Dementia
2 22 de Maio de 2015 — madrugada.
Notas iniciais
Novamente olhava para o teto. Não havia muito a se fazer, afinal. O celular continuava ao meu lado, com seu carregador conectado – smartphones pareciam ter a energia sugada por alguma força malévola. Respirei profundamente quando vibrou pela primeira vez, ignorando-a.
Eu me concentrava nas formas irregulares da pintura acima de minha cabeça, o plano branco e riscado com o qual me deparava sempre que elevava o olhar. O som da segunda vibração fez com que meus orbes se decaíssem para o objeto, com uma sensação estranha de que eu deveria responder imediatamente – como se eu tivesse uma obrigação implícita de nunca deixar pessoas esperando.
Sabia qual o nome que apareceria na tela mesmo sem olhá-la fixamente. Novamente alguma mensagem sobre como eu me sentia, uma pergunta sobre quão bem eu estava. Ele sabia qual seria a resposta, mas sempre insistia em perguntar. Chegou a um ponto em que eu não sabia se era verdadeira preocupação ou mera chatice.
Digitei a senha de forma meio desajeitada, rezando para não ter de fazê-lo mais de duas vezes. Depois de desbloqueado, nossa conversa anterior veio aos meus olhos – apenas desejos de bons sonhos e algo que pudesse me lembrar de que ele havia ido para a universidade logo de manhãzinha.
A nova mensagem não passava de um cumprimento, algo que ele sempre fazia para ver se eu estava livre para mais uma conversa que, com toda a certeza, arrancaria meu coração fora.
Nunca era diferente. Começávamos bem, papeando sobre assuntos bestas como meus sentimentos sobre o mundo e quão difícil, para ele, era garantir que seus estudos em uma cidade completamente diferente da de sua origem. Depois partíamos para a criação sistematizada de um universo em que éramos casamos e tínhamos quatro lindos filhos, o que conturbava um pouco meus sentidos, afinal, eu conseguia ver as crianças correndo por minha casa como se verdadeiramente existissem.
Nunca era diferente e não seria desta vez que haveria alguma mudança. A voz dele adentrou minha mente quando começou a descrever os movimentos dos espíritos – ou amigos imaginários – que me cercavam de alegria e felicidade pura. Eu não conseguia vê-los fazia dias e doía-me perceber que alguém que possuía ainda mais problemas que a minha pessoa conseguia.
— Sinceramente, eu não quero saber se Katerina está indo morar com o namorado. Mesmo que tenha catorze anos e esta seja uma idade pequena demais para fazê-lo, ela está sob seu comando agora e você – não eu, por favor – tem de fazer alguma coisa sobre. — disse eu, um pouco anestesiada por conta da pressão que fazia para as lágrimas não descerem.
Fechei os olhos por um instante, imaginando quão bom seria poder desligar aquela ligação e simplesmente me deitar, dormir e descansar. Eu ainda podia ouvir sua voz, ressoando em meus tímpanos como uma música falha que mais me persuadia do que me encantava. Eu ainda podia ouvir suas lamúrias, que cresciam enquanto ele me dizia quão difícil era para ele controlar nossas crianças.
Dei-me como louca. Dei-lhe como louco. Éramos loucos, praticando nossas loucuras por uma ligação em um aplicativo que não havia sido produzido para aquilo – digo, a qualidade era péssima e a captação do sinal de Internet era, necessariamente, horrível. Éramos loucos, depressivos, tentando nos preencher enquanto imaginávamos criaturas que nem ao menos sabíamos se iriam existir.
Desliguei a ligação pouco tempo depois. Minhas têmporas latejavam novamente, fazendo com que eu tentasse, de forma desesperada, acalmar meu coração intranquilo. Acredito ter dormido um pouco, porque sonhei. Sonhei que a mais nova das crianças estava sendo sufocada por uma força mágica vinda de uma deusa recém-nascida. Sonhei que chorava por aquilo e que segurava o bebê, abraçando-o com tanto amor que parecia me dissolver na dor de quase tê-la perdido.
Abri os olhos e me levantei, com pressa. Estava tudo extremamente bagunçado em minha mente e tudo o que eu conseguia pensar era em Lúcifer. Não que eu fosse satanista ou ocultista, nem nada disso, mas havia admiração e Amor em meu pensamento sobre o Rei dos Infernos, como se fôssemos apaixonados num universo paralelo àquele em que vivia.
Caminhei até a cozinha, procurando por um copo d’água. Minha mãe fazia alguma coisa, para a qual não dei muita atenção, e eu contei a ela sobre a situação. Ela chegou a revirar os olhos em desgosto quando disse que a criança era filha minha com o Capeta. Eu ri, porque, embora parecesse ridículo, acabava por ser verdade.
— E aí? — perguntou ela, um tanto curiosa para saber o que eu havia feito em relação à miniatura divina que atacara minha filha – parecia curiosa para saber minha reação diante àquilo, como se quisesse saber o que eu verdadeiramente faria.
