Dementia
3 23 de Maio de 2015 — dia.
Notas iniciais
Revirei-me na cama antes de desligar o despertador que tocava para me acordar para mais um dia. De olhos semicerrados, puxei o celular de seu carregador e deslizei a tela, parando o som incômodo que me obrigava a seguir com a vida – não que eu não quisesse o fazer, mas seria melhor para o mundo se eu não o fizesse, acredito. Abri-os por um momento, procurando por mensagens. Obviamente elas existiam; nunca deixavam de existir.
Suspirei em frustração, respondendo-a logo depois de recapitular os momentos bons que eu havia tido na madrugada anterior. Um sorriso largo se abriu em meu rosto e uma ligação logo foi recebida. Atendi-a de pronto, recebendo o rapaz com uma alegria visível e palpável – uma que logo foi despedaçada ao encontrar-se com a voz quebradiça do mesmo.
A preocupação tomou o lugar de minha felicidade e dei-lhe a atenção desejada, tomando o cuidado para não me frustrar com as palavras que ele dizia ou aquele sentimento que expressava quando se sentia inferiorizado por algo. Conseguindo uma pequena melhora, partiu, apenas para ligar cinco minutos depois de eu ter me determinado a levantar e arrumar meus materiais para a aula que teria há pouco.
— Eu tenho de ir. — eu devo ter repetido por vezes sequenciais, sabendo que ele não me escutaria; ignorando-me, foi contando sobre seus pensamentos e sentimentos, fazendo com que a frustração em mim se transformasse em raiva e esta em pânico. Gritei com o rapaz por vezes, sabendo que ele se estressaria por achar que não fazia nada errado.
Pensei em desligar a ligação e deixá-lo falando sozinho, como havia feito anteriormente, quando achou mais conveniente, mas ele não aceitaria uma reação daquele nível – diria que eu não podia retribuir ações que me faziam mal, porque era superior àquilo. Bufei só de pensar naquilo e, depois de xingamentos e uma baixaria desnecessária, fazendo com que a dor dentro do garoto crescesse – eu não tinha culpa, oras! –, acabei com a chamada e deixei o conforto das cobertas para trás.
Já em pé, analisei meu corpo seminu com um pouco de descrença. Eu não gostava do que via, muito embora me sentisse fisicamente melhor do que na semana anterior. Toquei meus seios, tentando circundá-los com as mãos, como os homens faziam com os artificiais dos filmes pornográficos. Percebi que ou os meus eram fartos demais ou redondos de menos. Dei de ombros e vesti-me com rapidez, sentindo grande indiferença a tudo que ocorria ao meu redor, seguindo os rituais matinais rotineiros.
Saí de minha zona de conforto pronta para sair de casa e enfrentar uma turma com doze pessoas – mais do que eu havia visto durante três dias. Respirei profundamente e, com um bom dia chocho, cumprimentei meus pais, que pareciam ocupados em suas próprias mentes. Imaginei se a deles era tão doentia quanto a minha e se sentir o que eu sentia era natural. Seriam as pessoas todas loucas sem admitir para si mesmas que o eram?
Procurei pela pizza do dia anterior, sentindo que, se a tivesse como café-da-manhã, meus ânimos seriam retomados e a felicidade restituída ao grande mundo que chamava de meu. Pus um pedaço no prato e coloquei-o no aparelho micro-ondas, abrindo um aplicativo de filmes no smartphone, para que pudesse assistir algo bobo enquanto esperava pela hora de partir.
Achei a trama inicial do longa-metragem escolhido bastante jovial e eu não procurava por aquilo – mentiras sobre sexo que se espalhavam pelo colégio me lembravam dos supostos boatos sobre a minha perda de virgindade; será que realmente acreditavam que eu já havia a perdido? Sem saber responder, fechei o aplicativo, tirando os fones de ouvido e me levantando, para colocar o prato vazio na pia.
Fui até a sala e sentei-me, desconfortavelmente, enquanto esperava que meu pai terminasse de lavar seu carro. Parecia-lhe uma tarefa árdua e tudo seria estragado quando pegasse a rodovia para me levar para a escola de inglês, que ficava no centro da cidade. Perguntei-me se ele não poderia ter feito aquilo depois, mas não ousei interpelar aquelas palavras. Ele as tomaria de forma errônea e diria que eu estava ansiosa em demasia.
Minutos depois, entrei no carro e partimos. Tinha em mente a ideia de ouvir as canções mais melancólicas da minha lista disponível, mas ele colocou suas antigas músicas para tocar dentro do carro. Não reclamei, porque também eram calmas e serviam como calmante para minha mente que não deixava de trabalhar, pensando e repensando ações que nunca mais poderiam ser mudadas.
