Demiurgo: Temporal dos Deicidas
4 Capítulo 4 - Novo Governo
Notas iniciais
Permita-me, meu nome real, bem isso não importa mais. Sou Fenriel. Sou um rapaz que durante toda a minha vida não tive boas amizades, talvez apenas colegas de classe para diálogos sem importância sobre séries animadas da tevê durante a minha infância. Sou virgem e nunca beijei ninguém. Tenho dezenove anos e ainda moro com minha mãe de aluguel.
Recentemente descobri ser parte de algo muito maior. Ou melhor, estou descobrindo isso. Por alguns segundos pensei sobre isso, enquanto caminhava ao lado de Shaft, uma figura carismática e medonha, nas ruas de São Paulo.
– Então basicamente, existem coisas nesse mundo que as pessoas negam que viram?– Perguntei.
– Por aí, absolutamente existem muitas pessoas vistas como loucas pela sociedade, mas algumas são apenas pessoas que sabem o que vêem e não renegam essa condição. – A voz de Shaft era meio anasalada e meio largada, eu diria relaxada.
Shaft tem longos cabelos loiros lisos, olhos castanhos um pouco claros. Sua pele é branca como se nunca tivesse visto a luz do dia e é apenas um pouco mais alto do que eu. Ele tem um grande cavanhaque loiro um pouco crespo. Sua camiseta é camuflada, uma camisa abotoada xadrez por cima.
Ele tem alguns colares como crucifixos negros e crânios de ferro. Seus braços são tatuados com tribais e outros desenhos estranhos. Esse é Shaft, não conheço seu nome real.
– Opa! Vou te mostrar...Olhe para aquela multidão, meu caro.– Ele apontou para frente, suas unhas estavam pintadas de negro.
Eu olhei, realmente era uma grande multidão. Pessoas aglomeradas na lotada grande cidade. Mas hoje a cidade estava mais movimentada que de costume, trata-se de uma grande festa, as pessoas estavam felizes hoje.
Entre as pessoas, muitas com grandes balões de gás hélio coloridos. Mas entre as pessoas se destacavam um tipo estranho de gente, eu diria que de fato...eram monstros. Eu nunca tinha visto pessoas como aquelas.
– O que é isso? As pessoas correm perigo? – Mas eu não estava tão assustado quanto normalmente eu ficaria. Apesar disso eu esfreguei meus olhos para ter certeza do que via.
– São 'Zourmiel'.– Respondia Shaft, enquanto ainda caminhávamos entrando na multidão. – São opostos ao redentor, mas necessários para o equilíbrio dos nove fluxos.
– Nove fluxos?– Eu perguntei enquanto não conseguia tirar os olhos daqueles seres caminhando entre as pessoas como cidadãos comuns. Um deles passou perto de mim.
– Os nove fluxos do Sefirah, eles tem opostos, que são Clifot.
– Não entendi nada.
Eram pessoas, humanoides pelo menos. Alguns deles vestiam sobretudos de cores claras, mas pouco extravagantes, assim como usavam chapeis. A diferença entre eles e você é que eles eram negros, mas não de forma étnica, eles eram negros como a sombra, tão negros que pareciam serem feitos de um componente imaterial, fantasmagórico, como vultos.
Os olhos dos Zourmiel eram como de animais, pareciam os olhos de um gato, só que dourados e um pouco luminosos. Eles tinham um pequeno focinho e pareciam peludos. Na verdade lembravam algo como panteras humanoides.
– Os Zourmiel, eles...
– Não se preocupe, nós estamos em paz, graças ao nosso novo presidente.
– Ninguém percebe eles?
– Se liga, eles percebem, nos olhos das pessoas os Zourmiel são como eu ou você.
Pareciam mal encarados.
– Ele já vai atender vocês, tá?– Assim dizia uma simpática mulher vestida de trajes empresariais.
Nós estávamos na sala de espera de uma poderosa empresa brasileira. Shaft estava folheando a revista Veja, sentado todo largado na confortável cadeira. Eu estava do lado dele, balançando a minha perna direita, um pequeno tique-nervoso meu.
