Dentro De Mim
23 Capítulo 23
Notas iniciais
/História 3/Hoshiro’s POV/
“Pirralho desgraçado!” Graças a ele eu não tenho dormido direito por um bom tempo. Do nada ele invade minha mente. Fico intrigado pensando em como ele consegue continuar gostando de mim mesmo por tudo que eu faço a ele.
Eu estava na sala de aula, escrevendo a matéria no quadro, enquanto tentava manter meus olhos abertos. Não é como se eu passasse a noite inteira em claro, mas tenho ficado boa parte da noite em devaneios.
De repente, enquanto escrevia no quadro, senti alguma coisa batendo em minha cabeça. Olhei para o lado e vi que tinha sido uma bolinha de papel. Eu quase explodi de raiva naquele momento. Quem teria ousado atirar aquilo em mim?
Lentamente, virei minha cabeça para trás, olhando a classe de uma forma demoníaca. Todos os alunos estavam com uma expressão incrédula e assustada, porém, reparei que apenas um dos alunos estava exageradamente assustado e tremendo. Reparei que esse aluno tinha uma régua em sua mesa, um objeto perfeito para usar de catapulta.
Eu sabia que ele estava apenas brincando com seu material e não teve intenções de atirar a bolinha de papel em mim, mas aquilo tinha me irritado muito. Quem ele pensava que era para brincar com aquilo no meio da minha aula?
Lentamente, recolhi a bolinha de papel do chão e fui andando em direção à mesa dele. Todos os alunos tinham rostos petrificados, temendo o que poderia acontecer em seguida.
Parei bem em frente ao garoto, que tinha uma expressão de pânico bem nítida. Bem devagar, peguei uma de suas mãos e coloquei a bolinha de papel nela. Depois, peguei a régua que estava em cima de sua mesa e a parti no meio bem na cara dele. Ele deu um pulo devido ao barulho, que ecoou na sala toda. Peguei a outra mão dele e coloquei as duas metades da régua. Tudo isso, sem nenhum momento parar de encará-lo com o olhar mais frio que sei fazer.
Depois disso, simplesmente me virei e voltei a copiar a matéria. Percebi que todos da sala ficaram muito incrédulos, e o garoto finalmente voltou a respirar. Acho que pensaram que eu ia matá-lo, ou no mínimo expulsá-lo da escola. Mas acho que assustá-lo daquele jeito já foi suficiente.
O resto da aula se seguiu com um clima bem pesado, mais do que o normal. E assim que o sinal para o final da aula bateu, os alunos pareceram muito aliviados. Eu saí logo da sala, enquanto os alunos organizavam seus materiais.
Fui praticamente correndo me esconder na biblioteca. Eu sabia que aquele pirralho logo iria me procurar, e a biblioteca é um dos poucos lugares na escola onde tenho sossego.
Peguei um livro qualquer e me sentei em um lugar entre as estantes, onde ninguém poderia me ver. Estava tudo certo até eu ouvir aquela voz insuportável:
– Sensei! Você está aí! – disse Yukira Yuu se aproximando.
“Mas que merda! Como esse diabinho me achou aqui? Ele deve ter me seguido!”
Respirei fundo e respondi:
– O que você quer?
– Eu vim falar com você, claro! – disse ele sorridente – Sabe... O Shin-chan ficou morrendo de medo do que você fez!
– Shin-chan? – o interrompi – Quem? Ah... O desgraçado que jogou a bolinha em mim?
– Foi um acidente! – protestou ele – Ele nunca faria isso de propósito... Sabe, Kioshi-san... Acho que os alunos gostariam muito mais de você se você não fosse tão malvado. Eu sei que você não é tão mal assim. Ah... Você nunca sorri não? Se você chegasse na sala com um sorriso todos iam gostar! O que te faz sorrir? Tem tantas coisas que me fazem sorrir no mundo! Meus bichinhos, meus amigos, lugares divertidos...
– Cala a boca, Yukira! – me controlei para não gritar, aliás, estava numa biblioteca.
Me levantei da cadeira e respirei fundo, falando logo em seguida:
– Olha... Eu estou a fim de ficar sozinho, da pra me deixar em paz?
– Ah... – ele fez uma cara chateada – Eu só estou tentando sugerir um jeito dos alunos gostarem de você. Bem, eu gosto de você, mas acho que os outros não... Mas seria legal se todo mundo gostasse, não é? Acho que as aulas seriam mais divertidas. Ah é! Por que você não pensa em um jeito de deixar as aulas mais divertidas? Alguns professores têm uns métodos pra isso, você podia perguntar pra eles e...
Ele continuou falando e falando, mas eu parei de ouvir. “Mas que saco! Esse pirralho só sabe falar? Não importa o que eu diga, ele parece não querer me deixar em paz e continua com a falação!”
Minha cabeça estava prestes a explodir devido àquela voz aguda. “Ah é? Ele não vai parar de falar mesmo? Então... Vou ter que dar um jeito de manter aquela boca ocupada”
Eu sabia que estava prestes a fazer uma loucura, mas foi a única coisa que consegui pensar para calar aquela criança.
Coloquei minhas mãos em seu rosto e, de uma forma até brusca, o trouxe para perto de mim e o beijei. Percebi que ele arregalou os olhos e ficou completamente corado enquanto minha língua vasculhava sua boca.
Não demorou muito para que eu me afastasse dele. Ele ficou me olhando, completamente petrificado, corado e sem expressão.
– Você fala de mais – disse eu, recolhendo minhas coisas e saindo da biblioteca o mais rápido possível.
Parecia que ele ia ficar lá paralisado para sempre. Bem, pelo menos eu consegui fazê-lo calar a boca...
