Dentro De Mim
9 Capítulo 9
Notas iniciais
/História 3/Yuu’s POV/
– Essa roupa me faz parecer menos pirralho? – perguntei para meus bichinhos enquanto me olhava no espelho. Sei que eles não respondem, mas gosto de conversar com eles.
Mika, que estava sentada no chão perto de mim e me olhando atentamente com aqueles olhos azuis, deu um miado meio grave, como se estivesse preocupada.
– É, acho que só fico ainda mais criança assim... – analisei minha camiseta branca e bermuda verde.
Não gostei do que vi e decidi trocar de roupa. Eu precisava aparentar ser um pouco mais maduro, pois eu ia em breve para a casa do Sensei para as aulas particulares. Hoje pela manhã ele disse que estava livre e me perguntou se eu estava também. Eu estava, mas mesmo se não estivesse eu desmarcava qualquer outra coisa. Queria muito poder ir à casa dele.
Keiko ficou bem animada, e até ficou imaginando coisas pervertidas que poderiam acontecer lá. Ela me fez prometer que contaria cada mísero detalhe do que acontecesse lá. Claro, não tenho nada para esconder dela.
Coloquei uma camiseta preta e uma bermuda vermelha. “É, ficou bem melhor assim”. Meus pais estavam trabalhando, então teria que ir de trem para a casa dele. Tudo bem, eu já sou acostumado a pegar trem, pois às vezes meus pais não têm como me buscar na escola.
Confesso que fiquei muito feliz quando ele me deu o endereço, mas tentei não demonstrar, já que a mestre Keiko disse que não era para eu demonstrar nada por enquanto.
– Se comporte, Mika.
Peguei a gatinha no colo e dei um beijo em sua cabeça, colocando-a no chão logo em seguida.
– Itekimasu, Riki! – eu disse, pegando minha mochila e já me direcionando para a porta do quarto.
– Tadaima, Riki! – o papagaio burro me respondeu.
“Tá, chega! Desisto de tentar fazê-lo me responder direito”.
Antes de sair dei um abraço em Kopa e tranquei a casa. Que bom que minha irmãzinha Midori foi para a casa de uma amiga, senão eu teria que ficar em casa para que ela não ficasse sozinha.
Enfim, enquanto estava no trem, fiquei meio ansioso. Não sabia o que poderia acontecer. Só de pensar em olhar naqueles olhos vermelhos já sinto meu coração disparar. Não sei se conseguirei esconder que gosto dele, eu nunca fui de esconder muitas coisas.
“Deve ser aqui”, eu pensei enquanto encarava a porta do apartamento, meio receoso de tocar a campainha. “Eu não sei o que falar. Devo cumprimentá-lo formalmente ou não? Devo parecer feliz ou dedicado? Ah, minha cabeça tá rodando...”
Respirei fundo e apertei o botão. Aquele barulho de campainha nunca foi tão assustador. Não que tenha sido aqueles três toques como em filmes de terror, mas uma onda de tensão correu pelo meu corpo ao imaginar ele abrindo a porta.
E para acelerar mais ainda meu coração, o Sensei abriu a porta com seu típico rosto inexpressivo. Eu congelei por um segundo, mas logo me recuperei e tentei ser educado:
– B-boa tarde! – falei sorrindo
Ele cerrou os olhos, fazendo uma cara confusa, como se não me reconhecesse. Ou talvez, não soubesse o motivo de eu estar lá.
– Por que você está aqui? – ele disse, frio como sempre.
Eu não entendi bem. Ele tinha esquecido ou o que? Fiquei meio atordoado, sem saber o que fazer, mas resolvi explicar:
– Eu vim para as aulas particulares, não lembra?
Ele colocou a mão na testa e deu um longo suspiro entediado. Eu continuei lá parado a sua porta segurando minha mochila com as duas mãos na frente do corpo, esperando ele falar alguma coisa.
– Merda! – ele disse, ainda com a mão no rosto – Eu tinha me esquecido disso.
– M-mas... Falamos disso ainda hoje... – tentei achar algum motivo.
– Eu costumo esquecer fácil coisas que não me importam. – ele respondeu, dando as costas para mim e entrando na casa.
“Nossa, que cruel. Chegou até a doer”. Eu poderia reclamar, mas decidi deixar para lá. Eu fiquei parado na porta, sem saber se podia entrar, enquanto o via arrumar alguns papeis na mesa de centro, que ficava em frente ao sofá.
– Vai ficar aí fora? – disse ele lá de dentro, sem nem se quer olhar para mim.
Finalmente me toquei e entrei na casa dele, olhando em volta. Era um lugar bem bonito até. Não era enorme, mas era bem espaçoso para uma pessoa só.
Ele me pediu para deixar os sapatos perto da porta. Tirei meu All Star e coloquei-o ao lado de seus sapatos. Ele se sentou ao chão perto da mesinha e pegou alguns materiais. Eu fiquei apenas o observando sem saber o que fazer. Eu não podia simplesmente me jogar no sofá como se a casa fosse minha, né?
