Demiurgo: Temporal dos Deicidas
3 Capítulo 3 - Caminhando em Reflexos
Notas iniciais

É interessante para nós se pararmos para pensar no progresso. Por mais que o país aonde estamos ultimamente pareça ter caminhado para trás, não vivemos mais na idade da pedra.
Na minha época de infância ainda existiam os rádios a fita, antes disso existiam vitrolas e vinis. Na época da fita, a música era compartilhada entre os colegas de vizinhança, se reuniam em um lugar para ouvir uma música do momento. Os telefones eram rústicos, não existiam relógios digitais, apenas os analógicos.
Era jurássica, idade média, era das conquistas, era barroca, era industrial. Para cada era uma sangrenta luta para a adaptação, nossa única e maior habilidade como seres humanos. Coisas velhas ficam para trás e coisas novas tomam seu lugar.
Por mais que em alguns dias atrás poderíamos afirmar que vivíamos na flor da era digital, hoje as coisas mudaram. Uma nova era surgiu para substituir a antiga. Eu poderia batizar esse novo ponto como a era dos loucos, a era do desespero. E em plena era da loucura eu estava irado e preocupado.
Porque nessa era...os telefones públicos não funcionavam mais.
– Pode me dar o resto do troco de bala, adoro estas. Uou! Vocês ainda vendem estes?
Era dia, em uma loja de conveniências, um pequeno mercado cheio de estantes repletas de bebidas, alvejantes, doces, revistas e muitas outras coisas. Piotr tinha dois motivos para estar ali, o fato dele estar comprando quatro pacotes de biscoitos e pequenas garrafas de refrigerante era apenas um pretexto para tais motivos.
– Sim, mas na verdade está encalhado. Estamos quase parando de comercializar esses cartões telefônicos. Até meu cachorro tem um smart-phone hoje em dia.
Essa simpática e bem humorada moça de aparentes dezoito anos, loira, olhos castanhos, sentada no banco atrás do balcão, lixando as unhas, era o "alvo" de Piotr. Ele gostou dela logo quando a viu, pelo que aparenta, ele tem uma queda por pessoas com belos sorrisos e doces vozes.
– Você não parece ser da vizinhança.– Dizia ela. – Se mudando ou só de passagem?
Ela era seu primeiro motivo para estar ali. Ele poderia estar em qualquer outro lugar, mas preferiu comprar ali. Porém, ele não tinha mais tempo.
– Só de passagem, eu estou procurando por uma pessoa, é o Jorge, era meu amigo de infância.– Assim dizia Piotr. – A família está louca atrás dele, ele, sabe...? Infelizmente foi diagnosticado de esquizofrenia e fugiu de casa.
– Nossa, que terrível, eu sinto muito. Posso ajudar?
– Na verdade pode. Será que você viu alguém com aproximadamente...um metro e setenta de altura, cabelos castanhos, caucasiano?
Pensativa, a comerciante fitou a mesa do balcão, batendo com o dedo indicador em cima. Balançava a cabeça de forma positiva levemente.
– Ele provavelmente nem trocou de roupa todo esse tempo, deve ainda estar usando uma jaqueta marrom por cima de uma blusa abotoada branca.
– Isso!– Ela levantou o dedo indicador e olhou de forma surpresa para Piotr. – Eu vi sim! Eu vi! Eu juro! Você está com muita sorte.
Piotr riu, simulando um falso alívio.
– Na verdade...pode não ser ele, mas bate. Parecia meio tímido, ele comprou um destes cartões. – Ela apontou para as fileiras de cartões telefônicos ao lado dela.– Pode estar por aí tentando se comunicar com alguém, com sorte, ele pode estar até se comunicando com os pais dele, coitado.
– Então eu preciso encontra-lo logo. Muito obrigado. – Ele deu uma palmadinha em cima do balcão e deixou o lugar.
Já eu estava aproveitando meu tempo com tentativas falhas de fazer um telefone público funcionar. Passava o cartão, tirava o telefone azul do gancho, digitava o número residencial da minha mãe e o visor esverdeado se apagava na metade dos dígitos.