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/Yuu’s POV/
Eu devo ter ficado uns 5 minutos parado naquele lugar, completamente imóvel, tentando digerir a informação.
Toquei meus lábios incrédulo. Ele... Me beijou... Kioshi Hoshiro... Me beijou! Eu não conseguia acreditar.
Quando finalmente consegui me mover, saí correndo em disparada. “Necessito contar isso pra Keiko!!!”
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/Hoshiro’s POV/
Assim que cheguei em casa, me joguei no sofá, exausto.
É... Eu sabia que tinha feito merda beijando aquele pirralho, mas consegui me livrar dele e é isso que importa.
Eu estava quase pegando no sono, quando escutei a campainha tocar. Soltei alguns palavrões mentalmente, morrendo de preguiça de ir atender a porta, mas fiz um esforço e me levantei do sofá.
Abri a porta e não gostei do que vi: novamente, aquele pirralho maldito, me olhando com uma carinha tímida.
– O que está fazendo aqui? – perguntei, sem entender o motivo dele estar lá – Nossas aulas já acabaram a um tempão.
– E-eu sei... – ele estava muito nervoso e corado – É que eu... Queria te ver...
Revirei os olhos e fechei a porta, louco para voltar para o meu sofá. Porém, assim que dei um passo, senti um peso na consciência. “Aquele garoto veio até aqui sozinho só para me ver e eu bato a porta na cara dele?”
Me rendendo a culpa, voltei e abri a porta novamente. Como imaginei, ele continuava lá, com a mesma carinha tímida, como se nem tivesse assimilado que eu fechei a porta.
– Tá – bufei – Entra, mas não mexa em nada.
Ele sorriu, então me afastei para que ele entrasse e fechei a porta. Sem ligar para a presença dele, me joguei no sofá novamente, fechando os olhos.
Por incrível que pareça, ele não falou nada, apenas se sentou no braço do sofá e ficou me olhando. Acho que ele esperava que eu falasse alguma coisa, mas eu não tinha nada para falar.
Porém, impaciente, perguntei:
– O que você quer?
– E-eu... – ele corou – É que... Eu quero saber... P-por que você me beijou?
– Ah, isso – suspirei, me sentando no sofá – Foi porque você não calava a boca. Foi a primeira coisa que pensei pra ter silêncio.
– Ah... Foi por isso... – ele pareceu meio desanimado.
Olhei estranho para ele, dizendo de um jeito rude:
– Por quê? Vai me dizer que achou que eu queria mesmo te beijar? Ah, francamente! – passei a mão pelos cabelos – Foi só um beijo. Não teve nada de mais. Não vá achando que isso teve alguma importância...
– Mas pra mim teve! – gritou ele se levantando, me surpreendendo.
Fiquei olhando surpreso para ele, mas logo ele se acalmou e voltou com a cara tímida de antes, dizendo:
– Pra mim foi importante... – ele pôs uma mão fechada na boca, corando mais ainda. – É que... Esse foi... Meu primeiro beijo...
Arregalei os olhos, sentindo um enorme peso na consciência de novo. Eu tinha... Roubado o primeiro beijo daquele garoto por um motivo tão idiota e ainda por cima falando que não teve importância.
Eu não sabia o que fazer. Não dava pra voltar atrás no que eu fiz. Eu só podia me desculpar.
– É... Bem – fiquei meio sem graça – Me desculpe. Eu não sabia que você nunca tinha beijado.
Ele me olhou com uma carinha triste e tímida ao mesmo tempo. Confesso que achei fofo, e comecei a me condenar por ter achado fofo.
– Olha... – me levantei do sofá, me aproximando dele – Desculpe por ter feito isso, não posso voltar atrás, mas... É melhor você esquecer isso. É melhor você me esquecer. Eu já disse que não vou retribuir seu sentimento. – eu dizia isso com uma calma que até me surpreendeu – Além de que eu não sou a pessoa mais apropriada pra você. Por favor, desista de mim.
Ele ficou um bom tempo calado, olhando para o lado, como se estivesse pensando em algo. Até que ele finalmente disse:
– Kioshi-san... Alguém já lutou por você?
Aquela pergunta me surpreendeu. Eu achei que ele fosse chorar ou falar alguma coisa idiota, mas ele me vem com essa? O que ele queria com aquilo?
Obviamente, não soube o que responder. Realmente, ninguém nunca tinha lutado por mim. Era a primeira vez que alguém corria atrás de mim. E eu me sentia estranho por tudo isso. Nunca achei que eu fosse uma pessoa que merecesse ter alguém que me amasse.
– Eu sabia – ele seguiu o ditado de quem cala consente.
Eu estava pensando em alguma coisa pra responder, mas antes que pudesse falar algo, ele se aproximou de mim, me puxou pela gravata de uma forma até agressiva, para que eu me abaixasse e me beijou.
Arregalei meus olhos, completamente incrédulo com aquilo. Aquele pirralho estava me beijando? Na maior cara de pau?
Ele se afastou de mim, soltando minha gravata. Fiquei olhando surpreso para ele, ainda com os olhos arregalados. Porém, ele apenas sorriu e disse:
– Eu não vou desistir de você... Nunca!
E com isso, ele foi andando em direção à porta, enquanto eu continuava sem reação.
– Até amanhã, Sensei! – disse ele sorrindo e acenando.
Ele saiu e fechou a porta. Eu fiquei um bom tempo em pé, tentando assimilar o que aconteceu. O que mais me surpreendia era a coragem daquele garoto. A coragem que ele tinha de correr atrás de alguém que gosta. A coragem que eu nunca tive... E que eu sempre quis ter...
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