– Olha só pra você!– Se aproximou um homem calvo, com cabelos um pouco ruivos e sobrancelhas grossas, olhos azuis, provavelmente descendente de nórdicos. Usava um terno do qual eu não poderia dizer a marca devido minha falta de assunto nesse quesito, mas era bonito.
– Oscar, como vai, maluco?– Shaft se levantou e recebeu um abraço do homem, o homem parecia feliz com a presença de Shaft, mas Shaft...não sorriu.
O tal Oscar parou um segundo para me olhar, abriu um sorriso e estendeu sua mão, eu tirei minhas mãos do bolso da jaqueta de couro preta e apertei sua mão de forma firme. Aprendi que a firmeza de um aperto de mão diz tudo sobre você.
– Gostei da firmeza.– Disse ele. Ele então olhou para Shaft, depois para mim, ainda de forma agradável. – Venham, por favor, pro meu escritório.
Nós então estávamos sentados na grande e confortável poltrona do escritório de Oscar. As paredes eram tipicamente brancas, havia um jarro de flores no criado-mudo ao nosso lado, flores silvestres. O local eram bem arejado, uma brisa refrescante entrava pela janela do terceiro andar onde estávamos.
Oscar estava sentado em cima da mesa dele.
– Eu fico aqui pensando sobre isso, e eu realmente não acredito!– O sujeito parecia realmente satisfeito com alguma coisa, falando com sua voz de locutor de rádio. – Depois de muitos anos finalmente conseguimos entrar em um acordo, isso me deixa muito alegre.
– Eu estou um pouco por fora, cara.– Dizia Shaft, dando um tapa no ar. – Diz aí, a diferença de votos? Não consegui assistir televisão ontem e não pude entrar na internet pra saber.
– Getúlio Sardes ganhou sessenta e quatro por cento dos votos no primeiro turno. – Eu respondi.
Shaft olhou para mim, balançou a cabeça e olhou para Oscar.
– Sei, ele vai cumprir sua promessa?
– Mas é claro. – Oscar cruzou os braços e cruzou as pernas.– Só que eles já conversaram sobre isso, não vai ser repentino, as pessoas temem o novo, você sabe. Existem preconceitos para com pessoas da mesma raça, que dirá para com outros tipos de pessoas. E com os surtos...
– Isso não é problema nosso, Oscar. – Dizia Shaft.– O acordo para Getúlio ser eleito a presidência era que ele garantisse que todos seriam integrados a população como cidadãos legais.
– Todos quem? – Perguntei.
– Os Zourmiel. – Shaft olhou para mim e devolveu a atenção para Oscar.
– Sério?
Olhei assustado para Oscar. O empresário devolveu meu olhar de uma forma um pouco mais fria, e então ignorou minha dúvida para voltar a falar com Shaft.
– Onde estão os outros?
– Alguns foram desmembrados para a passeata no Rio de Janeiro, outros já estão vigiando o presidente.– Respondeu Shaft.
Esses outros são Piotr e Sandy. Eu ainda não entendia porque de fato vigiavam o presidente.
– Quem nós iremos proteger? – Perguntou Shaft.
– Proteger?
– O filho dele.– Respondeu Oscar. Ele pegou no telefone de gancho e falou com sua secretária. – Mande o menino entrar.
A porta do escritório se abriu, uma moça elegante acompanhou um pequeno garoto, até a nós. O pirralho devia ter uns treze anos, estava bem arrumado e era um pouco gordinho. Ele parecia tão confuso quanto eu, olhou para a moça como se estivesse fazendo uma pergunta a ela com os olhos.
Eu era um rapaz normal, mas Shaft não tinha uma aparência lá muito boa, ele parecia ser um fugitivo da cadeia.
– O tio Luigi e o tio Tedy vão cuidar de você, querido.– Disse a moça.
– Tio Luigi?– Perguntei.
– Tio "Tedy"? Ah, fala sério!– Disse Shaft exaltado.
