Denver & Rover

3 Capítulo 2 - Um novo lar


Notas iniciais
Denver viaja pela primeira vez de avião e conhece o Sr. Rover, o velho rabugento que vimos no Prólogo e também um lindo homem...

Eu nunca tinha viajado de avião e seria minha primeira vez. Meu estômago já estava embrulhado e eu ainda estava para entrar no transporte. Minhas mãos estavam suando frio e quando eu olhei pela última vez para o avião, do lado de fora, antes de adentrá-lo, eu só consegui me lembrar do filme Premonição, que o avião explode, e meu medo só aumentou.

Como um burro, empaquei na entrada, minhas pernas travaram.

– Vai logo. – Papai me deu um leve empurrão. A voz dele doía na minha alma, com tanta aspereza que transmitia.

Eu fechei os olhos, segurei meu anel preso ao pescoço por um cordão de couro. Juro que se eu sobreviver, vou mudar a vida de alguém. Prendi minha respiração e entrei, com o pé direito, claro.

Quando abri os olhos, me surpreendi com o cubículo que era. Por fora, parecia como daqueles filmes que o pessoal conseguia passar normalmente e com espaço, mas, nossa. Eu quase não conseguia andar de frente. O espaço entre uma fila de cadeiras e outra era pequeno e para mim, que sou magro, estava sendo difícil, imagina para quem tivesse um pouco mais de corpo? Teria que passar de lado.

Olhei para o teto e, meu deus, o avião era feito de plástico? Quase chamei a aeromoça para perguntar se era plástico, não era possível aquela textura ser de um avião. Isso vai mesmo voar? Pensei.

Sentei na janela, papai do meu lado e mamãe na cadeira da ponta, que levava ao corredor. O silêncio entre nós três era absoluto. Aposto que Sr. Maxwell já contou para Sônia que me viu beijando meu... ex. Sinceramente? Depois daquela cena, minha vontade era de voltar para minha casa. A viagem já começou errada, nada iria dar certo na nova moradia. Já consigo até perceber as brigas que viriam.

Com os minutos passando, o nervoso cresceu. AS portas foram vedadas e as aeromoças começaram a dar instruções de como fazer as coisas, caso houvesse algum problema. Será que eu já podia pegar aquela coisa para botar no rosto para respirar?

Virei para o lado da parede do avião e lembrei, então, que sentei ao lado de uma janela. Sorri e abri. Ia poder ver as nuvens! Meu nervoso foi até embora, um pouco, e fiquei observando o local.

O avião começou a andar.

– Avê Maria, cheia de graça... – mamãe começou a rezar.

Eu não sabia se eu ria, ou se acompanhava, porque na hora que eu vi as asas do avião tremendo, eu achei que nem sair do chão ele ia conseguir. Cadê. A. Droga do meu fone? Ah. Tinha desligado o celular, não ia adiantar de nada. Meu deus. A asa vai se soltar, ela está tremendo!

Para melhorar ele começou a se inclinar, aquilo era normal... Não era? Não conseguia tirar os olhos da asa do avião, se alguma coisa soltasse, eu seria o primeiro a gritar. E então meu ouvido começou a soltar um zumbido, apertei meus olhos e mandíbula para ver se parava, mas nada funcionava.

O avião continuou a subir. Querido, isso não é um foguete, pode parar de subir já. Disse mentalmente para o piloto.

Funcionou.

Só então percebi que eu não estava respirando e soltei o meu ar preso. Meu pai me cutucou, olhei para ele, o rosto era severo e não olhava para os meus olhos, era para um ponto neutro, onde eu sabia que ele estava me olhando, mas não estava ao mesmo tempo. Olhei para a mão dele e segurava um chiclete. Peguei o mesmo, agradeci e ele só acenou com a cabeça. Comecei a mastigar e o zumbido, que nem percebia mais que estava ouvindo, parou. Suspirei de alívio e o sono me pegou novamente. Encostei a cabeça na parede, olhei algumas nuvens... Tem certeza que elas não são feitas de algodão? Pisquei. O avião tinha pousado e meu pai pegava as bagagens no compartimento acima do acento.