Eu já tinha rodado praticamente todo o centro daquela pequena cidade em busca de algum que funcionasse. Esse é o preço da evolução. E a parte da minha viagem sozinho já havia se esgotado.
– Perdeu, playboy.– Era Piotr.
Eu podia sentir algo cutucando minhas costas, eu tinha certeza que era uma arma. Piotr não estava brincando, na próxima tentativa de fuga minha, teria que informar minha mãe sobre minha situação através de uma carta psicografada.
– Isso é uma arma, né? – Perguntei paralisado.
– É.
– Terei que voltar pro carro?
– Sim, comprei biscoitos.
De volta ao banco traseiro do corsa branco de Piotr, eu podia sentir o peso da minha inexperiência. Enquanto ruas e pessoas eram vistas como borrões no ar, eu pensava que uma simples escolha errada pode acarretar mudanças em toda uma vida.
Minha escolha em aceitar aquela carona em meio a uma guerra civil acarretou no fato de que eu podia não sair vivo dessa.
– Vocês podem me manter como refém da forma que quiserem, mas seria mais justo se me explicassem o que pretendem fazer, assim eu já vou me conformando.
Piotr estava compenetrado dirigindo o veículo, o som do carro estava em uma sintonia que tocava hip-hop. Quando ele estava pronto para aumentar o som do mini-rádio, recebeu um tapa em sua mão dado pela garota ao seu lado, Sandy.
– Eu acho que ele tem o direito. – Disse a garota de cabelos negros amarrados em longas ‘Maria Chiquinhas’, enquanto ajeitou seus óculos de grau.
Ela parecia geek, inocente e baixinha demais para ser uma psicopata, assaltante de bancos ou qualquer coisa que justificasse o fato de estar carregando uma arma de fogo em sua mão. Qualquer desinformado diria que era uma menina de família.
– Eu já falei duas vezes, irmão. – Respondeu Piotr, de olho na rua. - Não seria vantagem para ninguém sequestrar alguém que não tem aonde cair morto. Não é um sequestro.
Isso me doeu na alma mais que nas outras duas vezes.
– Se isso não é um sequestro, porque diabos não me deixa ir embora? Me deixa fora disso! – Eu estava realmente, muito nervoso. – Me deixa fora disso! Por...favor...
E com medo ao mesmo tempo.
– Fica frio aí! – Piotr teve de falar ainda mais alto do que eu, para assim me parar. – Rapazote, se isso fosse um sequestro, porque entregaríamos a você uma arma carregada? Que por sinal você podia ter usado por aí de forma imprudente quando conseguiu despistar a Sandy!
– Falha minha. – Disse Sandy, abaixando a cabeça.
Então novamente me dei conta, tirei a arma do bolso traseiro. Mas eu tremia demais para mirar na cabeça de alguém e exigir que me deixassem sair, eu sequer sabia como destravar uma arma. Provavelmente eles sabiam disso, uma falsa prova de confiança.
– Então porque correu atrás de mim quando eu quis fugir? – Perguntei em um tom baixo, para mim mesmo.
Quando ainda via minha mão armada tremendo enquanto apoiava ela em meu colo, devido o peso da arma carregada, senti um pequeno movimento no banco do carona na minha frente. Sandy estava dando um jeito para sair daquele lugar e se sentar ao meu lado.
– Toma cuidado, bem. – Piotr reclamou do movimento.
Sandy era um pouco magra e baixa, provavelmente tinha dezenove anos, mas aquelas com cara de dezessete. Ainda tinha uma pequena espinha na testa, era reta como uma tábua e usava roupas de adolescente. Uma blusa branca com um coração feito a costura, mini-shorts jeans e botas de couro.
Ela se jogou ao meu lado soltando um suspiro de alívio e erguendo as mãos para cima. Eu evitei ter contato de olhares, ela estava armada e potencialmente era muito perigosa.
– Destrava assim, óh... – Ela se esgueirou em meu ombro e puxou minha mão, começando a me ensinar sobre o uso daquela pistola.
