Deorum
2 Capítulo 1 - Kali. Mãe e guerreira.
Notas iniciais

Chanda sentiu como se seu coração fosse sair do peito a qualquer momento, de tão forte que batia. Não sabia o que pensar sobre aquilo, e muito menos como agir.
— Ainda está viva? — Kali perguntou com sua voz que mais parecia o arrastar de uma espada na pedra, causando calafrios estranhos na espinha da menina.
Uma tremedeira leve começou a acometer as mãos da jovem, a fazendo derrubar a espada no chão. O espanto era tanto que sua pele começava a ficar branca e gélida.
— Não se assuste tanto assim, por favor — a deusa disse num tom mais brando, tentando acalmá-la. — Eu posso mudar de forma, se for te fazer ficar mais confortável. Que tal?
Chanda, engolindo em seco, começou a caminhar até a porta de seu quarto. Depois, num movimento rápido, ela a abriu e saiu correndo para fora, gritando:
— Mãe! Socorro! Mãããe!
Quando chegou à sala, avistou a mulher, a meio caminho de postar um prato sobre a mesa de centro, paralisada. Ela estava prestes a derrubar uma garrafa de água no chão, mas a mesma pairava no ar, congelada.
— O que?! — Chanda não acreditava. — O que fez com minha mãe?!
— Nada — Kali disse surgindo ao seu lado. — O tempo se congelou quando você desembainhou a espada. Por que, afinal, de que forma as batalhas poderiam ocorrer no mundo mortal se não assim?
— Mas que batalhas são essas?! — a menina gritava. — Do que está falando?! Por que tive aquele sonho maluco?! Por que tudo isso está acontecendo comigo?! Eu só ganhei uma espada de aniversário!
Kali a encarou com indiferença, cruzando dois dos seus vários braços. Seu terceiro olho, no meio de sua testa, se desviou para a porta do quarto, adquirindo um brilho fantasmagórico. Como resultado, a espada veio flutuando pelos ares até a deusa, que a segurou com firmeza.
— Esperei tanto tempo para segurar esse khopesh novamente — ela parecia sincera ao analisar a ferramenta de metal.
A menina, olhando aquela cena, franziu as sobrancelhas.
— Não mude de assunto. Me diga o que está acontecendo.
A deusa, depois de respirar fundo, fitou a menina.
— Você podia não acreditar em deuses até agora, Chanda, mas tem que admitir agora que eles são reais. Certo? — Kali perguntou.
A menina, meio duvidosa, assentiu devagar.
— Acho que sim, já que você está bem aqui na minha frente.
— Pois bem — a divindade continuou. — Essa é a ideia do Deorum: reviver crenças que há muito se perderam no coração dos homens. Além de conceder um desejo ao vencedor das batalhas.
— Deorum? E que batalhas são essas?!
— Sim, minha escolhida — a deusa disse calmamente. — Deorum é uma espécie de campeonato, onde os deuses, de todos os panteões imagináveis, lutam entre si para obterem a coroa. Essa coroa vale como o trono máximo entre os deuses e um desejo realizado, sem restrições, ao humano escolhido pelo deus.
Chanda prestava atenção, começando a ficar interessada. Um meio sorriso se formou no canto de sua boca sem que ela percebesse. Um desejo realizado, sem restrições, ao humano escolhido pelo deus, não é?
— E como essas batalhas acontecem? — ela perguntou.
— Bom, isso depende do desafiador — Kali respondeu. — Geralmente, o deus desafiador chama o deus desafiado e então eles batalham. Não há uma ordem ou regras propriamente ditas ou escritas. Exceto os casos em que o desafiador deixa regras bem transparentes antes da batalha.
A menina assentiu, sem fazer mais perguntas. Já começava a pensar no que pediria quando ganhasse o tal do Deorum.
— O que me diz? — Kali a acordou de seus pensamentos. — Aceita batalhar ao meu lado, menina Chanda?
A jovem sorriu e assentiu.
— Claro.
