Demiurgo: Temporal dos Deicidas

1 Capítulo 1 - Estouro de Boiadas


Notas iniciais
- "Os amantes e os loucos são de cérebro tão quente, neles a fantasia é tão criadora, que enxergam o que o frio entendimento jamais pode entender. O namorado, o lunático e o poeta são compostos só de imaginação."- William Shakespeare

Essa visão é uma verdadeira comédia negra. Nesse momento eu me sinto vinculado a uma dessas telas monocromáticas, conectado a ela. É impressionante o fato de termos a capacidade de sermos deuses de nossos próprios universos, mestres de nossa própria realidade desenhada por nossas necessidades mais profundas, e mesmo assim, não podermos ter o controle de nossas criações.

Nossa fé em nós mesmos e no mundo, ofuscada por telas manchadas e imprecisas, nos fazem pensam, o que estamos fazendo aqui? No centro disso tudo somos erguidos sob um pedestal, até o momento em que tudo se torna negro e desejamos correr para a realidade do qual escapamos.

Em resumo, nossa necessidade é viver sob as cores fortes como as de um caleidoscópio, ao mesmo tempo que nos preparamos para desfrutar do cinza e do negro.

O estalo de um trovejar no céu rubro visto pela perspectiva da terra, enquanto caminho entre árvores e fantasmas reais, ilusórios, caminhantes sem destino, que surgem e ressurgem em pequenos intervalos de tempo. Eu tinha o conhecimento de que estava sonhando, e não era um sonho bom nem ruim, apenas estranho.

Eu poderia viver em um mundo assim, pois é um reflexo da minha alma, ou eu deveria dizer, um reflexo da minha mente, das minhas necessidades de ter alguma emoção forte.

A abóbada celeste estava vermelha e as nuvens pareciam sangrar, enquanto a chuva caia, não me molhava. Mas a fantástica visão do céu era imprecisa, devido as revoadas de anjos negros que flutuavam no céu, ou demônios, com olhos vermelhos por todos seus corpos nus, asas enfaixadas devido suas feridas, e ainda assim conseguiam voar bem no alto.

Eu era o rapaz de estatura mediana, cabelos e olhos castanhos, pele caucasiana. Eu usava uma calça jeans com uma corrente pendurada, uma camisa xadrez e um colete de couro. O reflexo do céu tornava meus olhos vermelhos. Eu via o céu sem cessar, enquanto caminhava pelos viajantes incorpóreos.

No meio da mata fechada, eu adentrava mais e mais em seus segredos, até que encontrei uma casa de madeira com uma chaminé. Ao lado da casa havia um toco de árvore e um machado cravado nela. Provavelmente era uma casa de lenhadores.

Me aproximei, caminhando pelo chão de barro vermelho molhado, que sujava meus coturnos e parte de minha calça. Bati na porta duas vezes e entrei.

O lugar era iluminado por velas derretendo de forma grotesca. O reflexo das chamas desenhavam grandes sombras pelas paredes, pois haviam três pessoas ali, eu os reconhecia de certa forma, mas eu não poderia lembrar de onde.

– Trouxe comida? – Um rapaz negro e alto me perguntou isso logo quando entrei. Seu semblante era pesado, pálido. Ele usava as mesmas roupas que eu, com exceção de que estava sem camisa por baixo do colete.

– Não encontrei nada que possa ser usado, sinto muito. – Respondi instintivamente, sem o menor controle de mim mesmo.

– Todos sentimos.

Uma moça de cabelos loiros e óculos de leitura, vestes de caça, com pele de urso em seus ombros. Em outra ocasião, seria uma linda mulher, mas a fome modifica nossa essência, nossa alegria e nosso brilho. Ela se abaixou para colocar mais lenha na fogueira.

– Sei que ela pode estar viva em algum lugar, não vamos ganhar nada estando aqui.

– Não vamos achar nenhuma divindade perdidam estamos mortos de fome, você sabe. – Outro homem, ele respondia a loira. Estava encostado em uma das paredes, envolto nas sombras. Sua posição atrás do armário não me permitia vê-lo.

– Talvez eu possa pegar meu caderno e parar de desenhar durante toda a aula. – Assim eu disse, e não sei porque disse.

Os dois que eu podia ver se viraram para mim, me olhavam com ódio em seus semblantes, seus rostos caiam, derretendo como as velas daquele casebre. Foi o momento que eu percebi estar me preparando para outra transição.

De repente eu me vejo novamente em meio a mata fechada, na verdade, sob os olhos de uma outra pessoa, e era uma menina. Quando tive controle de meus próprios olhos, pude ver sua figura sentada no monte molhado. Ela parecia assustada e perdida, seus olhos eram azuis como o aquamarine e seus cabelos loiros como o ouro.

