão hindu. Ela é a união, não de um, mas de todos os deuses mais relevantes do hinduísmo. Não que os outros não fossem, mas enfim... Seu rosto era da luz de Shiva, o deus da restauração. Seus braços eram dez do Senhor Vishnu, o deus da conservação. Suas pernas eram do Senhor Brahma, o deus da criação. O cabelo era de Yama, o deus da morte. Os quadris vieram a partir da força da deusa Terra. Os seios da Lua, e assim por diante. — Outro gole de chá. — Ela foi gerada durante uma guerra contra o asura Mahishasura, um não-deus muito poderoso do hinduísmo. Ele havia recebido uma bênção por suas oferendas e por sua dedicação, e não poderia ser derrotado por nenhum homem ou deus. Sem falar que ele tinha em seu exército o também asura Raktabhija, que tinha o poder de renascer de cada gota de sangue que dele caísse no chão.

— Isso significa que quando o sangue dele se derramava, outro demônio nascia dali? — a menina perguntou.

— Asura, não demônio — sua mãe a corrigiu. — Asuras são não-deuses, mas podem receber bênçãos por trabalhos realizados e se tornarem até mais poderosos que os próprios deuses. — A menina assentiu, finalmente criando interesse. — Enfim, nenhum dos deuses presentes na guerra conseguia vencer Mahishasura, pois sua benção era não ser derrotado por nenhum homem ou deus. E foi então que Kali foi criada. Uma mulher e deusa, não englobada na bênção de Mahishasura. Ela recebeu as armas divinas dos deuses e sozinha venceu o asura e deu um trato em Raktabhija. Com uma espada khopesh, cortava Raktabhija e lambia seu sangue, para que o mesmo não viesse a cair no chão. E, depois de nove dias de batalhas intensas, venceu o exército de Mahishasura.

Um trovão explodiu violentamente lá fora, fazendo as janelas do apartamento sacudirem. A mulher mais velha voltou a dar um gole em seu chá, bem calmamente.

— Mas o que isto tem a ver com a deusa Kali? — a menina perguntou apontando para o objeto em sua mão direita.

— Essa é uma réplica perfeita da espada khopesh da deusa Kali — a mulher disse simplesmente. — E a lenda diz que essa mesma espada a invoca quando é desembainhada.

A menina, chamada Chanda, fitou a bainha de couro por alguns segundos. Não podia ser real. E não perderia tempo pensando nas baboseiras que sua mãe falava.

— Interessante — Chanda disse. — Obrigada pelo presente de aniversário, mãe. — A menina disse com um sorriso e se levantou de sua poltrona, indo dar-lhe um abraço caloroso.

— Não tem de que, amor — sua mãe lhe respondeu o abraço.

Quando as duas se afastaram, a mãe de Chanda pôs-se a recolher a louça sobre a mesinha de centro, a levando até a pia da cozinha.

A pizza que comeram mais cedo estava maravilhosa. O sabor preferido de Chanda: quatro queijos. Os aniversários costumavam ser assim com elas duas. Pizzas, alguns doces, chá. Uma mistura de sua antiga cultura indiana e sua nova cultura americana. Era assim desde que se mudaram para os Estados Unidos. Desde que seu pai veio a falecer e os problemas de escassez de trabalho para mulheres e medo por estupro se agravaram. A mudança foi toda financiada por um amigo de seu pai. E agora ali estavam elas duas.

Com um longo bocejo, Chanda foi até sua mãe e lhe depositou um beijo de boa noite na bochecha.

— Até amanhã, mãe — ela disse. — Vai trabalhar amanhã?

— Só na parte da manhã, mas chego para o almoço e trago comida — ela respondeu colocando um prato no escorredor.

— Ok — a menina disse indo até a sala, pegando sua espada e se encaminhando até seu quarto.