— Então, em nome do universo que se manifesta e se mantém em equilíbrio graças aos deuses, eu lhe nomeio Chanda, a escolhida de Kali para o torneio Deorum — a deusa disse e apontou a espada para a menina. — Estamos acertadas, Chanda. Foi um prazer tê-la conhecido.
A jovem, que não se sentia nem um pouco diferente, continuou a sorrir.
— Apenas mais uma observação — Kali disse e entregou a espada e a bainha à menina. — Para que seu corpo se torne forte e nossa ligação cada vez maior, peço que medite e entoe mantras ao meu nome.
— Como é? — Chanda deixou os ombros caírem. Ela não sabia nada sobre meditação ou mantras.
— Deve cantar mantras como o Jai Mata Kali.
— Quem a matou? — Chanda perguntou com medo, pois o mesmo ser poderia derrota-la novamente, a impedindo de ganhar seu desejo.
Kali apenas a encarou como se a menina fosse uma grande idiota.
— Não é isso, Chanda — ela disse tentando não parecer ríspida. — Jai Mata Kali é um mantra de invocação e proteção. Significa, numa tradução bem literal: oro para a mãe Kali.
A menina assentiu, empolgada.
— Pesquisarei sobre isso e entoarei o mantra — ela disse eufórica. Não acreditava que tudo aquilo estava acontecendo a ela. Era incrível! Sinistro, mas incrível.
— E mais uma última coisa — a divindade disse. — Quando for entoar os mantras, desembainhe a espada. O tempo se congelará e, como não desafiou a ninguém, nenhum dos outros combatentes nos acharão pela entoação do mantra.
— Está certo — Chanda concordou. — Até a próxima. — Ela disse e pôs a espada de volta na bainha, a abotoando.
Num piscar de olhos, tudo se desencadeou. Kali desapareceu, a garrafa de água que sua mãe carregava terminou de cair no chão e se derramar, a mulher terminou de postar o prato na mesinha de centro.
— Droga! — ela reclamou, recolhendo a garrafa. — Querida, pode pegar um pano para mim?
A jovem, deixando a espada sobre o sofá, correu à cozinha e pegou um pano seco, a entregando à sua mãe. Enquanto a mulher secava o chão, a menina disse:
— Mãe, obrigada mesmo pela espada. Eu adorei.
A mais velha a encarou um tanto surpresa. Algo estava diferente no olhar da filha. Parecia até empolgada com o presente.
— Não tem de que, querida — ela respondeu voltando a atenção para o piso de madeira molhado. — Só não faça bobagens com ela, por favor.
Chanda deu uma breve risada.
— Ai, mãe — e balançou a cabeça sorrindo. — Eu não farei nada, prometo.
— Só achei estranha essa empolgação toda agora — sua mãe disse recolhendo o pano molhado e o levando até a sacada, onde ficava a lavanderia.
A menina, sem conseguir esconder o sorriso, disse:
— É que eu gostei muito mesmo.
— Sim, querida, eu sei — sua mãe continuou em voz alta, da varanda. — Mas você estava meio apreensiva hoje de manhã a respeito dela. Falando de sonhos estranhos que teve.
A mente de Chanda, então, retornou à imagem da deusa com a língua para fora, coberta de sangue, de seu sonho. Não parecia a Kali que conhecera depois de desembainhar a espada. Eram duas deusas bem diferentes, em personalidade. A Kali de seu sonho parecia selvagem e sedenta. A Kali que conhecera parecia bem mais calma e prudente. Havia algo a incomodando a respeito disso agora.
Porém, antes que Chanda pudesse pensar mais sobre isso, alguém bateu na porta três vezes.
— Eu atendo — ela disse em voz alta para a mãe.
E foi o que a menina fez: andou até a porta e a abriu. Do outro lado estava um homem branco, de óculos escuros, usando um terno preto. Ao seu lado estava um homem de pele clara, cabelo e barba encaracolados, com o peito desnudo, usando uma venda nos olhos. A coisa mais estranha ali era que o homem de venda tinha três metros de altura. Era um deus.
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