– Fenriel. – Ela disse. Talvez o nome de alguém, ou algo. Talvez uma língua morta.

Quando de repente olho para trás de mim, um imenso lobo branco, maior que dois homens para cima e para os lados.

–Fenriel.

As lágrimas sangrentas do céu ainda regavam a terra, mas não nos manchava, apenas nos molhava. A grande sombra do lobo se projetou acima de mim e da menina. Clarões surgiam no céu e alguns segundos depois eu podia ouvir os retumbantes estrondos dos trovões, como rugidos de leões.

As gotas da chuva molhavam os belos e arrepiados pelos caninos do grande lobo branco. Me sentei de costas para a menina, atordoado, quando ela abriu seus braços para me abraçar por trás e me proporcionar segurança.

– Fenriel.

O focinho do lobo estava agora a poucos centímetros de meu rosto assustado, enquanto a chuva escorria do meu rosto e pingava do meu queixo. Encostados estávamos em um relevo de terra enquanto víamos a existência daquele imenso e robusto lobo na minha frente.

Eu via seus olhos azuis vivos me encarando, e podia ver meu próprio reflexo neles. Ele não retirava aqueles dois olhos inexpressivos e famintos dos meus, não os movia uma vez sequer. A menina então soluçou atrás de mim.

– Ícaro, dormindo novamente? Depois não reclame quando perder a bolsa de estudos.

Eu senti minha perna balançar sozinha, como um choque epilético.

Meu nome é Ícaro Chagas Cruz, e não tenho absolutamente nada de bom para lhe dizer sobre mim, e não ligo.

Quando eu abro meus olhos e me vejo de volta a uma sala de aula cheia de pessoas sentadas, algumas delas me observando com desdém, enquanto que a maioria sequer notava minha presença, eu percebo, eu percebo ser apenas eu mesmo de novo. O pesadelo recomeçou agora.

Eu penso em frente ao espelho do banheiro da universidade, enquanto molho meu rosto. Quando você frequenta seções com a psicóloga durante sua infância porque é incapaz de se socializar com seus colegas de classe, é sinal que sua criação ou foi muito conturbada ou muito protegida. O meu caso foi os dois.

– Putz, olha pra onde anda, babaca! Tem pessoas nesse corredor!

Agora eu tenho dezenove anos e ainda sofro do mesmo problema. Sou virgem e não tenho um único amigo. Se algum escritor fosse tolo o suficiente para fazer uma biografia da minha vida, o livro seria um fiasco por falta de conteúdo.

– Não precisa, eu pego os livros.

– Não precisa, eu pego, querida. Esse retardado...

Não sou um completo perdedor, costumo dizer isso para mim mesmo. Pelo menos tenho base cultural e conhecimento sobre o mundo, mesmo que através de livros e da internet. Posso dizer que nunca cometi infração alguma e talvez seja exatamente por isso que minha vida seja um completo tédio, eu sou certo demais, e ao mesmo tempo errado.

– Lhes passarei dois livros para estudarem durante essa semana, prova na próxima aula.

Sou acostumado com isso e acho o máximo. Zona de conforto tem esse nome por um motivo, é bom demais para desistir dela. E também sou um sujeito ocupado demais para me socializar com colegas, ocupado demais para namorar. Minha faculdade não me dá tempo nem para jogar meus jogos de FPS.

– Cheguei, mãe! – Esse sou eu chegando em casa, morando de aluguel com a minha mãe em uma apartamento de cinco pequenos cômodos: sala, cozinha, banheiro e dois quartos.

Esse dia sempre foi o mais comum em minha vida. Sempre acordando as quatro da tarde por passar a madrugada em aceso, secando bules e mais bules de café enquanto estudo para provas sem sentido da faculdade. Pouco tempo para esquentar uma refeição decente feita pela minha mãe no forno micro-ondas e pegar um ônibus lotado no ponto de pé, pois nunca consigo encontrar lugares para me sentar.

No ônibus, durante a volta para casa, é o único momento meu ao lado de uma garota, mas também colado a um monte de homens suados e fedorentos. Um ônibus velho que parece se desmontar cada vez mais, tamanho é o barulho. Eu driblo esse problema escutando pop music em meus fones de ouvido.

– Ciência da computação para perdedores. – Esse sou eu no meu quarto, lendo a capa de um dos livros sobre a pilha que eu preciso estudar para ganhar uma nota apenas um pouco acima da média na faculdade.