– Trouxe os seus materiais? – ele perguntou, no mesmo tom mal-humorado de sempre
– Ah... Hai! – eu respondi abrindo minha mochila e retirando meus cadernos.
Percebi que ele queria que eu me sentasse ao chão também, então coloquei meus materiais na mesinha meio timidamente, ainda não me sentindo muito à vontade. Bem, ele nunca faz as pessoas se sentirem à vontade.
Me sentei com as pernas cruzadas, enquanto ele se matinha com uma perna esticada e a outra dobrada perto do peito, com um cotovelo apoiado no joelho.
– Enfim... – ele me olhou com aqueles olhos lindos, me fazendo sentir um leve arrepio – Eu quero que você me diga exatamente o que você não entendeu.
Até fiquei meio sem graça. Eu não tinha entendido absolutamente nada. Não sabia fazer nenhum cálculo se quer. Eu acertava algumas questões por sorte ou cola, mas nunca soube fazer de verdade.
– Etto... – fiquei meio corado – Tudo...
– Tudo? – ele me olhou meio indignado
– É... – achei que fosse explodir de tão sem graça que fiquei.
Ele soltou um longo suspiro de cansaço, enquanto passava a mão pelos cabelos e depois disse:
– Isso vai dar trabalho...
Fiquei até meio entristecido, pois eu não queria causar incômodo para ele. “Não tenho culpa de não entender a matéria. Bem, parcialmente, a culpa também é dele. Quem mandou ser tão lindo? Assim eu me desconcentro.”
– Tá – ele finalmente falou depois de pensar um pouco –, vamos começar desde o início.
Eu achei que ele estivesse brincando quando disse que ia começar do início, mas não. Ele começou a me ensinar a matéria do início da unidade letiva. Até me lembro dele passando aquilo nos primeiros dias da unidade, pois consegui prestar um pouquinho de atenção antes de começar a pensar nele de novo.
Tenho que admitir que o problema sou eu, pois ele explica muito bem. Porém, eu fico meio hipnotizado com o olhar dele e distraído com sua voz sedutora.
Até fiquei impressionado. Ele parecia me explicar com vontade. Na verdade, só parecia, pois eu sabia que no fundo ele só estava fazendo aquilo por que eu insisti.
Eu tive que fazer um esforço, mas consegui parar de pensar nele e prestar atenção. É muito estranha a sensação de começar a entender. É tipo: “Wow! Matemática faz sentido!”
– Entendeu? – ele perguntou, assim que terminou a primeira parte da explicação.
– Hai! – eu disse, balançando a cabeça positivamente.
– Olha, se você não entendeu, preciso que me diga. Eu estou aqui para trabalhar somente as suas dificuldades, não tenha medo de dizer que não entendeu, tá?
– Hai... Arigatou – Assenti com a cabeça novamente.
Até fiquei meio corado. Pela primeira vez, eu vi algo de diferente em seu olhar e tom de voz. Ele me olhava como se realmente se importasse comigo e quisesse me ensinar mesmo. Fiquei feliz por ele estar me dando tanta atenção. No final das contas, eu só queria passar mais tempo com ele.
– Bem, – ele começou a falar – eu quero que você me prove que entendeu. Vou te passar um exercício apenas com a primeira parte da matéria.
Até fiquei com preguiça. Odeio fazer exercícios de matemática, mas eu tinha que aprender e estava realmente dedicado a isso. Concordei novamente.
Ele abriu uma pasta e tirou lá de dentro alguns papéis xerocados. Era uma apostila com apenas 5 questões. Assim que ele me entregou, olhei as questões e percebi que iria conseguir fazê-las. Acabei até me animando um pouco.
– Enquanto você resolve isso, eu vou tomar um banho. – disse ele se levantando – Só não tomei antes porque tinha esquecido que você vinha.
Virei a cabeça para o outro lado para que ele não visse minha face corada. Sem querer, acabou se passando um pensamento pervertido por minha cabeça. Eu queria vê-lo tomar banho. “Meu Deus, tenho que me purificar. Deve ser culpa da Keiko que fica falando essas coisas para mim”
– T-tá... – respondi apenas
Ele se direcionou para um corredor, provavelmente indo até o banheiro, onde meus olhos não tinham mais alcance.
Comecei a reparar em algo. Eu, geralmente, sou uma pessoa muito falante, que chega até a irritar os outros, porém, esse tempo todo que estive na casa dele, eu só dei respostas curtas e diretas. Deve ser porque eu só falo muito quando estou animado, mas agora, eu estava constrangido, meio sem graça. Ainda não me sinto muito à vontade com ele, pois fico com medo de acabar falando alguma besteira que só o faça me odiar ainda mais. Confesso que ficaria mais aliviado se ele soubesse de meu sentimento.
