Dementia
1 22 de Maio de 2015 — manhã.
Notas iniciais
O despertador cumpriu sua função – eram seis e dez da manhã e seu bipe estrondoso cuidou de me acordar. Em dias normais, isto seria o sinal de que eu precisava me levantar e me arrumar de forma adequada para ir para a escola. Seria o sinal que me fazia sair do meu pequeno mundo, seguindo em direção à grande e devastadora sociedade moderna.
Porém, aquele não era um dia normal. Não precisei levantar-me às pressas para pentear os cabelos ou escovar os dentes. Não precisei rolar para fora da cama, em tentativa desesperada de desligar o som irritante que tinha, como dever, de manter de olhos abertos. Em verdade, naquele dia, eu me demorei.
Peguei meu celular com certo cuidado, sendo o mais cautelosa possível – afinal, sentia-me sem forças para ao menos levantar os olhos para abrir meus e-mails ou minha lista de mensagens, que atrasaram a chegar, da noite anterior. Fui lenta, fui com a velocidade de uma pequena tartaruga, fui como se nada me impedisse, como se não houvesse pressa no mundo.
Havia uma mensagem pequenina que me inquietava e me matava de amor e frio – e medo, claro. Culpei-me por minutos pelo fato de ter sentido o coração acelerado só de sonhar com o sabor de um beijo que eu não poderia ter. Culpei-me por minutos por me sentir, mesmo com todo o carinho do mundo em mãos, insatisfeita.
Afinal, queria eu carinho? Queria eu alguém que me afagasse? Queria eu alguém que se deitasse comigo e me arrancasse toda a dor na base de palavras sujas e sexo selvagem? Queria eu alguém que compusesse canções para mim? Queria eu alguém que me ensinasse a grande matemática da vida? Queria eu alguém que contasse todas as estrelas – ou astros, já que nem todo astro visível e brilhante é estrela, dá-lhe Vênus! – possíveis diante um pedido meu?
Eu não sabia responder. Fechei os olhos. Não sabia de nada. Abri-os, em sofrimento, sentindo um gosto deveras estranho em minha boca. Focalizei a luz acima de mim. Nem ao menos lembrava tê-la acendido, mas sabia que acender a lâmpada no meio do escuro acabava por ser um ato instintivo para mim. E a luz parecia um sol – um sol, pequenino e artificial.
Pensei se era essa a razão de Thomas Edison para tentar inventá-la. Talvez ele só quisesse seguir o rumo da evolução, mas eu sempre tentava filosofar sobre coisas sem sentido, como uma pequena mosca que movimentava suas patas para limpá-las de algo inexistente – inexistente aos nossos olhos, digo.
Levantei-me, guiada pelo Sol. Foi uma sequência de movimentos preguiçosos que pareceram me levar a pensar em muito, ao mesmo tempo. Dever de geografia, devolução da prova de trigonometria, entrega do trabalho de espanhol, teste de sociologia que eu havia perdido no dia anterior. Escola, deveres, trabalhos, alunos, pessoas, namoros, beijos, abraços, amigos, choros, tristezas, mortes.
Balancei a cabeça, tentando expulsar as palavras que criavam outras. Sentia minhas têmporas latejarem, como se pedissem por um descanso. Pus os pés no chão gélido e olhei ao redor. Guarda-roupa, escrivaninha, roupas espalhadas – ninguém ligava se elas estavam ali ou não –, velas, incensos, criado-mudo – por que ele precisava ser o criado se todos os outros tinham a mesma função que ele, afinal? Outra pergunta que eu não sabia responder.
Caminhei até o banheiro, ignorando a minha estante bagunçada – tão bagunçada quanto meus pensamentos, disse a mim mesma quando me deparei com o espelho. Tentei esboçar um sorriso, brincando de estar bem, mas os olhos marejados não deixaram que minha atuação viesse à realidade.
Era um momento difícil, aquele de me ver – observar minha imagem era algo complicado. Não que eu fosse feia, nada disso, mas eu não era bonita. Ou ao menos não me sentia bonita.
“Você é bonita, Lívia.”, disse uma das meninas da minha sala num dia fatídico, uma semana e dois dias atrás. E o coral veio com aquela afirmação, fazendo com que nove garotas concordassem com a mesma. “Não. Não mesmo.”, eu apenas respondera e saíra antes de entrar em pânico – um sentimento que tive real conhecimento apenas há dois dias.
Digo, eu não me sentia bonita. Não me sentia sedutora, bonita, preparada, feminina. Eu era só mais uma na multidão, que não se revelaria por nada, porque ninguém se interessa por pensamentos estrambóticos sobre o Multiverso e a divisão de dimensões dentro de um mesmo mundo – menos ainda por poesias que não sejam famosas.
Escovei os dentes. Senti-me um pouco melhor, um pouco mais limpa, mas minha língua parecia grande dentro da boca. Escovei-a diversas vezes. Ela parecia queimar-se, crescer, esticar-se, engrossar-se; com certeza, grande demais para caber dentro de minha boca. Pensei em arrancá-la. Puxei-a, largando a escova de lado e, sem muito sucesso, tentei mais uma vez. Não. Não ia dar daquele jeito.
Eu tinha uma língua enorme. Se eu morresse, teriam de comprar um caixão a mais só para ela. Não por eu falar demais, porque naqueles dias eu falava de menos, mas sim porque ela simplesmente quis sofrer uma mutação esquisita em que não serviria mais dentro de seu próprio lar.
