Denver & Rover

2 Capítulo 1 - Mudança


Notas iniciais
Denver tem a sua última festa em Riddley, sua cidade natal e na despedida com Ali, seu (quase ex) namorado, ele tem um surpresa.

O meu coração batia no ritmo da música, meus olhos fechados imaginavam cores e movimentos que só existiam na minha cabeça. O pessoal abaixo de mim, colocava as mãos para o alto e dançavam freneticamente, como se o mundo fosse acabar, era tão maravilhoso aquilo... Aquela sensação de leveza que a música me trazia.

Ernesto, o produtor da festa, sinalizou que seria a minha última música. Eu assenti com a cabeça, peguei o microfone, diminui o volume da música ao mínimo e falei:

– Essa é para homenagear todos os meus amigos que estão presentes e, principalmente, para o meu namorado, Alisson Corner. Eu te amo, amor, nunca vou me esquecer de você.

O povo bateu palma e eu coloquei minha última música, da minha última festa em Riddley: Drive – Miley Cyrus.

Pedi para Diego, o DJ seguinte, ficar em meu lugar e desci para cantar com meus amigos. Eles me abraçaram, me passaram um copo de vodka com limão, bebi um gole e começamos a cantar juntos:

– Dirija o meu coração noite adentro, pode deixar as chaves pela manhã, porque eu não quero sair de casa sem o seu amor!

Abracei Alisson com todas as minhas forças. Eu não queria ir, eles não queriam que eu fosse, mas eu precisava, eram meus pais, não podia simplesmente dizer “não” a eles. Era complicado.

Nós ficamos de testas coladas, olhando os olhos do outro, sorrimos, nos beijamos e nos abraçamos, seria nossa última noite juntos, não queria que nada desse errado. Não queria deixá-lo sem termos uma noite inesquecível antes.

E assim foi. Meus amigos ficaram com vários garotos – lindos, por sinal -, eu fiquei sempre ao lado do meu garoto e quando deu cinco da manhã, fomos para o ponto de ônibus.

Gabriel Schaefer começou a chorar e me abraçou tão forte que meus pulmões não conseguiram, se quer, fazer seu trabalho. Ele então colocou as mãos no meu pescoço e seu rosto ficou tão próximo ao meu, que podia sentir o bafo alcoólico invadindo minhas narinas. Ele falou:

– Meu deus, Denver, vou sentir tantas saudades de você!

E me abraçou mais uma vez, menos forte que da última.

– Eu também, Schaefer. Não fica assim!

Eu não sabia como lidar com despedidas, sempre foi estranho para mim saber como me comportar, ou o que falar em um momento daqueles, eu estava totalmente desconcertado, principalmente pelo efeito do álcool já ter passado e minha cabeça já começar a doer.

– Não ficar assim?! Meu melhor amigo está indo embora, e você não quer que eu fique assim!?

O primeiro ônibus chega e Gabriel tem que ir para casa, graças a Deus, levando com ele, Michel e Gui. Ambos me abraçaram e desejaram-me uma boa viajem.

Alguns minutos depois, o meu ônibus chegou e eu e Ali partimos para a minha casa. Nós sentamos nos bancos do fundo, botei uma música e compartilhei do meu fone com ele. Parecia que o aleatório do celular estava tão sentimental quanto eu. Só caia nas músicas depressivas, e aquela vontade de chorar subiu pelo meu corpo de forma esmagadora. Ali colocou a cabeça em meu ombro e pelo canto do olho, eu percebi que ele também segurava o choro mordendo o lábio inferior.

Eu não conseguiria aguentar por muito tempo.

Minha mão apertou a coxa do Ali de um jeito extremamente forte, que pude sentir a unha entrando em uma camada daquela pele morena que eu era viciado. Assustado, mas entendendo a situação, Ali agarrou minha mão e a tirou dali. Não precisávamos falar o que sentíamos um para o outro.

Tudo aquilo significava que nada existiria em algumas horas.

Ali me abraçou e deitou sua cabeça em meu peito e começou a chorar baixinho, o abraço era triste e reconfortante, que me lembrava de todos os momentos bons e ruins que passei ao lado dele. Coloquei minha mão sobre a lateral do seu rosto e acariciei a pseudobarba que tanto amava sentir sob a minha pele.

O ônibus parou no nosso ponto. Descemos, enxugamos nossas lágrimas, ajeitamos nossas camisas e fomos para a casa que um dia tinha sido minha.

Meus pais já botavam as coisas no caminhão da mudança e quando Friederic Maxwell, meu pai, percebeu minha chegada, sorriu e acenou para que eu me apressasse.

