Demiurgo: Temporal dos Deicidas
2 Capítulo 2 - Bossa Nova
Notas iniciais

A noite chegou uma vez mais. As luzes das ruas ofuscavam, jovens caminhavam nas ruas como seres sem lei; ocultos por casacos encapuzados, suas mentes sussurravam presságios e eles interpretavam como inspiração manchando paredes de concreto. Usavam suas latas de tinta e grafitavam portais, portais que ligavam os amantes da arte a um mundo curioso, misterioso, furioso.
No meio de grandes círculos, riscos desenhando pentagramas invertidos com tinta vermelha. Por toda a parede, representantes políticos mostrando suas verdadeiras faces de escárnio e podridão, rostos que ocultam no mundo real. Um deles apenas estendia sua mão e delas saiam imagens representando pobreza e miséria. Mães que corriam com seus filhos nos braços, passando fome e pranto, seus olhos eram negros.
Enquanto anjos e demônios sobrevoavam aquele mundo retratado nas paredes, a procura de sobreviventes, heróis estavam sendo enterrados, monstros tomaram as ruas, em uma era aonde guardiões usando vestes brancas encapuzadas se escondiam entre vitrais de igreja, entoando cânticos em oração a um deus morto, para que houvesse uma salvação milagrosa.
Fora das telas, ou das paredes, a realidade era outra, mais mascarada. Os postes de luz se apagavam e vez ou outra veículos passavam riscando as ruas com seus faróis vermelhos, como olhos demoníacos.
Jovens caminhavam, tentando encontrarem uma forma de significado para suas vidas, caminhavam como um exército da guerra civil. Jaquetas, bonés, óculos escuros, tênis all-star, calças jeans, bermudas jeans, piercings nos umbigos e línguas.
Colocavam fogo em lixo dentro de latões. Era a visão do apocalipse.
De alguma forma a arte das ruas imitava a realidade, ao mesmo tempo que a realidade imitava suas reais inspirações, um ponto de vista caótico de um mundo cansado. Jovens iam e vinham, escondendo sua amargura perante seus irmãos, em falsos sorrisos de euforia.
Eu observava tudo isso do banco do carona de um Corsa branco.
– Eu vou te dizer, cara. Isso não vai melhorar, está longe de melhorar. – O motorista assim dizia, o mesmo que mais cedo tinha me tirado do fogo.
– Eu devo estar louco. – Sussurrei para mim mesmo.
– Todos estão loucos, cara, o país enlouqueceu.
– Você não entende, eu estou realmente louco.
– Está falando da ave de fogo? – Indagou ele, quando nossos olhares se encontraram.
Seus olhos eram sérios. Ele então devolveu seu olhar para a direção. Fiquei surpreso por ele ter tocado exatamente no ponto. Aquilo que vi era a mais pura fantasia, e eu não sabia ao certo se ficava aliviado ou preocupado pelo fato daquele fenômeno ter sido tão real. Talvez a própria pergunta do homem foi algo projetado pela minha própria mente para que eu acreditasse.
– Aquilo lá é inofensivo, parceiro.– Dizendo ele, girou volante para fazer a curva. – Mas vai passar novamente nas notícias, pode apostar, vai dar 'xabú', só vai piorar ainda mais a situação do país.
– Do que você está falando? – Eu me fingi de desentendido, eu queria ter certeza do que ele me perguntou antes.
O cara devia ter mais ou menos a minha idade, era negro e de sobrancelhas grossas. Com uma bandana preta com caveiras brancas desenhadas nela. O sujeito estava sorridente e calmo apesar do sufoco do qual escapamos, talvez essa calma seja justamente por termos saído do fogo. Mas eu não conseguia ficar em paz como ele, eu estava grilado.
Pouco mais de meia hora depois, eu me dei conta de que não havia lhe dado o endereço da minha casa, tamanho foi meu choque até aquele momento. Ele apenas dirigia sem perguntar que curva pegar, ele guiava por lugares desconhecidos para mim.
– Pode me deixar na rodoviária? – Indaguei.
– Só temos que ver uma parada, desce aí. – Disse ele, estacionando o carro.
Ele abriu a porta e deixou o veículo, batendo a porta logo depois. Eu fiquei sem entender, na verdade desconfiava do pior. Eu estava em um lugar completamente desconhecido para mim, isso podia ser algum tipo de assalto. Mas seria pior se eu não obedecesse.
Estávamos absolutamente em meio ao nada, um maldito deserto com cheiro de carne podre e urubus sobrevoando em círculos no céu. Deixamos a pista de asfalto destruído para estarmos aonde o 'Judas bateu as botas'.