Eu não podia estar acreditando naquilo, naquele momento eu estava duplamente nervoso e estava duplamente armado. Sandy tinha um perfume muito bom.
– Porque estão fazendo isso? – Indaguei de novo, com medo de saber a resposta.
Ela então abriu um sorriso olhando a fundo em meus olhos. Aquela espinha me incomodava, mas até que ela era bonita de perto.
– Qual é a sua religião? – Perguntou para mim.
– O que isso tem a ver?
Ela continuou olhando para mim. Então desviei meu olhar para a janela do carro, fingindo ter notado algo nas ruas, o que era mentira, era uma desculpa para me livrar de toda aquela...pressão. Enquanto isso respondi.
– Eu sou ateu.
– Pois é. – Ela respondeu instantaneamente, como se tivesse antecipado a resposta.
Logo após ter dito isso, Sandy se sentou de forma mais confortável, então ela tomou conta da visão da outra janela e cruzou as pernas. Não entendi exatamente o que ela quis dizer com aquilo, mas o resto da viagem foi silenciosa.
Paramos novamente no meio do nada, em outra cidade do interior do estado. Aquela cidadezinha tinha um "grande número de população", se é que os calangos e os gambás povoando quilômetros de mato e montanha contavam, estava tipicamente deserto pois era domingo.
No entanto estávamos de frente a uma igreja, por sua vez em frente à praça da cidade, a igreja matriz. “A Igreja de Santa Lúcia” disse Piotr. Por fora era uma bela construção, com estátuas de anjos de cabelos encaracolados presos as paredes, como partes delas, como se tentassem se soltar. Era belo, mas ao mesmo tempo era um pouco bizarro.
– O prefeito dessa cidade ficou ainda mais relaxado, a praça está horrível... – Disse Sandy, observando de lado a lado.
Haviam bancos de ferro do lado de fora, próximos a entrada do cemitério nos fundos da igreja. Os bancos estavam tomados por pessoas trajadas de negro e maquiadas de forma pesada com lápis, até mesmo os homens. Góticos de cemitério de rostos mal encarados e sem assunto relevante para conversarem entre eles, também típicos de algumas cidades do interior.
– É porque está na época de eleições e ele sabe que não vai ganhar mais. – Respondeu Piotr. – Bela mentalidade a desses caras, não?
Parecia que alguém estava ensaiando dentro da igreja, pois mesmo de fora, enquanto caminhávamos para a porta semiaberta, escutávamos ruídos de batidas ecoando de dentro. Mas eu achava que o som estava muito...alto e veloz para as músicas tediosas dos cultos dominicais de uma igreja.
– Esse cara quebrou sete pares de baqueta em um único dia. – Rindo, Piotr comentou isso enquanto empurrava a porta para entrar.
– Está certo, não é o que dizem? Sete é o número da perfeição. – Respondeu Sandy em tom irônico.
Quando entramos, seja lá quem fosse aquele sujeito, parou de tocar seu instrumento. Foi a primeira vez que eu vi uma bateria acústica de perto, nunca tive tempo e dinheiro para ir aos shows de pop que costumava ouvir no mp4 enquanto usava os ônibus públicos.
– Vai furar a caixa, irmão! – Exclamou Piotr em tom alto, apenas para sentir sua voz ecoar pela igreja vazia.
Sentado no banco em frente a bateria completa, com cinco tons, dois bumbos e vários pratos, estava um homem. Ele não podia ser visto por trás daquele instrumento colossal, mas pôde ser visto quando se levantou e coçou suas costas com uma de suas baquetas.
– Como foi a viagem? – O cara indagou isso, com aquele típico tom desleixado de rockeiro.
– De boas.
O baterista estava sem camisa, seu corpo era cheio de tatuagens tribais e tinha cabelos loiros longos e lisos. Era barbudo, mas aparentava ser jovem, na faixa dos vinte e sete anos. Usava uma calça de couro preta coladinha e coturnos.
– O garoto, como se chama? – Ele desceu as escadas do púlpito, colocando a mão direita dentro dos bolsos.
