Delirious

22 22. Desastre


Notas iniciais
Capítulo dedicado a Hiromi393 e LilithDark pelas recomendações lindíssimas que Delirious recebeu, meninas eu amei cada palavra. Vocês são lindas. Dedico de coração este capítulo a vocês. Beijo enorme e boa leitura.

Capítulo 22 — Desastre

Narrado por Miguel:

Natan ficou pasmo com o ar, mais que amigável, em volta da Marcela e de sua irmã, as duas pareciam muito mais que meras conhecidas. Ele me pediu explicações, porém não tinha o que dizer, pois não me atrevia a meter o bedelho naquele assunto. Aquela história não tinha nada a ver comigo, muito embora minha grande vontade naquele momento fosse vomitar tudo, fazer a caveira da maldita Marcela por tudo que me aprontou. Mas não o faria, a única pessoa que devia explicações a ele... Era ela.

O anão não tirava os olhos das duas figuras conversando,de risinhos e bochechas rosadas.

Eu já estava ficando aborrecido com Natan e sua odiosa insistência sem fim. Com a paciência quase chegando ao limite, puxei-o pelo braço e o arrastei até o lugar onde as duas conversavam. Na minha opinião Natan tinha todo direito de saber a verdade por trás de tudo, apesar de achar que uma hora ou outra tudo seria revelado.

Ao notar que nos aproximávamos, Marcela se assustou e me pediu explicações com os olhos desesperadamente indagadores, não me intimidei com aquilo, pelo contrário meu ego só cresceu mais. E com uma felicidade imensa habitando dentro do peito, falei a verdade nua e crua assim que ficamos cara a cara com as duas.

— Esse cara aqui... — empurrei um anão praticamente petrificado em direção a elas. Tanto minha querida cunhada quanto Marcela ficaram estáticas. — Quer explicações!

— Q-Que explicações, do que você está falando?! — A mula loira perguntou. Sorri para ela, um sorriso falso, tão falso que até senti repulsa de mim mesmo.

— Não se finja de sonsa, Marcela, pois sei que desonsa você não tem nada. E mais: chega dessa farsa toda, melhor esclarecer tudo de uma vez, essa história já deu o que tinha que dar! — falei cruzando os braços acima do peito.

A loira me olhou apreensiva e eu consegui entender tudo o que aqueles olhos expressivos queriam me dizer. O medo da Marcela naquele momento não era pelo Natan, mas sim pela irmã dele que estava ali olhando de um para o outro sem entender absolutamente nada.

— Vai ser melhor pra você também, Marcela. — tentei tranquilizá-la, embora não estivesse sendo honesto. Ela deu um suspiro resignado e engoliu seco. — Diz pra ele porque você mentiu que estávamos juntos quando ele se declarou.

Ela ainda hesitou um pouco mais, Priscila e Natan ficaram sem entender a situação.Normal. Depois de um longo período de hesitação Marcela, enfim, decidiu falar tudo.

Relatou que desde o início sabia dos sentimentos superficiais de Natan por ela, que mentiu que nós – eu e ela – estávamos saindo, só porque não podia corresponder aos seus sentimentos, pois estava apaixonada pela irmã dele. Preciso dizer que os olhos do anão se dobravam em tamanho? O moleque ficou pálido e não moveu um músculo a partir daí.

Então ela prosseguiu com sua explicação e contou que antes de conhecer o anão, ela e a Priscila haviam se envolvido sexualmente. Marcela se apaixonou pela ruiva de imediato e descobriu através de um conhecido que Natan era irmão dela.

Confessou que se aproximou dele somente por causa da irmã, porém não esperava que Natan fosse se apaixonar por ela.

— Daí quando descobri que você... Achava que gostava de mim, fiquei sem saber como lidar isso, pois você se apaixonar por mim não estava nos meus planos. Eu só queria sua amizade, porque já tinha tido um caso com a Pri e sempre gostei dela. Você seria um... Me perdoe as palavras, mas você seria um empecilho para ficarmos juntas. — apontou para ruiva que tinha a sobrancelha erguida. — Te empurrei para o Miguel que escondia um amor platônico por você.

Natan ficou em silêncio. Notei que estava trancando o choro, fiquei penalizado por ele, coloquei minha mão pesada em seu ombro tentando confortá-lo. Mas sua reação me deixou preocupado. Com hostilidade ele retirou minha mão de lá. Nada falei sobre sua atitude, afinal compreendia sua raiva, mas... Eu também era vítima naquela história toda. Também fui usado.

Só o que falta agora é ele começar a dar chilique, me culpar e se afastar.

Após tudo esclarecido, Marcela pediu desculpas a todos por suas ações egoístas, inclusive a mim, em seguida ela se afastou envergonhada por ter revelado seu maior segredo e justamente para a pessoa que nem em sonho deveria saber. Acompanhei seus passos vendo-a se afastar dobrando num corredor e sumindo de vez de nossos olhos.

