Delictum Libertatis
3 Capítulo 3
– Talia, você nos chamou? – Claudia entrou no escritório da alfa, acompanhada de Deaton.
– Sim. Poderiam fechar a porta, por favor?
Claudia deu passagem para que o emissário entrasse no cômodo e fechou a porta atrás de si.
– É um assunto delicado, Claudia. – a alfa enfatizou a palavra “delicado”.
Os olhos de Claudia ficaram mais escuros e sérios e ela se virou para a porta, erguendo as mãos e murmurando algumas palavras numa linguagem que nem Talia e nem Deaton conheciam.
– Pronto, estamos selados aqui dentro e nenhuma palavra dita aqui poderá ser proferida por nós do lado de fora ou levada pelos ventos.
Talia respirou fundo, cruzando as mãos e apoiando a cabeça sobre elas. Depois de alguns instantes, ergueu os olhos para os dois a sua frente e o brilho vermelho trazia uma nota de pesar neles.
– Vou morrer, meus amigos. – ela informou.
– O quê? – Deaton e Claudia questionaram ao mesmo tempo.
– Sinto dentro de mim que minha hora está chegando.
– Você é nova, Talia. – Deaton falou – Um lobisomem com o seu sangue vive pelo menos duzentos anos.
– É justamente o meu sangue que irá me matar, meus caros. Gerard Argent vai cuidar disso.
– E você não vai fazer nada para impedir? – Claudia parecia irritada, os cabelos se agitando a suas costas como em todas as vezes que ela se via contrariada e não conseguia controlar seus poderes.
– Já tomei medidas para, ao menos, retardar o acontecimento.
– Como sabe disso, Talia? – a voz de Deaton era triste.
– Eu o vi torturar Deucalion, Deaton. Eu o vi fazendo um ritual aos pés do nemeton, oferecendo os olhos de Deucalion em troca da minha alma.
Os olhos de Claudia ficaram completamente negros nesse momento e ela teria quebrado todos os vidros da sala se Deaton não colocasse a mão sobre seu pulso para conter sua ira.
– Ele maculou um lugar sagrado, fazendo um ritual de magia negra. – ela parecia enojada – Ele destruiu nosso altar. O nemeton não serve mais para o nosso povo.
– Já mandei cortá-lo. – Talia informou – Mas o que foi feito, não pode ser desfeito.
– Deucalion permanecerá cego e a sua alma será caçada. – Deaton resumiu.
– Ele não pediu apenas a minha alma, ele pediu o sangue de todos que estiverem na Casa Hale. – ela informou – Toda minha família será destruída. A magia que ele invocou nos prenderá na casa e todos queimaremos vivos.
– Você pode se mudar.
– A casa Hale é onde a alfa se encontra. Gerard quer garantir que nenhum alfa sobreviva. – ela informou – O que aquele velho deseja é o fim do tratado de paz, para que possa caçar e escravizar as criaturas a seu bel prazer.
– Você não nos chamou até aqui apenas para se despedir. – Deaton foi direto ao ponto.
– Não. Preciso de vocês para salvarem meus filhos. – a frase saiu em tom de súplica. Ali não estava a alfa de todas as criaturas sobrenaturais, estava uma mãe, desesperada pela segurança de suas crianças – Preciso que levem meus meninos daqui o quanto antes.
– Mas Gerard não é idiota. Ele vai contar os corpos, vai saber quantos morreram e vai caçar as crianças em qualquer lugar do mundo. – Deaton apontou para o que era óbvio.
– A menos que haja corpos suficientes para contar. – Talia informou e logo deu detalhes do plano já elaborado.
A ideia era simples: transportar corpos do IML da cidade vizinha para a casa Hale e mantê-los lá para que fossem contabilizados no incêndio. Sem nenhum Hale vivo para pedir DNA, não teria como negar que aqueles corpos pertenciam a outras pessoas e não aos filhos de Talia.
– Vocês têm que pegar as crianças antes do pôr do sol da próxima sexta-feira. Depois disso, todos estaremos presos na casa. – ela informou – Já tenho alguns contatos para onde eles devem ser enviados. Infelizmente, meus meninos terão que ser separados uns dos outros para sua própria segurança.
– Quem mais vai nos ajudar? – Claudia perguntou.
– Rafael McCall. – Talia disse, pensando na coragem do detetive que almejava entrar para o FBI mas iria arriscar sua carreira e abandonar sua família pelo bem de três crianças inocentes que poderiam, um dia, acabar com a intolerância no mundo.
***
– Bom dia! – Stiles falou, abrindo a porta do quarto do hotel, carregando um saco de papelão – Espero que goste de donuts. Era a única coisa sem a aparência de ter sido feita há mais de seis meses na venda do outro lado da rodovia.