– Começa com ‘F’, como é mesmo? Preciso gravar. – Piotr olhou para mim, cheio de dúvida.
– Fenriel. – Sandy respondeu por mim.
Piotr olhou para ela com uma expressão em dúvida.
– Que é? Tenho boa memória. – Disse Sandy.
O homem parou na metade da escadaria, tirou um maço de cigarros amassado do bolso de sua calça um pouco caída e acendeu um cigarro. Tragou-o e olhou para cima. Quando olhei para cima, observei a mais bela arte que eu tinha visto até então, uma famosa pintura de deus e Jesus Cristo no teto arredondado.
– Então, cara... – O cabeludo olhou para mim. – Sou Shaft. Deve ter ouvido sobre mim.
– Não, nunca ouvi sobre você. – Falei em tom frio olhando para ele.
– Hm? – Expressou dúvida em seu semblante um pouco pálido e olhou para Piotr. – Em que nível ele está?
– Classe E, ora. No comecinho. – Respondeu.
– Mas esse trabalho é um pé para o Rank D. – Shaft parecia intrigado naquele momento. – “Fenriel” deveria ir embora.
– Eu posso aceitar isso. – Respondi. – Quero dizer...ir embora.
– Nada disso, meu chapa. – Disse Piotr. – Eu não sei porque diabos, mas me falaram que você estava apto.
– Quem? – Perguntei.
– Se você falhar...nós falhamos. – Sandy completou.
A pressão de três pessoas me encarando ainda era irritante. Passei toda minha vida sendo como um fantasma para todas as pessoas ao meu redor, era insignificante demais para ser levado a sério, para chamar a atenção de alguém ou simplesmente para me dar como indivíduo perante a sociedade. Não estava acostumado com toda aquela ‘atenção’. Não suportava trocar olhares com ninguém.
– Aaaah... – Shaft bateu com a palma da sua mão na testa e abriu um sorriso. – Acho que já sei, seu codinome foi retirado de algum jogo? Tipo, algum nickname para um jogo online?
– O que isso importa? – Perguntei. Nem eu mesmo me recordava de onde eu tinha tirado tal nome.
– Nada contra, cara. Eu também curtia uns jogos, de vez...em...quando. – Enfatizou, piscando o olho direito. – Parece que você passou a maior parte da sua vida assim, né? Você era gordo? Feioso? É virgem? Te sacanearam? Bullying demais? A área predileta da sua casa é o banheiro?
– Olha cara, você não sabe de nada.– Aquilo estava realmente me irritando.
O olhar daquele cara era compenetrado, mal encarado ao mesmo tempo que sátiro, dava algumas tragadas em seu cigarro, coisa do qual sempre odiei. Olhei para Piotr para ver se ele dizia algo que trocasse aquele assunto chato, depois olhei para Sandy, que fingia que não sabia que eu estava olhando-a, ela observava os malditos vitrais.
Um sentimento gelado tomou conta de mim, como um iceberg. Eu estava sendo confrontado por alguém que nem ao menos eu conhecia, e eu tinha vontade de soca-lo.
– Err...Shaft! Qual é a missão? – Perguntou Sandy, erguendo a mão próxima ao rosto e inclinando o corpo para frente, uma tentativa expressiva dela dizer "Vamos pular pro assunto?".
– É chegada a hora zero, irmãos. – Shaft respondeu sem olhar, tragou o cigarro depois.
– Meu deus, já? – Sandy parecia transtornada agora.
Piotr passou um rabo de olho para mim e logo devolveu seu olhar sério para Shaft, que mexeu nas orelhas.
– Repentino, eu sei, mas a diretoria da Demiurgo achou apropriado, ultimamente aconteceram muitas manifestações. – Shaft então seguiu de volta ao púlpito, se virou para nós e fez um sinal. – Vem, vocês três.
– Santo...pai...– Sussurrei.
Sandy pegou em minha mão.
– Vem logo. – Disse ela, me puxando.