Assim que o adentrou, fechou logo a porta e se jogou sobre a cama, sem soltar seu presente de aniversário. Que dia longo. Mas pelo menos a menina poderia dormir até mais tarde no dia seguinte. Afinal, seria sábado. E, com outro bocejo, sentiu suas pálpebras pesarem. Toda a sua vida estava para mudar e ela nem desconfiava disso.

A primeira coisa que Chanda sentiu no momento seguinte foi um vento quente e fétido castigar seu rosto, a fazendo abrir os olhos. O local onde se encontrava agora não era mais seu quarto. A menina estava de pé em um vale completamente coberto de sangue. Os céus estavam vermelhos também, como se o líquido vermelho e espesso por toda aquela terra estivesse se refletindo no infinito azul. As poucas árvores que ali existiam estavam chamuscadas e o solo ao seu redor estava vitrificado. Ela não sentia a necessidade e nem encontrava a força para tapar o nariz, mas o cheiro era realmente ruim. Era o cheiro de carnificina. E, antes que Chanda pudesse entender tudo aquilo, ouviu alguém a chamar às suas costas.

— Chanda — era uma voz alta, porém calma.

A menina, lentamente, se virou. De pé, a encarando, estavam vários homens de pelo menos três metros de altura. Todos tinham expressões de alegria e uma luz forte que emanava de seus corpos, como se suas peles tivessem luz em sua composição, de alguma forma.

— S-s-sim? — a menina gaguejou.

Um dos homens, que estava no centro dos outros e segurava uma espécie de tridente dourado, disse:

— Seja bem vinda, minha querida — sua voz era calma, mas soava alta como um trovão. — Sou Shiva — ele gesticulava. — E estes são os outros deuses que participaram dessa batalha.

A menina, numa reação que nunca achava que teria, se jogou sobre a terra suja de sangue, ajoelhada.

— Perdoe-me, Senhor Shiva, não sabia.

— Acalme o coração, minha querida — Shiva lhe respondeu com uma voz que parecia ter sido formada a partir de um sorriso carinhoso. — Levante-se.

Chanda, envergonhada, se levantou e fitou o belo rosto do deus alto.

— Você foi chamada aqui por um único motivo — o deus sorria, o que, de alguma forma, fazia a luz de sua pele ficar ainda mais resplandecente. — Minha amada esposa a escolheu para que seja a representante dela numa batalha que está por vir.

— U-u-uma batalha? — Chanda não conseguia evitar os gaguejos.

— Sim, minha querida — Shiva assentiu.

— E quem é su-su-sua esposa?

Shiva, ainda sorrindo, desviou o olhar para algum lugar às costas da menina. Chanda, engolindo em seco, se sentiu obrigada a se virar novamente. E assim o fez.

Agora uma batalha calorosa estava se desenrolando no vale. Uma mulher de pele azul-escuro e três metros de altura, portando várias armas com seus vários braços, lutava contra uma legião de homens. A gigante, pelo visto, não se esforçava para levar a batalha adiante e acabar com os homens como se fossem insetos.

Em menos de um minuto, todos eles estavam no chão, amontoando ainda mais as poças de sangue pela terra. A mulher então fitou Chanda com seus olhos sedentos, a fazendo engolir em seco novamente. Trazia a língua estendida para fora, coberta de sangue. No pescoço pendia um colar feito com as cabeças dos homens mortos. Na cintura, uma espécie de cinto feito com os braços dos mesmos. Os cabelos, longos e negros, pareciam o véu negro noturno. Então, depois de recolher a língua e engolir o sangue, a mulher começou uma frenética dança.

Estrondos altíssimos começaram a soar dos céus, mesmo sem nuvens aparentes. A terra começou a criar fissuras que partiam da mulher em sua dança em todas as direções. O mundo parecia estar se desfazendo enquanto a mulher dançava.

— Kali! — Shiva a chamou, fazendo-a parar sua dança mortal. — Esta é sua escolhida. A menina Chanda.