A minha cunhada recebeu uma ligação, mas não prestei atenção nela, meus olhos agora estavam atentos na falta de reação do anão. Queria de verdade saber o que ele estava pensando, mas também não me atrevia a dizer uma palavra naquele momento. Conhecendo-o como o conheço imagino que minha voz é a última que ele gostaria de ouvir naquele exato momento.

Puta que pariu, ele vai ficar furioso...

Priscila trocou algumas palavras com ele que apenas a ignoro e se afastou nos deixando sozinhos.

E agora? Como lidar? Ele não se movia, continuava lá, parado, desprovido de emoção e calado. Natan despertou depois que o toque do sinal preencheu nossos ouvidos informando o início da aluna naquele dia.

Cabisbaixo ele girou o calcanhar e começou a caminhar em direção ao prédio das salas de aula. Segui seus passos, calado e com as duas mãos nos bolsos da minha calça. Quando enfim colocamos nossos pés dentro do prédio cada um de nós seguiu seu rumo sem nada mais a dizer.

(#)

Durante toda a aula fiquei pensando no que tinha acontecido. Marcela era mesmo uma sem caráter, me usou e usou o anão para beneficio próprio. Nunca vou perdoá-la por magoá-lo.

Vamos deixar uma coisa bem clara aqui: não é porque eu não gosto da Marcela, que ela seja realmente uma vilã ou coisa do tipo, se você ficou com essa impressão dela, por favor, mude. Ou não, por mim tanto faz, o problema é todo seu. Mas falando sério, ela é bacana com outras pessoas, é honesta, sensata e blá, blá, blá. Porém eu não goto dela, muito embora ela goste de mim. Mas não suporto gente que usa sentimentos alheios para benefício próprio.

Enfim.

As horas odiosamente se arrastavam, me torturando... E eu só queria que chegasse a hora do recreio para conversar com o anão e tentar animá-lo de alguma forma, sendo assim não consegui me concentrar na aula aquele dia.

Não é como se isso acontecesse em outros dias, mas... ah que se foda!

(#)

Enfim, o recreio chegou!

Durante todo o maldito recreio procurei pelo Natan, cacei ele por todos os cantos e não o encontrei. Quando estava desistindo esbarrei com o maldito traveco loiro no corredor do segundo ano. Ele me fuzilou com ódio mortal, parecia que me culpava por algo. Não entendi nada daquilo, mas também não queria arranjar confusão com ele e nem estragar mais minha relação com Natan, isto é se existe uma. Sabia o quanto presava seus amigos e mexer com eles não seria uma atitude esperta da minha parte.

— Você viu aquele anão por aí?— perguntei tentando não soar hostil.

Ele deu um meio riso, falso.

— Com certeza está se escondendo de você por aí. — respondeu sorrindo abertamente.

Sorri também, um sorriso falso, apenas para conter minha ânsia de vomitar na cara dele naquele momento. Não gostei da provocação, mas engoli a seco para não partir a cara daquele otário no meio.

— Já vi que não adianta conversar com você. — resmunguei girando os calcanhares a fim de ir embora.

— Ele não quer vê-lo nem pintado de ouro! — detive um passo estancando no meio do corredor. — Se eu fosse você desistia de procurá-lo, ver você só vai deixá-lo mais furioso.

— O que ele te disse? — Perguntei encarando-o por cima dos ombros.

— O que você aprontou dessa vez? — perguntou ignorando minha pergunta.

Sorri, mesmo nervoso com o que ele acabara de dizer, eu precisava ferir o maldito ego inflado daquele cara. Isso também serviu para acalmar um pouco meus nervos.

— Oh, ele não te contou? — provoquei sentindo gostinho da vingança quando os olhos esverdeados se estreitaram em minha direção. — Vocês dois não eram os melhores amigos do mundo?

— Não me provoque Dorneles!! — o loiro rangeu os dentes e fechou a mão em punhos. Trocamos mais algumas farpas e logo ele disse tentando parecer mais calmo. — Não sei o que você aprontou dessa vez, mas fique longe do Nat, ele tá muito chateado e sua presença só vai servir para feri-lo.

Naquele momento meu sorriso morreu, sim eu sabia que a boneca inflável do Pablo tinha razão, mas só ali cogitei a possibilidade de Natan não quer me ver por causa da mentira da Marcela. Pois era óbvio que ele me culpava por ter escondido aquilo dele.

(#)

Eu queria ter me alojado na casa de Pablo naquela noite, mas não sei por qual motivo fui parar na minha casa. E como sempre tudo estava uma zona, meu pai estava jogado e bêbado no sofá desmaiado, minha mãe não sei onde havia se enfiado, provavelmente deveria estar enfiada num boteco qualquer.

Não tenho irmãos, sou filho único de um casal de alcoólatras que não me planejou. Essa é minha vida de forma bem resumida, minha família para mim são meus amigos. Meu plano para o futuro... Sei lá, ser músico eu acho.

Parei em frente ao sofá onde meu velho dormia abraçado numa garrafa de bebida barata. Bufei e sacudi de leve seu ombro.