Descemos nós quatro em uma longa escadaria caracol entre paredes circulares de tijolos escuros, como os de um poço um pouco mais largo. Tudo estava iluminado por velas e marcado com altas santas de pedra ocultas por finos lençóis de seda. Um coro como o de crianças se elevou aos nossos ouvidos, vinha de baixo.
– Dá pra imaginar?– Disse Piotr em tom de retórica. – Isso é loucura até mesmo para mim, aonde isso vai levar?
– Só mais alguns degrais, caras.– Disse Shaft.
– Mas Shaft, quem imaginaria que debaixo de uma igreja tinha tanto mistério?– Disse Sandy.
– Não faz parte da igreja, é outro plano.– Respondeu ele.
– Desculpe? Não entendi direito.– Assim eu disse, erguendo minha sobrancelha direita.
– Xiii...– Ele virou o rosto para me ver, com um sorriso debochado. – Pelo visto tu é marinheiro de primeira viagem mesmo, hein, cara? Te sacanearam pra valer.
Shaft então entrou em um túnel, mesmo com alguns degrais que pareciam dar em algum lugar.
Por corredores meio que labirínticos, do tipo que causaria pânico a um claustrofóbico, Shaft nos guiou a um local amplo em pleno subterrâneo da igreja matriz.
– Existem planos, Fenriel.– Dizia Piotr. – Lembra do que eu lhe mostrei ao te apresentar o Gab?
Parei para pensar em um momento e me lembrei daquele velho gordo ignorante morando em um lixão.
– Na verdade aquela casa sempre existiu ali, o mesmo vale para o prédio QG, as pessoas não podem ver que aquele prédio é um prédio vazio, na verdade...para as pessoas, aquele é um prédio cheio de inquilinos.
– Está dizendo que existem dois mundos e vocês podem transitar, sério mesmo?– Perguntei em tom de escárnio.
– Não são dois mundos, gênio.– Retrucou Piotr. – É o mesmo mundo. É como...sentir vultos, nem todo mundo pode ver na mesma intensidade. O fato de falarmos que há outro plano, é apenas uma força de expressão.
– Não sei, nunca vi vultos.– Disse, ainda incrédulo.
– Tem certeza que não?– Perguntou Sandy, dando uma risada com seus olhos compenetrados nos meus. – Você nunca viu filmes de terror?
– Isso foi uma piada sem graça ou eu só não entendi mesmo?
– Olhe para frente.– Disse ela.
Resolvi obedecer e olhar para frente. Estávamos passando por um caminho cinzento e escuro, mas ainda dava para ver Shaft caminhando na frente, assim como sentir a insuportável fumaça do seu cigarro. O chão tinha muitas falhas, era como se estivéssemos em uma gruta.
Eu senti algo se movimentar do meu lado, um reflexo. Eu olhei instintivamente para a direção do reflexo, e percebi que era apenas a Sandy movendo a mão perto do meu rosto.
– O que?– Perguntei.
– O ponto semi-morto da sua visão. A área aonde suas pupilas não olham, apenas percebem!
– Isso tem nome científico.– Retruquei.
Ela então me deu um beliscão no braço, foi dolorido e eu reclamei.
– Quando você assiste filmes de horror, você fica mais apreensivo, tem medo até da própria sombra.– Dizia ela. – Aí você "acha" que viu certas coisas, quando na verdade acredita que foi apenas o medo. Suas pupilas se dilatam quando você se acostuma com o escuro, mas também se dilatam com certos sentimentos.
– Medo.– Disse Piotr.
– Atração.– Disse Sandy.
– E...?– Ainda sem entender nada. – Aonde você quer chegar?
– Desistam, caras.– Disse Shaft em tom alto, fazendo sua voz ecoar.
– Existem muitos estudos que dizem comprovar cientificamente o porque disso acontecer, mas na verdade é muito simples, você fica mais sensível.– Sandy continuava tentando buscar meu olhar.– Medo, atração, são sentimentos que deixam você sensível. Quando você tem medo de tomar vacina, ela sempre vai doer mais. Quando está apaixonado, as carícias são mais intensas.