A famosa deusa Kali a encarou novamente, colocando um sorriso maligno no rosto. Depois ajeitou a postura e pôs-se a caminhar na direção da menina, fazendo seu coração acelerar. Antes que Chanda entendesse o que se passava ali, a deusa Kali se abaixou à sua altura, a pegou com uma das mãos e a levou até a boca, a engolindo. Depois, não se sabe como, disse:

— Nós duas seremos uma só.

Foi quando Chanda acordou em seu quarto, coberta de suor, respirando de maneira ofegante e com o coração acelerado. O dia já raiava lá fora, mas o céu continuava coberto de nuvens escuras. A janela de seu quarto estava cheia de respingos, provando que chovera há pouco tempo.

— Que sonho foi esse? — Chanda repetia tentando se acalmar, respirando profundamente.

Sem demora, se levantou e foi até o banheiro lavar o rosto. Precisava manter a calma e a sanidade. Foi quando ela focou, através do espelho, a espada sobre sua penteadeira. O objeto parecia a fitar. Aquele tinha mesmo sido um sonho? Não se lembrava de ter dormido. E pensara o tempo todo que esteve naquele vale se aquela cena não tinha passado de um sonho, o que o desqualificava como tal.

Decidida, a menina se encaminhou até a mobília e analisou a bainha de couro, com a respiração se normalizando. Nela havia um K estilizado pintado e um olho entalhado. O que significavam? K de Kali, mas e o olho? O olho parecia a encarar. Era tão sedento quanto o da deusa em seu possível sonho.

— Cruzes — a menina soltou a espada, deixando-a cair de volta sobre a penteadeira com um baque metálico.

Chanda sentou em sua cama e, com a respiração e os batimentos normalizados, ficou a fitar a espada. Por que ela sentia aquele formigamento estranho nos braços quando a segurava? Por que aquela espada a intrigava tanto? Foi a história de sua mãe que a fez ficar assim, ou tinha algo mais por trás daquilo tudo? Eram muitas as perguntas.

— Chanda, cheguei! — ouviu sua mãe dizer do outro cômodo, a fazendo acordar de seus devaneios.

— Estou no quarto — a menina respondeu.

Em menos de um minuto sua mãe abria a porta.

— Boa tarde, amor — ela disse. E então notou que a filha encarava a espada apreensiva. — O que houve?

— Tive um sonho estranho sobre a história que me contou ontem — a menina disse sem desgrudar os olhos do objeto.

— Pode me dizer como foi esse sonho? — sua mãe perguntou enquanto se sentava ao seu lado na cama.

Chanda, depois de respirar fundo, contou à mãe tudo o que tinha visto e sentido em relação à espada que ganhara de presente. A mulher, por sua vez, ouviu toda a história com atenção e paciência, como sempre fazia. Depois que a filha terminara, ela disse simplesmente:

— Hum. Deve ter sido apenas um sonho. Vamos almoçar?

A menina, decepcionada e um pouco intrigada, assentiu.

— Eu já vou — ela disse. — Vai na frente.

— Só para que eu arrume a mesa, não é, espertinha? — sua mãe saiu do quarto rindo, fechando a porta atrás de si.

Mas Chanda queria mais era saber o que aconteceria se ela desembainhasse aquela espada. Sem pensar duas vezes, a menina pegou o objeto e, lentamente, desabotoou a bainha. O metal brilhante da espada surgiu logo na lateral do couro agora aberto. Era agora ou nunca. Um bolo se formara na garganta da menina, a fazendo engolir em seco pela terceira vez. Com um movimento rápido, ela desembainhou a espada, trazendo seu metal brilhante ao ar livre. Como resultado, uma deusa de três metros de altura, pele azul-escuro, dez braços e três olhos a encarava de forma sedenta e altiva, como se ela fosse a dona de tudo o que existia. Chanda não discordaria. A parte sedenta da deusa a assustava.

— Boa tarde, minha escolhida — a deusa disse com seu sorriso maligno. — Dormiu bem? E seus sonhos, como vão?

Notas finais
E aí, o que acharam? Não deixem de comentar, isso faz o tio feliz kkk