Dentro do Tornado
1 Mais um dia chuvoso
Notas iniciais
Era um dia de chuva comum no Colégio Baeward. Eu me encontrava sentada num canto parcialmente isolado no refeitório, lendo um livro e comendo um burrito, como de costume. De longe via Kailee na maior diversão com seus amigos, os mais populares. Nos meus conceitos, eu estava fora de ser popular, embora Kailee fosse minha melhor amiga aqui na escola, e às vezes fora dela.
Dei uma mordida no meu burrito, que já estava se acabando, assim como o horário do almoço. Estava mais do que preparada para ler mais um capítulo de meu livro, quando o sinal tocou. Acabei de comer rapidamente e me dirigi ao meu armário para pegar minha bolsa, quando lembrei que tinha que pegar o resumo da prova de física com o Sr. McJullian, o professor da matéria. Vi que ele andava pelo corredor em direção à saída, provavelmente ansioso para voltar para sua casa e aliviar um pouco o estresse que lhe tomava conta. Corri em direção a ele.
– Senhor McJullian, o resumo! — Eu dizia a ele, correndo de um jeito um tanto quanto desengonçado.
Ele me entregou os papéis e me deu um sorriso, sem dizer nada. É, eu acho que por mais estresse que tinha, gostava da sua profissão.
Eu me dirigi ao portão, prendi meus cabelos cheios e cacheados num coque gigante (que eu amava) e coloquei meu capuz. Descia as ruas do bairro correndo, com a cabeça abaixada, ouvindo Do I Wanna Know, do Arctic Monkeys, sem me importar com a chuva que caia e molhava toda a minha roupa. Cheguei em casa, e subi para meu quarto sem hesitar.
Meus dedos digitavam sem parar no teclado de meu notebook. Criava novas histórias sem parar, ás vezes passava a madrugada escrevendo, lendo, conversando e assistindo séries. Meu sono ia pelo ralo, e só voltava de manhã. Acho que é assim com muita gente, não é mesmo?
Mordi um cookie, me sentei em minha cama, fria e desarrumada desde manhã, do jeito que eu gosto. Peguei meu notebook, ansiosa para abrir uma guia que eu havia deixado aberta o dia todo. Uma pasta com fotos da vovó, desde criança até sua melhor idade. Me lembro muito bem de seu funeral. É uma das vagas lembranças que tenho de minha infância. Me lembro claramente de minha mãe, chorando diante do caixão, ainda tentando compreender sua dor, e de meu pai, com a mão em seu ombro, a apoiando seja no que for. E meu avô, calado e isolado, mas sempre forte.
– Nailah, vai dormir! — Minha mãe gritou, de um jeito não agressivo que só ela sabia fazer.
– Tô indo!
Ela se dirigiu de volta à cozinha. Fechei o notebook e resolvi que essa noite eu dormiria pelo menos um pouco, para aliviar a nostalgia que me golpeara, mesmo sabendo que acordaria mais ou menos umas quatro horas da manhã. Apaguei a luminária que já estava acesa há uma semana, puxei o elástico, deixando meu cabelo cacheado cair sobre minha pele escura, fazendo uma pequena cócega, com a qual eu já estava acostumada, e deitei minha cabeça sobre o travesseiro. Sem eu nem perceber, meus olhos se fecharam, como os de um bebê pelo começo da noite.
– Nailah. Nailah! Acorde, querida!
Abri os olhos, vendo tudo embaçado. Fazia tempo que isso não acontecia, acho. Minha garganta doía, e eu estava suada. Esfreguei as mãos em minhas pálpebras e vi minha mãe, tentando me acordar. Me sentei lentamente e uma tontura me fez cambalear. Minha mãe me segurou, e minha cabeça começou a doer.
– Filha, você está mal. Não vai pra escola hoje. Sua febre está alta, vamos ter que te levar para um hospital.
– Não, mãe! Hoje é a prova de física, não posso perder!
– Querida, odeio fazer isso, mas a gente vai sim para um hospital. Olha a sua idade, você já sabe lidar com as situações. Por favor.
Coloquei um moletom desbotado por cima do pijama, e meus tênis de sempre, e nos dirigimos para o carro. Pelo menos eu estava feliz em saber que iria passar a tarde na casa do vovô. Eu adorava tudo naquele lugar. A decoração, com alguns enfeites africanos, o cheiro de chocolate quente, a poeira, o tapete macio que eu costumava rolar quando criança, absolutamente tudo.
Chegamos na casa do vovô. Em frente à sua velha calçada, vi um caminhão de mudanças. Um vizinho deveria estar se mudando, pensei. O vovô já morava naquela casa faz tempo. Ele me recebeu com um abraço. Ele parecia mais velho, mas nunca perdia sua feição de homem humilde e trabalhador. Quando entrei na casa que tanto amava, me assustei com um detalhe: a casa estava vazia. Os móveis haviam sumido, e a decoração que eu tanto amava estava guardada em caixotes. Vovô e mamãe pareciam assustados com meu semblante impactado com a situação.
– Morena — Era assim que ele me chamava — O vovô vai se mudar.
– Mãe, você sabia disso? — eu disse, impressionada.
– Não querida, só não estou tão assustada quanto você.
– Vô, como assim?
Andei até uma das caixas, e vi um álbum de família, com uma foto da família antiga reunida, meu avô era jovem, e minha vó estava linda. Conhecia todos, mas havia um homem que parecia ser de outra família. Tinha cabelos e a pele claros. Não dava para saber a cor pois a foto estava em preto e branco. Uma curiosidade tomou conta de meu corpo. Eu não sabia como, mas eu ia descobrir quem era esse homem.
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