Conversamos pouco durante o trajeto, falando sobre o valor altíssimo dos objetos mais fundamentais para a vida do homem moderno. Deixei o veículo assim que chegamos ao local desejado, vendo-o partir enquanto adentrava o hall vazio da edificação que dava lugar a uma pequena escola.
Alguns de meus colegas já estavam ali presentes e não deixei de conversar com tais. Sentia-me confiante, sabendo que nenhum deles fazia a mínima ideia do que havia acontecido comigo durante aquela semana. Não queria contar, também, pois sabia que não se importariam minimamente com meu sofrimento. Brinquei e cantarolei canções que seguiram o dia dentro de minha mente.
Já dentro da sala de aula, a professora iniciou uma matéria que, embora ela dissesse ser nova, eu já conhecia. Não que eu houvesse a aprendido em teoria, sabendo que tempos verbais e que palavras auxiliares eu deveria utilizar, mas eu a conhecia na prática. Enquanto copiávamos do quadro, entregou-nos a prova da aula passada e sorri, orgulhosa, ao perceber que havia errado apenas uma questão, garantindo noventa e nove por cento da nota total.
— Sorte. Esse é o tema da unidade. A terceira condição nos fala sobre atividades hipotéticas que aconteceriam se pudéssemos mudar coisas do passado. — sua fala era apressada, mas seu inglês parecia se enrolar quando tentava explicar todas aquelas matérias essenciais, de forma a deixar seu pensamento confuso. Ela era um tanto lenta com tudo, então sofria quando tentava mudar sua condição.
Mudamos de leitura para exercícios gramaticais com certa rapidez e aquele momento fluiu, já que deixávamos tudo mais divertido tendo conversas sobre situações passadas; dividíamos histórias e pensamentos, como se nada pudesse nos atingir naquele momento.
As duas horas da classe passaram como se fossem apenas instantes perdidos no espaço e, talvez, aquela pressa toda houvesse me deixado cansada. Cansada de forma a sentir o corpo pesar e o espírito pedindo para fugir do mundo tão repleto de problemas, como se tudo fora daquele cubículo esbranquiçado pudesse me atingir.
Ao sair pela porta da classe, senti como se o Céu tivesse sido depositado em minhas costas. Caminhei aos tropeços até o local onde meu pai se dedicara a me pegar, sabendo que ouviria aos montes de lhe contasse de minhas sensações momentâneas. Errei ao pensar que só ouviria se dissesse algo.
O homem falava sobre seus problemas e como eu poderia relacionar minha angústia com a dele; mostrava sua preocupação contando-me histórias do teu passado, deixando marcado, mais uma vez, em minha psique aquilo o que sempre dizia quando chorava por medo, desespero, angústia. Tentei soar indiferente e apenas ouvi-lo, mas, assim que pisei em casa, me vi aos gritos, dizendo-o que eu não tinha controle sobre aquilo e que, se tivesse, eu já haveria mudado minha situação.
— Eu sempre tive medo da vida, Lívia. Nunca tive medo de morrer. Se eu o fizesse agora, seria libertador. — ele repetiu, pela terceira vez naquele dia. Aquilo me descrevia bem naquele momento, mas não ousei contar-lhe isso. — E esse medo sempre estragou tudo para mim. Não deixe que isso aconteça com você também. — foi seu conselho.
Almocei com aquilo em mente. Devo ter me estressado com as notícias estúpidas que passavam na rede televisa e aberta, porque meu pai a desligou com uma expressão raivosa estampada na face. Por que enquanto pessoas votavam pela legalização do casamento igualitário na Irlanda, os programas noticiavam sobre cuidados caninos e luxuosos? Havia algo de fútil naquilo e eu não sabia explicar o porquê. Havia algo de fútil no mundo atual, mas eu não sabia descrever o quê.
Fui até meu quarto, voltando para o meu espaço pessoal e deitei-me assim que escovei meus dentes. Tentei não me olhar no espelho enquanto o fazia, procurando fugir da minha expressão cansada, caída e tristonha. Fechei os olhos, sentindo o sono vir arrastado. Senti-me pesada, passando para a leveza descomunal de alguém prestes a dormir.
Acordei horas depois com as imagens de meu sonho ainda fixas em minha mente e o sabor do picolé de chocolate branco que havia comprado em tal ainda em minha boca.