Oscar fechou os olhos, pôs a mão na boca e começou a rir. A secretária dele olhou para ele com uma expressão negativa. O menino olhou para nós, quando olhou apenas para Shaft e abriu um sorriso.
– Você é rockeiro?
– É! Eu tenho duas bandas.– Shaft piscou para o garoto com um olhar irônico.
– E você?– Ele olhou para mim.
– Sou estudante.
– Que saco.
– ... – Olhei para Shaft. — Nós podemos conversar em particular?
Então estávamos no banheiro da empresa. Shaft estava encostado na pia e eu de braços cruzados com um olhar um pouco bravo. Shaft fumava seu cigarro um pouco despreocupado. Esperei um funcionário lavar as mãos e sair do lugar.
– Sério? Guarda-costas? Olha, esse garoto não é filho do pastor, é o filho do presidente da república!!– Disse em tom elevado. - Ele tem uma porrada de seguranças! Porque o pai dele confiou esse garoto a nós dois? Um baterista de culto dominical e um estudante?
Shaft assoprou a fumaça, seu olhar era de tédio, parecia um tremendo de um maconheiro com tamanha calma no olhar e ausência de quaisquer preocupações.
– Um senhor baterista de culto dominical, por favor.
– Olha..."Tio Tedy", não vou compactuar com isso, vou voltar pra casa! Cansei dessas loucuras suas!
Eu me aproximava da porta do banheiro quando...
– Aí, Tio Luigi...!– Shaft me chamou atenção, apagou o cigarro na quina da pia. – O garoto pode ter o exército como segurança dele, mas eles não conseguiriam parar qualquer uma das coisas que você sabe que existe.
– Exatamente.– Me virei para ele e abri os braços, exaltado e com os olhos arregalados. – Eu sei que existem coisas estranhas, eu não vou ficar mais questionando isso, mas isso não significa que eu posso para-los, seu boçal!
– Não pode?– Ele fechou o olho esquerdo que estava na minha direção, olhou para mim com o direito. Sua expressão era de uma falsa dúvida, ou alguma certeza camuflada. – Você nem saberia das coisas que agora sabe antes de todo mundo, e nós nem estaríamos conversando sobre isso, se você não pudesse.
– Aaah! Vai me dizer que eu tenho algumas técnicas ninja escondidas? Ah, faça me um favor...– Dei de costas e abaixei a cabeça.
– Seguinte...total responsabilidade minha se você não puder segurar o garoto. E se tudo der certo, você finalmente vai ter todas as suas dúvidas respondidas, parece um bom trato?
– ...Não sei.– Balancei a cabeça negativamente.
– Eu te apresento uma das minhas ex-namoradas, aquela que eu te mostrei no celular quando estávamos no ônibus. Ora, vamos lá!
– Tá, tudo bem! Mas só porque...– Me virei para ele. – Porque terei todas as minhas dúvidas respondidas!
A praça pública estava lotada de pessoas, os barulhos das comemorações junto a apitos irritantes e carros buzinando, abafava a voz de Getúlio Sardes, o novo presidente da república e a muito tempo, o único que conseguiu a simpatia da maioria do povo.
O antigo presidente foi julgado e condenado, Shaft dizia que havia não só um dedo, mas toda a mão da Demiurgo em cima desse processo. Eu realmente estava me envolvendo em algo grande.
– Olha, meu pai!– Dizia Mateus, o filho do presidente em meio a multidão junto a nós. Isso só podia dar errado.
Getúlio estava em um alto palanque dando seu discurso de vitória, ele faria isso em outros estados do país, na verdade prometeu visitar todos os estados. Logo após seu grande discurso em São Paulo, ele partiria para outros estados principais do país, como se fosse uma turnê.
Os Zourmiel se escondiam entre as pessoas, haviam inclusive crianças daquela raça e isso era surreal ao extremo. Então o requisito para a Demiurgo ajudar na campanha daquele homem, era que ele auxiliasse os Zourmiel a serem aceitos pela sociedade? Porque?