Derek estava sentado na cama, as costas encostadas na cabeceira e os olhos na TV. Apenas acenou com a cabeça e estendeu a mão para pegar o alimento oferecido.
– Ah também trouxe café, mas só comprei porque vi a balconista preparar a cafeteira. Não sei sua preferência, por isso trouxe igual ao meu: preto e com pouco açúcar.
Mais uma vez o lobisomem não falou nada e Stiles se resignou, pensando que passaria a viagem toda falando praticamente sozinho. Ele sentou-se numa cadeira perto da janela do quarto e tirou seu café da manhã, começando a comer e pensando em ligar para Lydia e saber como as coisas estavam em casa. Já fazia alguns dias que eles não tinham notícia de Scott e ele estava preocupado.
Apesar de escravo de Chris Argent, Scott sempre teve liberdade para falar com os amigos regularmente. Bem, liberdade não era exatamente a palavra. Ele tinha mesmo a proteção da filha única de Chris, Allison. A moça, que se preparava para ingressar na Academia de Polícia e depois seguir os passos do avô e da tia, havia se afeiçoado ao melhor amigo de Stiles e cuidava dele como podia.
– O que a Rachel está fazendo beijando o Joey? – a voz de Derek o assustou, soando completamente indignado, enquanto apontava para a TV, a geleia de framboesa quase pingando do donut que ele ainda segurava.
– Do que está falando? – Stiles levantou da cadeira e andou até a cama, ficando de frente para TV, percebendo que Derek assistia um episódio reprisado do seriado Friends.
– A Rachel. Ela tem que ficar com o Ross. – o lobisomem respondeu, como se estivesse pronto a defender o casal.
– Cara, eles... – mas Stiles parou de falar assim que notou as sobrancelhas de Derek arqueadas – Até onde você viu?
– Até o casamento da Mônica e do Chandler. Quando eles ainda não sabiam quem era o pai do bebê da Rachel. – as palavras saíram com um tom de saudade e amargura.
Era apenas um seriado de TV que Derek não acompanhou. Mas ao mesmo tempo, simbolizava tudo o que ele deixou de viver por causa daquela ideia estúpida que lobisomens só serviam para escravos. Tratados como escória do mundo. Stiles pensou no baile de formatura que Derek não foi, nos encontros que não teve, nas estreias de filmes aclamados pelo mundo como Senhor dos Anéis e Harry Potter. Em todas as fantasias que ele não usou no Halloween.
Ele queria sair do hotel o quanto antes, para pegar estrada e chegar logo a Beacon Hills. Mas deixou Derek terminar de assistir o episódio primeiro. Quando saíram dali, Stiles tinha algumas coisas em mente. Ele teria ainda duas semanas com Derek antes de chegarem a seu destino. E ele faria o impossível para que Derek recuperasse um pouco do tempo perdido.
Assim que passaram por uma cidade maior, Stiles decidiu passar no shopping, embora Derek parecia não estar a vontade. Ele se remexia no banco do passageiro e quando Stiles finalmente achou uma vaga no estacionamento lotado, Derek tinha as mãos fechadas bem apertadas. Um gesto que Stiles sabia se tratar de manter o controle sobre as próprias garras em momentos de estresse.
– O que foi, Derek? – ele disse em voz baixa, as palmas a mostra, como tinha aprendido com Deaton. Mostrar as palmas significava para os lupinos que você não iria lhes fazer mal.
– Muita gente. – ele praticamente rosnou – Muita gente estranha, cheiros desconhecidos e...
– E?
– E essa coleira. – ele sussurrou de um jeito irritado.
Stiles piscou, só então se lembrando da coleira colocada no lobisomem por Araya Calavera. Sem pensar duas vezes, Stiles soltou seu cinto de segurança e se aproximou de Derek com um movimento rápido, soltando a coleira.
Os olhos do lobisomem piscaram azulados e ele encarou Stiles, a poucos centímetros do seu rosto.
– Você sabe que sem a coleira eu poderia cortas sua garganta com meus dentes, não sabe?
– Sei. Você faria isso. Com qualquer um, menos comigo.
Derek podia sentir o cheiro de nervoso vindo do humano a sua frente, podia praticamente ouvir sua tremedeira, mas em momento nenhum ouviu seu coração falhar. Stiles tinha certeza do que falava e, estranhamente, Derek também acreditava na verdade contida naquelas palavras.
Ele soltou seu cinto e não disse nada, apenas abriu a porta do carro e desceu, esperando por Stiles. Os dois andaram pelo shopping com relativa calma. Stiles comprou algumas roupas para o lobisomem: calças jeans, camisetas, meias, cuecas e alguns pares de sapato. Antes de saírem da loja, ele ainda conseguiu uma jaqueta de couro.