– Pois é, não se ocorre apenas com o olhar, todos os seus sentidos ficam aguçados.– Concordava Piotr. – Quando você tem medo, você ouve até o som mais insignificante, é o seu sentido de sobrevivência agindo.
– Vocês estão embaralhando a minha cabeça!– Gritei.
– Eu vou te beliscar de novo.– Avisou Sandy. – Estou lhe dizendo que esse lugar é apenas um depósito subterrâneo para a maioria das pessoas, com um tamanho muito abaixo do que estamos vendo e passando. Nós estamos aqui, nós temos um sexto e um sétimo sentido.
– O que ela está querendo dizer, mané, é que na verdade esse lugar é a forma real, do jeitinho que ela é.– Dizia Shaft, apagando o cigarro no chão com um pisão e continuando a andar. Ele então iniciava outra escadaria circular para baixo. – Mas poucas pessoas podem ver as coisas como elas são, em outras palavras...Não tem aquilo que você achou ter visto ao ir pro banheiro depois de uma seção de 'Poltergeist' na tevê? Você viu!
De repente uma grande luz eclodiu na frente de Shaft, praticamente o fazendo sumir. A densidade foi de doer os olhos, eu poderia ficar cego com aquilo, mas por algum motivo eu não fiquei.
Todo o espaço se encheu de luz, todo o lugar parecia se redesenhar. Mais se aparentava como um palácio, uma espécie de complexo redondo muito alto, circulando o vasto espaço esférico. Mas estávamos em um palanque, pois ainda havia um grande buraco no centro.
O lugar reluzia em ouro.
– Não estou acreditando no que estou vendo...! – Disse Sandy enquanto eu não tinha sequer fôlego para falar, colocando as mãos na boca e arregalando os olhos.
– Esses despertaram um pouco mais cedo. – Disse Shaft em um tom frio e enfiando as mãos nos bolsos.
No centro bem mais baixo daquele salão iluminado por um imenso candelabro com dezenas de velas e muitos castiçais ao redor, com velas derretendo lentamente, se encontrava uma grande reunião de crianças, todas cantando uma ópera suave.
Víamos de cima para baixo aquilo acontecer, de camarote. As crianças produziam uma bela ária, a maioria delas estavam descalças sob o solo, enquanto que outras estavam de pé acima das asas das grandiosas estátuas angelicais com cinco metros de altura. As crianças pareciam melancólicas como suas vozes, olhando para o teto iluminado como se estivessem em transe.
– Percebam esses cabelos brancos e seus olhos iluminados como prata. – Observava Shaft, e de fato as crianças pareciam precocemente envelhecidas, seus olhos chamuscavam. – Esse é o complexo de Mártir, caras, uma das bases abandonadas pela Demiurgo.
– O que é a Demiurgo!? – Perguntei exaltado.
Shaft se virou para mim, abriu um sorriso irônico.
– Algo que se iniciou precisamente a meio século antes de Cristo. – Respondeu e continuou a andar. – Inspirada em muitas culturas semelhantes aos sonhos.
Não havia entendido nada do que havia sido dito, mas era algo realmente grande.
Algo muito avançado estava se ocorrendo para que eu pudesse explicar. E isso me fascinava, muito mais do que qualquer coisa do qual eu tenha vivenciado. Mas me preocupava ainda mais, pois se aquilo tudo era uma espécie de ato terrorista, era algo sem precedentes.
– Acredita agora, zé ruela?– Perguntou Shaft. – Você deve estar pensando que é impossível um lugar dessa magnitude existir nas profundezas de uma igreja do interior, mas existe.
Após andarmos, estávamos em uma sala escura. Uma ampla sala de estudos e pesquisas no andar mais baixo daquela 'torre' embutida no subsolo. A igreja era como uma fachada para as pesquisas e testes que eram feitos ali, aonde muitos homens de aventais brancos iam e vinham sob as mesas brancas.
– Sandy.– Peguei no ombro dela.
– O que?
– O que é esse sexto e sétimo sentido?