Minha mãe dá duro para nos sustentar, pois meu pai a muito tempo nos trocou pela bebida e então sumiu sem deixar vestígios. Ela, trabalha em uma loja de conveniência perto de casa e liga para mim a cada dez minutos quando estou fora de casa, talvez na esperança de que seu filho esteja fazendo um grande futuro ao lado de amigos. Ela não imagina que seu filho não tem amigos. Ela não imagina que seu filho será reprovado este ano.

– Nota abaixo da média...Droga.

Agora que você já me conhece bem, pode fechar esse texto e ler algo mais interessante. Sou apenas um rapaz de classe média que não tem nada para intriga-lo. Minha história não fala sobre um romance avassalador, não fala sobre uma investigação perigosa e muito menos é um livro de autoajuda.

– Você vai ficar aí dormindo até quando?

Essa voz me soou familiar, mas não tão familiar o quanto a do professor gordo e antipático da faculdade. Um sussurro gelado de uma garota nos meus ouvidos. Sim, eu dormi novamente em meio a aula, mas havia algo de estranho. Estranho demais. A voz eu explicaria facilmente, foi um dos meus sonhos eróticos reprimidos malucos, talvez? Mas...e...isso?

Eu ouvia o canto dos pássaros, animais que não cantam a noite, e eu não estaria sentado na desconfortável carteira da sala de aula pela manhã dado que meus estudos são feitos durante a noite. O que diabos eu fazia pela manhã naquela sala de aula vazia, sem alunos, sem professores, sem ninguém?

Me levantei ainda meio grogue, e caminhei até os corredores. Nem mesmo o zelador ali estava para me informar do que estava havendo, é como se eu tivesse tomado um boa noite cinderela em meio a sala de aula e sido deixado ali, como se não existisse para ninguém. O que faz sentido.

Ainda me sentia como se estivesse dormindo e sonhando, apenas aguardando a hora de aparecer alguma fera brutal para que eu pudesse correr sem sair do lugar.

Na área de recreação da universidade eu avistava o florido jardim, e eu não sabia que era tão bonito durante o dia. Ergui a cabeça para ver o grande relógio e os ponteiros marcavam duas da tarde. Eu estava fedendo naquela jaqueta de pano marrom, como se não tivesse tomado banho a dias, e estava com uma fome de dez mendigos.

– Tem alguém aí!? – Gritei.

Dei a volta pelo quarteirão até a quadra de educação física, local cercado de grades, e tudo ficou ainda mais estranho. A quadra ainda estava em chamas. O fogo estava vivo e consumia do piso até a arquibancada.

– Não deveria estar caminhando por aí sem rumo. – Disse um homem um pouco atrás de mim, enquanto eu via aquilo queimar. – Como bem deve saber, não tem nada pra você aqui hoje.

Me virei para ver o homem, era o zelador com balde e esfregão, olhando para mim com olhos amargurados. Pele negra, barba rala grisalha, magro, uniforme branco e boné. Ele aguardava uma resposta minha, mas eu sequer sabia por onde começar a perguntar.

– O que está acontecendo aqui? – Arrisquei a pergunta mais clássica e óbvia.

– Foi você que colocou fogo na quadra? É um daqueles garotos que não respeitam patrimônio? – Indagou como se estivesse armando sua guarda.

– Não fui eu quem fez isso, eu... – Voltei o olhar para as chamas. – Acabei de acordar.

– Então vá embora, aqui não é lugar para isso, você precisa encontrar seus familiares mais próximos. Vai ficar mais seguro.

– O que aconteceu? – Olhei para ele.

O homem se apoiou no cabo da vassoura e por um momento observei o reflexo das chamas em seus olhos, então desci meu olhar para o chão, desviando de seu olhar.

– Depende. Não sei porque isso pegou fogo, eu que não vou me arriscar de apagar isso sozinho, não sou pago para isso. Apesar de que... – Ele pegou a vassoura e os esfregões e se preparou para me deixar ali, sozinho. – Ainda estou nesse lugar apenas porque não tenho família e nem lugar para passar enquanto toda essa poeira abaixa.

Então novamente devolvi o olhar a quadra, até mesmo a cesta de basquete queimava e murchava. Resolvi deixar aquele lugar, ainda imerso em dúvidas.

Na rua deserta eu já estava pilotando uma bicicleta vermelha deixada para trás no bicicletário da faculdade. Eu não via nenhuma alma sob as calçadas, nenhum carro sob as ruas e nenhuma dona de casa estendendo roupa sobre varais nas varandas dos andares dos prédios. Eu tomei conta do centro da rua de asfalto, passei lentamente por baixo dos sinais de trânsito.