– Não me olhe assim. – Stiles protestou, diante da expressão curiosa de Derek ao encarar a jaqueta – Você fica bem com um ar de bad boy.
Aos poucos, Derek começou a relaxar e olhar para tudo com certo deslumbramento. Demonstrava seu interesse fazendo perguntas, querendo parar para testar aparelhos e até mesmo sorrindo para alguns comentários de Stiles.
Eles pararam na praça de alimentação e cada um comeu uns 3 pedaços de pizza, além de batata frita e milk shake. Eles ainda passaram no Wal Mart para comprar algumas coisas para a viagem, quando Derek se distraiu com as opções de salgadinhos e cookies de chocolate, Stiles colocou alguns itens a mais na cesta de compras, escondidos sob as barras de kit-kat.
Quando voltaram para o carro e Derek despejou suas coisas no banco traseiro, Stiles puxou um embrulho e entregou para o lobisomem.
– Ah... Um presente? – Derek olhou aturdido para o embrulho em papel vermelho.
– Sim. Um presente. Mas não se anime, não sei se você vai gostar.
Derek engoliu em seco e começou a desembrulhar com cuidado o papel.
– Cara, você é um lobisomem. Rasgue logo esse papel. – Stiles parecia mais ansioso para ver a reação do lobisomem do que Derek para ver o que tinha no pacote.
Quando ele finalmente abriu, seus olhos se arregalaram e ele não conseguiu conter um princípio de sorriso.
– Isso é um box com os DVDs de Friends. – ele constatou – Uau, foram 10 temporadas! Isso é demais. Obrigado, Stiles!
O rapaz sentiu seu coração disparar com a simples menção do seu nome e sabia que Derek ouviu a diferença no ritmo cardíaco. Mas ele não se importou, nem quando Derek continuou olhando para seu rosto e ele sentiu as pontas das orelhas esquentarem, ficando vermelhas por conta da timidez. O brilho nos olhos de Derek valia a pena o constrangimento.
– Pegue meu laptop. – Stiles indicou a mochila atrás de seu banco – Você pode começar a assistir seus DVDs.
***
Uma semana depois e quase seis temporadas de Friends assistidas, Derek estava acordado, de madrugada, observando Stiles dormir. Um hábito que começou na noite após a ida ao shopping. O lobisomem havia acordado com os barulhos que seu novo dono fazia e ele percebeu que Stiles estava tendo um pesadelo.
O rapaz se agitava na cama, os lençóis se agarrando a suas pernas, cabelos molhados pelo suor frio que pontilhava também sua testa e pescoço. Derek conhecia a sensação de ter pesadelos constantes e acordar no dia seguinte sentindo-se miserável.
Stiles já tinha feito tanto por ele naqueles poucos dias de convivência, não faria mal fazer alguma coisa pelo rapaz. Ele se aproximou com calma e colocou a mão direita sobre a testa do mais novo, sussurrando palavras calmas e pedindo que ele se controlasse. Aos poucos Stiles parava de mexer e suspirava, cansado, triste, porém mais calmo.
Todas as noites, desde então, Derek acordava quando ele dava os primeiros sinais de estar tendo um sonho ruim. E depois que Stiles voltava a ter um sono tranquilo, Derek se permitia observar o rosto bonito do rapaz.
Ele sabia bem o que era passar noites mal dormidas por causa de sonhos ruins, lembranças desagradáveis de quando se viu forçado a sair de casa. Demorou anos para conseguir compartimentar seus sentimentos e guardar as más lembranças num canto obscuro de sua alma.
***
– Derek, querido... – a voz suave de sua mãe parecia distante, mas ele sentiu o toque em seu braço e abriu os olhos, sonolento – Vamos, meu anjo. Temos que nos apressar.
– Apressar pra quê? – ele perguntou, sentando na cama e esfregando os olhos.
– Vamos dar um passeio. Você, suas irmãs e eu.
– Não podemos esperar o sol nascer? – ele insistiu, enquanto calçava os chinelos de quarto.
– Infelizmente não. Vista uma roupa quente. Pegue sua mochila, algumas poucas coisas pessoais e venha. Peter já está acordando Laura e Cora.
Derek franziu a testa, confuso, mas fez o que sua mãe havia dito. Colocou um par de jeans, uma camiseta branca, uma camisa de flanela xadrez de verde e cinza por cima e uma jaqueta grossa de brim forrado que seu pai havia trazido de presente quando viajou para Nova York, Calçou seus tênis, pegou a mochila e colocou mais duas camisetas, duas cuecas e sua escova de dentes.
