Delilah

5 Enquanto persistir a culpa, não haverá liberdade


Notas iniciais
Perdoem o atraso, foi puramente burocrático (demorei séculos para mandar pra beta e ela demorou séculos para me retornar)
Essa fanfic está muito maior do que eu havia previsto. Parece que surgiu uma penca de coisas para acrescentar no enredo (e ainda rola a sensação de que faltou algo).
Agradeço o apoio dado pelas reviews.
Boa leitura.

Francis estava sentado em seu sofá lendo literatura francesa quando foi brutalmente interrompido por batidas fortes e apressadas na porta. Ele arqueou a sobrancelha, marcou a página que lia e deixou o livro sobre a mesa de centro, levantando-se para atender a quem quer que fosse aquele sujeito incapaz de esperar. De fato, Francis poderia haver pensado em várias alternativas – Gilbert e algum novo conceito de supremacia, Tonio choramingando sobre o namorado ou mesmo sua sobrinha da longínqua Seychelles. Mas Francis, em momento algum, imaginara que encontraria Arthur, aos prantos, com uma roupa que cheirava a cigarro e álcool, muito álcool, em uma combinação quase enojante, parado no hall do segundo andar.

Mon Dieu, Arthur, o que aconteceu com você?” Perguntou com genuína preocupação, abrindo passagem para o amigo. Arthur caminhou com um ar desamparado até o sofá, onde desabou de cansaço.

“Francis, me mate, por favor.” Sua voz saiu quieta, meio rouca.

Francis arqueou a sobrancelha.

“O que quer que você tenha feito, não acho que seja tão grave. Oh, espere aí. Você não matou ninguém, matou?”

Arthur olhou para o amigo com uma expressão meio chocada, meio indignada.

“Mas é claro que não, idiota!”

Francis suspirou aliviado.

“É bom saber que a polícia não está atrás de você. Aguarde um minuto enquanto trago um pouco de chá.”

Arthur respirou fundo e assentiu, praticamente afundando no sofá. Ele ficou encarando o teto como se lá fosse encontrar a solução de seus problemas. Ele pensou que naquela altura, Alfred já estaria acordado e já dera por sua falta. Arthur cobriu os olhos com as mãos e tentou se convencer que o melhor a fazer era esquecer. Ele decidiu que ele jamais tornaria a encontrar Alfred.

“Aqui está seu chá, mon ami. Alors, fale.

“Eu dormi com um homem.” Sentenciou, mal dando tempo para que o amigo concluísse.

Francis se engasgou com o chá.

Merde, Arthur! E não fui eu!?”

Arthur lançou-lhe um olhar gélido.

“Pare de brincar, frog.” Grunhiu. “É sério!”

Francis deu um sorriso malicioso.

Ohlala, pela sua condição eu sei que é.”

Arthur bufou e se levantou.

“Eu desisto! Eu não deveria ter vindo aqui! Perda de tempo, completa e absoluta. Agora, se me dá licença eu vou embora e...”

“Voltar pra casa?” Francis deu um sorriso debochado. “Voltar para Emily? Olhe para você, Arthur, você está com os lábios inchados e chupões enormes no pescoço.” Atestou. Arthur tocou no pescoço, recordando da pessoa que vira quando olhara no espelho naquela manhã. “Ao menos se recomponha antes de voltar.”

Arthur respirou fundo e tornou a sentar no sofá, tacitamente se dando por vencido.

“Então, você não vai me contar o que aconteceu?”

“Eu conheci esse cara no restaurante que você indicou a Emily no outro dia. Um tipo irritante. A primeira coisa que ele fez foi falar das minhas sobrancelhas, quando teve a oportunidade.”

“Um tipo sincero. Admirável.” Francis aprovou. Arthur franziu o cenho e fez de conta que não ouviu o amigo.

“Ele insistiu para que saíssemos juntos. De primeira eu tentei recusar, mas, por Deus, ele era muito insistente!”

“Oh, deixe-me adivinhar. Você sugeriu o local.”

Arthur assentiu.

“Ohonhonhon, mon ami, parece que eu te conheço melhor que qualquer um. É sempre assim quando você se empolga com algo: primeiro tenta negar, mas não tem jeito.”

“Você vai me deixar terminar?” Grunhiu Arthur.

“Continue.”