Ela riu.
– Foi uma forma de expressão, na verdade muitas pessoas estão começando a verem coisas que acreditam não existir, como a ave de fogo.
– A ave de fogo sempre existiu?
– Uhum.
Em poucos segundos de caminhada, chegamos em frente a uma alta porta dupla que se abriu para que pudéssemos entrar. Uma sala apenas iluminada por algumas máquinas e telões mostrando diversos pontos do mundo em tempo real. Dublin, Londres, Nova Yorque, Osaka, Damasco, Brasília e outros lugares.
– Isso é... espionagem? – Disse transtornado.
– Nada disso, só um pouco melhor que o Google Earth. – Respondeu Shaft em tom irônico, enquanto se sentava em cima de uma longa mesa branca e apontava para um dos telões. – São pontos aonde...se ocorreram ‘algumas coisinhas ali e acolá’.
– Deixa eu ver se entendi. – Raciocinava Piotr, coçando a cabeça. – Também são lugares aonde acontecerão coisas muito grandes.
– Exatamente. – Disse Shaft, abrindo os braços.
– Deus, o que é isso!? – Eu queria saber, eu queria saber mais e mais.
O lugar se iluminou um pouco mais e então nos deparamos com uma mulher sentada em um tipo de trono de ferro arredondado, sustentado a poucos centímetros do chão por tubos e correntes. Era uma mulher de estatura média, com um capacete bloqueando sua visão e escondendo seus cabelos. Ela estava...nua!
– Mantenham foco aqui. – Disse Shaft, apontando para algumas das telas dos computadores. – Quase todos, e quando digo disso, quase todos é...quase todos, praticamente todos os jogadores ativos participarão dessa missão, que varia entre A e E.
– Todos os Ranks. – Respondeu Sandy. – Que missão é?
– A Hora Zero. Já é chegada a hora do mundo começar a ter consciência e nos ajudar.
Sandy se apoiou de costas para uma mesa e cruzou os braços, pensativa. Eu não sabia a quem olhar para obter respostas, e também não sabia por onde começar a perguntar, eu tenho desses lances. Fora que aquelas luzes esverdeadas piscando no meu rosto me deixavam um pouco tonto.
– Isso foi bem repentino, eu nunca tive oportunidade para falar isso pro meu irmão. – Confessou Piotr, fitando o solo. – O que ele vai pensar? Isso só pode dar errado.
– Não tem como dar errado, os homens mais poderosos desse mundo atualmente estão avisados e de acordo. – Disse Shaft de olho nas telas. – Cada pessoa que participar disso é um cidadão do local escolhido. Vocês sabiam que há inclusive alguns de nós que secretamente recebem favores do governo?
– Então a Demiurgo se tornou uma potência das nações unidas? – Indagou Sandy, surpresa.
– Mais ou menos, por aí. – Shaft fechou o olho direito como um sinal de "mais ou menos".– Podemos dizer que apenas 'pessoas normais' irão sentir o embalo.
– Como se isso me confortasse. – Disse Piotr, colocando as mãos na cintura e fitando o chão.
Do chão riscavam algumas linhas de luzes esverdeadas. Tudo parecia tão surreal e ao mesmo tempo, tudo me era tão familiar, que pouco a pouco eu fui perdendo a vontade de retrucar cada coisa que eu via.
Quatro dias depois.
Já haviam se passado três dias desde que minha vida se tornou digna de terapia de choque. Pelo menos me sinto aliviado em saber que tudo se tornou um surto globalizado, relatos nos jornais de moças de família que viram a mãe de Cristo se tornou o assunto mais comentado dos noticiários.
O colossal pássaro de fogo? Bem, não foi apenas eu quem vi, apenas no meu país centenas de pessoas viram algo estranho queimar o céu em velocidade e sumir, e posteriormente em outros países. A criminalidade tomou conta, assim como a loucura contagiosa de pessoas vendo aparições e manifestações.