– Achei que não iria acordar. Vamos.

Grouse era maravilhosa, cheia de árvores e praças, quase não havia prédios. Parecia aquele tipo de cidade calma e sem muitas confusões, não tinha cara de capital, mas sim de um interior, onde todo mundo se conhecia.

Eu estava ouvindo Empire de Of Monsters And Men, quando chegamos na nova casa. Ela era grande, de um andar, tinha uma garagem com espaço para dois carros e um terreno gramado da calçada até as escadas que levavam à porta de entrada. As paredes eram de um tom pastel, com detalhes feitos de madeira. Era simplesmente maravilhosa.

Olhei para a casa que ficava em frente à minha. Era uma casa descuidada, as paredes estavam ressecadas e descascadas, a porta parecia velha e com aparência de que poderia cair a qualquer momento. Será que alguém morava ali?

Minha resposta chegou alguns segundos depois, quando um velho usando um paletó e calças com suspensórios, que olhava para o carro de modo odioso, virou a calçada para entrar na casa. Aquele senhor inspirava problemas e meu conceito de “cidade pacífica” foi por água abaixo.

Dentro da casa estava um homem negro de paletó e gravata azul-marinho. Eu ainda estava morto de cansado. Mas me dei a liberdade de cumprimentá-lo.

– Olá, sou Denver Maxwell. – apertei a mão dele.

– Thiago Gunji, o proprietário. Você deve ser o filho do senhor Friederic?

– Isso. – papai respondeu entrando na casa.

Eu sentei na mesa da cozinha, cruzei meus braços sobre a mesma e apoiei minha cabeça. Mal percebi e já estava dormindo de novo.

– Não é, filho? – Sônia me perguntou alguma coisa me acordando do sonho.

– O que? – olhei para ela com os olhos semicerrados – Sim, isso mesmo.

Eu tinha que parar com essa mania de confirmar as coisas sem saber o que se tratava.

– O seu quarto fica no segundo andar, virando a direita, a segunda porta. – papai me informou, percebendo a minha exaustão.

Subi as escadas de madeira e fui até o mesmo, lá tinha apenas uma cama de solteiro, um guarda-roupa e uma mobília. Joguei-me na cama e apaguei. Finalmente, um descanso de verdade.

Acredite, ou não. Eu só acordei no dia seguinte. Morrendo de fome e desesperado por um banho. Procurei por um banheiro, que encontrei rapidamente, afinal, ficava na porta ao lado do meu quarto. Tomei um banho demorado de quase trinta minutos.

As caixas da mudança já tinham chegado. As minhas estavam empilhadas próximas à porta de entrada. Fui até a cozinha, abri os armários e encontrei meu cereal. Peguei o leite na geladeira e repeti duas vezes.

Mamãe chegou quando eu estava terminando de lavar a tigela e tomou um susto com a minha presença. Eu sorri para ela e falei:

– Bom dia.

– Achei que não iria acordar mais. – seu tom era meio sonolento ainda.

– A festa foi muito exaustiva e não tinha conseguido descansar direito.

E então o silêncio se instalou na cozinha. Ela iria tocar no assunto. Tinha certeza.

– É verdade o que seu pai me falou? Que você beijou o Xavier?

Sabia.

Suspirei fundo. Deixei a tigela no escorredor de pratos, enxuguei minhas mãos e peguei nas de mamãe, que estavam apoiadas sobre a mesa.

– Desculpa, mãe. Eu meio que menti para vocês. – a feição dela mudou na mesma hora – Xavier, na verdade, é... Era – consertei – meu namorado e ele se chama Alisson. Xavier é o segundo nome dele.

Ela arregalou os olhos e ficou parada, nem mesmo respirava. Ela não estava acreditando nas palavras que disse. Ela não queria acreditar.

– Então... – as lágrimas começaram a encher os olhos dela – Quer dizer que... Quando você dizia que ia para a casa da Ali, era na verdade, na casa dele?

Eu assenti envergonhado. Ver as lágrimas da minha mãe, causadas por mim, doíam mais que ouvir o tom severo de papai.