Enquanto pedalava e me equilibrava, eu tentava buscar por alguém, até que pensei ter visto um garoto por trás de uma porta semiaberta de uma das casas. Mas ele já havia passado pela minha visão.

Pareciam tempos difíceis, era como se eu tivesse dormido por dias e dias. A gravidade da minha vida sedentária estava dando frutos quando me cansei por apenas pouco mais de 1 quilômetro de pedalada. E o ar também parecia pesado.

Era como se alguma usina nuclear próxima tivesse estourado, afinal, seria a única explicação além de que poderia ser apenas domingo.

– O que...?

Repentinamente eu senti uma vibração estranha e forte, isso fez eu perder o equilíbrio e o controle, me obrigou a parar e me apoiar na minha perna direita, para que eu não sofresse um tremendo tombo dado a velocidade que eu havia alcançado.

Meus ouvidos pareciam explodir. Um som estridente e agudo veio de lugar algum, como se viesse de dentro da minha cabeça. Senti as vidraças das lojas estalarem e quebrarem com violência. Eu estava naquele momento próximo a calçada e acabei sendo acertado por alguns cacos de vidro.

– Pára com isso!! – Gritei, como se tivesse alguém ali.

Me deitei de bruços no meio da rua de asfalto e bloqueei meus ouvidos com as mãos, para suportar tudo aquilo, enquanto as vidraças quebravam e voavam. Eu gritei de dor, eu ia ensurdecer com aquilo.

Apesar de não sentir calor algum, eu olhei para frente e minha perspectiva para com a rua estava embaçada. O chão e as calçadas pareciam estremecer de uma forma quase que gelatinosa, como se o calor fosse escaldante.

Então me deitei de costas e espalhei meus braços na rua, uma lágrima escorreu de meu olho direito, enquanto uma linha de sangue escorria de meu ouvido mais fragilizado. Olhei o céu azul cheio de nuvens.

O ressonar muito alto como o de uma águia, acompanhado da imagem de um imenso pássaro de fogo de asas abertas. Pássaro que passou rapidamente rasgando e queimando o céu, deixando sua cauda queimar por segundos. Em toda minha vida, nunca tinha visto algo tão majestoso.

Era como a vinda do Messias, embora eu não acredite em religiões. Os cacos das vidraças ainda voavam e caiam como uma chuva em cima de mim e ao meu redor, um deles cortou levemente o meu rosto.

Quando me dei por mim, a rua que até então estava completamente vazia, se encheu de pessoas. Todas saiam de suas casas, correndo aos desesperos, saiam por dentro das lojas, quebrando cacos de vidro no chão.

A rua se tornou repleta de desesperados, de loucos correndo para qualquer ponto que acreditavam ser seguro daquele pandemônio. Alguns se aproveitavam da situação e assaltavam, trombavam em senhoras e levavam suas bolsas. Ouvi choros de crianças e de mulheres em pranto.

Me sentei sem reação, enquanto pessoas iam e vinham, passando por mim, eu cortavao caminho para um verdadeiro estouro de boiadas. Os sinalizadores de trânsito estavam em chamas. Policiais paravam seus carros e se posicionavam atrás deles, empunhavam suas armas. Helicópteros surgiram no céu.

– A ordem do governador é evacuar a área! Se não obedecerem, abriremos fogo! – Um policial gritava em seu megafone.

Me dei conta que era naquela hora que eu realmente estava acordado de um sonho. Enquanto me levantava do chão, rapazes usando máscaras improvisadas com suas camisas quebravam lojas, batiam em pessoas, brigavam e lançavam coquetéis molotov. Tacos de baseball eram armas contra o povo, por um motivo eu estava intocado, era uma imagem nula.

Me virei em direção da fileira de carros da polícia, enquanto todos, inclusive baderneiros corriam na direção contrária. Um imenso tanque de guerra do exército se aproximava e isso deu um baita susto até mesmo nos oficiais da pm e na tropa de choque.

– O que é isso!? – Gritaram desesperadamente.

De repente uma mão me puxou pelo braço, e com um impulso que me devolveu a realidade corri ao lado daquela pessoa. Sentia os cacos se partirem enquanto corria por cima deles, e saltei para dentro de uma boutique junto ao rapaz que me puxou.

O solo de asfalto voou pelos ares com a estrondosa bala de canhão, e agora a fumaça impedia que eu visse qualquer coisa da rua. Apenas ouvíamos os gritos agonizantes de algumas pessoas enquanto o pó do teto da boutique caia sobre os vestidos de noiva. Era difícil dizer o que estava havendo ali.

Notas finais
Próximo: Ícaro conhece mais sobre o corajoso homem que o tirou do fogo e sobre que tipo de problemas sua realidade enfrenta.