Dentre esses dois fenômenos as vidas de muitas pessoas mudaram, pessoas milionárias declararam falência e famílias humildes ganharam nos jogos lotéricos, e o fato de dezenas de pessoas ganharem, tais jogos entraram em recesso. Surdos-mudos voltaram a ouvir e falar, cegos a enxergar e detentores de paralisia cerebral se curaram. Câncer e Aids não precisam de tratamento, não hoje.
– Ícaro! Marina teve trigêmeos! – Eu estava de volta para minha casa, e essa era a minha mãe.
Uma verdadeira histeria no mundo e cada um tinha sua fonte de verdade: O apocalipse bíblico, a mensagem alienígena, ragnarök, teorias da conspiração. Devotos exigem uma explicação de Roma enquanto cientistas e pesquisadores tentam buscar algo tragável na física quântica.
Mesmo lendo sobre tudo isso nestes três dias na internet, ainda fiquei com a sensação de que nada disso havia explicação, algo infantil e sem nexo para esbofetear qualquer teoria.
– Filho, está tudo bem? – Essa é minha mãe, a senhora Marta Chagas Cruz que chegou a minha porta aberta. Cabelos castanhos, olhos claros, sorriso fraterno.
Eu estava deitado sob minha cama completamente desarrumada. Estava sem camisa, bloqueando a luz do amanhecer com as costas da minha mão sob o rosto. Pensativo e cansado de madrugar em busca de respostas, pelo menos alguma que me satisfizesse um pouco.
– Deus do céu, você anda malhando? – Ela se aproximou de mim e passou sua mão em meu peito nu.
O que eu poderia dizer a ela? Certamente estava mais forte, mais definido, eu sei disso pois fiquei horas e horas em frente ao espelho para ter certeza, e depois mais algumas horas para apreciar isso. Minha dieta era de refrigerante e fast-foods, não fazia sequer uma caminhada da casa para a padaria da esquina. Então eu diria a ela que eu fui mais uma vítima das coisas inexplicáveis do mundo?
– Percebeu agora? – Me sentei na cama, cansado. – Já tem duas semanas, mãe. Parece que está começando a dar resultado.
Passei a mão no braço e fiz um muque. Certamente eu poderia fazer alguns exercícios, ocupar minha mente, poderia ser um aviso ou algo assim. Eu poderia estar bem mais forte que isso.
– Você não está usando algum daqueles ‘métodos instantâneos’, está? – Perguntou ela, obviamente estava preocupada com a minha saúde. Se apoiou na porta do meu quarto.
– Não, claro que não, não sou um idiota. – Sorri para ela.
Eu poderia me acostumar com a nova era das loucuras, todos podem, a maior habilidade do ser vivo é a adaptação.
Eu poderia voltar para minha vida normal, aceitar a dor de ser reprovado na faculdade, sendo um fantasma para as pessoas, passando resto da minha vida sendo sustentado pela minha mãe e odiando meu pai por ter nos abandonado. Poderia continuar negando tudo o que passei.
Mas eu não posso. Talvez o mundo necessite da verdade, mas ao mesmo tempo eu penso que ela pode ser cruel demais, minha sanidade está sendo questionada por mim mesmo, que dirá o resto da população?
– Vou fazer um lanche pra gente, você deve estar faminto. Depois você vai descansar um pouco.
– Fenriel.
Tudo isso ainda pode ser mentira, com toda a tecnologia para manipulação de massas, o governo simplesmente poderia inventar sucessões estranhas para passar alguma mensagem ao seu povo. O que eu vi na catedral podia ser apenas um jogo, um cenário construído para nos fazer acreditar.
Mas e se eu estivesse abrindo mão de uma oportunidade única?
– Fenriel.
Eu olhei para minha frente. E ali estava uma garotinha com lindos cabelos loiros que balançavam mesmo com a ausência de vento. Ela sorria para mim de uma forma doce e eu conhecia aquele ser imaterial de algum lugar.
Olhei para a janela de onde via a luz. Eu sorri como a muito tempo não fiz.
Eu também conhecia o lobo, ele vigiava meus passos de algum lugar desse mundo. Eu só precisava encontra-lo.
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