– E a Ariel? A mesma coisa?

Assenti novamente. Acho que era uma mania minha. Namorar com caras de nome unissex. Ficava mais fácil de falar na frente dos meus pais. Era só trocar o artigo da frente e eles achavam que era uma menina.

– Desculpa, mamãe. De verdade.

Ela não respondeu. Levantou da cadeira e virou de costas para mim e disse:

– Vá levar o leite do senhor Rover, ele deve estar esperando.

– Quem? – era aquilo que eu tinha aceitado?

– O leite, para o vizinho da frente.

– Mas... – tentei questionar – Esse não é o trabalho do leiteiro?

Mamãe deu de ombros e como o ar da casa não estava dos melhores... Decidi fazer. Peguei a garrafa de leite que estava ao lado de fora da porta de entrada e atravessei a rua.

A casa dava certo medo. Mas fui do mesmo jeito.

Com o aproximar da casa, o cheiro de cigarro foi se acentuando. Ninguém desinfetava a casa para tirar esse cheiro? Bati na porta e a voz rouca, raivosa e cansada de um senhor veio aos meus ouvidos:

– Já vai!

A persiana da janela abriu um buraco e um par de olhos enrugados e castanhos apareceu. Assustado, dei um passo para trás. Um rosnado foi emitido e logo depois a porta se abre. O senhor era meio corcunda, usava uma bengala de madeira. Seu rosto era carrancudo e mal humorado, dava medo para qualquer um que olhasse e ele perguntou:

– É o meu novo empregado?

– Hum... — Eu aceitei isso também? – Não... Eu só vim trazer o leite...?

Mostrei a garrafa para ele e levantei a mão para ele pegá-la. O senhor fez uma cara de espanto e afastou a mão para o peito e da garrafa, levou o seu olhar para o meu rosto. Eu levantei uma sobrancelha em dúvida e dei um leve sorriso sem jeito.

– O senhor está bem?

Ele não respondeu. Fechou a porta e sem entender, olhei para trás, para ver se alguém me observava. Um homem de trinta e poucos anos vinha na direção da casa. Ele era loiro, tinha o cabelo raspado, olhos cor de mel e uma boca que, meu deus, fiquei desconsertado quando olhei. Até esqueci o que tinha vindo fazer.

Ele olhou para mim, eu olhei para ele e o mesmo sorriu, eu senti o suor gelado no meu corpo e olhei para o outro lado para disfarçar o nervosismo. Eu balançava minhas pernas como se não houvesse amanhã. Ele subiu as escadas e o perfume agridoce veio às minhas narinas. Ele mirou os olhos castanhos na minha direção e eu não consegui respirar. Ele virou para a porta e quando ia bater na mesma, ela se abriu.

O velho tomou um susto e gritou:

– Que diabos! Quem é você?

Sr. Rover parecia um anão comparado com a altura do homem à sua frente.

– Sou Brandon Flopper, senhor. Seu novo empregado.

Sr. Rover deu espaço para o loiro passar e disse:

– O que está esperando? Entre logo e comece o seu trabalho. Não pago gente que não faz nada.

Brandon olhou mais uma vez para trás, como se me cumprimentasse pelo olhar e eu estava olhando para ele, claro. Então desviei o olhar para o Sr. Rover e ele segurava uma nota de cinco reais.

– Para quê isso? – perguntei surpreso.

– Não quer um pagamento pelo leite?

Eu não sabia dessa parte. Dei de ombros, entreguei a garrafa ao velho e peguei a nota. Então ele entrou na casa, passou o trinco e eu nem pude agradecer. Era para eu ir embora agora?

Quando estava descendo as escadas a porta se abre novamente:

– Você é o novo vizinho da frente?

Confirmei com a cabeça.

Ele rosnou para mim.

– Passe aqui no fim da tarde, para te entregar a garrafa vazia.

E ele fechou a porta novamente. Então dei de ombros e voltei para a minha casa. Era hora de tirar minhas coisas da caixa.

Notas finais
O que acharam do Brandon?? Ai! Esse homem, meu deus! Kkk Segunda tem novo capítulo!