“E-eu estava realmente pensando em não ir, mas então eu lembrei... Oh, Deus, isso é ridículo.”

Quoi?”

Uma escolha muito errada? Você vai se arrepender pro resto da vida” Arthur murmurou, corando de leve.

“Essa frase não me é estranha.” Ponderou Francis.

“É claro que não. Foi o que aquele sujeito da rádio disse, lembra? Essa frase ficou martelando tanto na minha cabeça que resolvi que deveria ir até lá e terminar isso eu mesmo, antes que começasse. Mas a única coisa que eu fiz foi acelerar tudo.”

“Ele estava sóbrio?”

“Mas é claro que estava.”

“Só confirmando. E você perguntou a idade dele?”

“25 anos, se não me engano.”

Francis sorriu maliciosamente.

“Interessado em crianças agora?”

“Você fala como se fôssemos ridiculamente velhos! For god’s sake, temos só trinta anos.”

Francis riu e aumentou o sorriso pervertido, se aproximando de Arthur.

“Então, me diga, Arthur... Ele era bonito?”

Arthur corou violentamente.

“Mas que merda, f-frog! Que raios de pergunta é essa?”

Ohonhonhon, preciso saber se pelo menos você continua com o seu bom gosto.”

“Para o seu governo, sim, ele é lindo.” Arthur engoliu seco, tentando a todo custo evitar as visões do corpo nu de Alfred se materializando em sua cabeça. “E-E se, por bom gosto você se refere a si próprio, sugiro que você pare de sonhar.”

O silêncio que se seguiu fez Arthur perceber que Francis parecia pensar em algo, ainda mais com a expressão séria que ele tinha no rosto.

“O quê?”

Francis se virou como se tivesse descoberto a roda.

“Você me disse que ele insistiu, certo?”

Arthur assentiu.

“E que ele é, como você diz, mais lindo do que moi?”

Arthur rolou os olhos.

“Você não é parâmetro, sabe.”

Oui, oui. Mas você não acha estranho?

“O quê?”

“Que um homem tão bonito, como você diz, sóbrio e jovem, ainda por cima, dê em cima de você?”

Arthur procurou o objeto mais próximo para jogar em Francis.

“Estou brincando, estou brincando!” Disse ao ver Arthur colocar as mãos no abajur. “Na verdade, me ocorreu uma ideia.”

Desconfiado, o amigo inquiriu. “Qual?”

“E se ele o escutou na rádio naquele dia e reconheceu sua voz no restaurante?” Ponderou, com um ar sonhador. “E se ele for o sujeito que se autodenominou América que te deu aquela lição de moral?”

“Você está louco? Andou assistindo muito conto de fadas? Isso é praticamente impossível! Em primeiro lugar, essa cidade é enorme e as chances de alguém que tenha ouvido aquele programa ridículo me encontrar, não, pior, reconhecer a minha voz, são pífias! Em segundo lugar, o América parecia uma pessoa sensata, muito diferente do moleque irritante que eu conheci.”

“Mas o moleque irritante conseguiu satisfazer sua libido.” Atestou com um sorriso enorme no rosto. “A voz do América era, de fato, peculiar, mas como você estava completamente embriagado naquele dia, duvido que se lembre dela.”

“Eu lembro! Uh... Mais ou menos.”

“Eu sabia.”

“Como você pode estar tão certo disso? Isso não passa de especulação.”

“De fato. Mas pense comigo: como, em um restaurante conceituado daqueles, onde grande parte do público é de casais e família, um homem chegaria exatamente em você e lhe convidaria para sair? Pressuponho que ele sabia que você estava acompanhado.”

“Cheguei a avisá-lo a respeito.”

“Então?”

“Vejo o seu ponto, mas isso não quer dizer muita coisa.”

Francis suspirou. “Então tá. Espere ele telefonar.”

“Eu não dei meu número pra ele. O que começou ontem à noite terminou hoje de manhã.”

O sorriso de Francis aumentou. “Mas e se ele telefonar?”

USUK

Quando Alfred abriu a porta do banheiro, todo o vapor acumulado começou a escapar. Ele havia perdido a noção do tempo em que passara no banho até finalmente ouvir a campainha tocar. Com uma calça de moletom, a toalha sobre os ombros e o cabelo ainda úmido, ele abriu a porta para Kiku e Feliks e lhes deu passagem para que se acomodassem na sala. Alfred ofereceu algo para beber e alguns nachos que tinha para comerem enquanto conversavam.