— Vá pra cama, velho. — chamei sentindo náuseas com o cheiro forte da bebida.

Ele respirou fundo e abriu apenas um olho, arqueei uma sobrancelha e ouvi um murmurado “Me deixa em paz moleque maldito”. Revirei os olhos e chutei o sofá frustrado.

— Vocês são duas pessoas que não fariam falta para o mundo, francamente.

Após dizer isso sem um pingo de remorso fui para o meu quarto e me tranquei lá. Me joguei de bruços na minha cama. No instante seguinte me arrependi de ter vindo para casa.

Um flash do que se passou hoje cruzou minha mente e a partir daí não consegui mais pensar em outra coisa se não em Natan e nas venenosas, porém verdadeiras palavras do maldito Castanheli.

Busquei meu celular no bolso na minha calça, procurei nos contatos o telefone do anão e quando o encontrei fiquei encarando um tempão os números, indeciso se ligava ou não.

No fim acabei optando por enviar uma sms, fiquei em dúvida sobre o que escreveria, tentei várias formas de iniciar um assunto, mas apaguei cinco mensagens prontas, quando a frustração começou a abater escrevi o que me veio a mente e enviei sem pensar em nada.

Oi. Tá melhor?

Passou-se dez minutos e a resposta não veio. Enviei outra.

Posso ir até sua casa agora?

Bufei quando passou-se cinco minutos e nenhuma resposta veio. Farei do seu jeito, vou dar a ele um tempo para refletir, imagino que deve estar passando por uma fase bem complicada. Afinal ser rejeitado pela mesma pessoa duas vezes não deve ser muito agradável.

Girei o corpo para a parede encolhendo-me, sentindo o cansaço finalmente abater, meus olhos se fecharam suavemente, uma sensação gostosa se apossou, estava quase dormindo quando o telefone tocou. Sobressaltei com o toque, olhei no identificar e engoli seco quando vi o nome do anão piscando na telinha do celular.

— A-Alô. — droga, por que inferno gaguejei? Que porra!!

Silêncio.

Ouvi o som de um suspiro que incrivelmente me acalmou.

— Nat? — perguntei.

Natan pra você!!! — quando ouvi aquela resposta afiada e irritada não pude evitar de sorrir. — Podemos nos encontrar agora?

Chocado fiquei ao ouvir aquela proposta chegar aos meus ouvidos com uma voz tão baixa e abalada, ele dificilmente pede ou pergunta alguma coisa. Aquilo era uma novidade pra mim.

— C-Claro, mas onde?

Na frente da escola.

— Certo, estou indo pra lá agora mesmo.

(#)

Nem em meus piores pesadelos eu poderia imaginar que aquilo estava acontecendo. Mas o que podia esperar?Sinto vontade de rir de verdade. Isso faz de mim melancólico? É, acredito que sim.

Então, quer dizer que meus esforços foram todos em vão?

Sabia que aquela chamada estava boa demais para ser verdade, é bem como diz aquele ditado “quando a esmola é demais o santo desconfia”. Se estivesse em meu juízo perfeito eu teria agido sem pensar como costumava fazer quando fiz aquele trato maluco com o anão.

A cena, ao menos para mim, era perturbadora demais. Ter que ver o maldito Castanheli escorado num poste nos encarando com os braços cruzados enquanto eu ouvia Natan destroçar meu coração.

— Perdão? — reforcei e depois me arrependi amargamente, não era hora de me fazer de idiota. Eu precisava reverter a situação antes que fosse tarde demais. — O que você disse?

— Você ouviu muito bem, punk. — o maldito Castanheli disse com a voz alterada.

— Matheus!! — Natan interviu e depois me encarou fixamente, com o rosto sério. — Isso mesmo que você ouviu, não tem porque continuarmos com essa brincadeira, já passou um mês. Desde o início o trato era apenas um mês, amanhã vai fazer um mês e duas semanas.

Fiquei sem chão, sem argumentos e sem saber o que fazer. Pela primeira vez na minha medíocre vida pude sentir na pele o que era o desespero. Mas o que eu podia fazer? Chantageá-lo covardemente como fiz na primeira vez? Com o que exatamente? E com a presença do maldito loiro tudo só ficava mais difícil. Arrastar Natan para fora dali e tentar convencê-lo a mudar de ideia não era uma opção. Porque ele estava com raiva de mim e com certeza me desmontaria se tentasse fazer alguma gracinha, ainda tinha o maldito Castanheli para lhe ajudar.

Aquele era o fim definitivo.



Notas finais
Olá, tudo bem com vocês? Ainda estou em hiatus, mas como consegui terminar esse capítulo sábado decidi revisá-lo hoje e uma coisa levou a outra. Esse capítulo é pra ser o penúltimo, mas não sei o que poderá acontecer no próximo capítulo. Ainda não terminei de responder as reviews, mas vou responder a todos, então não se preocupem. Obrigado pelo carinho e pela atenção. Beijo enorme até o próximo.