— Eu só peguei minha bebê e despenquei no choro. Não sei o que aconteceu com a outra menina. — declarei, determinada a voltar para o quarto. Deitei novamente, com o celular em mãos, enquanto procurava por notícias boas sobre o mundo. Não me decepcionei quando percebi que elas não existiam – digo, havia aquele levantamento sobre o casamento homossexual na Irlanda, que me fez sorrir por um instante pequenino antes de ver o que haviam escrito sobre na segunda página de comentários.
Levantei novamente, inquieta demais para ficar deitada, sentindo-me uma coitada. Fui até minha estante de livros, procurando por alguma ideia sobre o que fazer. Observei-a com cuidado, percebendo-a tão desorganizada quanto minha alma. Determinei, em minha mente, que iria organizá-la assim que tivesse em mente algo para comer na hora do jantar – não sabia por que pensava naquilo, mas não há explicações fartas para uma psique doentia.
Caminhei até o quarto de meus pais, sabendo que o homem que me criara e dera vida falaria que não possuía dinheiro suficiente para comprar duas pizzas – não me importei, porque eu o possuía e iríamos gastar do que eu tinha para uma noite um pouco mais calma.
Depois de uma conversa de trinta segundos, havíamos combinado que depois das sete horas poderíamos pedir qualquer coisa que quisesse afinal quem pagaria a conta seria eu. Voltei para o dilema comparativo entre meus livros e minha alma: algumas partes daquela estante haviam sido lidas e relidas, como se não houvesse mais nada para desvendar sobre; outras nunca foram nem tocadas, como os oito livros que eu havia comprado recentemente só pelo prazer de tê-los.
Tentei criar uma relação mais concreta entre aquilo e meus sentimentos naquele instante, mas não consegui. Comecei a retirar meus preciosos de seus lugares, imaginando de que forma eu os organizaria daquela vez. Deixei todos em cima de minha cama, tomando cuidado em separar aqueles que eu havia lido dos que eu não havia. Depois ordem alfabética para ambos. E, só aí, voltá-los para seus locais.
Isso durou um tempo considerável, já que entrei em pânico quando minha mãe tirou minha concentração alfabética para perguntar quais sabores eu queria de pizza. Respondi rapidamente, tremendo um pouco – como eu poderia viver em sociedade se até perguntas estúpidas faziam com que eu tremesse, em angústia?
Ainda em tédio, contei-os separadamente. Eu possuía setenta e oito livros ainda não lidos, um em andamento e cento e trinta já lidos, totalizando duzentos e oito livros. Dei-me ao trabalho de fazer uma conta de porcentagem para saber quanto ainda faltava para eu ler tudo o que possuía – sou de humanas, então a “regra de três” mental que fiz foi um tanto falha; esqueci que eu deveria cruzar os numerais e acabei por errar a conta pelo menos três vezes.
Liguei o computador, um tanto cansada, assim que terminei de me deliciar com meu jantar e quase chorar quando cheguei a perceber que setenta e sete reais haviam sido sugados de mim por apenas dezesseis pedaços do Céu – quase cinco reais por pedaço poderia ser considerado um pequeno roubo.
Pedro estava online. Pedro! Digo, eu sabia que ele estava online, porque eu já havia conversado com ele pelo aplicativo do smartphone, mas sempre existia uma pequena diferença entre vê-lo no computador pessoal e vê-lo no celular – não sabia exatamente o porquê, mas existia.
— Acho que vou escrever algo sobre como estou me sentindo para o Sarau. — digitei, um pouco apressada, depois de conversas sobre escola, trabalhos, professores rígidos sendo chamados por nomes diferentes e alguma coisa que um escritor extremamente famoso por sua genialidade no quesito comédia e ficção científica disse sobre não acreditar em seu potencial.
Estivemos conversando desde o momento em que me determinei a organizar minha estante e o assunto fluía, mas, realmente existia algo mais impressionante em conversar com o garoto pelo computador. Era como se deixássemos o plano virtual e sentássemos atrás do refeitório – ou em frente à enfermaria – para uma conversa mais civilizada. Pensar naquilo fez com que, por um instante, sentisse falta de ir à escola; fazia-se três dias que eu não pisava no local e o tédio e a falta do que pensar faziam com que eu me ocupasse com ideias destrutivas e de baixo teor auxiliador.
— Você tem certeza? Você acha que isso vai ser bom? — eu não conseguia ver-me digitando ou vê-lo sentado em sua cama, dividindo a atenção entre minha pessoa e seus jogos. Sinceramente, eu podia até mesmo sentir seu cheiro, mesmo que estivesse longe o suficiente para nem ao menos pensar que eu nos imaginava daquela forma – de que forma eu o imaginava, afinal?