– Ei, cara, eu realmente tenho que ir embora. – Disse enquanto seguia o maluco entrando na escuridão da noite, no meio do nada.
Eu sequer sabia porque eu o estava seguindo, eu poderia simplesmente perguntar a ele perto do carro. Eu estava entrando em uma furada, eu pensei, eu certamente teria mais problemas, se conseguisse sair vivo dali, ou pode ser que eu estivesse apenas grilado.
– Isso é alguma espécie de brincadeira, pegadinha, algo assim? Porque não estou gostando nada disso. – Eu não costumava falar tanto assim, mas eu estava realmente nervoso com aquela situação.
– Fica frio. – Disse o rapaz.
Caminhamos mais um pouco, eu estava cansado, ofegante. Passei por pedras que me faziam subir e descer, tropeçar, estava no piloto automático.
– É bem por aqui, isso se aquele gordo velho não ter se mudado sem aviso prévio. A propósito, eu sou Piotr.
De repente eu vi algo ainda mais estranho em relação a tudo o que vi naquele dia. E olha que os padrões do que vi foram bem altos até então. A sensação dos eventos que se ocorreram mais cedo, de repente era de que eram coisas bem pequenas, ou talvez partes de algo maior.
“Piotr” ou "Piótur", parecia desenhar algo no ar com seu dedo indicador. Uma forma de círculo de luz esverdeada e opaca surgiu do nada em frente dele, o círculo girou mesclado a muitas letras irreconhecíveis e iluminadas no ar, era como uma espécie de portal dos meus jogos de console favoritos. Ele atravessou o portal e sumiu em meio ao nada, e o portal sumiu como se nunca tivesse existido antes.
– Só pode estar brincando! Cadê você!?
– Continue andando, irmão. A porta está aberta!
– Como você fez isso!?
– Não temos todo o tempo do mundo...
Eu fechei os olhos, estendi minha mão e resolvi encarar o que tinha pela frente. Estava morto talvez?
Talvez tudo isso fosse uma visão dos portões do céu, mas a sensação era como o inferno. Porque diabos, eu era um maldito ateu e sou obrigado a enxergar coisas assim como se levasse um tremendo murro na cara? Eu poderia negar tudo isso e ir embora andando, mas eu precisava saber o que significava aquilo, explicar aquilo. Eu precisava canalizar minha loucura.
– Não pode ser...! – Soltei isso quando abri meus olhos, não segurei o espanto.
– Vai acabar se acostumando, colega. – Disse meu novo amigo, seja lá quem aquele rapaz era. – Tem muitos outros iguais a esse espalhados por aí.
De repente aquele deserto não parecia tão desértico mais. Ainda era um lugar no meio do nada, mas agora havia um casebre de tijolo e palha e ao lado um poço, aonde uma senhora de vestido puxava a corda com água dentro de um balde. Isso surgiu do nada na minha frente.
Eu poderia jurar que não havia nada disso aqui antes.
– Como vai, senhora Vasconcelos? – Ele cumprimentou a mulher de longe. Logo foi subindo na pequena varanda com o piso feito de tábuas de madeira e então abriu a porta de madeira aonde havia uma tela à prova de mosquitos. – Oh de casa!
Piotr abriu a porta e entrou na sala principal da casa, quando foi minha vez, nunca vi um lugar tão bagunçado e imundo na minha vida. Estofados velhos e rasgados, uma televisão com a tela quebrada, jornais e talheres pelo chão, um violão sem cordas jogado em um canto, uma mesa cheia de copos plásticos com restos de café, um bule e algumas revistas masculinas velhas.
– Aqui está, vou receber minha pontuação amanhã, certo? É pouca coisa mas faz diferença.
O cheiro também era horrível, só para constar.
– ...Você... – No meio daquela bagunça havia um ser vivo, um velho gordo mal encarado que mais parecia um mendigo barbudo e cabeludo. Ele usava uma camiseta listrada branca e verde, bermuda justa jeans, uma jaqueta marrom e chinelo de dedos. – Você deve estar de sacanagem comigo.
A voz dele era gutural e ele era medonhamente peludo nos braços e pernas.
– Você me trouxe o cara errado!! – O coroa gritou e ameaçou se levantar para acertar Piotr com uma garrafa.
Piotr logo deu um passo para trás e levantou as mãos.
– Ei calma aí, eles me descreveram ele, não tinha ninguém parecido com ele lá. Baixinho, com cara de perdedor e antissocial, feio pra caramba...