“O que você tem aí?” Feliks perguntou, acompanhando-o até a cozinha. “Pra beber, digo.”

“Hmmm, deixa eu ver... Uh, Coca-Cola!” Ele disse com toda a felicidade do mundo.

Feliks arqueou a sobrancelha diante das quatro garrafas na geladeira.

“Sério, Alfred? Você é movido a Coca-Cola por acaso?”

“Mas é claro!” Ele abriu um grande sorriso.

“Ah, esquece. Não tem nada do Matt aí para bebermos?”

“Ah, tem. Suco de maçã.”

“Acho que já dá.”

Não demorou muito para que Alfred servisse os amigos e se acomodasse no sofá transversal ao que Kiku e Feliks sentavam.

“Hoje tivemos uma reunião com Ludwig. Ele nos repassou novas tarefas e não parecia nem um pouco satisfeito por você não estar lá. Felizmente, ele pareceu acreditar na nossa versão de que você caiu da escada hoje de manhã e ficou desacordado no hospital.”

“Isso não foi um pouco dramático?”

“Dramático, talvez, mas ele acreditou!” Feliks falou na defensiva.

Embora Alfred soubesse que a ideia fosse de Feliks, ele preferiu não retorquir por estar distraído demais pensando no que acontecera na noite anterior. As cenas se repetiam em sua cabeça como em um filme. Ele via e revia Arthur à sua frente, com sua expressão provocativa e bochechas rosadas devido o álcool. Ele internamente agradecia por não ficar bêbado com facilidade e, portanto, ter plena capacidade de se lembrar de cada detalhe daquela noite por certo inesquecível.

Um momento de silêncio se seguiu.

“Então?” Inquiriu Kiku, tomando um gole do suco.

“Então... O quê?” Alfred pigarreou, voltando à realidade.

“Você não vai perguntar quais tarefas ele repassou?”

Alfred encarou Kiku por alguns segundos.

“Ah, sim! Ludwig, não é? Ahahahaha!!”

Kiku suspirou ao mesmo tempo em que Feliks abria um enorme sorriso sugestivo.

“Devemos mudar de tópico? Como por exemplo, você nos contar o que fez ontem à noite para não ir trabalhar hoje?”

O sorriso amarelo que Alfred tinha no rosto se desfez repentinamente.

“Uh. Não acho que eu deva.”

Feliks arqueou a sobrancelha.

“Querido, você acabou de confessar expressamente, logo, não tem saída.”

Alfred respirou fundo e afundou no sofá, olhando para o teto enquanto ainda segurava o copo de coca-cola.

“Kiku, Feliks...” Os aludidos se inclinaram para frente, na expectativa do que viria a seguir. “Eu acho... Que eu sou gay.”

Feliks imediatamente voltou a se encostar no sofá e cruzou os braços, emburrado.

“Ótimo. Agora conta uma novidade.”

“O quê? Você acha que eu ser gay não é uma novidade?” Alfred perguntou em tom genuinamente ofendido.

“Ora, por favor, Alfred, faz uns dias que você está todo gay por aquele sujeito do rádio. Aliás, pra começar, homem hétero que se preze não ouve aquele tipo de coisa.”

Kiku suprimiu uma risadinha ao ver a expressão indignada de Alfred.

“Algo me diz que isso tem a ver com o tal do Inglaterra.”

“Arthur.” Alfred disse repentinamente, ganhando olhares curiosos de Feliks e Kiku. Percebendo a atenção, ele pigarreou. “O nome dele. É Arthur.”

“Ah meu Deus! Então vocês finalmente se conheceram?”

Alfred assentiu com um sorriso atipicamente tímido e Feliks cobriu a boca com as mãos, seus olhos cintilando pela empolgação.

“Isso é tão legal! Como ele é? Ele é alto? Baixo? É ativo ou passivo? O que vocês fizeram? Arthur é um nome tão inglês! Como você sabia que era ele? Aposto que é o sotaque! O que ele faz? Ele é rico? É bonito?” Ele perguntou sem parar, sequer permitindo Alfred processar a série de indagações. E antes mesmo que uma resposta pudesse vir, Feliks tornou a falar. “Ah, droga, Toris está me ligando! Um momentinho!” Pediu, levantando-se e caminhando até a janela para atender.

