Denver & Rover
1 Prólogo
Notas iniciais
1 ano atrás
Os Martin haviam acabado de pegar a chave nas mãos do proprietário, os móveis já estavam para chegar. Cornélio Martin não aguentava de tanta felicidade. Deixou as crianças e a sua esposa entrarem na nova casa e olhou para a rua, respirando o novo ar com um sorriso largo. Do outro lado da calçada, um velho o olhava de cara feia na sua cadeira de balanço, quando o mesmo percebeu que Cornélio o olhava, parou de se balançar na cadeira, apoiou seus cotovelos no joelhou, fez uma espécie de rosnado, apagou o seu cigarro com uma brabeza assustadora, esmagando todo o objeto, se levantou e foi para dentro da sua casa. Pela persiana da janela, que ficava na porta, deu mais uma olhada e depois a fechou.
Cornélio observou meio confuso aquilo tudo, deu de ombros e entrou em casa à procura do proprietário. Um homem negro, de cabelo trançado estava na cozinha, conversando com Amélia Martin, sua esposa.
- Isso, mesmo, a tubulação é novinha em folha, trocamos faz um mês, da casa toda, não vão precisar se preocupar com problemas deste tipo por uns bons anos. – o homem falou para Amélia.
- Ai, graças a Deus. – ela suspirou sorrindo e acrescentou quando percebeu seu marido chegando – Não é amor?
- Claro, querida. Já vamos gastar demais investindo nessa casa. Quero ficar longe de problemas! – ele se virou para o proprietário – Falando em problemas... Quem é aquele velho na casa da frente, Thiago?
Thiago desfez o sorriso aos poucos e pareceu desapontado por ter tocado nesse assunto, suspirou e respondeu:
- Ele é o Sr. Rover. Um antigo morador daqui do bairro. Parece que cresceu aqui, muitos vieram e foram, mas ele continua. – sorriu sem graça.
Amélia o calculou com o olhar e disse sorrindo de canto:
- Sabe... Eu sou psicóloga, meu rapaz. Seu jeito me diz que está me escondendo algo, mas eu não quero saber. Vou tomar um banho e botar as crianças para descansar, a viajem foi longa. – ela levantou a mão para o homem e o cumprimenta, deu um beijo no marido e falou quando estava prestes a subir as escadas – Tenha um ótimo fim de tarde.
- Obrigado, senhora. – Thiago respondeu, limpando o suor por dentro da manga, se virou para Cornélio e disse – Bom... Acho que já terminei por aqui. Nos vemos depois, sim? Ainda tenho mais uma venda para fechar hoje, se não se importa, tenho que ir. – ele então se apressou – Sei onde fica a saída.
As semanas foram passando e o Sr. Rover continuava com seu hábito desagradável de ficar olhando para a casa da frente.
Em uma noite, quando Cornélio colocava sua filha, Kamilla, para dormir, a garotinha de 7 anos foi até a janela para fechá-la e viu o Sr. Rover, na varanda, se balançando e olhando diretamente para ela com seu olhar amedrontador e sua cara rabugenta. Ela arregalou os olhos e correu para a cama de novo, abraçar o seu pai, deixando a janela aberta.
- O que foi, querida? – Cornélio perguntou abraçando-a.
- Aquele velho, papai. Está me dando medo. Não quero ficar nessa casa. Outro dia, a bola do Yago caiu no quintal dele, o moço pegou a bola e furou, disse que éramos uns diabinhos e que não eram mais para pisar na calçada dele.
Kamilla choramingou e ele a confortou nos braços, até que adormeceu. Ele fechou a janela, Sr. Rover não estava mais lá, mas a luz de um cômodo estava acesa, então Cornélio decidiu ir até lá. Eram umas vinte e três horas, quase meia-noite.
No silêncio da noite, ele atravessou a rua, chegou na porta e no mesmo momento que bateu na porta, a luz do cômodo apagou, não demorou muito para que ela acendesse de novo. Uns passos lentos, seguidos de um som de madeira batendo em madeira foi ouvido. Uma abertura na persiana foi feita, e um olho castanho cheio de rugas ficou à vista. O velho abriu a porta até onde o trinco permitiu e perguntou, sem mostrar o rosto, depois de um breve rosnado:
- O que você quer? Eu estava indo dormir.
- Olá, Sr. Rover, tudo bem? Sou Cornélio Martin, seu vizinho da casa à frente... – ele estava falando lentamente e um pouco nervoso, até ser interrompido.
- Eu sei quem é você. O que quer?
- Nós estamos um pouco incomodados com o senhor olhando para a gente e nossa casa, todos os dias. Furou a bola do meu filho?
- Ouça aqui, seu intruso! – Sr. Rover rugiu – Eu faço o que eu quiser com os meus olhos, okay? Se não quiser que eu olhe para a sua casa, arranque meus olhos! Se não quiser que eu fure a bola dos seus filhos, arranque minhas mãos!
- Mas...
- Acho que já terminamos por aqui. Se não sair daqui agora, eu vou chamar o Brutus.
Cornélio deu um passo para trás, com a mão no queixo pensando em como conversar com o senhor, ele abriu a boca para questionar, mas na mesma hora, Sr. Rover gritou:
- Brutus! – um som de cachorro foi emitido – Venha aqui, Brutus. — O trinco foi retirado e a porta se abriu, um rosnado de cão, seguido de latido saiu de dentro da casa. – Pega, Brutus!
Antes que Cornélio visse o cachorro vindo em direção a ele, ele já tinha saído correndo e chegou a cair no meio do caminho, mas isso não o empatou de chegar o mais rápido na segurança da sua casa. O Sr. Rover, fechou a porta, e sorriu batendo numa caixinha de som com quatro botões numerados e bajulou:
- Nunca gastei um dinheiro tão bem na minha vida. Te amo, Brutus.
Ele riu, foi até o seu quarto, apagou a luz e já estava conseguindo ouvir, em alguns dias, o caminhão de mudanças da família Martínez, ou seja lá como ela chamava. Não importava mais.
Em menos de uma semana, a casa estava à venda, mais uma vez. Se não falhava a memória do Sr. Rover, seria a décima quinta vez que estava sendo vendida. Ele se sentou na cadeira de balanço habitual e ficou admirando a casa à frente, enquanto Thiago o olhava de cara feia, e colocava na grama da casa, de novo, a placa de “Vende-se”.
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