Friederic tinha por volta dos cinquenta e seis anos de idade, e a genética, mostrando o seu poder, me deu o mesmo rosto, olhos castanhos, cabelos negros, lábios finos e meio pálidos, com uma orelha um pouco maior que o normal, mas que dava uma beleza exótica. O diferencial era que meu pai tinha rugas e um sinal no queixo, que chamava toda a atenção. Eu não tinha rugas, lógico, e nenhum sinal no rosto, infelizmente.

O Sr. Maxwell era o motivo da minha mudança. Ele é empresário de uma empresa de telefonia chamada Comunicação Cometa, ou como chamamos em casa, CoCo. A empresa necessitava dele na cidade de Grouse, capital de San Valentim, para expandir o negócio e fui forçado a ir junto. Meu pai não queria me deixar aqui sozinho, minha mãe, Sônia, concordou com ele e não tive opção.

– Ei, pai. – falei meio desanimado – As minhas coisas...?

Comecei a perguntar, quando percebi que o caminhão estava quase cheio de caixas e móveis desmontados.

– Ah! Foram as primeiras coisas a serem colocadas.

Mamãe chegou carregando uma caixa lacrada com fita adesiva e nela tinha escrito: “Frágil. Copos de vidro”. O seu rosto estava pingando de suor, o cabelo castanho, colado ao pescoço e o os olhos amendoados já demonstravam cansaço.

– Ah sim. – assenti e peguei a caixa da mão dela e fui colocar no caminhão junto com as outras que guardavam coisas frágeis.

– Quem é esse? – perguntou papai, ao perceber a presença do Ali.

Retesei um pouco meu corpo e fiquei um mais sério, olhei para ele disse sem olhar para os olhos do Sr. Maxwell:

– É o Xavier, pai. Meu amigo. Vai nos acompanhar até o aeroporto.

Alisson parecia estar me matando com os olhos verdes dele. Eu não sabia direito se era por, um: Eu tê-lo chamado de Xavier, coisa que ele odeia, ou dois: Ter chamado-o de amigo, ou três: As duas coisas juntas.

Eu odiava mentir e odiava enganar meus pais, mas eu sabia muito bem como era minha família. Eu estava bem não me assumindo e preferia continuar assim e sendo feliz, do que assumido e eles me tratando de uma forma diferente da que eu estou acostumado e gosto. Mas... Eu não estava mentindo. O nome dele era Alisson Xavier Corner e ele era meu amigo, não era? Para sermos namorados, tínhamos que ser amigos. Comigo só funcionava assim.

– Ah sim, será um prazer ter você como companhia, Xavier.

Papai abraçou-o e disse que ele poderia ficar a vontade, que iríamos sair em alguns minutos e que ele poderia ir no táxi conosco, mas a volta era por conta dele.

As horas foram passando. Meus pais conversaram tanto com o Ali que eu cheguei a ficar um pouco com ciúmes da aproximação deles e para não ter que ficar ouvindo as risadas do meu namorado, causadas pelos meus pais, coloquei meus fones de ouvido e botei no aleatório de músicas do Ed Sheeran. Começou a tocar na mesma hora a música “So”. A música que eu havia dedicado para o Ali no dia que o pedi em namoro.

Eu sorri e meus olhos se encheram de lágrimas que não desceram. Aquele dia foi um dos melhores da minha vida. Olhei para o Ali e lembrei da cena na mesma da hora.

Preciso-te agora, preciso do seu toque e dos seus lábios, preciso deste seu sorriso e seu beijo.

Nós estávamos em um luau, com o Gabriel, Gui, Nathália, uma outra amiga, e mais uma galerinha. Era minha vez de tocar, disse que a música era dedicada para alguém da roda. A fogueira me aquecia de um jeito maravilhoso. Quando comecei a tocar, Nathália começou a aplaudir e a fazer coro e no refrão o pessoal cantou junto comigo:

Você é tão legal, tão lindo, você é tão... Você é tão...

Quando terminei, olhei diretamente para o Ali, que estava do outro lado da fogueira e perguntei:

– Namora comigo, Ali?

Ele ficou tão vermelhinho, eu não consegui não me segurar e dei uma risada nervosa, mordendo meu lábio. Ele se levantou da roda, andou em minha direção, se sentou ao meu lado, riu e disse me abraçando de lado:

– Você não sabe quanto tempo eu esperei para ouvir isso de você, Den. Claro que sim!

Ele colocou a cabeça no meu ombro e o pessoal, que estava em silêncio, começou a nos aplaudir, passei o violão para o Gui e dei um beijo na testa do Ali.

– Não é mesmo, Den? – mamãe perguntou sorrindo, me tirando do devaneio.