Enquanto isso, Alfred e Kiku trocaram olhares, aquele praticamente pedindo para que Kiku aprovasse o que havia acabado de contar, enquanto este sacudira a cabeça e dera a entender que sua resposta viria mais tarde.

“Gente, eu vou ter que sair.” Feliks anunciou, com o celular ainda em mãos. “Err... Problemas.”

“Com o Toris?”

Feliks assentiu. “Aquele sujeito novamente, o tal do stalker bipolar dele. Se ao menos ele me dissesse quem o desgraçado é, eu super, totalmente dava uma lição nele! Mas, de qualquer jeito, eu preciso acudir o pobre Toris.”

Alfred cordialmente se levantou para acompanhar o amigo até a porta, embora ele soubesse que não era necessário. Feliks tomara para si a liberdade de bater na porta de Alfred, entrar e sair de seu apartamento se assim desejasse desde o primeiro mês que se conheceram. E Alfred de fato não se importava, pois entendia a companhia do amigo como perfeitamente agradável.

“Oh, Alfred, você super vai me contar tudo depois! Com detalhes! Tim-tim por tim-tim!”

“Ok, ok.” Sorriu. “Se precisar de nós, ligue.”

Feliks respondeu com uma piscadela e Alfred só fechou a porta do apartamento quando o amigo entrou no elevador. Ele e Kiku se olharam.

“Vou direto ao ponto, Alfred-san: vocês fizeram sexo?” O tom da voz do amigo não era neutro, como habitual. A seriedade continha um quê de chateação, que não passou despercebida por Alfred.

“Eu sabia que você ia perguntar isso!” Ele se apoiou contra a porta, suspirando profundamente. Assentiu com algum receio e só olhou nos olhos do amigo depois de alguns segundos. “Você está chateado?”

“Você sabe que não aprovo relacionamentos pautados em traição. E tendo o conhecimento sobre o comprometimento dele, levar isso adiante não foi a coisa mais heróica que você fez.” Kiku sabia muito bem quando e como colocar o dedo na ferida de Alfred. Muito embora estivesse feliz pelo amigo – que depois de sair da faculdade não se envolvera com mais ninguém – não conseguia deixar passar em branco o comportamento que desaprovava. Alfred, por sua vez, pareceu se encolher ali mesmo onde estava.

Eugostodele.

A pose repreensiva de Kiku se desfez.

“Você o quê?”

“Eu gosto dele.” Pigarreou, tentando conter o nervosismo. Aquela frase saíra por puro reflexo. Alfred, de fato, sequer tivera tempo para pensar sobre os seus sentimentos com relação ao inglês. “Eu sei que é estranho... Quer dizer... Não faz nem uma semana que eu soube que o sujeito existia, e eu só o conheci de verdade ontem. E nós transamos no primeiro encontro!” Ele riu nervoso. “Mas. Eu não sei. Eu gosto dele.”

Kiku o encarava pensativo.

“Vem cá.” Ele sinalizou. Alfred se desencostou da porta e caminhou até o amigo. Parou bem à sua frente e Kiku aproveitou a oportunidade e lhe deu um tapa na nuca.

Ouch!”

“É seu castigo.”

Alfred massageou o ponto atingido enquanto suspirou resignado.

“Estou perdoado agora?”

“Em termos.” Cruzou os braços. “Não vou lhe proibir de vê-lo, você não me ouviria mesmo. Mas seja sensato, Alfred-san.”

“É fácil falar! O que é ser sensato em uma situação como essa, afinal?”

Kiku suspirou. “Eu também gostaria de saber.”

USUK

Era quase noite quando Arthur estacionou o carro na garagem de sua casa. Já não cheirava mais a cigarro e álcool graças a um bom banho e à melhor dupla moderna: a lavadora e a secadora de roupas. Deu uma olhada rápida no carro, para garantir que nenhum vestígio da noite anterior ficara. O dia inteiro, desde que ele colocara os pés para fora daquele maldito quarto de hotel, Alfred não deixara seus pensamentos. Sentia-se estúpido, ridiculamente estúpido.

Trancou o carro, pegou a chave de casa, seu casaco e com todo o cuidado do mundo abriu a porta.

“Arthur Kirkland.” Ele ouviu a voz seca de Emily. “Onde você estava?”