– Não sei se percebeu mas eu estou aqui! – Interrompi bravo com a situação e ainda sem entender nada.
– Como se chama, filho? – Indagou o velho, um pouco mais calmo, mas ainda com olhar de poucos amigos.
– E porque eu deveria dizer o meu nome? Nem sei porque estou aqui. Mas eu preciso ir embora logo, eu preciso ver como está a minha mãe.
– Tá vendo? É maior de idade e ainda mora com a mãe! Não podia ter um perdedor maior que ele naquela multidão. – Disse Piotr, convicto e de braços abertos.
O coroa estranho ficou um tempo me encarando com aquele olhar sinistro cheio de olheiras. Então encheu outro copo de plástico descartável de café. Tomou alguns goles e então apontou para mim com o dedo indicador da outra mão.
– Você vem comigo. E não pense em fugir ou algo assim, eu quebro suas pernas!
De volta ao carro, eu estava no banco traseiro, ainda pensando no que eu poderia fazer para escapar daquela enrascada que eu estava me metendo. Aqueles estranhos pareciam tranquilos, como se tudo fosse parte de um grande plano e que até agora nada deu errado.
Piotr novamente assumiu o volante, ao lado dele estava aquele velho gordo e rude acendendo um cigarro e apoiando o braço para fora da janela. Eu estava encolhido esperando o pior, me odiando por não ter aceitado o celular que minha mãe quis comprar para mim, preferindo uma placa de vídeo de computador.
O motorista negro ligou a pequena televisão embutida no carro, era os noticiários noturnos. Ele então pegou suas chaves e ligou o veículo, dando partida em seguida.
“O governo está pensando seriamente no toque de recolher por causa dos eventos estranhos que estão se ocorrendo e dos assassinatos de muitas pessoas pelas mãos de lunáticos, manifestantes estão em fúria por causa disso. A polícia não sabe o que faz.”
Decidi me concentrar naquele pequeno dispositivo de informação, talvez aquilo me acalmaria e me fizesse pensar. O coroa grunhiu na tentativa de dar uma gargalhada ao ver as notícias e olhou para Piotr.
"Psicoterapeutas afirmam que as aparições de uma colossal ave de fogo nos céus de São Paulo são resultados de um grande nível de stress em massa, nada daquilo é real. Iremos agora entrevistar o célebre doutor Diógenes Pereira, como vai Diógenes?"
"Eu? Muito bem...mas nossos cidadãos não."
Por quanto tempo eu dormi? Mesmo com as vozes me pedindo para eu acordar.
Pouco menos de uma hora chegamos no lugar aonde Piotr quis me levar. Ele estacionou bem na fachada como um barbeiro. Então saímos.
– É, chegamos, não se perdeu agora, meu rapaz. – Disse o coroa, guardando seu jornal, percebi que ele estava lendo as tirinhas engraçadas.
– Depois de vir aqui algumas vezes, acabei gravando como acha esse troço. Não é fácil achar esse lugar, principalmente quando muda de localização direto. – Respondeu Piotr.
– Que lugar é esse? – Arrisquei uma pergunta ao bater a porta do carro ao sair.
Parecia um prédio bem comum em uma rua comercial comum, com a única diferença de que não havia comércio algum aberto e nenhuma pessoa passando. As luzes dos postes se apagavam.
– Como ninguém ainda colocou um nome nisso aqui, eu chamo de QG. – Respondeu Piotr.
Entramos no prédio passando pela porta automática, não tinha recepção. Subimos a escada rolante e entramos no elevador. Sonho de vida caipira.
Ficamos algum tempo subindo no elevador, enquanto eu estava encostado de braços cruzados, Vince também com as mãos nos bolsos. O velho gordo do qual eu não sabia o nome, estava próximo da porta, assoviando irritantemente. Os números dos andares subiam no visor do elevador, até que bateu com um som agradável. As portas se abriram.
– Nem mesmo o zelador? Olha, desse jeito qualquer maluco entra aqui e faz a festa. – Resolvi comentar alguma coisa para cortar o silêncio, e quem sabe fazer aquele velho parar de assoviar e me dar alguma pista.
Eles se entreolharam.
Então o simpático rapaz apoiou seu braço em meu pescoço, como se fôssemos íntimos ou algo assim. Escutei o som de música bem baixo vindo do fim do corredor. As luzes falhavam.
– Esse prédio sequer existe, bro.