"A ave de fogo representa a fênix! Ela simboliza a ressurreição de nosso país!"
O povo estava exaltado, feliz como a muito tempo eu não via. Eu olhei para os olhos de Mateus e via orgulho naqueles olhos, brilhavam ouvindo da boca do povo o nome de seu pai. Eu...me permiti sorrir também, olhei de volta para o grande palanque do presidente.
No fundo eu também estava satisfeito. Como um cidadão desse país eu sentia assim como todos o peso da miséria e do sofrimento imposto por políticos ladrões, mesquinhos e corruptos. Getúlio tinha ótimas propostas, diminuição de impostos, fez um trabalho impecável como senador, o único que sempre teve culhões para confrontar seus injustos colegas.
Criminosos seriam devidamente punidos. Eu não poderia comemorar a lei da prisão perpétua e da pena de morte, mas se isso ajudasse o país de alguma forma, eu estava satisfeito.
Eu me virei para olhar as pessoas ao redor. Uma mulher estava ao meu lado um pouco afastado dela uma outra parte da multidão, no meu lado esquerdo estava Mateus e Shaft. Olhei bem para a mulher, era bonita, devia ter vinte e um anos, morena, mas ela não parecia bem.
– Eu acho que vou querer tomar tequila, tá baratinho...– Disse Shaft.
– Eu também quero.– Disse Mateus.
– Você não! Tem nem pentelho ainda!
A mulher ergueu um pouco sua fronte, suas lágrimas. Ela chorava, mas não parecia ser de alegria.
– Tenho sim, olha!
Eu estranhei aquilo, de todas aquelas pessoas, ela estava triste?
– Putz!
Um som agudo repentino surgiu de dentro da minha própria cabeça e aquilo me era familiar. Era enlouquecedor, agonizante, insuportável. Eu me joguei no chão, e todas as outras pessoas também. O menino gritava, Shaft estava de pé mas tapando os ouvidos.
– Mas que delícia, cara!!– Shaft gritava, saia lágrimas de seus olhos.
Do meu nariz saia sangue. As pessoas caiam e gritavam tamanha era a dor. Eu me lembrei, o mesmo havia se ocorrido quando vi a tal de ave de fogo em meio a violenta e extrema guerra civil contra o governo do antigo e ditador presidente.
– Faz isso parar! Faz isso parar!– Mateus era uma criança forte, já que mesmo eu, um adulto, já estava quase perdendo os sentidos.
Então o som parou, como se alguma grande força tivesse ouvido as súplicas de Mateus. O menino correu desesperado, Shaft correu atrás dele.
– Ei! Volta aqui!!
Eu me levantei, fiquei novamente de pé. A maioria das pessoas estava desacordada no chão, o presidente e toda a equipe que estava com ele, já havia ido embora as pressas. Mesmo os Zourmiel, estavam inconscientes.
Eu caminhei ainda grogue e confuso por entre os pesos mortos. Me abaixei e passei a mão no rosto de um daqueles estranhos seres que ainda respirava. Era como se minha mão não tocasse nada, eu não podia sentir.
– Eu sei que agora é tarde, mas Deus, o que é isso...?
Algumas pessoas ainda estavam de pé, mas imóveis, paralisadas com o medo ou o choque talvez.
Elas se moveram. Na verdade não moveram um músculo, mas tremiam de uma forma inatural. Entre as pessoas, a morena que antes chorava também ali estava. Todas aquelas pessoas que estavam de pé choraram.
Então elas se tornaram intangíveis, imateriais, como fantasmas. Na posição do coração de cada um deles uma luz azulada pulsava, palpitava.
– Jesus, Maria, José...
Se movimentavam como cenas cortadas de um vídeo caseiro. Todos olharam para cima e gritaram em uníssono. Uma imensa sombra se desenhou sobre mim, sobre o solo e sobre as pessoas caídas no chão.
Eu ousei olhar para cima.
Eu tinha certeza, meus olhos não me enganavam. Era um dragão, por cima dos altos prédios e arranha-céus.
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