E aí criou-se outra incógnita interessante – que acabou por criar outras, como sempre: se eu morresse, eu seria cremada ou enterrada? Eu poderia ter uma daquelas cápsulas orgânicas que funcionam como sementes de árvores incríveis? Alguém sentiria minha falta? Eu morreria por assassinato ou simplesmente despencaria em meu próprio problema? Eu morreria por suicídio ou por saudades? Alguém morre de saudades?
Não sabia responder. Na verdade, não sabia de nada. Sabia que nada sabia e isso não me era o suficiente. Eu poderia procurar por tudo, mas nunca teria aquilo que eu queria. Sempre existiria alguém melhor que eu – mais inteligente, mais sábio, mais bonito, mais sedutor, mais simpático, mais. E eu? Eu me sentiria eternamente ameaçada por isso?
Caminhei de volta para minha cama e joguei-me em meio aos lençóis, abraçando uma pelúcia gigante demais para não ser tratada como uma pessoa. Amassei-a contra meu corpo seminu – afinal, eu ia ficar ali o resto do dia, que mal faria? – e tentei imaginar pessoas ali. Pessoas existentes, de preferência. Não deu muito certo. Idealizações foram criadas e, ao me confortar com aquilo, culpei-me novamente por estar tão insatisfeita com tudo que eu tinha.
— Saudades do Pedro. — sussurrei, tentando aceitar minha situação atual, esquecendo-me da imagem diferente que tinha em meus braços espirituais. Com a forma certa, acalmei-me, entregando-me, mesmo longe, à rotina de seu abraço – um abraço que nem real era. Eu não gostava da rotina, mas não me importaria se ele me desse um abraço daqueles todas as vezes.
Pedro. Johnny. Rodrigo. Maria Eduarda. Joseanne. Joseanny. Anny. Amanda. Lilith. Aimée. Belinda. Adamantium. Katerina. Maureen. Meliodas. Georgine. Tanta gente, muitas delas nem existentes ou presentes ou necessárias. Muitos nomes, muitos sentidos, muitos sentimentos, muitas sensações.
Joguei a pelúcia longe, brava comigo mesma. Levantei-me novamente. Lágrimas fugiam de meus olhos. De onde elas haviam surgido? Quem havia deixado que elas aparecessem ali? O que eu fazia aos soluços? Que coisa mais inútil! Bati em minhas coxas, decidindo-me por pronta para enfrentar o mundo.
Vesti-me rapidamente, saindo de meu quarto. Fazia horas que eu havia acordado e me arremessado em pensamentos destrutivos – quase era do almoço quando gritei por minha mãe, logo na entrada da cozinha, que não era bem uma porta; apenas um divisor de águas.
— Quando digo “digo”, mãe, não digo “Diogo”, digo “digo”. Quando digo “Diogo”, não digo “Pedro”, digo “João”. — ela soltou uma risada gentil, como se compartilhasse do meu humor. Mas não compartilhava. Em verdade, aquilo era uma tentativa de me fazer pensar em algo calmo, sereno, confiante – eu sabia que não era tão confiante assim, mas não importava; ele se achava bom em tudo que fazia, o que já era muito além do que eu conseguia fazer.
Passei por ela e fui até seu computador. Imprimi, depois de um tempo de pesquisa, uma mandala sem cor. Existiam aqueles livros de colorir, agora. Eram moda, parece, mas eu não ia comprar nenhum deles se poderia imprimir os desenhos à preço de toner – nem era tão caro assim, se fôssemos calcular, mas não me dei ao trabalho; sou de humanas – no meu próprio computador. Quer dizer, no da minha mãe.
— Que é isso? — perguntou a mulher que havia sofrido de tanto tomar remédios para ter a filha mais inútil do mundo; uma filha que agora estava lhe dando problemas por conta de angústias que não sabia explicar, angústias das quais não conseguia se livrar.
— Desenho. — respondi, passando por ela novamente, indo à procura dos lápis de colorir que tinha desde os primeiros anos do fundamental. Eu tivera a ideia de escrever as frases favoritas dos meus livros recém-lidos num caderno, mas parecia que eu desaprendera a escrever e minha letra, por mais redonda que fosse, parecia garranchada – desisti antes de começar.
Sentei-me frente à minha mãe, enquanto ela preparava, no almoço, algo que pudesse me agradar ou alegrar. Colori primeiro o centro, tentando crer que aquilo tiraria o sentimento ruim de dentro de mim. Continuei seguindo as linhas, até desistir. Estava cansada, farta, e meu esforço não valia de nada. Estava horrível, mesmo que estivesse bom, porque fora eu quem havia colorido e tudo o que eu fazia era ruim.
— Vou dormir. — não fui dormir, mas foi o que disse que faria, logo depois do almoço. Conversei com algumas pessoas, tentei me tocar, tentei descansar, mas minhas têmporas ainda latejavam – nunca paravam, na verdade. Tentei imaginar, tentei olhar para o teto, tentei não imaginar formas nele. Tentei ser normal. Não consegui.
Afinal, queria eu ser normal? Queria eu resolver meu problema? Queria eu sair daquela cama e enfrentar, de verdade, o mundo? Queria eu acabar com toda aquela minha dor? Queria eu parar de me entregar àquele sentimento que sugava todas as minhas forças? Queria eu ajuda?
Não sabia responder.
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