No fim do corredor, o velho retirou um molho de chaves do bolso de sua calça jeans, estalando uma das chaves sobre a corrente pendurada em sua calça. Enfiou a chave no buraco da fechadura e abriu a porta com um estalo alto que ecoou pelo vazio lugar. De dentro já podia se ouvir uma música, era Bossa Nova.
– E então queridos, se alimentaram bem? – Ele já entrou comentando para um bando de estranhos. Estranhos para mim.
– Gab! Não acredito, quem é vivo sempre aparece! – Uma garota magra, de cabelos negros amarrados em duas longas tranças encaracoladas, óculos de leitura e sardas pelo rosto. Trajava uma blusa branca com um coração vermelho costurado, uma saia florida e botas de couro.
– Diga que tem algo para nós, estou ficando com muito tédio aqui. – Um homem de pele morena, calvo, lábios e nariz grandes. Um verdadeiro ogro, grande para cima e para os lados. Camisa branca abotoada e gravata preta.
– Tsc. – Um garoto mais baixo do que eu, cabelo loiro a “lá John Lennon”, olhos verdes, jogando um Nintendo 3DS. – Maldito, quase capturei!
Haviam outro sujeito na sala. Uma moça loira com cabelos amarrados em coque, também usando óculos de leitura e trajada com uma roupa branca social, vestida a negócios e com um olhar impetuoso.
Estavam todos, com exceção da loira, sentados em poltronas brancas de frente umas para as outras. Com uma mesinha de centro aonde estavam algumas revistas de fofoca velhas, uma garrafa de Coca-cola pela metade e um jarro de flores de cores vivas. O ventilador de teto estava ligado para cima e as cortinas balançavam.
– Deixa eu apresentar o garoto novo. – Dizia 'Gab' apontando a mão para mim.
– Piotr! Deus do céu, onde você esteve? – A morena de óculos de leitura, de aparência nerd, pulou em Piotr como uma criança. Ignorando completamente a minha presença.
– Ouvi dizer que estava ocupado com aqueles dois velhinhos. – Disse a mulher vestida mais socialmente, um pouco mais sorridente. Aquela mulher me atraia de alguma forma, era um colírio para os olhos.
– Err... – Simulei uma tosse por um momento, e acabei chamando a atenção de todos.
Me senti congelado e sem saber o que dizer, a pressão de muitas pessoas me olhando ao mesmo tempo. Eram duas garotas bem bonitas, junto a rapazes um pouco acima da média. O que eu era?
– Eu...me... me chamo...
– ‘O novato’. – A morena de aparência 'geek' acabou me salvando ao descer dos braços de Piotr. Ela me olhou um pouco mais séria em relação ao sorriso que tinha dado ao meu novo amigo, se é que eu poderia chamar Piotr de amigo. – Sou Sandy.
Então ela abriu um belo sorriso para mim, eu comecei a me sentir ainda mais nervoso. Os presentes começaram a se apresentar, cada um com um gesto expressivo diferente.
– Oi meu chapa, eu sou Tyson. – Que tipo de apelido estúpido era aquele? Eu consegui conter o riso, mas o apelido caia bem naquele careca ogro, negro, de dois metros. Ele se apresentou com um sorriso e erguendo a mão, era o que estava sentado mais confortavelmente, como se tivesse conquistado o mundo.
– Prazer, sou D'arc. – Sei que o “Prazer” foi uma forma de ser educada, afinal suas palavras não condiziam com seus sentimentos em relação a mim, pelo menos não limitando a expressão corporal daquela loira, com seus braços cruzados e olhar como se fosse bem superior a minha pessoa.
– Ash. – Disse o rapaz jogando seu game portátil, sem ao menos olhar para a minha cara.
Então houve outro silêncio no lugar, todos olhando para mim e eu procurando algo para ter que olhar. Até Gab e Piotr estavam olhando para mim, como se não me conhecessem, apenas fazendo parte do time dos que aguardavam eu dizer alguma coisa e quebrar o gelo.
– Não vai perguntar? – Sorriu Piotr.
– Per...perguntar o que? – Respondi, meio nervoso. – O que está havendo aqui? Creio que...uma hora irão dizer! ...não?
– Não, parceiro... – Piotr abriu a palma da mão em seu rosto, enquanto ria.
– É o primeiro que não pergunta porque todos usam apelidos. – Disse a loira, agora mais confortável com minha presença, ela também sorriu.
– Se apresente, cara. Diga, como você gostaria de ser chamado? Mas pense bem, porque só poderá fazer isso uma vez. – Disse Piotr um pouco mais sério, mas piscando para mim.
– Qualquer nome? – Indaguei e me imaginei com uma tremenda cara de bobo.