Decidi parar de pensar nisso e me concentrar na atividade. As primeiras questões eu resolvi rapidamente e com facilidade, porém, na última, empaquei de uma forma brutal, que achei que nunca mais iria sair de lá. Resolvi esperar ele sair do banho para perguntar, já que com o que ele disse sobre estar trabalhando somente minhas dificuldades, eu me senti um pouco menos receoso na hora de pedir para ele explicar de novo.
Deitei o lado direito do rosto nas folhas e com os ombros e braços jogados para baixo da mesinha, de um jeito meio entediado. Comecei a olhar em volta para me distrair.
Meus olhos rondavam por toda aquela sala de estar, até que pararam em um ponto. Levantei minha cabeça e me virei para o sofá atrás de mim para ver direito. Tinha uma camisa lá. “Eu não tinha visto antes, ou será que ele pôs agora?”
Me levantei e me sentei no sofá, pegando aquela camisa de cor azul bem claro. Estiquei-a para poder vê-la melhor. Era como as típicas camisas sociais que ele sempre usa.
Trouxe aquele pedaço de tecido mais para perto de mim e afundei meu rosto nele, puxando bem forte o ar para sentir o cheiro.
“Tem o cheiro dele” me deitei no sofá, abraçando aquela camisa. “Como eu queria poder sentir esse cheiro direto de seu corpo” fechei os olhos, esfregando a camisa levemente em meu rosto.
Ouvi algum barulho vindo do corredor, o que me fez despertar do meu transe. Coloquei a camisa no lugar que estava e voltei voando para onde estava sentado.
Fiquei olhando para lá para ver se ele ia aparecer. Pude vê-lo passar de um cômodo para outro, provavelmente do banheiro para o quarto, sem nem olhar para a sala.
Senti meu coração disparando e um arrepio tomar conta de meu corpo, junto com um calor. Isso não foi só por ele ter passado, e sim, pelo jeito que ele passou. Ele estava somente com as calças, sem camisa e com uma toalha pequena em cima dos cabelos brancos molhados. Ele passou bem rápido, mas pude observar bem seu abdômen bem definido. Senti meu rosto queimando, de tão corado que eu estava.
Logo depois ele voltou, mas já vestindo uma camisa. Outro pensamento pervertido veio a minha mente. “Ele poderia ter voltado sem a camisa mesmo, ou sem as calças, sei lá”. Isso é tudo culpa da Keiko! Aquela fujoshi safada!
– Terminou? – ele perguntou voltando a se sentar no chão.
– Bem... Eu fiz as 4 primeiras, mas na última empaquei nessa parte. – entreguei o papel para ele.
Ele pegou a folha e começou a analisar. Enquanto ele corrigia, fiquei o observando. Seus cabelos molhados estavam grudando um pouco no rosto, que estava inexpressivo como sempre. Porém, ele finalmente fez uma expressão, que mostrava um pouco de surpresa.
– É, as que você fez estão certas – ele disse, me fazendo abrir um sorriso, me sentindo meio orgulhoso. – E nessa última você só errou uma coisa...
Ele começou a explicar meu erro, e por incrível que pareça, eu entendi e consegui resolver a questão até o fim.
Olhei pela janela e vi que já estava escurecendo. Ele, percebendo o que eu fiz, olhou para o relógio e disse:
– Já é tarde. É melhor você ir, não?
Concordei e comecei a arrumar minhas coisas. “Então... Quer dizer que acabou? Não vou mais voltar na casa dele?” fiquei meio desanimado.
– Quando pode ser a próxima aula? – ele perguntou
– Próxima aula? – devolvi a pergunta
– É. – respondeu ele como se fosse óbvio – Não vai dar pra explicar a matéria toda em só um dia.
Senti um pingo de animação aflorar em mim. Quer dizer que eu poderia voltar lá? Seria muito perfeito!
– Hai – respondi sorrindo – Bem, eu estou livre qualquer dia! – “mesmo se não estivesse eu dava um jeito de ficar.”
– Pois é, mas eu não. – ele voltou com o tom frio – Quinta-feira, pode ser?
– Uhum! – assenti sorrindo e com os olhos fechados.
Me levantei, coloquei minha mochila nos ombros e fui em direção a porta. Calcei meus sapatos rapidamente e disse acenando:
– Sayonara, Sensei! Arigatou!
Ele nem se deu ao trabalho de responder e começou a arrumar a papelada da mesinha de centro. Bem, nem me importei, eu estava feliz de mais para ficar incomodado com a frieza dele.
Realmente, hoje foi um dia bem legal. Pena que talvez eu esteja só me iludindo. Essa atenção que ele me deu, foi apenas porque não queria que eu fosse uma merda na matéria, e não porque se importava comigo.
Mas tudo bem, isso conta. Estou feliz e não vou deixar nada estragar essa alegria!
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