— Acho que isso vai ser libertador. — afirmei. E me levantei, avisando que ia tomar um banho, um banho que deu ideias sobre o que escrever. Em verdade, foi um banho que lavou minha alma de forma estratégica: lavou parte da dor que me impedia de ter inspiração, criando uma fatia livre em mim para ideias sobre como transformar meu dia em uma narrativa filosófica sobre minha dor, como havia visto acontecer em livros que já havia lido – e que eram os meus favoritos, por sinal.
Escrevi. Eu escolhia as palavras, sabendo que o texto sairia uma grande bagunça, distinguindo e trazendo à tona meus sentimentos. Não acreditava que ninguém fosse ler, porque não havia necessidade; não passava de uma narrativa exausta sobre uma garota que sentia que nada tinha ou que nada teria.
Fazia pausas para limpar lágrimas que fugiam de meus olhos, conversando sobre coisas estúpidas com o Pedro. Falamos sobre o nosso trabalho audiovisual sobre alienígenas, imaginando quão bobo seria apresentar algo do tipo na frente de uma classe de trinta alunos.
— Acabei. E postei. E não quero comentários sobre agora. Perdão, sério. — mandei para o garoto, assim que terminei de escrever o texto mais dolorido de minha vida. Queria que ele lesse, então postei em uma plataforma de histórias, sem pretensão alguma de alguém fosse ao menos clicar no nome, por curiosidade. Copiei o link e enviei logo em seguida, esperando que ele noticiasse que havia lido para poder excluir aquela besteira sem potencial.
Passei um tempo ouvindo uma música tranquila até por demais, extremamente melancólica. Provavelmente era a vigésima vez que ela tocava naquela noite e já se passava da meia-noite quando decidi excluir minhas palavras inúteis da plataforma virtual que as guardava com tamanho carinho. Desisti de fazê-lo quando, por algum motivo, percebi que ali fora depositado um comentário.
Li-o três vezes para ver se era real. Derramei lágrimas quando percebi que era. Deveria ser a sétima vez naquele dia; a sétima vez em que chorava, mas agora por um motivo diferente. Um desconhecido havia despejado, para mim, um comentário repleto de elogios à minha escrita tão bagunçada e caótica; algo sem fluído, sem fogo, sem início ou fim. Um desconhecido pedia por mais daquilo que nem havia como contar mais, pois a manhã havia terminado e a tarde era diferente.
Mandei aquilo para Pedro, recebendo brincadeiras animadas como resposta. Era a primeira vez que ele me via feliz dentro de três dias e aquilo pareceu deixá-lo menos preocupado com o meu estado mental. Perguntei a ele o porquê de alguém ter gostado de algo tão problemático quanto a minha mente. Ele respondeu que as pessoas gostavam de ler o que para elas parecia real, coisas que as transmitiam sensações de que não estavam sozinhas no mundo. Tive de concordar, afinal, os livros sobre os loucos eram meus favoritos – e eu, com toda a minha certeza, era louca.
— Então quer dizer que isso é uma revelação? OH MY GOD! VOCÊ É UM ALIENÍGENA! É POR ISSO QUE GOSTA TANTO DE LER SOBRE UNIVERSO-BEBÊS E FICÇÃO CIENTÍFICA! — eu estava de volta ao meu normal, brincalhão e espontâneo, embora minha mente ainda trabalhasse com alguns pensamentos suicidas que nunca colocaria no papel por medo de se tornarem reais.
— VOCÊ DESCOBRIU O MEU SEGREDO, OH, NÃO! AGORA EU VOU TER DE TE LEVAR PARA O ESPAÇO COMIGO, PORQUE SENÃO ELES VÃO TE MATAR. VOCÊ SABE DEMAIS! — pude ouvir o som de minha própria risada pela primeira vez. Parecia diferente depois de tanto tempo sem ouvi-la. Estávamos animados e eu podia nos imaginar naquela situação, em que corríamos planejando nossa fuja para outros planetas, para que não fôssemos encontrados pelos alienígenas vilões.
Pensei em contar sobre para alguém, mas todos já estavam dormindo. Pensei em deixar um recado, para explicitar minha felicidade, para alguém que não fosse Pedro, mas ninguém se interessaria. E meu sorriso se desmanchou quando percebi que algumas das pessoas mais importantes não estariam nem aí para aquilo porque minha felicidade não havia sido gerada por eles.
Eu odiava aquele egoísmo que Johnny tinha de não poder me alegrar quando tinha a chance e achar ruim quando eu me enchia de felicidade por algo que não fosse proveniente dele. Eu odiava a mim mesma por acreditar que ele era egoísta, depois de tudo o que havia feito. Eu odiava tudo por ainda crer que ele mudaria – ou que eu mudaria.
Fui me deitar quase às duas da manhã, com ele em mente e o comentário que havia mudado meu humor também, enquanto batalhavam para ter espaço dentro de meu cérebro. Sabendo que sentimentos conturbados eram extremamente desnecessários no momento, fixei-me na felicidade momentânea, esquecendo-me por um momento dos problemas que teria de enfrentar na manhã que se seguiria.
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