– Qualquer um, mas só poderá se auto-nomear uma vez na vida. – Colocou as mãos nos bolsos da calça jeans. – É a sua chance de colocar nome em si mesmo uma vez que nunca teve oportunidade para isso. E esse nome só ficará entre nós. Veja aquele ali...
Olhou para o garoto de aparentemente catorze anos jogando vídeo game.
– 'Ash' era o nome do seu herói virtual. Meu caso, bem, isso não importa. – Devolveu o olhar para mim. – E o seu?
– Fenriel. – Respondi. E não sei porque. Era como se eu aguardasse aquele momento de qualquer forma, dado que a resposta batia na ponta da minha língua de um jeito tão forte, que eu não pude segurar de forma consciente.
– Porque, Fenriel? – Indagou.
– Acho legal.
Mais um silêncio desesperador.
Gab que até então estava em algum cômodo do apartamento, provavelmente usando o banheiro, retornou a sala de estar com uma maleta na mão. A loira que gosta de se chamar ‘Darc’ ajeitou os óculos em seu rosto, eu não conseguia tirar os olhos dela, era linda demais, aquela pressão no olhar, aqueles dentes, aqueles lábios rosados e aqueles...
– E então, Fenriel. Qual é o calibre que você mais curte? – Perguntou Piotr enquanto eu suava frio.
Gab jogou a maleta na mesa de centro, empurrando as revistas para o chão. Ele abriu com um estalo oco, e eu comecei e me sentir um pouco tonto. Eram armas, armas reais, daquelas que abririam um buraco em uma parede de concreto. Eu nunca tinha visto de perto armas de fogo antes.
– O que é isso!? – Surtei. – Vocês vão assaltar algum banco!? Vocês...vocês são terroristas não são? Estão se aproveitando de toda essa loucura para...
– Aí, guri. – Gab me interrompeu, pegou o controle em cima de uma das almofadas e ligou o aparelho dvd em baixo da televisão de trinta e oito polegadas. – Vê se fica frio.
Observei a tela do televisor. Um homem surgiu na tela, estava usando máscara daquelas de hockey, um casaco preto com capuz. E parecia sentado em uma espécie de trono improvisado. Aquilo não me deixou nada frio, muito pelo contrário.
– Isso é Jogos Mortais? Cara, eu sou um estudante, posso ir pra casa? É dinheiro que vocês querem?
– Cala a boca. – Todos falaram em uníssono, com exceção de 'Sandy'.
“Saudações Equipe Estandarte. Vocês me conhecem, eu sou o Comunicador. Venho lhes trazer, primeiramente, boas notícias. O portão leste de Noah está enfraquecido, mas a Equipe Vitória está em cargo de cuidar do lugar, isso significa que pelo menos esse problema será solucionado em breve.”
O sujeito no televisor falava de uma forma calma e objetiva, era um homem provavelmente quatro anos mais velho que eu. Aqueles nomes estranhos e impronunciáveis me deixavam ainda mais preocupado. Seria alguma facção extremista? Terroristas? Assaltantes de banco?
“Fiquei sabendo que recrutariam outro membro para sua equipe, não vejo problemas, para que possa suportar a carga, provavelmente deve ter feito o programa de treinamento algum dia. Até o fim do dia quero que me enviem sua ficha de personagem e o seu codinome.”
Todos estavam se equipando, colocando cartuchos de balas em armas, escondendo atrás das calças, dentro de bolsas. Ninguém estava dando a mínima pelo fato de haver um refém desesperado na causa absurda deles, seja lá qual fosse.
“Levem o garoto para um dos trabalhos que precisarão fazer hoje e amanhã. Vocês precisam de foco e determinação, Sandy e Piotr, vão com o novato e falem com Shaft, ele dará mais informações, missão fácil, de Rank E, mas muito importante! Enquanto isso, Tyson, Ash e D'arc, vocês pegarão o ônibus para o Rio de Janeiro, Rank D.”
Eu estava ficando desesperado e você não pode me culpar por isso, eu olhava nos olhos compenetrados de todos buscando alguma esperança de saber o que estava havendo ali antes que fosse tarde demais. Sandy olhou para mim e sorriu.
“Ash, desligue a droga do vídeo game." – O cara parecia falar sério. Não era uma espécie de trote ou pegadinha das nove. Eu pude ver a frieza, a pupila vermelha de seu olho por baixo da máscara, como do diabo. - "Rapazes, está na hora desse mundo descobrir o que é o terror, de saberem o gosto do Demiurgo. Hoje nós nos tornaremos lendas.”
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