– Sim! – sorri e confirmei mesmo não sabendo do que se tratava. Virei minha cabeça para a janela, encostei-a no vidro e adormeci sem nem perceber.

Acordei assustado com a porta abrindo. Meu pai riu de mim, provavelmente eu tenha feito um movimento brusco e desajeitado e minha cara, provavelmente, não estava lá essas coisas, a ressaca estava “maravilhosa”, minha cabeça latejava e eu não tinha a mínima noção do que eu estava fazendo e nem onde estávamos. Mas então eu lembrei: aeroporto.

As passagens já estavam em mãos, faltavam menos de trinta minutos para o embarque. E eu precisava me despedir do Ali da forma certa. Chamei-o e disse aos meus pais que iria dar uma volta rápida.

– Não demore. – Friederic avisou – Em alguns minutos iremos embarcar.

Assenti e coloquei meu braço em volta do pescoço do Ali. Quando nos afastamos o suficiente, Ali falou com um tom meio sombrio:

– Então quer dizer que sou seu amigo Xavier, hum?

Eu suspirei fundo. Eu sabia que ele não iria demorar a tocar nesse assunto, já estava preparado para aquele tipo de pergunta, sorri para ele e disse:

– Você sabe que meus pais não sabem sobre mim. Por que esse drama mesmo?

– Tudo bem. – ele enrijeceu a mandíbula e suspirou.

Não estava tudo bem. Ele queria dizer muito mais do que um “tudo bem”, mas realmente, era melhor ele se calar. Não queria brigar com ele, logo hoje. Justamente hoje.

– Como vai ser daqui para frente? – os olhos cor de grama miraram os meus, mandando uma mensagem de súplica.

– Não vai ser. – Aquelas palavras doeram em mim como uma espada furando meu coração – Sabe que não concordo com relacionamentos à distância. Não vai dar certo. Acho melhor parar, enquanto está tudo bem.

Alisson parou de forma brusca e seus olhos marejaram. Ai meu deus, eu não tinha ideia do que fazer, então o abracei. O abracei o mais forte que pude, abracei tanto que o cheiro adocicado do seu perfume, com certeza, ficaria por uma semana em mim. Ele cheirou meu pescoço, beijo-o e deu uma leve mordida no meu ombro e cochichou baixinho:

– Por favor, Den, não me deixa aqui, sozinho.

– Eu não queria, Ali, eu não queria. Você sabe. – minhas lágrimas desceram e eu enfiei levemente as minhas unhas nas costas dele – Eu não queria te deixar.

– Não me abandona, por favor. – Ali começou a soluçar e eu o acompanhei. Não aguentava ver, sentir e ouvir o sofrimento do meu namorado.

– Não diz isso, Ali. Eu não quero te abandonar. Você é uma das pessoas mais especiais que entraram na minha vida. Não queria ir assim. Me desculpa.

Meu impulso do coração foi maior que a minha consciência e o beijei no meio do aeroporto, com todos em volta. Eu só queria beijá-lo. Sentir, pela última vez, o gosto dos lábios dele. O sabor do Ali.

Mas só depois de quase um minuto que eu vim me tocar o que eu estava fazendo, mas já era tarde demais. O Sr. Maxwell estava atrás do Ali, com uma expressão de incredulidade, provavelmente ele veio sorrindo e o sorriso se transformou numa cara de desapontamento e surpresa. O peso do mundo caiu sobre as minhas costas.

Ali percebeu a mudança no meu corpo e se virou, quando percebeu que era meu pai, ele ficou do mesmo jeito que eu. Alisson deu um passo para trás e abaixou a cabeça, me deixou na mira dos olhos furiosos de Friederic.

Era certo. Eu estava morto.

– Eita. – pude ouvir alguém falando da plateia.

Meus sentidos estavam tão aguçados que conseguia ouvir o meu coração batendo aceleradamente. Não conseguia falar nada, as palavras ficavam presas na garganta. Eu não podia falar: “Não é o que você está pensando”, porque sim, era sim. Eu pensei em falar: “Me desculpa”, mas minha garganta travou. Eu apenas fechei os olhos cheios de lágrimas e abaixei a cabeça.

– Vamos. Está na hora do embarque.

Meu pai falou com um tom que eu nunca tinha ouvido antes na minha vida, era desesperador, era um tom calmo controlado, como se ele estivesse segurando uma explosão. Virei minha cabeça para o Ali e acenei com a cabeça. Era um adeus, provavelmente.

Notas finais
Espero que tenham gostado do capítulo! Sexta tem mais! O que vocês acham que irá acontecer com o Denver?