Já ia sair do quarto quando lembrou das palavras de sua mãe, dizendo para que pegasse algumas coisas pessoais. Ele voltou para o quarto e pegou seu exemplar surrado de O Morro dos Ventos Uivantes e seu boneco do Batman. Ok, ele já era um adolescente, mas aquele boneco tinha um significado especial, foi o presente que ganhou de sua avó, uma semana antes dela falecer.
Quando chegou na sala, suas irmãs também pareciam confusas e com sono. Ele parou ao lado delas e ficou olhando para sua mãe que não tirava os olhos do relógio de pêndulo que ficava no canto da sala, próximo à lareira.
– Está na hora. – ela avisou e indicou a saída.
Os cinco, Derek, Laura, Cora, Talia e Peter seguiram pela mata que ficava atrás do terreno de sua casa por quase uma hora. Foi quando chegaram a uma clareira quase as margens do rio que Derek notou que havia algumas pessoas esperando por eles.
Talia olhou para os filhos com uma expressão tão carregada de dor que Derek sentiu seus olhos se encherem de lágrimas sem nem saber do que se tratava aquela estranha reunião na madrugada.
– Queridos, eu... – ela respirou fundo e olhou para o céu estrelado antes de encarar os três jovens a sua frente novamente – Preciso que vocês sejam fortes. Dias difíceis virão para o nosso povo. Dias de escuridão, guerra e morte.
– Mãe, o que... – Laura começou a questionar, mas se calou quando Talia ergueu a mão.
– Não tenho muito tempo para explicar agora, apenas peço que confiem nessas pessoas. Todos eles têm nossa família no coração e são amigos dos lobos. Eles irão leva-los para um lugar seguro.
– Para onde vamos? – Cora perguntou.
– Nem eu sei, minha filha. – Talia foi sincera – Para garantir que fiquem realmente seguros e longe de todos que querem nosso mal, cada um irá pra um lugar diferente. E tenho fé que ficarão bem e serão fortes para se reencontrarem quando a hora chegar.
Peter estendeu para Talia uma caixa de madeira que havia trazido e a alfa tirou de lá um amuleto feito de prata.
– Este é o símbolo de nossa família. O símbolo com que cada Hale é marcado ao completar 18 anos. Mas como não estaremos juntos quando isso acontecer, eu os marcarei agora.
Os três jovens sabiam sobre a marca e tinham ciência de que o local a ser marcado era escolha deles, já que a marca ficaria como uma tatuagem.
Derek tirou as blusas que vestia e pediu para ser marcado nas costas. Laura quis a marca em sua coxa direita e Cora preferiu exibir a marca pouco abaixo do pescoço. Mas antes que Talia os marcasse, Derek viu uma mulher sair das sombras, um xale de tricô enrolado sobre os ombros. Claudia Stilinski, Derek se lembrou, a mulher do xerife.
– Um momento. – ela pediu e ergueu a mão sobre o amuleto. Uma luz violeta emanou de seus dedos e envolveu o objeto – Pronto. Eles serão marcados, mas suas marcas só se tornarão visíveis quando se reunirem novamente. Assim, ficarão mais seguros em qualquer lugar do mundo.
Talia deu um sorriso agradecido para Claudia e finalmente marcou os três filhos.
– Agora peguem suas coisas e vão. Não tentem voltar para casa, sigam suas vidas, ouçam o que puderem. Um dia, quando tudo estiver pronto, mandaremos buscar vocês três.
– O que vai estar pronto, mamãe? – a voz de Cora era carregada de incerteza.
– O mundo, pequena. O mundo vai estar pronto para nos aceitar como somos. – Talia respondeu e deu um beijo na testa de cada filho – Derek, você vai com Rafael. Cora, Deaton vai leva-la e Laura, você segue com Claudia.
Os irmãos ainda deram um último abraço de despedida e seguiram cada um para um lado. Na época, Derek queria ter avisado sua mãe sobre o cheiro que sentiu em Claudia. Um aroma levemente adocicado, mas com um toque ocre no fim. O cheiro clássico de quando as células do corpo começam a se deteriorar.
Mas ele não podia abrir a boca sem sentir a vontade de cair no choro. Então ele se calou, entrou no carro com Rafael McCall e seguiu.
Ele logo adormeceu, a cabeça encostada no vidro da janela. Mas horas depois, quando o sol já estava alto, uma dor aguda atingiu seu peito em cheio e ele acordou aos berros, sentindo como se seu lobo interior estivesse arranhando suas entranhas. Seus olhos queimavam e ardiam e quando ele viu a si mesmo no espelho, garras e presas a mostra e as pupilas completamente vermelhas, a realização se abateu sobre ele como um porrete: sua mãe, sua alfa, havia morrido.
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