Lembrava-me de estar em uma cidade desconhecida, onde as ruas eram estreitas, de forma a dar espaço apenas a pessoas. Existiam árvores no meio do asfalto, deixando o local com uma aparência completamente diferenciada. As casas seguiam o padrão americano, sem muros e divisórias apenas de cercas vivas. Um de meus primos corria ao meu lado, com um sorriso tão largo quanto o meu, enquanto corríamos por sobre as flores plantadas nos jardins dos vizinhos.
Suspirei pesadamente antes de levantar-me novamente para cumprir os deveres da casa. Eu deveria limpar meu quarto e lavar meu banheiro, o que fiz, com uma pressa estranha, pois sentia-me na obrigação de escrever uma continuação para uma história que só teria fim se eu viesse a morrer – afinal, eu escrevia sobre os meus dias, o que não era uma grande trama, já que não existia muita ação; só um monte de sentimentos conturbados e pensamentos dementes.
Cortei a escrita da minha lista de afazeres assim que postei um novo capítulo na plataforma do dia anterior – ou da madrugada do mesmo dia. E o tédio tomou conta. Quando o fazia, minha mente se tornava preguiçosa e, já que a preguiça era a mãe de todos os vícios, eu me viciava em autoflagelação.
Olhei ao redor e percebi-me no meio de um quarto tão desorganizado quanto eu, o que me fez pensar na concepção de desorganização e outros conceitos estrambóticos que haviam sido atribuídos como características naturais de um adolescente. Pensar naquilo e no que a sociedade esperava de um adolescente da minha idade fizeram-me acreditar que nunca estaria nos padrões indicados pela mídia.
Afinal, eu não era magra, não era social, não era simpática, não era bonita e não era feliz. Eu não tinha grupos de amigos e os amigos que eu tinha não dormiam na minha casa todas as semanas. Eu era, como uma personagem de um livro tão famoso quanto bom, uma granada prestes a explodir. Não por causa do câncer, mas sim por causa do temperamento difícil que me faria estressar e chorar por tudo que não me agradasse verdadeiramente.
Conversei com Pedro sobre coisas estúpidas, enquanto esperava por Johnny ter algum assunto interessante a tratar com a minha pessoa – coisas que não fossem rotineiras e frustrantes, como nossos sentimentos desesperados. Cheguei a perguntar para o primeiro como algo tão despretensioso quanto os meus textos poderiam ganhar repercussão, já que havia recebido outro comentário precioso sobre como uma história tão caótica poderia ser maravilhosa.
— Quando não se escreve para um público, mas sim para alguém especial, dá para ver mais envolvimento, mais emoção. — ri daquilo, porque ele sabia que eu estava escrevendo aquilo para ser se expulsava todas as sensações ruins de minha alma. Nunca imaginei que aquilo fosse dar frutos, então me felicitei apenas de imaginar que eu os colheria aos poucos num futuro próximo.
— Olha, moça, eu tenho de confessar: esses seus últimos textos foram os melhores. — não entendi o que ele queria dizer com aquilo; em verdade, fiquei confusa por ter recebido um elogio por algo que fazia quando em torpor – quando desligava a mente e prestava atenção apenas nas letras corretas e na colocação das palavras na estrutura frasal complexa que criava para mim mesma.
Continuamos a conversa, enquanto eu adentrava as redes sociais que possuía e tentava me comunicar com pessoas que não se interessavam muito se eu ainda respirava ou não. Em uma específica, recebi uma mensagem privada que me assustou um pouco. Luísa havia mandado um pequeno texto – pequeno mesmo, porque foram menos de cento e quarenta caracteres – agradecendo-me pelo o que eu havia escrito.
Também fiquei confusa com aquilo, mas sorri com o pensamento de ter feito a antiga amiga chorar ou sentir algo maior do que pena de mim. Talvez raiva, amor, perturbação – não importava. Importava o fato de que ela tinha procurado por aquilo e havia me elogiado, de forma extremamente não-convencional.
Fechei o computador com a mente trabalhando de forma imprecisa. Havia algo de estranho ocorrendo e eu não sabia explicar o porquê de tudo aquilo. Eu estava escrevendo coisas e estava sendo elogiada como nunca antes, como se o fato de eu não procurar por eles ajudasse a trazê-los à vida.
Existia algo estranho no reconhecimento e no sentimento de vitória quando ele é alcançado sem maiores esforços. Existia algo estranho em recebê-lo quando não havia procura ou disputas enormes por ele. Existia algo estranho na forma em que as coisas vinham à tona naqueles dias pós-crise. Existia algo estranho em mim, mas nada daquilo fazia exato sentido para mim.
Nunca faria.
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